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domingo, 29 de julho de 2018

Cúpula Putin-Trump, Helsinki: a ação está na reação

26/7/2018, The Saker, Unz Review The Vineyard of the Saker


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




Agora que já passou pouco mais de uma semana desde o muito aguardado encontro de cúpula Putin-Trump em Helsinki, tive tempo para ler muitas das reações e comentários que o encontro gerou. Estou chegando à conclusão paradoxal de que aquele encontro foi ao mesmo tempo um não evento e um momento histórico de vastíssima importância. Examinemos o evento propriamente dito; depois, as consequências.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Trump e o tique-taque da bomba-relógio



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




O comentário adiante foi escolhido pelo moderador HS, entre os comentários ao postado “Is President Trump A Traitor Because He Wants Peace With Rússia?” [Presidente Trump seria traidor por querer paz com a Rússia?] (16/7/2018, Paul Craig Roberts Blog). O moderador achou interessante o comentário, com bons insights sobre a conferência de imprensa de Helsinki.


Comentário de Nonlinear equation
Alô, cá da Rússia.

Estou com a sensação de que ou as pessoas não ouvem o que Putin diz, ou não compreendem o que ele diz, ou as palavras dele são deliberadamente traduzidas pela metade ou erradamente, para os EUA.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A Cruzada Geopolítica de Trump

14/7/2018, Rostislav Ishchenko, uckraina.ru, in Stalkerzone [trad. ru.-ing. Ollie Richardson e Angelina Siard, in The Vineyard of the Sakerversão aqui retraduzida]


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu



Apesar de não concordar com inúmeros pontos trazidos no 
artigo, o Blog o publica para que o leitor faça seu julgamento.




Se se aborda essa questão com sensibilidade, sem excesso de emoções, logo se vê claramente que o "imprevisível Trump" é, na verdade, mais previsível que o "previsível Obama".


Ouvimos incontáveis vezes que Trump seria o empresário que não entende de política e age com ousadia e firmeza, mas atira para todos os lados, sem sistema, e estaria destruindo a ordem ocidental existente sem nada oferecer em troca. Será mesmo?

sábado, 14 de julho de 2018

Trump, OTAN e a 'agressão russa', por Pepe Escobar

13/7/2018, Pepe Escobar, Asia Times, em The Vineyard of the Saker

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




A guerra-relâmpago [orig. blitzkrieg] que o presidente dos EUA faz na reunião de cúpula em Bruxelas, ao dizer que a OTAN é obsoleta e que os estados-membros tratem de gastar mais e se autodefender, está correta.





A histeria está no auge. Depois da cúpula da OTAN em Bruxelas, a definitiva Decadência do Ocidente é favas contadas, enquanto o presidente Trump prepara-se para se reunir com o presidente Putin em Helsinki.

O próprio Trump estipulou que conversará com Putin com portas fechadas, cara a cara, sem assessores e, em teoria, com sinceridade, depois do que a reunião preparatória entre o secretário de Estado Mike Pompeo e o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov foi cancelada. A reunião acontecerá no Palácio Presidencial em Helsinki, construção do início do século 19 e ex-residência de imperadores russos.

Como preâmbulo para Helsinki, a espetacular guerra relâmpago de Trump contra a OTAN foi espetáculo que os séculos reverenciarão; sortimento variado de "líderes" em Bruxelas nem viram o trem que os atropelou. Trump sequer se deu o trabalho de chegar com pontualidade às sessões matinais que discutiram o possível ingresso de Ucrânia e Geórgia. Diplomatas confirmaram para Asia Times que, depois da tirada certeira do "paguem, senão...", Ucrânia e Geórgia foram mandadas para fora da sala, porque a questão a ser discutida passava a ser questão estritamente interna da OTAN.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Entrevista (1ª parte): Ministro de Defesa da Rússia, General Sergei Shoigu*

11/7/2018, Il Giornale (it.)TVZvesda (ru.), The Vineyard of the Saker (ing.[1])


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu





Alessandra Benignetti, entrevistadora (AB): Sr. Ministro, tensões entre Rússia e EUA estão aumentando e gerando preocupações: estamos no limiar de uma nova Guerra Fria?


