sábado, 21 de novembro de 2015

Semana 7 da intervenção russa na Síria: aumento dramático na intensidade

20/11/2015, The Saker, Vineyard of the Saker

Ver também: Semana 1 / Semana 2 / Semana 3 / Semana 4 / Semana 5 e Semana 6 (ainda não traduzido)



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu



Essa semana foi claramente dominada por dois grandes eventos: os ataques terroristas em Paris e a declaração oficial pelos russos de que o Kogalymavia Voo 9268 foi, sim, destruído por uma bomba.

Primeiro, devo noticiar que não aconteceu como muitos previram, que russos, egípcios e outras nações envolvidas mentiriam e encobririam o ataque. Ambos, russos e egípcios foram abertos e claros sobre o ataque, desde o primeiro dia. Aqui há uma lição a extrair: por mais que alguns políticos tenham bem visivelmente perdido a capacidade para dizer a verdade, o que os limita até quando tentam dizer a verdade, outros a mantém intacta. 


Por mais que mentir seja procedimento operacional padrão de muitos (todos?) estados 'ocidentais' (nos quais o Império manda), nem todo o planeta vive rendido à mentira.



Erra quem assumir que a Rússia seria alguma espécie de "anti-EUA" e que o Kremlin teria alguma política de mentir sistematicamente e enganar a opinião pública, como a Casa Branca. Quem queira considerar a Rússia como um "anti-EUA", mesmo assim terá de reconhecer que métodos e motivos são categoricamente diferentes.

Em segundo lugar, e mesmo que pareça fortemente contraintuitivo, é inegável que Daesh fez tudo que pôde para provocar retaliação: não só declararam imediatamente a autoria da explosão do voo 9268; também reivindicaram o crédito pelos ataques em Paris e até ameaçaram que haveria mais ataques, inclusive contra os EUA. 

É atitude que pode parecer bizarra, mas Daesh parece estar fazendo de tudo para criar uma enorme coalizão multinacional para destruí-lo. É preciso ter isso em mente, sempre que considerarmos as medidas retaliatórias tomadas por Rússia, França e outros (ver adiante).

Em terceiro lugar, ainda que seja cedo demais para declarar que os recentes ataques na França tenham sido "de falsa bandeira", é lógico que, no mínimo, se considere que é provável – talvez mesmo altamente provável – que sim. Pessoalmente não gosto de conclusões apressadas e preferiria esperar que surjam mais informações. Mas a essa altura realmente já nem faz diferença que tenha sido ataque "real" ou ataque forjado para parecer o que não é, o chamado "ataque sob falsa bandeira". Por quê? Porque se o 'estado profundo' francês foi cúmplice/culpado, ou se o regime é completamente incompetente, a "ação é em reação" – quer dizer, a França está agora se envolvendo, com sua própria operação militar na Síria, e o faz em coordenação com os russos. Assim sendo, sugiro que, nesse momento, nos concentremos nesse aspecto.



Mas antes examinemos o desenvolvimento realmente importante dessa semana.





Rússia aumenta dramaticamente suas operações anti-Daesh

Apesar de vocês já encontrarem aqui a minha primeira avaliação, o crescimento dramático dos ataques contra o Daesh é suficientemente importante para que se o analise mais detalhadamente.

Primeiro, em termos puramente militares, o que os russos fizeram foi ao mesmo tempo altamente previsível (e eu mesmo vinha prevendo já há várias semanas) e altamente significativo. O pequeno contingente russo da base aérea Khmeimim em Latakia era, apesar de impressionantemente bem preparado e corajosamente heroico, simplesmente pequeno demais para realmente ferir os terroristas do Daesh

Não esqueçam que a Rússia não tem o tipo de capacidades para projeção de poder que têm os EUA, mas, apesar dessa desvantagem, os russos conseguiram criar aeroporto perfeitamente capaz de suportar operação aérea de 24 horas/dia, sete dias por semana, dia e noite, de cerca de 50 aeronaves, em tempo recorde. E fizeram tudo isso sem que o Império conseguisse qualquer informação aproveitável de inteligência sobre o que os russos estavam preparando e fazendo. Quando o Império deu-se conta do que os russos haviam feito, era tarde demais para impedir. Em termos de organização e logística, foi operação absolutamente brilhante, e o pessoal que organizou tudo com certeza merece medalha e promoção pelo que fizeram em Latakia. 

Menciono isso aqui, porque provavelmente foi simplesmente impossível transferir para lá força maior. Mesmo agora, a base aérea de Khmeimim está super saturada de voos, e o fluxo extra de aeronaves tornará ainda mais difícil uma situação já dificílima. Por isso previ que a aviação de longo alcance terá de ser trazida como medida emergencial e por pouco tempo, até que um aeroporto "Khmeimim 2" seja construído perto de Latakia ou outro(s) campo(s) de pouso torne(m)-se disponível(is) (talvez no Irã). Resumo da história: com bomba ou sem bomba, os russos não tinham escolha senão trazer para lá a aviação de longo alcance. No blog vê-se vídeo interessante, de um par de Su-30SMs fazendo a escolta de um Tu-160, durante lançamento de mísseis cruzadores.


Segundo, e é significativo, os russos claramente decidiram extrair vantagem do fato de que a aviação de longo alcance não era limitada por quaisquer dificuldades logísticas: a força que agora trouxeram é força grande e poderosa: não só outros 37 aviões juntaram-se à força russa na Síria (incluindo o formidável SU-34: aos 4 já presentes na Síria, outros 8 serão acrescentados, constituindo força total de 12), mas também 25 bombardeiros de longo alcance estão agora integralmente dedicados ao esforço russo, inclusive Tu-22M3, Tu-95MC e Tu-160. Isso, sim, é "porrete longo" [orig. "big stick"]. Mesmo os "velhos" Tu-95MC e Tu-22M3 são versões altamente modernizadas de excelentes modelos que podem despejar muita munição muito poderosa e de alta precisão sob quaisquer condições de tempo, inclusive bombas de gravidade e mísseis cruzadores estratégicos. 

