terça-feira, 6 de setembro de 2016

G20 Made in China e seu significado geopolítico, por Pepe Escobar

5/9/2016, Pepe Escobar, RT


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Xi da China, para Putin da Rússia:
"Consegui! Cada vez q ñ usamos petrodólares, bebemos uma" 
http://goo.gl/FIuA5J
[E #ForaTemer"]
(Epígrafe acrescentada pelos tradutores)



O que acaba de acontecer em Hangzhou, China, tem imensa importância geoeconômica. Pequim, desde o início, tratou com extrema seriedade o G20: foi construído como festa da China, não de algum ocidente decadente. Muito menos, como festa de Washington.

Delineando a agenda para as discussões, o presidente Xi Jinping foi diretamente ao ponto, também geopoliticamente, e definiu o tom: "A velha mentalidade retrógrada de Guerra Fria tem de ser descartada. Temos de desenvolver com urgência um novo conceito de segurança inclusivo, amplo, de cooperação e sustentável."

Integrem-se isso e as chamadas "quatro prescrições" de Xi – [construir horizontes comerciais] "inovadores, revigorados, interconectados e inclusivos" – necessárias para devolver à vida a economia mundial.

Agindo como Principal Estadista Mundial de facto, Xi então passou, na abertura da reunião, a introduzir um pacote de projetos – resultado de planejamento excruciante, ao longo de meses, na preparação para Hangzhou.

O pacote está projetado para repor a economia global na trilha do crescimento e, ao mesmo tempo, pôr em operação mais regras amistosas made in China para a arquitetura e a governança econômica global.

A meta não poderia ser mais ambiciosa: esmagar o crescente sentimento anticomércio e antiglobalização que cresce principalmente no ocidente (do Brexit a Trump), ao mesmo tempo em que faz agrados no público seleto que o ouve – supostamente o mais importante conjunto de líderes mundiais que já pisaram no país em toda a história da China – embora, ao mesmo tempo, no longo prazo, vise a sobrepujar os EUA no quadro do poder mundial.

É virada previsível, mas nem por isso menos notável, para a China, que colheu benefícios da globalização, mais que qualquer outro país do planeta – com crescimento, ao longo dos últimos 30 anos, impulsionado por investimento estrangeiro direto e um dilúvio de exportações.

Mas agora a geoeconomia entrou em área extremamente preocupante de turbulência. Desde o fim da Guerra Fria em 1989 – e, até, da própria "história" segundo professores paroquianos – jamais as coisas foram tão difíceis. A ganância levou a globalização a ser "derrotada" pela desigualdade. Em resumo, baixa inflação – devida à concorrência global – levou às previsíveis políticas monetárias "expansionistas", que inflacionaram moradia, educação e atenção à saúde, sacrificando a classe média e deixando que fluxo incontrolado e ilimitado de riqueza fluísse para uma minoria de 1% dos proprietários.

Mesmo na desaceleração, a China foi responsável por mais que 25% do crescimento econômico global em 2015. E continua a ser o motor global vital – ao mesmo tempo em que carrega o peso autoatribuído de representar o Sul Global na governança econômica global.

O investimento chinês outbound aumentou 62%, para valor recorde de $100 bilhões nos primeiros sete meses de 2016, segundo o Ministério de Comércio da China. Mas há um problema, que os economistas apelidaram de "ambiente de investimento assimétrico": a China continua mais fechada que outros países BRICS ao investimento externo, especialmente em setores de serviços.

Construção dos BRICS

A reunião dedicada aos BRICS, à margem do G20 não foi espetacular per se. Mas foi onde Xi detalhou a agenda da China no G20 e deu o tom para a 8ª reunião de cúpula do grupo, em Goa, em outubro. Segundo um relatório do think-tank econômico para os BRICS da Tsinghua University em Pequim, a China deve aprofundar essas conexões multilaterais para "ter maior influência e forçar o ocidente a retroceder no processo de fixar as regras internacionais".

