segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Jalecos Amarelos x Macron: O povo contra o ‘Rei’ Neoliberal

5/12/2018, Diana Johnstone,* Consortium News

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga



Todos os carros na França devem, por lei, ser equipados com um jaleco amarelo. De modo que, no caso de acidente ou problemas no carro em rodovias, o motorista possa vestir o jaleco e garantir que seja visto de longe, evitando atropelamentos.

Por isso se alastrou tão rapidamente a ideia de vestir o jaleco amarelo para protestar contra medidas impopulares do governo. O jaleco estava ali, à mão, e ninguém precisava esperar que Soros fornecesse o ‘instrumento’ para alguma “revolução colorida” mais, ou menos, pré-fabricada. O simbolismo era claro: em caso de emergência socioeconômica, mostre que você não quer ser atropelado.

Como todos sabem, o que disparou o movimento de protesto foi mais um aumento no preço da gasolina. Mas rapidamente se viu que havia mais. O imposto sobre a gasolina foi a gota que fez entornar a água, numa série de medidas que favorecem os ricos à custa da maioria da população. Por isso o movimento ganhou apoio e popularidade quase instantâneos.

As Vozes do Povo 

Contra a voz do povo (Foto Guillaume Souvant/AFP/Getty Images)

Amarelos fizeram as primeiras manifestações no sábado, 17 de novembro, na avenida Champs-Elysées em Paris. Foi totalmente diferente das manifestações conhecidas de sindicalizadas, sempre bem organizadas para marchar pelo bulevar entre a Praça da República e a Praça da Bastilha, ou no sentido inverso, carregando faixas e, no final, com discursos dos líderes. Os Jalecos Amarelos vieram sem organização, sem líderes que lhes dissessem para onde ir ou que falassem à multidão. Apenas ali estavam, nos jalecos amarelos, zangados e prontos a explicar a própria zanga a qualquer ouvinte que desse sinal de simpatizar com eles.

Em resumo, a mensagem foi a seguinte: Sobra mês no fim do dinheiro, não conseguimos pagar as contas, a carestia só aumenta, e nosso dinheiro só encolhe. Não aguentamos mais. O governo tem de parar, pensar e mudar de rota.

Até aqui, a reação do governo tem sido mandar a polícia despejar torrentes de gás lacrimogêneo sobre a multidão, aparentemente para manter o povo à distância da residência do presidente francês, o Palácio Eliseu. O presidente Macron não estava ali, provavelmente se autoconsiderando superior e distante de tudo.

Mas quem estivesse ouvindo, aprenderia muito sobre o estado em que está hoje a França. Especialmente nas cidades pequenas e áreas rurais, de onde partiram muitos dos manifestantes. As coisas estão muito piores do que funcionários do Estado e a mídia-empresa vivem de informar. 

Havia mulheres jovens que trabalham sete dias por semana, já sem esperanças de conseguirem alimentar e vestir os próprios filhos.

As pessoas estavam com fome, mas perfeitamente capazes de explicar muito claramente as questões econômicas.

Colette, 83 anos, não tem carro, mas explicava a quem quisesse ouvir que os aumentos no preço da gasolina também ferirão quem não dirige, porque afetam os preços da comida e de outros itens de primeira necessidade. Já havia calculado, e prevê que o aumento custará a um aposentado 80 euros por mês.

“Para se eleger, Macron não falou de congelar aposentadorias” – lembrava um Jaleco Amarelo, mas foi o que fez, além de aumentar as taxas cobradas dos aposentados.

(Guillaume Souvant/AFP/Getty Images)

Crítica significativa e recorrente dizia respeito à atenção pública à saúde. Por muitos anos a França teve o melhor programa mundial de assistência pública à saúde, mas essa situação tem sido repetidas vezes alterada, na direção de atender à principal e mais radical necessidade do capital: o lucro. Em anos recentes, o governo tem trabalhado cada vez mais para estimular, e finalmente para obrigar os cidadãos a pagar pela associação a uma “mutuelle” – seguro privado de assistência à saúde, ostensivamente para cobrir “as diferenças”, os itens não cobertos pela assistência pública universal à saúde dos franceses. As “diferenças” podem ser os 15% não cobertos para doenças simples (doenças graves recebem cobertura de 100%), ou medicamentos que foram retirados da lista “coberta”, ou para tratamento dentário, dentre outros itens. O número de “diferenças” a serem cobertas só aumenta, além dos custos para comprar um seguro-saúde privado – “mutuelle”. Esse programa, vendido ao público como mudança para modernização, não passa de movimento gradual mas constante rumo à privatização da assistência pública à saúde na França. É método sorrateiro para abrir todo o campo da saúde pública ao capital financeiro internacional, que anda à procura de negócios nos quais investir. O povo francês absolutamente não se deixou enganar, e a questão do desmonte da atenção pública à saúde na França aparece num dos primeiros lugares da lista de reivindicações dos Jalecos Amarelos. 