Em outras palavras, a Rússia dobrou, no mínimo, suas capacidades baseadas na Síria e muito mais que dobrou, se se incluem os bombardeiros de longo curso estacionados na Rússia. De pequena força que foi no início, o contingente de força aérea russa supera várias vezes o que os franceses levarão para lá no porta-aviões Charles de Gaulle e tudo que o Império está usando até agora. Pode-se agora esperar que a logística, as comunicações e a infraestrutura do Daesh sofram forte degradação. E só para garantir que ferirão onde mais dói, os russos começaram os ataques de longo alcance com ataques às redes de processamento e distribuição de petróleo, incluindo depósitos, caminhões, estações de reabastecimento, etc. Os bombardeiros russos de longo alcance não farão grande diferença para os combatentes nas linhas de frente do Daesh, mas seus ataques contra a infraestrutura do Daesh libertarão os helicópteros e Su-25s para que, finalmente, deem apoio aéreo próximo às forças sírias (até aqui, essa tarefa está entregue quase toda à Força Aérea Síria, que não pode voar à noite). Também creio que a atual força SU-24 e SU-34 passará a receber mais missões de ataque na linha de frente, para garantir aos sírios um muito necessário poder de fogo. Resumo: os russos levaram para lá um "grande porrete" e, dessa vez, o Daesh realmente sentirá. Mas, não esqueçam: tudo isso, precisamente, era o que o Daesh desejava (ver acima).

Terceiro. O Kremlin fez excelente trabalho de "vender" esse aumento dramático no ritmo e na intensidade das operações russas na Síria. Pesquisas mostram que a maioria dos russos apoia integralmente. 

Mas contatos pessoais na Rússia têm-me dito que os russos aprovam, sim, mas que começam a sentir-se cada vez menos confortáveis. Não há dúvidas de que a Rússia sofreu agora por causa do que gosto de chamar "uma extensão de mandato" [orig. "mandate creep"]: de apoio que dava longe de casa aos sírios e da luta contra os doidos Takfiri, a Rússia agora está agora prometendo cobra alto preço pelo assassinato de seus próprios cidadãos

Putin deixou isso absolutamente claro quando disse que forças militares e dos serviços especiais seriam usadas para caçar os que perpetraram essa atrocidade. Putin disse:

"Encontraremos e puniremos esses criminosos. Faremos isso, sem prazo para concluir a missão. Descobriremos todos os nomes, de todos. Caçaremos cada um e todos onde estejam, não importa onde se escondam. Encontraremos todos em qualquer local do planeta e os castigaremos (…)."
Até acrescentou um aviso ao estilo de "Dábliu", de que todos que apoiem ou protejam os criminosos serão integralmente responsabilizados pelas consequências de seus atos.

"Todos que tentem ajudar esses criminosos têm de saber desde já que as consequências dessa proteção recairá inteiramente sobre eles."
Tenham em mente que a última vez que Putin lançou esse tipo de aviso foi em 1999, quando prometeu que a Rússia caçaria os terroristas wahhabistas chechenos por todos os cantos "até nos banheiros", e mataria todos, até o último. Dessa vez, Putin usou uma palavra de gíria, muito expressiva, ru. "мочить" que pode ser traduzida por aproximação como (ing.) "off them off" (ou, mesmo como "f**king blast them"; em português algo como "acabar com eles" [NTs]). 


O que poucos recordam é que os russos, daquela vez, fizeram precisamente o que disseram que fariam: mataram todos os líderes Takfiri insurgentes dentre os quais Baraev, Dudaev, Maskhadov, Iandarbiev, Hattab, Raduev, Basaev e muitos outros. Algumas dessas execuções não deram muito certo (Iandarbiev), outras foram soberbas (Dudaev, Hattab). Mas Putin pegou todos, absolutamente todos. Todos. Agora, Putin repetiu exatamente a mesma ameaça, embora em termos mais diplomáticos. 



Por tudo isso, mesmo que a maioria dos russos concordem com Putin, e mesmo que saibam que Putin não faz ameaças vazias, eles também veem que uma operação militar pequena e local transformou-se em caçada potencialmente mundial de terroristas. Considerando o quanto os EUA deram-se terrivelmente mal em empreitada à primeira vista idêntica depois do 9/11, há muitas e fortes razões para se preocupar. 

Mas eu imediatamente acrescentaria que a maioria dos russos sabe que Putin e Dábliu jogam em ligas diferentes e que os EUA parecem ser cronicamente incapazes de fazer bem seja o que for, mas "a Rússia não inicia guerras: ela termina guerras" (como se diz na Rússia). 

Resumo: acredito que os russos não repetirão os erros cometidos por neoconservadores norte-americanos ensandecidos sem-noção; e já está em andamento a caçada de morte aos líderes do Daesh.

Quarto. Há uma dimensão política inquietante nisso tudo, sobre a qual, francamente, sinto-me muito inseguro. Todos sabem na Rússia que o Qatar é o principal patrocinador do terrorismo na Síria e no Egito. Como o Kremlin acomodará essa informação e a promessa que Putin fez publicamente de punir todos os culpados pelo assassinato de 224 cidadãos russos – é o que todos querem saber. Dado que o Qatar é de fato uma base norte-americana gigante, não há meio de a Rússia atacar o Qatar sem atingir também o CENTCOM. Via alternativa seria os russos caçar e matar só específicos funcionários qataris envolvidos diretamente, em vários "acidentes". 

O que é certo é que o serviço exterior de inteligência da Rússia (ru. SVR) tem equipes perfeitamente capacitadas para essas ações (Zaslon, Vympel), como também o Diretorado Superior de Inteligência do Exército Russo [ing. Main Intelligence Directorate of the General StaffGRU] – que tem equipes de Spetsnaz GRU e forças SSO capacitadas para esse tipo de operações. Para garantir melhor negabilidade (assumindo-se que interesse), os russos podem também usar suas conexões profundas dentro da máfia russa (onde há muitos ex-agentes dos serviços secretos, especialmente nos níveis intermediários) e "subcontratar" a operação. Escolha o Kremlin a via que escolher, eu nunca mais dormiria, se fosse funcionário ou agente do governo do Qatar e estivesse envolvido naquela atrocidade.[1] Resumo: Putin fez publicamente uma promessa na qual comprometeu a própria honra pessoal, de pegar cada um e todos os bandidos responsáveis pela explosão do avião sobre o Sinai, que matou 224 cidadãos russos, não importa o que custe ou onde se escondam, e creio fortemente que, sim, ele fará exatamente o que prometeu.