É movimento de longo alcance – mas já está em andamento. Zhu Jiejin, da Fudan University em Xangai, resume: "O grupo BRICS é um teste para a nova filosofia da China em relações internacionais – embora o fruto ainda vá demorar muito tempo para amadurecer."





Interconexão ou morte 

Tudo em Hangzhou foi milimetricamente calculado.

Por exemplos, os lugares na mesa do G20: cadeiras tai-shi clássicas da dinastia Ming ("assentos para grandes senhores imperiais") com almofadas cinzas macias; folhas de papel sob pesos de papel verde-claros nas duas pontas; um pote de porcelana com uma caneta; uma xícara de chá em porcelana verde; um "selo" quadrado de jade – quase tão grande quanto um selo imperial – que era, de fato, uma tomada de microfone.

E considerem a geopolítica da foto oficial: Merkel e Erdogan ao lado de Xi, porque a Turquia hospedou o G20 ano passado, e a Alemanha hospedará em 2017; perfeita simetria para Putin e Obama; perfeita simetria para dois outros países BRICS, Modi da Índia; e, do Brasil, Temer, O Usurpador – um em cada ponta, mas ainda na primeira fila; Shinzo Abe do Japão na segunda fila, bem como Renzi da Itália e, da Grã-Bretanha, Theresa "estamos abertos a negócios" May.

E por que Hangzhou, afinal? Tratando-se de China, tudo começa com uma analogia histórica. Hangzhou já era conhecida como "a Herdade da Seda" antes, até, de haver a milenar Rota da Seda. Conecte isso, agora, com as Novas Rotas da Seda extremamente ambiciosas de Xi – o nome oficial é projeto é "Um Cinturão, uma Estrada" [ing. One Belt, One Road (OBOR)] na denominação oficial – que alguns analistas chineses gostam de descrever como "uma moderna sinfonia de conectividade." 

O projeto "Um Cinturão, uma Estrada" de Xi é, de fato, as "quatro prescrições", em prática: crescimento econômico movido por um frenesi de conectividade "inclusiva", especialmente entre nações em desenvolvimento.

A liderança em Pequim está totalmente dedicada ao projeto "Um Cinturão, Uma Estrada" como o movimento geoeconômico mais transformador na região do Pacífico Asiático, conectando a maior parte da Ásia à China – e à Europa; e tudo isso, é claro, totalmente entretecido com a reinterpretação turbinada que Xi dá à globalização. Por isso tenho dito que é o projeto de mais amplo alcance para o jovem século 21: do lado dos EUA, o "projeto" concorrente é mais do caótico mesmo.

Mesmo antes de Hangzhou, os ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G20 reuniram-se em Chengdu, dias 23-24 de julho, para discutir a conectividade da infraestrutura global. O communiqué teve de repetir o óbvio: maior interconectividade é a demanda que define a economia global do século 21 e a chave para promover desenvolvimento sustentável e prosperidade partilhada.

Disso trata o projeto "Um Cinturão, Uma Estrada". A empresa chinesa de consultoria SWS Research estimou num relatório sobre "Um Cinturão, Uma Estrada" que o investimento total necessário para construir a infraestrutura aproxima-se de espantosos $3,26 trilhões.

Projetos de linha de frente incluem o Corredor Econômico China-Paquistão [ing. CPEC], definido pelo ministro de Relações Exteriores da China Wang Yi como "o primeiro movimento da sinfonia que é a Iniciativa Cinturão e Estrada". E há também a bonança trazida pelo ferrovia para vagões de alta velocidade – incluindo tudo, da ferrovia China-Tailândia dentro da rede ferroviária Trans-Ásia, à outra ferrovia Jakarta-Bandung, na Indonésia, também para trens de alta velocidade.



Aqui se veem os principais atores chineses por trás da expansão de "Um Cinturão, Uma Estrada", e a visão de Xi, de uma arquitetura global econômica reformada. É impossível compreender para onde caminha a China, sem considerar o papel de cada um deles.

E, claro, há a própria cidade de Hangzhou – um centro de inovação tecnológica de excepcional qualidade para economia da informação e produção inteligente.