General Shoigu: Frequentemente se ouve dos EUA que a crise nas relações bilaterais teria sido provocada por ações supostamente agressivas, da Rússia, na arena internacional. Mas estamos firmemente convencidos de que as tensões nas nossas relações foram artificialmente infladas dessa vez por aquelas elites norte-americanas  que creem que o mundo divide-se em uma parte 'norte-americana' e uma parte 'errada'.

Os EUA, em anos recentes, várias vezes quebraram acordos importantes, vigentes, que formavam a espinha dorsal da segurança global. Apesar do que foi prometido à liderança soviética, durante a reunificação da Alemanha, Washington iniciou a expansão da OTAN para o leste, diretamente rumo às nossas fronteiras.

Por mais de 25 anos os norte-americanos fizeram de tudo para nos enganar, insistindo em que nada prometeram, até que recentemente, arquivos da Agência de Segurança Nacional dos EUA, cujo período de sigilo obrigatório chegou ao fim, e onde se guardavam documentos daquele período, vieram a público. E o ocidente teve de reconhecer o que dizíamos, ali confirmado, literalmente, com as pessoas identificadas claramente.

Por causa da expansão da OTAN em direção ao Oriente, e com a inclusão na OTAN de países da Europa Oriental – Polônia, Hungria, a República Tcheca, Eslováquia e Romênia, o acordo assinado em 1990 entre a Organização do Tratado de Varsóvia e a OTAN, o chamado Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa, que limitava a presença de armamento em áreas de contato entre os dois blocos, perdeu de facto todo o significado, para a Rússia.

Em 2002, sob o pretexto de um "perigo" fictício de algum ataque de mísseis iranianos ou da Coreia do Norte, Washington retirou-se unilateralmente do Tratado dos Mísseis Antimísseis, e começou a instalar radares e armas antimísseis junto às nossas fronteiras.

Eu, como presidente da Sociedade Geográfica Russa, por muito tempo pensei em presentear os colegas norte-americanos com um globo terrestre, de modo que pudéssemos olhar ao mesmo tempo para o mesmo globo, enquanto eles nos explicassem por que os 'adversários dos EUA' designados por eles, estão localizados no Oriente Médio e Leste da Ásia, ao mesmo tempo em que todas as bases militares dos EUA estão distribuídas sobre as fronteiras com a Rússia. Por quê? Será que esperam que nós os defendamos?

Os EUA estão hoje se preparando para se retirar do Tratado para Forças Nucleares de Alcance Intermediário [ing. Intermediate-Range Nuclear Forces Treaty, INF]. A razão disso seriam supostas violações dos termos do tratado, que a Rússia teria cometido.



AB: Que tipo de violações?



General Shoigu: Só se ouvem boatos e acusações sem fundamento sempre contra nós. Mas não há fatos. Só conversas e 'declarações'.



Repetidas vezes temos dito, e publicamente, em todos os grandes fóruns internacionais, que quem viola diretamente o Tratado INF são os EUA. Os EUA, não nós, implantaram um escudo de mísseis na Europa, o sistema norte-americano MK-41 de lançamento vertical, que pode ser usado para disparar mísseis cruzadores Tomahawk. O raio de destruição desses mísseis cobre quase toda a parte europeia do território russo.

Em 2007, na Conferência de Segurança de Munique, o presidente Vladimir Putin da Rússia lembrou aos líderes dos EUA e de outros países ocidentais que é dever deles respeitar os interesses nacionais da Rússia e trabalhar para construir relações iguais e abertas. Infelizmente poucos no ocidente quiseram ouvi-lo.



AB: Na sua avaliação, o que está acontecendo?



General Shoigu: A Rússia de hoje, sua recuperação, é vista não como recuperação de um aliado, mas como uma ameaça à dominação norte-americana. Estamos sendo acusados por planos agressivos contra o ocidente, quando o ocidente só cuida de implantar cada vez mais forças militares junto às nossas fronteiras.