Quinto. Há outras nações, além do Qatar, que também patrocinam muito fortemente os terroristas do Daesh. Dentre eles a Turquia (e, por extensão, a OTAN), a Arábia Saudita e até a Ucrânia (ver aqui e aqui). Potencialmente, todos eles podem tornar-se alvos da retaliação russa (assuma a forma que assumir). 

E, por fim, há todas as instituições financeiras ocidentais que estão garantindo serviços cruciais ao Daesh, inclusive as várias empresas e instituições envolvidas na exportação do petróleo que sai do território controlado pelos terroristas e na importação de armamento moderno (principalmente armas fabricadas nos EUA) para o território controlado pelos terroristas. A lista é longa. O fato de os russos terem agora ameaçado abertamente uma longa lista de entidades poderosas é com certeza uma ampliação dramática no escopo do envolvimento dos russos nessa guerra.

Sexto. Como em qualquer escalada, as apostas e os riscos para a Rússia aumentaram também e muito. O prazo, que era de "cerca de três meses" passa agora, oficialmente, para "pelo tempo que for necessário"; as dimensões e a natureza da força engajada é tal que engaja todo o prestígio político da Rússia e tudo isso converte a Rússia em alvo direto da retaliação pelo Daesh, tanto dentro como fora da Rússia. Agora que Putin declarou oficialmente que os serviços especiais russos receberam a missão de eliminar todos que participaram da ação de explodir o avião russo, o uso de alguma espécie de "coturnos em solo", mesmo que sejam "coturnos especiais", torna-se muito mais provável. 

Para quem como eu sempre foi muito relutante sobre usar força militar, é muito preocupante ver o quão rapidamente a Rússia está sendo puxada para dentro da guerra na Síria e sem estratégia de saída (nenhuma, pelo menos, que eu consiga perceber), pelo menos por enquanto e para futuro próximo. Eu pessoalmente não creio que os russos enviarão soldados de solo, mas não posso dizer que tenho absoluta certeza de que não acontecerá. De fato, eventos imprevisíveis podem, sim, obrigar os russos a enviar soldados de solo.

Os ataques em Paris

Trágicos e horríveis que os ataques tenham sido, a primeira coisa que me vem à cabeça é a diferença obscena entre o modo como a imprensa-empresa e o público ocidental zumbificado trataram 129 (número provisório) mortos franceses e o modo como trataram 224 mortos russos. 

Assim como antes houve aquela abominação de "Sou Charlie", agora há o funeral festivo (planetário) de "Sou Paris". Não me lembro de nenhum funeral festivo com "Sou Rússia" ou "Sou Donbass". O "Sou Aleppo" ou, mesmo, "Sou Iraque". 

Aparentemente, vidas russas ou árabes valem muito menos que vidas norte-americanas ou francesas (mesmo que, no Iraque, a contagem de cadáveres já tenha passado de um milhão!). É repugnante, não merece qualquer respeito é horrorosamente desonesto e terminalmente estúpido. Não há "homenagem" a vítima alguma, só uma variedade de estufa da histeria induzida pela mídia-empresa

O 'ocidente' deveria envergonhar-se de tamanha falta da mais simples coragem e da mais elementar maturidade. Será que estão realmente convencidos de que podem brincar desses "joguinhos terroristas" e não saírem feridos eles também (seja ataque de terrorismo 'falso' ou de terrorismo 'legítimo')?! Fato é que Putin alertou o ocidente contra precisamente esse perigo, quando disse:

Não posso me impedir de perguntar aos que causaram essa situação: Os senhores dão-se conta do que fizeram? Mas temo que ninguém responderá minha pergunta. Na verdade, nunca foram abandonadas as sempre mesmas políticas baseadas na arrogância, na cega confiança na própria excepcionalidade e 'correspondente' total impunidade. Já é agora óbvio que o vácuo de poder criado em alguns países do Oriente Médio e Norte da África levou à emergência de áreas de anarquia. As quais, imediatamente, passaram a encher-se de extremistas e terroristas. Dezenas de milhares de militantes combatem hoje sob os estandartes do chamado Estado Islâmico. Naquelas fileiras há ex-soldados iraquianos desmobilizados e jogados à rua depois da invasão do Iraque em 2003. Muitos dos recrutados também vêm da Líbia - país onde o próprio Estado foi destruído, na sequência de grosseira violação da Resolução n. 1.973 do Conselho de Segurança da ONU. E agora as fileiras dos radicais são inchadas por membros de uma chamada "oposição síria moderada", sustentada, mantida, por países ocidentais. Primeiro, os radicais são armados e treinados; imediatamente depois, desertam e unem-se ao Estado Islâmico. 
Mas o próprio Estado Islâmico, ele tampouco surgiu do nada, de lugar algum. O Estado Islâmico foi forjado inicialmente como ferramenta a empregar contra regimes seculares indesejáveis. Em seguida, depois de ter estabelecido uma base no Iraque e na Síria, o Estado Islâmico pôs-se a se expandir ativamente para outras regiões. Agora busca dominar o mundo islâmico. E tem planos para avançar ainda além disso. A situação é mais do que perigosa. 

Nessas circunstâncias, é atitude hipócrita e irresponsável pôr-se a fazer 'declarações' sobre a ameaça do terrorismo internacional, ao mesmo tempo em que os mesmos 'declarantes' fingem que não veem os canais por onde caminha o dinheiro que financia e mantém terroristas, inclusive o tráfico de drogas e o comércio ilícito de petróleo e de armas. Também é igualmente irresponsável tentar 'manobrar' grupos extremistas e pô-los a seu próprio serviço para que 'colaborem' na busca de objetivos políticos só dos supostos 'manobradores', na esperança de "negociar com eles" ou, dito de outro modo, sob a certeza de que, "depois", poderão matá-los facilmente. 