Pode-se dizer que a principal estrela desse G20, além de Xi, foi Jack Ma, fundador da gigante de e-commerce Alibaba, fundada em 1999, listada em New York em 2014 e surgida da consolidação de vários milhares de empresas chinesas que formam a nova "Chinese imprint".

O quartel-general da Alibaba é Hangzhou. E não por acaso, todos – de Justin Trudeau do Canadá a Joko Widodo da Indonésia – visitaram o campus Xixi da empresa, guiados por Ma, todos com um olho a chance de promover produtos de seus países pela plataforma da Alibaba. Perto dali há uma Cidade dos Sonhos – um centro que ajudou a lançar mais de 680 startups chinesas em apenas um ano.

Antes do G20 houve lá um B20, – cúpula de empresários e negócios, focada no desenvolvimento de pequenas e médias empresas (PMEs) – na qual o atilado Ma, admitindo que "vivemos momento crucial, quando as pessoas reagem contra a globalização ou o livre comércio", promoveu empenhadamente o advento de uma plataforma eletrônica mundial para negócios (ing., eWTP). Ma descreveu a eWTP como "um mecanismo para diálogo público-privado no desenvolvimento de comércio eletrônico transfronteiras", o qual "ajudará empresas pequenas e médias, países em desenvolvimento, as mulheres e os mais jovens a participar na economia global."

Também não por acaso, Widodo da Indonésia convidou Ma como conselheiro econômico. A Indonésia tem nada menos que 56 milhões de pequenas e médias empresas, como disse o presidente; assim sendo, uma das prioridades nacionais é estimular a cooperação entre as PMEs na Indonésia e Alibaba, para ajudá-las a entrar no mercado chinês e global.

Claro que não é um jardim de rosas. Entre as cinco forças-tarefas presentes à B20 havia atores sinistros, como Laurence Fink, presidente do mega Fundo BlackRock, com assento na comissão de finanças, ou Dow Chemical na comissão de comércio e investimento. Mesmo assim, o alvo chave – mais importante – era e continua a ser ajudar as PMEs no mundo em desenvolvimento, para que se tornem globais.

O que foi realmente decidido no G20 da China só será visível no longo prazo. No encerramento do encontro, Xi destacou que o G20 concordara com promover o multilateralismo no comércio e trabalhar contra o protecionismo (amplas evidências do contrário, no pé em que estão as coisas), ao mesmo tempo em que se desenvolve o primeiro traços de regras para o investimento transfronteiras (todos as aplicarão?)

Disse também que o G20 concordou com prosseguir na reforma do FMI e do Banco Mundial, para dar mais espaço e direitos aos mercados emergentes (não com Hillary ou Trump no governo dos EUA).

Mas seja como for, a "mensagem" da China é absolutamente clara e visível: fixou-se afinal uma trilha geoeconômica para o futuro e o país passa a fazer lobby insistente para que muitas e muitas nações unam-se em torno desses primeiros traços de uma estrutura ganha-ganha. E seja qual for o futuro do acintosamente confrontacional "pivô para a Ásia" – com o braço TPP de "OTAN comercial" e tudo – Pequim não se manterá imóvel e calada ante a intimidação pelos EUA, ou ameaças ao que o governo chinês entende que sejam interesses vitais de segurança da China.

O G20 em Hangzhou mostrou que a China está pronta para exibir sua força econômica e para desempenhar papel muito mais ativo na geoeconomia. É claro que Pequim prefere jogar o jogo num sistema de comércio multilateral organizado em torno da OMC. Washington, em vez disso, tenta viciar o jogo com 'regras' novas: as 'parcerias' TPP e TTIP.

He Weiwen, da Sociedade de Estudos da OMC da China, pode ter acertado na mosca do negócio (da China), quando observou que "Os EUA disseram, há algum tempo, que não podem deixar que a China defina as regras, mas os EUA a definirem todas as regras tampouco é processo que seduza corações e mentes, porque EUA só consideram interesses dos EUA."*****


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