Dentre muitos exemplos desses movimentos inamistosos, está uma decisão, tomada pela OTAN em junho, de estabelecer novos comandos responsáveis pela proteção da comunicação por mar e pelo deslocamento operacional de soldados dos EUA para a Europa. Há também aumento no contingente da OTAN nos estados do Báltico, na Romênia, Bulgária e Polônia, de 2.000 para 15 mil soldados, com possibilidade de rápido aumento para 60 mil soldados com blindados. A começar em 2020, a OTAN tem planos para manter 30 batalhões, 30 esquadrões aéreos e 30 naves de combate em estado de prontidão permanente, para atuarem em 30 dias nas fronteiras da Rússia.



Tudo isso acontece diretamente sobre as fronteiras ocidentais da Rússia. Ao mesmo tempo, os norte-americanos violam repetidas vezes a lei internacional, usando força militar em várias regiões do mundo, sob o pretexto de que estariam protegendo os próprios interesses.



Aconteceu em abril desse ano na Síria, quando, em território de estado livre e soberano, os EUA, com apoio de Grã-Bretanha e França efetuaram ataque massivo com mísseis. Ali aconteceu grave violação da lei internacional por ação de três membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU sob pretexto forjado, fictício. E não foi apenas uma vez: é uma clara tendência.



AB: Uma tendência?



General Shoigu: Sim, estamos falando da velha estratégia neocolonial que os EUA já testaram no Iraque e na Líbia. Consiste de apoiar qualquer grupo e qualquer ideologia, até as mais bárbaras, cuja atividade possa ser usada para enfraquecer governos legítimos. Depois de montar essa rede de apoio, os EUA encenam ataques nos quais dizem que teriam sido usadas armas de destruição em massa; ou organizam desastres humanitários. Nos estágios finais dessa estratégia, usam força militar para criar "caos administrável" – graças ao qual se criam condições para que as empresas transnacionais surrupiem qualquer valor que haja no país atacado e canalizá-lo para a economia norte-americana.

A Rússia, que prega cooperação igual e para mútuo benefício dos parceiros, dentro do conceito de mundo multipolar, sempre será obstáculo para que esse tipo de "estratégia" seja posta em prática.



AB: Há linhas vermelhas que não podem de modo algum ser transgredidas?



General Shoigu: Nesse sentido, nossa doutrina militar é muito clara, e a essência dela é prevenir qualquer conflito. Nossas abordagens oficiais, quanto ao uso de força militar, são muito claras e absolutamente transparentes e expostas.

Ser general de exército não me impede de crer firmemente que todas as questões podem e devem ser resolvidas sem recorrer a força militar.

Repetidas vezes convidei o comando do Pentágono para discutirmos os problemas que há no campo da segurança regional e global, inclusive a luta contra o terrorismo. Mas os norte-americanos não estão preparados para esse tipo de diálogo, embora, não tenho dúvidas, seja do mais alto interesse não só do povo na Rússia e nos EUA, mas também do povo de todo o mundo.

Nesse momento, só há um canal de comunicação entre nossos estados-maiores, que é usado em negociações, inclusive no nível dos comandantes de estado-maior, e orientado em primeiro lugar para impedir que as atividades militares de Rússia e EUA convertam-se em conflito militar entre nossas duas potências nucleares.



AB: Mas seu país está sendo acusado de levar a efeito "guerras híbridas" contra o ocidente.



General Shoigu: Na Rússia se diz que o ladrão grita 'pega o ladrão!' mais alto que os outros. A expressão "ações híbridas" aplica-se a várias formas de pressão usadas por um estado contra outro, mas sem uso aberto de força militar. Essas "guerras" existem e são conhecidas desde a antiguidade e muito ajudaram a Grã-Bretanha a derrotar o Império Otomano no começo do século passado. Quem não conhece as aventuras de Lawrence da Arábia?

Hoje, "guerras híbridas" incluem controlar a mídia, aplicar sanções econômicas, servir-se de hackers no ciberespaço, financiar e até armar agitadores locais em vários pontos do mundo e, também, treinamento e infiltração de unidades especiais e de especialistas treinados para praticar atos de terrorismo, sabotagem e para produzir eventos que desviem a atenção de um ou outro ponto, para outro.