Aos que têm procedido assim, gostaria de dizer: "Caros senhores, não duvidem: os senhores estão lidando com gente dura e cruel, mas não são pessoas 'primitivas' ou 'atrasadas'. São exata e precisamente tão espertos quanto os senhores. Na relação com eles, ninguém jamais saberá quem manipula quem. Perfeita prova disso está nos dados recentes sobre destino final do armamento doado àquela oposição suposta "moderada". 

Os russos acreditamos que qualquer tentativa de 'jogar' ou 'brincar' com terroristas - e de armar terroristas, então, nem fala! - não é só comportamento de pessoas sem visão, mas é criar pontos de alto risco de fogo, do tipo que iniciam grandes incêndios. É comportamento que pode resultar em aumento dramático na ameaça terrorista, e que se alastre para outras regiões - dado, especialmente, que o Estado Islâmico reúne em seus campos de treinamento militantes de muitos países, inclusive de países europeus. 
Infelizmente, a Rússia não é exceção. Nós não podemos deixar que esses criminosos que já provaram o cheiro de sangue voltem aos seus países, para continuar suas práticas assassinas. Ninguém quer que tais coisas aconteçam, suponho."

Palavras proféticas, de Putin, sem dúvida. Mas dado que os anglo-sionistas têm longa e "distinta" tradição de usar esquadrões da morte, ditaduras pervertidas e, claro, terroristas, as palavras de Putin foram ignoradas. 

Inacreditável mas, mesmo depois que Paris foi atacada, o ocidente continua a apoiar os nazistas da Ucrânia! Suponho que os nazistas tenham de cometer alguma atrocidade em Londres, Varsóvia ou Munique para despertar o zumbificado público ocidental em geral, para a simples realidade de que patrocinar e usar terroristas é sempre muito perigosa. No mínimo, o ocidente permanecerá preso num ciclo infinito de patrocinar terroristas e exibir-se nas televisões em funerais festivos.



[Comentário lateral: Sou sempre criticado por escrever que a Rússia não é, nunca foi e jamais será parte do ocidente. Quem acredite que estou errado, faça a si própria uma pergunta bem simples: por que vítimas russas de atrocidades (inclusive de atrocidades patrocinadas pelo ocidente!) são tratadas como negros ou mulatos, não como os putativamente "civilizados" brancos? Aí está. CQD.]


Ah, mas como eu queria que mais pessoas no ocidente compreendessem o idioma russo e pudessem ler jornais russos e assistir a televisões russas, ouvir os programas de discussão entre especialistas que a televisão russa exibe ou assistir a conferências de especialistas russos! Só assim veriam algo que estão condicionados a considerar impossível: longe de temer o ocidente, a maioria dos russos o veem desmoralizado, enfraquecido, consumido pelo consumismo mais estreito, sem qualquer valor legitimamente moral ou ético, impressionantemente ignorante e provinciano e acometido de infantilismo terminal. Agora, até a pequena minoria dos russos pró-ocidente já desistiu de defender o ocidente. No máximo reagem contra o tsunami sempre presente de argumentos anti-ocidente com coisas como "e nós? Não somos igualmente péssimos?" ou, mesmo, "não precisávamos ter decido ao nível degradado deles". 

É muito interessante ver isso acontecer num país que, há 20, 30 anos, costumava quase idolatrar qualquer coisa que fosse ou parecesse ocidental!! Devo acrescentar que, se o país mais desprezado e ridicularizado é ainda, claro, a Polônia, a França não fica atrás na lista dos países europeus "mais patéticos". Quanto aos EUA, é o adversário menos desprezado, simplesmente porque muitos russos respeitam os EUA por defenderem o que os americanos consideram seu interesse nacional e por tratarem a Europa serventia deles. Os russos sempre dizem que, se quiserem que alguma coisa seja feita, é preciso falar com os EUA e perder tempo com a colônia europeia deles.

Se se examina além desse show vergonhoso de autopiedade narcísica, a verdadeira questão é o que a França realmente fará. Aqui, mais uma vez, há outras dimensões:

Primeiro, em termos puramente militares, a França agora mobilizou o Charles de Gaulle com suas fileiras de Rafales para atacar o Daesh. Bom, mas comparado ao que os russos estão mobilizando para a luta, é contingente irrelevante.

Segundo, em termos puramente políticos, os franceses podem fazer algo muito interessante: aparentemente eles acertaram com os russos que as forças russas na Síria darão "cobertura" aos franceses. Não entendo exatamente por que um Rafale precisaria de "cobertura" –, mas o que interessa aqui é que os franceses entraram de-facto numa aliança com a Rússia na questão síria e isso, por sua vez, pode abrir o caminho para outros países ocidentais. Em outras palavras, talvez (finalmente!) vejamos uma aliança multinacional liderada pelos russos assumir a luta contra o Daesh. E isso, por sua vez, significa que esses países se verão aliados de-facto com Damasco. 

Se o norte da Europa caminha acorrentado ao Tio Sam, talvez países mais ao sul da Europa (Itália? Grécia?) decidam ajudar os russos, como talvez o Egito ou a Jordânia. Não tenho certeza de que essa coalizão venha a acontecer, mas agora ela pode acontecer, pelo menos, e isso, por si só, é desenvolvimento interessante. Isso posto, Hollande tem encontro com Obama nos EUA e muito provavelmente ouvirá, sem meias palavras, que está proibido de "brincar de aliado" com a Rússia. Considerando o quão abjetamente subserviente aos EUA Hollande tem sido, não estou muito otimista quanto a a França unir forças significativamente com a Rússia.

Terceiro, não há dúvida alguma em minha mente, mas alguns discordam, que o regime sionista que governa a França está fazendo o máximo uso possível de todos esses eventos para promover a máxima histeria antimuçulmanos possível na França. E nem estou falando da estupidez de insistir em servir refeição não halal com vinho a líder iraniano, que acontece de ser também um clérigo, ou da já "velha" violência de proibir o hijab nas escolas francesas. Estou falando é da ideia já abertamente declarada segundo a qual o Islã tradicional seria incompatível com a República Francesa secular[2] e que, portanto, representaria um perigo para a sociedade. A forma complementar aí é que a única forma "boa" do Islã é o mais abjeto colaboracionismo com o regime sionista, cujo exemplo é o sempre infame Hassen Chalghoumi, Imã da mesquita em Drancy. 

