quarta-feira, 3 de maio de 2017

França: Dois mapas e uma eleição

25/4/2017, Jacques Sapir, Russeurope, Hypotheses















O livre comércio põe em oposição e em disputa histórias sociais diferentes e as puxa todas para baixo. O livre comércio não põe em oposição, muito menos em disputa, nem diferentes projetos 'de empreendedorismo' nem diferentes empresas."





São os latidos da matilha 'jornalística' que querem empurrar todos para uma só boiada que só admite seguir Emmanuel Hollande, não sendo François Macron, sob pena de o 'diferente' fazer-se açoitar por gritos hoje ensurdecedores de "fascista" (...). A matilha 'jornalística' pratica hoje o "eu-apelismo", neologia que faz lembrar [em francês] os latidos da cachorrada. Ao fazê-lo, a matilha comprova o velho dito que ensina que o cão não morde a mão que o alimenta…


Contudo, a mesma matilha cuida ativamente de nunca analisar o que está por trás da chegada de Mme. Marine le Pen ao segundo turno da eleição presidencial na França. Crente que sou da religião que ensina que uma boa imagem vale mais que muitos discursos, mostro aqui, para informação dos leitores, mas também para desasnar os cães da matilha que se interessem por informação que preste, os seguintes dois mapas.



Comparação instrutiva 

O primeiro mapa – aqui em versão "vintage" (ah, sim! Tempo houve em que o mundo não tinha só as poucas cores que o computador é capaz de pintar) – mostra o pé em que estava o processo de industrialização da França ao final dos anos 1950.







Esse mapa mostra quais eram as zonas de desenvolvimento da indústria durante os "trinta (anos) gloriosos". Comparem-se agora o mapa acima e o mapa dos resultados do 1º turno da eleição presidencial de 2017. E assim, surpresa, surpresa, vê-se que o mapa de 1958 corresponde quase exatamente ao mapa dos votos a favor de Mme Marine le Pen em 2017.




(Resultados publicados pelo Ministério do Interior, França, 23/4/2017)


Claro que a correspondência não é exata. As regiões do rio Drome que se desenvolveram nos anos 1960 não aparecem no primeiro mapa, nem a industrialização do vale do rio Garonne, como a indústria aeronáutica em torno de Toulouse. Por sua vez, vê-se bem a forte presença do voto a favor de Marine le Pen nas regiões mais rurais. Se a crise da indústria não é, claramente, o único fator explicativo, se há, e há, outros fatores a considerar, como a história da Resistência (que explica sem dúvida o resultado fraco de Marine le Pen no Limousin), ainda assim a configuração geral dos dois mapas é semelhante demais para ser mera coincidência.


Não há acasos em economia 


As regiões da antiga industrialização, as mais atingidas pelo impacto da globalização, depois pelo impacto do euro, foram as que garantiram a Marine le Pen seus melhores resultados.


Vale a pena lembrar que as diferentes fases da instauração do livre comércio absolutamente não levaram em conta a diferença dos custos salariais (e das contribuições sociais) a qual é produto da história política e social de cada país. Pode-se dizer o mesmo também das diferenças em matéria de regulamentação das defesas a favor da preservação do meio ambiente. O livre comércio põe em oposição e em disputa histórias sociais diferentes e as puxa todas para baixo; o livre comércio não põe em oposição, muito menos em disputa, nem diferentes projetos 'de empreendedorismo' nem empresas diferentes. 



Esse é o traço de realidade histórica que justifica as modalidades de protecionismo "inteligente", ou "solidário" pode-se dizer "altruísta", como as defendi em meu livro La Démondialisation[1], depois de Bernard Cassen, e antes de Jean-Luc Mélenchon, Arnaud Montebourg e, claro, Marine le Pen. Mas quem lançou a ideia não faz diferença. A ideia é boa e impõe-se, se não queremos que os trabalhadores sejam forçados a aceitar novas leis que não aprovam e salários cada vez mais arrochados.



A implantação do euro agravou consideravelmente a situação. O euro favorece a Alemanha, porque permite que os alemães desvalorizem a própria moeda; e desfavorece países como França e Itália, porque os força a manter sobrevalorizadas as suas. Está já demonstrado em documento do Fundo Monetário Internacional do verão de 2016.[2] Além disso, o euro permaneceu fortemente valorizado por tempo demais, em relação ao EUA-dólar, moeda de referência de muitos países, não só dos EUA, mas também da China e globalmente da "eurozona". Essa supervalorização teve, especialmente para a indústria francesa, consequências desastrosas. 



Combinados, esses dois efeitos levaram empresas não só a perder mercados para os quais exportavam, mas também a sofrer mais do que o indispensável ante a concorrência no mercado interno. Assim se explica em grande parte a desindustrialização da França e, consequentemente, a crise social que se conhece nas regiões de industrialização tradicional.



Com o conjunto de economistas que combatem o euro, esses são os efeitos contra os quais se trabalha, mesmo que não sejam os únicos efeitos negativos engendrados pelo euro.[3] As consequências políticas do euro também são graves.



Não há portanto nada de fortuito na sobreposição quase perfeita desses dois mapas. E nada há de fortuito no crescimento dos votos a favor de Mme Marine le Pen – voto que traduz a revolta dos meios populares que foram deliberadamente sacrificados pelas elites políticas francesas, seja para aumentar os ganhos financeiros (campo no qual opera a direita) seja por razões de ideologia (campo no qual operam o Partido 'Socialista' e Partido Comunista Francês). 



Assim sendo, latir contra os que se recusam a endossar uma dita "Frente Republicana" fútil e inútil, e zurrar uma chamada "ameaça fascista" é acrescentar insulto à injúria: é comportamento absolutamente indecente. O que não impedirá que jornalistas continuem a insistir nele a serviço da elite política e dos oligarcas proprietários das grandes mídia-empresas. 



Como já se disse, comprova-se assim o aforismo de la Rochefoucauld "o cachorro não morde a mão que o alimenta". Mas também se justifica completamente a posição da "França Insubmissa" e de Jean-Luc Mélenchon que se recusa, com muita coragem, a misturar sua voz aos latidos generalizados.*****



[1] SAPIR J., La Démondialisation, Le Seuil, Paris, 2011. NTs: Essa discussão tem longa história entre intelectuais franceses, principalmente entre os ditos 'verdes' e 'ecológicos', e a polêmica logo chegou ao Brasil. Carta Maior andou engajada nessas conversas, sob a bem pouco confiável bandeira do capitalismo que algum dia tiraria "férias". Na França, ajudou a fracionar ainda mais as esquerdas. No Brasil, ainda pior, gerou Marina [Epa!] Silva, a 'Ecológica' Insuportável. 

[2] FMI, 2016 EXTERNAL SECTOR REPORT, International Monetary Fund, julho 2016, Washington DC, pode ser baixado dehttp://www.imf.org/external/pp/ppindex.aspx


[3] SAPIR J., L’Euro contre la France, l’Euro contre l’Europe, le Cerf, 2016 ; Idem, Faut-il sortir de l’euro ?, Le Seuil, Paris, 2012.


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