Essa lista pode ser aumentada, mas um detalhe é o mais importante. Para a implementação bem-sucedida, hoje, de ações de guerra híbrida, é imprescindível que haja mídia global e onipresente; é preciso ter pleno controle sobre as tecnologias de informação e de telecomunicação, é preciso controlar os sistemas financeiros globais, e conhecer os métodos e meios para infiltrar agentes de forças especiais do país atacante, nos países atacados.



AB: Que outros países, além de EUA e Reino Unido têm esse tipo de capacidades?



General Shoigu: São métodos que foram testados com sucesso por Londres e Washington na invasão do Iraque em 1991, imediatamente depois do fim da "guerra fria".

É detalhe importante, porque essas tecnologias existiam quando havia a União Soviética e mundo bipolar, mas não havia, então, condições de oportunidade. E, vale lembrar, o presidente dos EUA no momento da Guerra do Golfo era ninguém menos que George H. W. Bush [pai], ex-diretor da CIA.

Desde os anos 1990s, esses métodos foram usados ativamente pelos EUA na Iugoslávia, que já não existe; na Líbia, na República da Chechênia [russa] e, mais recentemente, na Síria. Todos os sinais de "guerra híbrida" eram visíveis na Ucrânia antes da rebelião armada em fevereiro de 2014; os países europeus tiveram participação passiva naquelas "ações híbridas".

Hoje, todos fingem que esqueceram como, na véspera do golpe [em Kiev], três ministros de Relações Exteriores (de Alemanha, França e Polônia) garantiram pessoalmente ao legítimo presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych, que a crise seria resolvida por via pacífica, se ele não impusesse estado de emergência e retirasse de Kiev todas as unidades da segurança nacional. Mas imediatamente depois de cumprida essa parte do acordo, militantes nacionalistas, armados e treinados com dinheiro norte-americano e europeu, encenaram um golpe de estado. E a Europa imediatamente reconheceu os golpistas como poder legítimo.

Imediatamente depois de uma tentativa malsucedida para repetir o mesmo roteiro também na Crimeia, começaram a aparecer na mídia britânica e na mídia norte-americana acusações de que a Rússia teria sido autora de ações híbridas.



AB: É mesmo?



General Shoigu: Aconteceu apenas que nós não demos aos nossos colegas de além-mar qualquer oportunidade para repetir a receita na Crimeia. Ali, bem diferente de qualquer golpe, foi realizado um plebiscito, no qual residentes votaram livremente e – importante lembrar –, na presença de centenas de representantes da mesma mídia norte-americana, votaram a favor de a Crimeia separar-se da Ucrânia e ser reintegrada à Rússia. Muito diferente disso, depois do desmembramento da Iugoslávia por efeito da intervenção da OTAN, o Kosovo foi declarado independente sem consulta à população e imediatamente reconhecido como nação independente por Washington e pela Europa, depois de simples votação parlamentar. A independência do Kosovo foi feita sem qualquer atenção à opinião dos sérvios que viviam no Kosovo e à Constituição da Iugoslávia.




AB: A questão da Síria será central durante a reunião entre os presidentes Vladimir Putin e Donald Trump. Qual sua avaliação da estratégia dos EUA no conflito sírio?



General Shoigu: Dado que políticos e especialistas norte-americanos também pedem que o governo dos EUA esclareça sua estratégia para a Síria, vê-se que os russos não somos os únicos que não a compreendemos.

Em anos recentes, enquanto prossegue essa guerra – que é ilegal, do ponto de vista da lei internacional e também nos termos da Constituição dos EUA –, as explicações oficiais para a presença na Síria do contingente militar norte-americano mudaram várias vezes.

Gostaria de lembrar que, inicialmente, tratava-se de derrotar o ISIL; depois, de impedir que o ISIL reemergisse; agora falam da necessidade de preservar a presença militar dos EUA na Síria, para conter uma suposta influência do Irã.