A mensagem é clara: "muçulmano bom" só se for muçulmano sionista. Todos os demais muçulmanos são terroristas potenciais ou atuais e têm de ser tratados como tais. Assim, por sua vez, fica muito facilitado o trabalho dos recrutadores Takfiris sempre à procura de mais voluntários para suas operações terroristas; e isso, por sua vez, abre o caminho para que o governo francês consiga aprovar leis cada vez mais draconianas, inclusive leis contra a livre manifestação do pensamento ou a liberdade na Internet. 

Em futuro próximo, ser muçulmano verdadeiro e praticante na França se tornará muito, muito difícil. Com certeza já me parece que os alertas do Sheikh Imran Hosein estão-se concretizando.

O desconhecido "ponto de quebra" do Daesh

Depois de seis semanas de luta muito dura, a Rússia trouxe seu grande porrete, mas os que esperavam que o Daesh colapsasse sob as operações aéreas russas ainda não devem festejar. Quebrar o Daesh exigirá provavelmente esforço muito maior. Mas permitam que explique por que estou dizendo "provavelmente".

Pela primeira vez em muitas semanas e meses o Daesh está realmente em situação difícil, não desesperada, mas difícil. A menos que alguma coisa mude na atual dinâmica, o tempo agora começa a correr contra o Daesh. Mesmo assim, a resiliência do Daesh nas atuais condições é quase impossível de prever, pelo menos, sem alguma informação muito boa das linhas de frente e isso é algo que a maioria dos analistas, inclusive eu, não temos. 

Quando uma força é posta sob pressão, como o Daesh foi posto, há em algum momento futuro um ponto de quebra, o ponto no qual a força colapsa realmente depressa. O problema é que é extremamente difícil estimar a que distância no tempo pode estar esse ponto (totalmente teórico) de quebra, por que ele realmente depende da moral e da determinação dos combatentes do Daesh em campo. Tudo que podemos dizer nesse ponto é que esse ponto de quebra existe num futuro teórico, e que esperamos que seja alcançado em breve. Mas nós também temos de estar conscientes de que pode não ser o caso. Não só isso, mas nós temos de examinar detidamente a questão que é a mais intrigante de todas: por que o Daesh pôs-se deliberadamente nessa posição. Aqui ofereço algumas hipóteses que me ocorreram:

1) Os líderes do Daesh são lunáticos completamente doidos. Têm tanta pressa para chegar ao paraíso que tudo o que desejam é morrer em combate contra os infiéis. Ou, então, estão tão iludidos quanto ao próprio poder que acham que podem tomar todo o planeta e prevalecer. Embora eu não possa descartar completamente essa hipótese, acho altamente improvável, porque ainda que o soldado raso Takfiri seja ovelha de rebanho, os comandantes de nível médio e superior são visivelmente sofisticados e bem educados.

2) O Daesh perdeu a utilidade que teve para o Império Anglo-sionista e agora está sendo mandado para batalha que não pode vencer, mas que matará milhares de sociopatas comedores de fígado humano, que perderam a serventia. É possível. Não sei onde encontrar alguma prova que dê sustentação a essa hipótese, mas, pelo menos é hipótese que, para mim, faz sentido.

3) O real objetivo do Daesh sempre foi o mesmo: infligir tal dano a todo o Oriente Médio que, na comparação, a ocupação israelense aparecerá como uma libertação para os poucos "felizardos" que sobrevivam aos horrores medievais praticados pelo Daesh, diariamente, em todos os territórios que controla. Assim, quanto maior e mais sangrenta a luta, melhor para os israelenses, que tomaram um estado relativamente forte controlado por líderes Baathistas relativamente fortes – Assad pai e filho – o qual está agora reduzido a um monte de ruínas fumegantes. O problema com essa teoria é que, a menos que alguma coisa aconteça, o Daesh não vencerá, mas perderá; e Assad não sairá da luta mais fraco, mas muito mais forte. E nem menciono o fato de que a Síria tem agora força militar pequena mais muito experiente e capaz, e o suposto "invencível" Tsahal só conhece, em matéria de experiência, a experiência de matar civis desarmados. Assim, se houve um plano israelense para preparar alguma futura "Grande Israel", esse plano fracassou miseravelmente.

Francamente, nenhuma das hipóteses acima me parece realmente convincente, o que me deixa nervoso. A questão que sempre atormenta todos os analistas é "o que é que não estou vendo? e, nesse caso também me atormenta. Honestamente, não posso imaginar que os líderes do Daesh acreditariam sinceramente que podem vencer esse tipo de "guerra contra todos" que parecem decididos a lutar. Espero que alguém com mais conhecimento e melhor compreensão do Daesh, fluente em árabe e bem versado na literatura Takfiri nos ofereça resposta para essa pergunta aparentemente simples: o que o Daesh realmente deseja? Admito sem qualquer pejo, que não tenho nenhuma ideia. O que muito me preocupa.

A Resistência e suas opções 

Já decorridas sete semanas da intervenção russa, a Resistência ao Império está indo bem e ainda tem potencial para intensificar sua luta. Primeiro e acima de tudo, o mais necessário nesse momento são mais combatentes em campo. 

Ainda acredito que os russos vão prover soldados de campo à Síria. Meu palpite é que o Hezbollah está bem perto do esgotamento. A menos que eu esteja deixando passar alguma coisa, isso significa que o único lado capaz de oferecer mais combatentes em campo é o Irã. Nesse momento, a linha que se conhece de Moscou é que um dos objetivos da intervenção russa é dar aos sírios tempo suficiente para reorganizar e pôr em campo força muito maior do que até agora. É possível. Espero que possam fazer isso logo, para poder usar plenamente o momentum criado pela intervenção russa.

Quanto aos russos, estão também próximos do esgotamento. Em termos de força aérea, poderiam ter alocado mais aeronaves, mas não o fizeram simplesmente porque sabem que quase nenhuma força aérea pode fazer em intervenção em guerra civil. Mesmo assim dessa vez os russos "estão falando sério": 

Segundo os números mais recentes, os últimos ataques russos foram formidáveis: dez navios do Mar Cáspio e do Mediterrâneo coordenaram ataques com mísseis cruzadores estratégicos contra alvos do Daesh. 18 mísseis cruzadores foram disparados só de quatro navios da flotilha do Mar Cáspio.


Segundo números oficiais, em apenas quatro dias, a força aérea russa cumpriu 522 missões, disparou mais de 100 mísseis cruzadores e 1.400 toneladas de bombas de vários tipos. Só um míssil contra Deir ez-Zor matou mais de 600 militantes. Não há dúvidas de que o Daesh está tomando uma surra formidável (os diz-que ataques aéreos da diz-que coalizão liderada pelos EUA provavelmente deram ao Daesh uma falsa sensação de segurança, fazendo-os supor que aquilo seria o máximo que uma superpotência realmente decidida pode(ria) *realmente* fazer, quando decide fazer).

Estou bastante certo de que a Rússia pode manter esse passo de operações por longo tempo: apesar de os estoques dos novos "Kalibr-NK" estarem sabidamente baixos, a Rússia está agora usando muito de seu imenso arsenal da Guerra Fria, onde sempre houve grandes estoques de mísseis cruzadores e de bombas de gravidade. 

A Rússia ficará sem alvos, muito antes de ficar sem armas estratégicas. Não é piada, por falar nisso: não faz sentido algum disparar mísseis cruzadores de vários milhões de rublos contra alvos secundários, não lucrativos ou mesmo apenas táticos. A situação é melhor com bombas de gravidade relativamente mais baratas, mas o maior problema nesse caso é que os alvos Daesh acabarão divididos em dois grupos: os destruídos e os escondidos. Nesse ponto, a intervenção russa não se tornará apenas inútil, mas chegará a um ponto de ganhos marginais cessantes, tanto em sentido financeiro quanto em sentido estratégico. Aconteceu aos EUA e à OTAN no Kosovo, e aconteceu a Israel no Líbano. Claro, os anglo-sionistas mudaram então o seu foco de atenção para o que chamam de destruição de alvos na "infraestrutura e na estrutura de apoio" – o que não passa de projeto para ataques terroristas contra a população civil. 

A Rússia não se engajará nesse tipo de política sistemática de crimes de guerra. Assim sendo, a opção de bombardear Raqqa até o Juízo Final não é coisa que veremos os russos fazerem (os EUA, sim, provavelmente farão isso). Assim sendo, só resta o componente naval da força tarefa russa.

A principal tarefa da força naval russa tem sido proteger a logística dos russos e prover defesas aéreas para a recém construída base aérea em Latakia. Aparentemente – e apesar de os russos terem negado – há S-400s em Khmeimim; mas se não houver, podemos assumir que os S-300s, sim, lá estão. Assim sendo, a tarefa de defesa aérea da força tarefa naval russa está sendo agora substituída por um papel de apoio ao esforço logístico russo que espero que não só continue mas, também, que aumente bastante. É onde os russos podem fazer mais bem e onde não estão esgotados: ajudar os sírios a se reequipar, reunir, reorganizar, retreinar e *por fim* dar-lhes equipamento relativamente moderno (no mínimo equivalente ao que o Daesh tem). Meu palpite é que, depois de quatro anos de guerra, os sírios precisam literalmente *de tudo*, e é aí que os russos podem desempenhar papel crucial.

A força tarefa naval russa atualmente alocada na Síria está longe de ser trivial (veja você mesmo/a nessa imagem de South Front: 


para imagem maior, de alta definição, clique aqui). 

Não é, de modo algum, força pequena. Mesmo assim houve algumas especulações de que o porta-aviões russo Almirante Kuznetsov poderia juntar-se à força tarefa naval ao largo da costa da Síria. Acho bem improvável. Diferente dos porta-aviões dos EUA, o Almirante foi projetado desde o primeiro desenho para ser primariamente plataforma contra ataques aéreos (basicamente para proteger os ninhos de submarinos russos), não para atacar alvos em terra. Atualmente os russos estão reconsiderando esse papel, mas por enquanto o Kuznetsov tem muito limitadas capacidades para atacar alvos em terra. Claro: se for necessário, o Kuznetsov pode ser usado para reforçar capacidades de defesa aérea da Síria ou do contingente russo na Síria, mas nenhuma dessas ações afetarão diretamente o Daesh

Mesmo assim, eu tampouco descartaria o Kuznetsov: segundo relatórios recentes o porta-aviões será mandado para área de patrulha ao largo da Península Kola, mas ainda não há confirmação final.

Em termos de apoio a ataque direto, uma opção possível para a Rússia seria usar mísseis cruzadores instalados e submarinos, mas com 25 bombardeiros estratégicos de longo alcance já alocados para essa tarefa, aquela possibilidade tampouco mudaria o jogo. Meu palpite é que os russos agora estão o mais fortemente comprometidos que é possível para eles. A única coisa que podem fazer agora seria aumentar o fluxo de armas modernas para a Síria e prover os necessários instrutores para dar treinamento técnico aos sírios. 

Em minha opinião, junto com campanha política enérgica para forçar o ocidente a aceitar os fatos em campo, é a mais provável estratégia russa para o futuro: continuar a bater no Daesh, enquanto prossegue a reconstrução das forças militares sírias e o "engajamento" dos "parceiros" ocidentais da Rússia".

Francamente: concluo dizendo que essa estratégia russa me parece tão militarmente sólida quanto moralmente correta. A Rússia não pode vencer essa guerra "para" os sírios. A melhor coisa que os russos podem fazer é garantir ajuda significativa; e isso a Rússia já está fazendo em grande escala.

Com o Hezbollah já operando provavelmente no teto, ou acima, de sua capacidade, a grande incógnita é o Irã: será que os iranianos se atreverão a levar contingente muito maior de forças de campo, para aliviar a pressão que pesa sobre os sírios? Espero que não seja preciso – porque significaria que os sírios conseguiram sair-se bem sem aquela ajuda; mesmo assim ainda considero muito provável um avanço [orig. surge] iraniano.

Quanto aos sírios, Assad acaba de declarar que não deixará o governo antes de o Daesh ser derrotado. Em outras palavras, o presidente Assad virou a mesa sobre o colo do ocidente: declarou que "o Daesh tem de sair" (o que significa que os terroristas têm de ser eliminados). A eliminação do Daesh é portanto condição que o presidente Assad está impondo para deixar o governo. Só o tempo dirá se há aí desmedido excesso de confiança, ou confiança legítima, realista.