Assim sendo, é muito difícil resistir à impressão de que o principal objetivo dos EUA na Síria é impedir que a situação seja estabilizada, para assim prolongar o conflito e atacar a integridade territorial do país criando enclaves junto às fronteiras da Síria, não controlados pelo governo central.

Nas áreas controladas pelos EUA durante anos, os norte-americanos treinaram militantes que, hoje, estão em combate ativo contra o Exército Árabe Sírio e continuam a receber armas e munição.

Além disso, também é importante lembrar que durante a luta da coalizão internacional comandada pelos EUA contra o ISIL, o território controlado pelos terroristas só fez aumentar. Só continuaram a existir civilização e governo secular em uns poucos bolsões: em Damasco, na província de Latakia e em parte de Deir ez-Zor.

Ao mesmo tempo, por mais que em anos recentes só falem de objetivos 'nobres' e de 'boa' vontade, os EUA não aplicaram um centavo de ajuda que realmente desse assistência a civis sírios devastados por longos anos de guerra. O mesmo se aplica à ex-capital do ISIL, Raqqa, já livre de EUA e coalizão, e onde munição e morteiros deixados para trás pela "coalizão internacional", depois de bombardeios massivos, ainda matam residentes locais. Toda a semana dúzias de pessoas ainda são mortas, inclusive crianças.

Por outro lado, não há registro de nenhum incidente que envolva civis depois das operações das tropas sírias para libertar várias regiões e localidades. O serviço de remoção de minas foi completado, as pessoas receberam comida e materiais de construção necessários para retomar a vida de tempos de paz, o mais rapidamente possível.

Se há alguma base para as ações de nossos contrapartes norte-americanos na Síria, é contraditória demais para que se possa falar de "estratégia".


AB: Outro obstáculo à estabilização da Síria é a rivalidade entre Irã e Israel…



General Shoigu: O Irã, como a Turquia, é, historicamente, um dos principais atores na região, com papel chave na estabilização da situação na República Árabe Síria.

Como você sabe, o Irã, com Rússia e Turquia, é um dos avalistas do processo de Astana que visa a construir um acordo para pôr fim ao conflito na Síria.

Quanto às tensões entre Irã e Israel ou outros países, nossa posição é que estamos comprometidos a resolver possíveis diferenças e contradições mediante o diálogo, não mediante força militar e violações da lei internacional.

O uso de força militar, por qualquer dos campos ativos na Síria, levaria inevitavelmente a uma escalada das tensões em todo o Oriente Médio. Quanto a isso, estamos comprometidos com encontrar solução pacífica e diplomática para quaisquer diferenças que haja. E esperamos que os dois campos consigam mostrar moderação.


AB: Não lhe parece que a possibilidade de Damasco receber os sistemas S-300 representa um fator adicional de risco?



General Shoigu: Gostaria de deixar registrado que o sistema S-300 é um complexo de armas exclusivamente defensivas. Não vejo como poderia ameaça a segurança nacional de alguém.

Esse sistema de mísseis antiaéreos só pode ser ameaça para veículos aéreos que ataquem. Além do mais, a decisão de fornecer esse modelo de armas ao exército de qualquer estado estrangeiro é tomada a partir de uma manifestação de interesse, um pedido adequado, que até agora não recebemos.

É portanto prematuro falar sobre esse ponto, especificamente. A pedido de alguns de nossos parceiros ocidentais, e também de Israel, há alguns anos, ainda não entregamos esses complexos de armas à Síria. Hoje, depois de a Síria ter sido agredida por EUA, Grã-Bretanha e França – agressão que mostrou a necessidade, para os sírios, de contarem com defesa aérea moderna –, estamos prontos a reconsiderar toda a questão.




AB: Da guerra na Síria, à guerra comercial. Se o nível das relações com Washington chegou ao ponto mais baixo de todos os tempos, as relações com a China fortalecem-se cada dia mais... 