E quanto à tal "nação indispensável"?:



Sei que falar mal dos EUA é exercício sempre popular, mas, apesar de toda a minha hostilidade contra o Império Anglo-sionista, tenho também de admitir que os EUA estão em posição muito ruim e muito complicada: os norte-americanos criaram um pântano sangrento (literalmente), depois se meteram eles mesmos num corner político, e todos os seus ditos 'aliados regionais' são, creio eu, inerentemente desleais e só visam, cada um, ao respectivo próprio interesse. 


Se se consideram as relações entre EUA, de um lado, e países como Turquia, Qatar, Arábia Saudita ou Israel, de outro lado, é realmente muito difícil estabelecer quem manipula quem e se se trata de cachorro abanando o rabo ou de rabo abanando o cachorro. 

O Qatar, por exemplo: não há dúvida de que a presença do CENTCOM no Qatar deu aos Qatari um forte senso de impunidade o qual por sua vez, fez engordar a arrogância e, sejamos francos, a irresponsabilidade. Os qataris queriam Assad "fora", para poderem levar seu próprio gás até o Mediterrâneo; agora já estão diretamente envolvidos na derrubada de um avião civil russo.

Quanto àquele tão sonhado gasoduto, podem esquecer dele por, no mínimo, uma década. Que movimento esperto foi esse?! E, ainda mais relevante: é o Qatar um bom aliado dos EUA? 

E quanto à Turquia, que apoia ativamente, financia, equipa e treina terroristas do Daesh (e a al-Qaeda – grande diferença!) sob a conveniente proteção da OTAN. Aparentemente, os turcos não conseguem decidir que é pior: Assad ou os curdos; e dado que temem todos eles, acabaram na cama com sociopatas comedores de fígado humano. A Turquia pode(ria) ser boa aliada dos EUA? 

E nem quero entrar na questão israelense. Todos sabemos que o AIPAC governa o Congresso dos EUA e os neoconservadores tentam governar a Casa Branca. Nada disso contudo assegura algum grande amor ou qualquer lealdade dos israelenses, que vivem de olho na "opção russa" (parceria com a Rússia) para conseguir que as coisas aconteçam no Oriente Médio. 

Além disso, dado que prossegue o genocídio em câmera lenta dos palestinos pelos sion-doidos [orig. Ziocrazies] atualmente no poder em Israel, ser aliado dos israelenses implica ser odiado pelo resto do mundo. Mesmo assim, pelo menos, e diferente nisso dos demais "aliados regionais" dos EUA, o regime israelense é, ele mesmo, estável, bastante previsível e capaz de gerar e disparar quantidades descomunais de violência. Para os EUA, e comparados aos sauditas, os israelenses parecem muitíssimo atraentes. 

Seja como for, e feitas as contas, os EUA têm de tentar cair fora dessa confusão, e sem afastar-se demasiadamente dos aliados, mas também sem se deixar manipular por eles.

Há quem pareça acreditar que a política correta para os EUA seria trabalhar com a Rússia. Por mais que sem dúvida faça todo o sentido para os EUA como país, absolutamente não faria jamais sentido algum para os EUA como Império. 

Para os EUA-Império (o Império Anglo-sionista) e para as forças do "estado profundo" que o governam, a Rússia é, ela sim, ameaça muito maior, porque a Rússia ameaça diretamente o status imperial dos EUA. 

Os EUA não conseguem ser nem "Nação Indispensável" e hegemon mundial, nem "país normal", parte de um sistema mundial civilizado e multipolar, regido por leis. Não pode ser (ou fazer) as duas coisas. Assim, quando o "estado profundo" dos EUA recusa-se categoricamente a fazer qualquer coisa significativa com a Rússia, ele age logicamente, pelo menos do próprio ponto de vista dele

Como qualquer outro Império, os EUA veem seu relacionamento com qualquer concorrente (real ou possível) como jogo de soma zero, o que significa que se alguma coisa for boa para a Rússia será necessariamente ruim para os EUA e vice-versa. Sim, é doentio, sociopatológico, mas assim funcionam todos os Impérios.

Disso decorrem as atuais políticas dos EUA: coalizão boa, só se os EUA comandarem; qualquer força anti-Rússia tem de ser apoiada; jamais haverá negociações com a Rússia – só exigências e ultimatuns, etc. 

Acrescente-se a isso a visível total ausência de diplomatas bem formados e competentes no serviço diplomático dos EUA (em todas as negociações diplomáticas em que os norte-americanos tiveram de negociar com diplomatas russos, os norte-americanos foram depenados); tudo isso somado, logo se entende por que os EUA nem consideram a possibilidade de deixarem de ser sempre hostis e confrontacionais na relação com a Rússia.

Os EUA estão em dificuldades terríveis, em confusão gravíssima, e as próximas eleições só pioram as coisas e tornam os EUA altamente imprevisíveis. Sim, há, suponho, uma pequena chance de que os franceses inaugurem um precedente de colaboração com a Rússia, mas não confio absolutamente em que aconteça assim. 

Talvez, se outro massacre for cometido na Europa, especialmente na Alemanha, mas mesmo assim é possibilidade de longo prazo. 

Sabe-se que houve casos na história nos quais um escravo deu bom conselho ao patrão e proprietário e, sim, pode acontecer novamente nesse caso. Com certeza faço votos ardentes de que aconteça.

Adendo: Errei realmente nas previsões que fiz sobre a intervenção russa na Síria?

Acho que é boa hora para responder ao que me acusaram de ter errado sobre a intervenção dos russos na Síria. Poderia ter respondido logo que apareceram aquelas acusações, mas concluí que responder naquele momento, em clima apaixonado de "vai Rússia! Avante!" seria perder tempo. Muitos naquele momento estavam certos de que seria "a virada do século" (nada menos!), "total virada no jogo" e, principalmente, que o Daesh estaria acabado

Agora, com sete semanas de intervenção em curso, proponho reexaminar o que eu realmente disse.