General Shoigu: Claro, a tensão nas relações internacionais contribuiu para fortalecer as relações sino-russas, que são baseadas em respeito e confiança mútuos. Rússia e China mantêm relações amistosas e estratégicas de longo prazo, e a cooperação está crescendo em muitas áreas, inclusive mediante agências militares, o que atende a interesses dos dois estados. [Continua]



* Sergey Kuzhugetovich Shoigu, 62 anos, é general de Exército e desde 2012 é ministro da Defesa da Rússia. É nascido na remota República da Tuva, na Sibéria, cuja população é praticante de um xamanismo animista e do budismo tibetano – o que várias vezes gerou comentários venenosos no 'ocidente'.


Interessante, sobre Shoigu e religiões, lê-se em "Hoje aconteceu algo extraordinário" (13/5/2015, The Saker, traduzido em Redecastorphoto), em artigo sobre o Desfile da Vitória, em Moscou:



"O dia de hoje passará à memória da Rússia como celebração realmente histórica da vitória sobre a Alemanha nazista. O desfile – o mais bonito que já vi (infelizmente, só por vídeo, não pessoalmente) – foi soberbo, e pela primeira vez incluiu o Exército Chinês de Libertação Popular. Não há dúvida de que vimos ali a história, enquanto se ia escrevendo. Mas aconteceu outra coisa hoje, também absolutamente extraordinária: o Ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu, fez o sinal da Cruz (foto), antes do início das celebrações. (...) Significa que Shoigu converteu-se à religião ortodoxa russa? Não necessariamente. O budismo é muito aberto a todas as outras religiões e não vejo contradição alguma no gesto do ministro."


O fato de o primeiro alto membro do governo russo a iniciar o desfile do Dia da Vitória fazendo o sinal da Cruz e pedindo a ajuda de Deus ser budista é, em si mesmo, evento extraordinário (e cobre de vergonha os seus predecessores declarados oficialmente "ortodoxos", que nunca fizeram coisa semelhante).


Só imagino o horror, o escândalo, o desespero que o gesto de Shoigu está provocando na "inteligência" liberal russa pró-EUA e nas capitais ocidentais. Ao pôr-se, pessoalmente e toda a Rússia, nas mãos de Deus, Shoigu declarou guerra espiritual, cultural e civilizacional contra o Império. Só por isso, já entrou para a história como um dos maiores homens da Rússia." (Em "Implicações dos novos sistemas de armas da Rússia", 5/3/2018, Andrei Martyanov, Unz Review).
[1] Tradução ru.-ing. de Scott Humor, aqui retraduzida [NTs ao português].

terça-feira, 10 de julho de 2018

Perdendo a Supremacia Militar: Miopia do Planejamento Estratégico dos EUA

5/7/2018, Resenha. The Saker, in Unz Review e The Vineyard of the Saker



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


MARTYANOV, Andrei. Losing Military Supremacy: The Myopia of American Strategic Planning, [Perdendo a Supremacia Militar: a Miopia do Planejamento Estratégico nos EUA].



O fato de os EUA enfrentarem profunda crise, possivelmente a pior de sua história, já é aceito pela maioria dos observadores, exceto talvez os mais iludidos. Muitos norte-americanos sabem, sim, disso. De fato, se há alguma coisa com a qual concordam os que apoiaram Trump e os que o odeiam apaixonadamente, será que a eleição dele é prova clara de crise profunda (eu acrescentaria que a eleição de Obama, antes, também teve, como uma das principais causas, a mesmíssima crise sistêmica). 

Quando falam dessa crise, muita gente mencionará a desindustrialização, a queda na renda real, a falta de empregos bem remunerados, de serviços de saúde, o aumento no número de crimes, a imigração, a poluição, a educação e muitos outros fatores que contribuem. Mas de todos os aspectos do "sonho americano", o que resiste há mais tempo é o mito que reza que os militares norte-americanos seriam "a melhor força de combate de toda a história".

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Balcanização da América do Sul – e o papel das 5as Colunas pelo mundo

5/7/2018, Peter Koenig, para The Saker Blog


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu





Durante recente encontro em Caracas da Comissão Presidencial de Aconselhamento Econômico, em meados de junho de 2018, o presidente Maduro disse algo perturbador, mas também excepcionalmente interessante – e nos dois casos muito importante, que merece máxima atenção de toda a região. 

O presidente Maduro falou da Iugoslávia, dos conflitos locais induzidos, das rupturas e do desmembramento da Iugoslávia, que começou com a "Guerra dos Dez Dias" contra a Eslovênia em 1991; seguida pela Guerra da Croácia (1991-95); a Guerra da Bósnia (1992-95); a Guerra do Kosovo (1998-99), que culminou com os 69 dias de bombardeio pela OTAN ordenado por Clinton contra o Kosovo, e que foi comandado pelo então comandante europeu da OTAN Wesley Clark (hoje "O Arrependido" –, porque lastimar em retrospectiva é fácil), fingindo que salvava os albaneses do Kosovo que estariam sofrendo atrocidades da Sérvia de Milosevic. Como Milosevic serviu como pau mandado das forças imperiais é outra história.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Não há 5ª coluna no Kremlin?! Examine melhor.

29/6/2018, The Saker, Unz Review The Vineyard of the Saker


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




Depois de Medvedev ter sido renomeado para o mesmo posto e com ele todo seu governo, apenas levemente recauchutado, a opinião pública na Rússia e em todo o mundo dividiu-se sobre se aí haveria bom sinal de continuidade e unidade na liderança russa, ou se seria confirmação de que, sim, haveria uma 5ª coluna dentro do Kremlin que, ao mesmo tempo em que impõe ao povo russo políticas neoliberais e pró-ocidente, trabalha contra o presidente Putin. Hoje quero dar uma olhada rápida no que está acontecendo, porque creio que a política exterior russa continua controlada predominantemente pelo que chamo de "Eurasianos Soberanistas", e porque, para detectar as atividades dos "Integracionistas Atlanticistas", é preciso examinar o que está acontecendo dentro da Rússia.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

The Saker: União Europeia pode ser parceira da Rússia?

15/6/2018, The Saker, Unz Reviewin The Vineyard of the Saker



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




A renomeação para os mesmos cargos (embora um pouco modificada) do "bloco econômico" do governo Medvedev gerou muitas explicações, umas melhores que outras. Hoje quero examinar uma hipótese específica que se pode resumir nos seguintes termos: Putin decidiu contra o expurgo de um "bloco econômico" (impopular) ativo dentro do governo russo, porque queria apresentar à União Europeia (UE) "caras conhecidas" e parceiros nos quais os políticos da UE pudessem confiar. Nesse momento, ante o comportamento insano de Trump, que acintosamente afasta praticamente todos os líderes europeus, é a hora perfeita para acrescentar um empurrão russo ao "tranco" dos EUA, e ajudar a trazer a UE para mais perto da Rússia. Ao renomear "liberais" russos (eufemismo para designar os russos aderidos a OMC-Banco Mundial-FMI e assemelhados), Putin dá à Rússia ares capazes de atrair, na medida do possível, a UE.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

O "duelo das cúpulas" desse fim de semana tem algo para os livros de História, por Pepe Escobar

10/6/2018, Pepe Escobar, Asia Times, The Vineyard of the Saker


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




O inferno desabou sobre o G6+1, também chamado G7, em La Malbaie, Canadá, quando todos só pensavam na divina integração eurasiana na Organização de Cooperação de Xangai, OCX, em Qingdao, China, em Shandong, província natal de Confúcio.

O presidente Donald Trump dos EUA foi a estrela previsível do show no Canadá. Chegou atrasado. Saiu mais cedo. Faltou a um desjejum de trabalho. Discordou de tudo e de todos. Fez uma "proclamação de livre comércio", pró nenhuma barreira e nenhuma tarifa, nenhuma, em lugar algum, depois de impor tarifas ao aço e ao alumínio contra Europa e Canadá. Propôs que a Rússia voltasse ao G8 (Putin mandou dizer que tem outras prioridades). Assinou o comunicado final, em seguida retirou a própria assinatura.

domingo, 10 de junho de 2018

E Putin? Pronto para 'se livrar' do Irã? Será?