Primeiro, jamais disse que nunca haveria intervenção militar. O que fiz foi repetir várias, várias vezes que não é possível provar sentença negativa. De fato, repeti incontáveis vezes que não se pode provar declaração negativa e que, como alguma intervenção sempre *poderia* acontecer, até sugeri um tipo de intervenção (limitada a apoio de inteligência, treinamento e armas). Tudo que disse foi que o tipo de intervenção de que se falava há 7-8 semanas não aconteceria: nada de coturnos russos, nada de MiG-31, nada de forças em Damasco, nada de submarinos russos com mísseis balísticos armados com ogivas nucleares (ing. SSBNs), nada de soldados aeroembarcados, etc. E esse tipo de intervenção realmente não aconteceu. Disse também que a ideia de que a Rússia poderia "proteger" a Síria contra ação da OTAN é cômica. É e continua a ser cômica! 

Será que alguém ainda pensa seriamente que o contingente russo que está na Síria teria realmente capacidade para isso? Se sim, tenho uma ponte para vender a eles. 

Contudo, admito alegremente que nunca pensei que Putin concordaria com o que considero opção extremamente ousada e arriscada, de enviar uma pequena força para a Síria, força mínima necessária para (talvez) dar algum alívio aos sírios para que se reorganizem e possa contra-atacar. Essa opção, sim, é verdade, eu deixei passar. E como eu, também a deixaram passar todos os que previram uma intervenção russa *muito* maior (com MiG-31s e o resto todo da loucura). 

Admito também que continuo surpreso ante o fato de os russos – sempre avessos a intervenções e a riscos – tenham feito movimento tão ousado; e também continuo deslumbrado pelo modo soberbamente acertado pelo qual executaram sua operação. Mas ninguém previu o modo como realmente fizeram o que fizeram.

Segundo, também ouvi muitas reclamações por ter soado o alarme sobre as capacidades limitadas, traço inerente de campanhas aéreas, e, especificamente, de uma campanha russa muito pequena. Agora que os russos tiveram de usar seus mísseis cruzadores e aviação estratégica (o que, aliás, previ que aconteceria), alguém ainda negará que acertei no que disse sobre a limitação de usar poder aéreo contra o Daesh, especialmente com o pequeno número de aeronaves alocadas na Síria?

Terceiro, realmente destaquei que a lei russa e o público russo têm forte aversão a intervenção russa no exterior. É ainda plena verdade, e é o que ainda limita as opções do Kremlin. É o motivo pelo qual não há funcionário ou oficial russo que não diga e repita que a intervenção russa na Síria atende, em primeiro lugar, ao interesse nacional da Rússia.

Quero que fique assim bem registrado hoje, não por causa de algum ego ou vaidade feridas, mas porque estou cansado de ter de responder a uma montanha tóxica de acusações de que eu estaria aqui fazendo funções de espantalho e predições jingoístas. Sacudir bandeirinhas, bater mãos abertas uns dos outros e festejar com tapinhas nas costas está tudo muito bem, desde que não seja você quem embarca para a guerra. Nesse caso, os 'festejos' tornam-se obscenos.

Há por aí (são bem poucos, de fato) quem me acusa de "pessimismo" e de redigir análises "derrotistas" quando fazem falta ensaios elevados, que "inspirem". Se a acusação é essa, então sou réu confesso. Mas devo dizer que não é como vejo o meu papel aqui. Meu papel é redigir análises verdadeiras e honestas, independente de serem recebidas como "inspiradoras" ou "pessimistas". Há incontáveis blogs "inspiradores" e que "elevam o espírito" por aí; portanto, quem esteja à procura disso sabe onde encontrá-los.

Por fim, também recebi reclamações por ter dito antes que era preciso esperar pelos fatos antes de concluir sobre o que acontecera ao Voo 9268, e por ter dito que minha hipótese pessoal de trabalho era que teria sido uma bomba. Depois, fui acusado de ter sido ingênuo quando disse que não acreditava que os russos mentissem sobre o caso. Sei que ainda há os que acreditam que foi obra de israelenses ou efeito de algum tipo de arma de energia dirigida. E outras ideias. Não me importa. Jamais houve nem fiapo de prova em apoio a qualquer dessas hipóteses, e duvido muito que algum dia surja alguma coisa. E alguém nos dirá que "a ausência de prova não é prova de ausência". Outra vez, pouco me importa. É também possível que o avião tenha sido empurrado para baixo por um enxame de Objetos Voadores Subatômicos Não Identificados. "Possível" é padrão muito baixo de exigência, porque quase qualquer coisa é possível. Mas é "provável" ou "muito provável"? Logo que a "barra das provas" sobe um milímetro acima do nível do "possível", todas essas teorias colapsam instantaneamente. Mais uma vez, por mais que outros sejam bem-vindos para explorarem todas e quaisquer hipóteses "possíveis", eu, pessoalmente ficarei com as que sejam pelo menos prováveis.

Ao fim e ao cabo é você – leitor, leitora – que tem de selecionar e adotar o que mais lhe agrade. Há blogosfera ampla e diversa pelo mundo e é muito bom que assim seja. Sempre quero apresentar análises lógicas e baseadas em fatos e não estou tentando vencer concurso de popularidade ou de quem "inspira mais (-: a menos, claro, que você seja dos/das que se inspiram com análises lógicas e baseadas em fatos :-)

Tendo pois esclarecido isso, não voltarei a dar explicações, na próxima vez que for acusado de escrever o que nunca escrevi, ou de não ter elogiado suficientemente os bons rapazes.*****


[assina] The Saker






[1] Sobre o mesmo assunto, ver 20/11/2015, "Por que o Qatar quer 'fazer as pazes' com a Rússia", Peter Lvov, New Eastern Outlooktraduzido no Blog do Alok [NTs].


[2] Sobre isso ver "O lado errado do secularismo", 19/11/2015, Ian Birchall, Jacobin Magazine, traduzido em Blog do Alok [NTs].

2 comentários:

  1. The Saker

    Parabéns é pouco pelo relato. IRRETOCÁVEL! Qdo não é o senhor, é o brasileiro-patriota Pepe Escobar, cujos textos são antológicos. Um verdadeiro desbunde! Parabéns

    enganado

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