7/6/2018, The Saker, Unz ReviewThe Vineyard of the Saker



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




O tópico das ações russas na Síria continua a fascinar e a gerar muita polêmica. Faz sentido – a questão é extraordinariamente importante em muitos níveis, inclusive no nível pragmático e no nível moral, e hoje quero concentrar-me estritamente no nível pragmático, deixando de lado, por enquanto, considerações morais/éticas/espirituais. Além disso, assumirei, para facilitar o argumento, que o Kremlin age em uníssono, que não há Integracionistas Atlanticistas no governo russo, nem 5ª coluna no Kremlin nem lobby sionista a exercer grande influência na Rússia. Futuramente enfrentarei essas questões, porque não tenho nenhuma dúvida de que o tempo e o desenrolar dos eventos comprovarão o quanto essas reservas são na realidade politicamente motivadas

Mas para o objetivo dessa análise, podemos assumir que vai tudo bem no Kremlin e assumir que a Rússia é plenamente soberana e protege sem limitações os próprios interesses nacionais.

Tudo isso posto, o que sabemos sobre o que está acontecendo na Síria?

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Conexão da Síria com Irã, Afeganistão e China, por Pepe Escobar

30/5/2018, Pepe Escobar, Asia Times in The Vineyard of the Saker



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




Uma pergunta crucial ocupa hoje os políticos no Irã, Iraque, Síria e Líbano: O governo Trump tem ou não tem plano estratégico para o Oriente Médio?

Poucos estão mais preparados para responder que Saadallah Zarei, reitor do Instituto de Estudos Estratégicos Andishe Sazan-e Noor em Teerã.

Zarei, extremamente discreto, homem de fala suave, que encontrei em Mashhad há alguns dias, além de um dos principais especialistas iranianos em análise estratégica, é um dos cérebros que opera ao lado do comandante da "Força Qods" do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, general Qasem Soleimani – considerado, na Av. Beltway em Washington, a mais completa besta-fera.

Também por isso, estrategistas norte-americanos bem fariam se prestassem alguma atenção a Zarei.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Das ambiguidades da política russa

17/5/2018, The Saker, in Unz Review e The Vineyard of the Saker


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Introdução: o mundo não é Hollywood


"Talvez não seja o melhor momento para um expurgo no Kremlin, que tirasse de lá os representantes dos interesses do big business russo..." [Do artigo adiante]

– DOS TRADUTORES: Esse argumento parece repetir, quase simultaneamente, o que diz Ciro Gomes (para quem uma aliança com a Fiesp seria uma necessária "aliança com o 'produtivismo'"). Mangabeira Unger pensa e fala na mesma direção [que a esquerda não tem projeto para a produção; por exemplo, em entrevista à revista online Les Crises, Paris, (ing., legendas em fr., já traduzida ao português, no Blog do Alok)] .

Não dizemos que seja bom ou mau que eles digam, ou o que estão dizendo. Só dizemos que Lula também entendeu que tivesse de fazer essa aliança, motivo pelo qual fez a "Carta aos brasileiros". 

Se Lula e Putin tiveram de fazer essa aliança (ou creram que teriam de fazer) e foram depois reeleitos, não faz sentido – a não ser um reles sentido eleitoreiro pré-eleitoral tosco – 'declarar' que Ciro seria 'traidor', 'porque' diz a mesma coisa. E tudo isso até aqui, dito, data venia, com todo o respeito: para ver se melhoramos o nosso candidato, nossa candidatura, nosso programa e nosso argumento... (NTs)].
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As semanas recentes assistiram a grande número de eventos realmente tectônicos, que tiveram lugar simultaneamente nos EUA, na Rússia, em Israel, na Síria, no Irã e na União Europeia (UE). Acho que também é razoável dizer que a maioria dos que se opunham ao Império Anglo-sionista experimentaram emoções que foram do leve desapontamento à mais total decepção. Com certeza não ouvi ninguém comemorando, e, se houve comemorações, foram minoritárias (pouco caracteristicamente, por exemplo, Mikhail Khazin). Essas reações são normais, todos criamos expectativas que podem ser frustradas adiante, como quase sempre acontece. Mesmo assim, ainda que as notícias sejam claramente más, sempre é bom manter em mente algumas coisas.