A degradação do atendimento nos hospitais públicos é outros dos problemas dos quais os franceses estão muito conscientes. Há cada vez menos hospitais nas áreas rurais, e é preciso esperar pelos leitos de emergência, “por tempo suficiente para que o doente morra”. Quem possa pagar, está procurando hospitais privados. Mas a maioria não pode pagar. O trabalho de enfermeiros e enfermeiras é superexplorado, excesso de horas de serviço e salários arrochados. Cada vez que o governo diz que o pessoal de atendimento à saúde nos hospitais têm de aguentar, o povo mais se dá conta de que, sim, a profissão de enfermeiros e enfermeiras é profissão nobre.

Com tudo isso, lembrei-me de uma jovem que encontrei num piquenique público no sul da França no verão passado. É cuidadora de idosos que vivem sós em áreas rurais, e dirige de casa em casa para alimentar, banhar, fazer companhia e oferecer aos idosos alguma companhia e algum conforto. A moça ama o que faz, fala de vocação, gosta de ajudar idosos, mesmo que o salário mal seja suficiente para mantê-la. Gasolina mais cara significará mais gastos para ela ir da casa de um à casa de outro dos idosos que ela atende.

As pessoas pagam impostos sem se opor, quando veem o que é feito dos impostos. Mas não quando as coisas às quais estão acostumados lhe são tiradas. Quem burla o fisco e comete crimes de evasão fiscal são os muito ricos e as grandes corporações com suas legiões de advogados e paraísos fiscais, ou intrusos, como Amazon e Google, mas o povo francês comum sempre foi relativamente disciplinado ao pagar taxas e impostos em troca de excelente serviço público: atenção ótima à saúde, transporte público de primeira qualidade, serviço postal rápido e eficiente, educação superior gratuita. 

Mas tudo isso está hoje sob assalto que lhe faz o capital financeiro, que se conhece como neoliberalismo. Nas áreas rurais, cada dia mais postos de correios, escolas e hospitais são fechados, serviços de trem não lucrativos são extintos, e a “livre concorrência” passa a reinar em todos os campos, seguindo regras da União Europeia – medidas que obrigam o povo a usar cada vez mais, não menos, os próprios carros. Especialmente quando shopping centers monstros extinguem, nas pequenas cidades, todo o comércio tradicional.

Políticas de Energia Incoerentes 

E a taxa anunciada pelo governo – 6,6% a mais por litro de diesel e 2,9% no litro de gasolina – são só os primeiros passos numa série de aumentos ao longo dos próximos anos. As medidas supostamente visariam a estimular as pessoas a dirigir menos ou, talvez, melhor ainda, a abandonar os veículos antigos e comprar novos lindos carros elétricos.

(Alain Pitton/NurPhoto via Getty Images)

Mais e mais “governança” seria exercício de engenharia social, feito por tecnocratas que sabem o que é melhor. Esse específico exercício anda na direção oposta à uma medida anterior do governo, também de engenharia social, para fazer as pessoas comprarem mais carros movidos a diesel. Mas agora o governo mudou de ideia. Mais da metade de carros pessoais ainda usam diesel, embora a proporção tenha caído. Agora, os proprietários daqueles carros recebem ‘estímulos’ para comprar carros elétricos. Mas as pessoas que vivem já com o cinto apertadíssimo simplesmente não têm meios para trocar de carro.

Além disso, a política para a energia não faz sentido. Em teoria, a economia “verde” inclui fechar várias pequenas usinas nucleares que há na França. Sem elas, de onde viria a eletricidade que faria andar os carros elétricos? E energia nuclear é “limpa”, sem CO2. Assim sendo... o que está realmente sendo planejado? O povo pensa e não compreende.

As fontes alternativas de energia mais promissoras na França são as fortes marés do litoral norte. Mas em julho passado o projeto maremotriz** na costa da Normandia foi repentinamente suspenso, porque não era lucrativo, sem consumidores em número suficiente para que o projeto fosse rentável. Sintoma do que está errado no atual governo. Grandes projetos industriais inovadores praticamente nunca nascem rentáveis, razão pela qual precisam de apoio e subsídios do Estado para começar, com vistas no futuro. Projetos desse tipo foram apoiados no governo de de Gaulle e elevaram a França ao status de potência industrial, garantindo prosperidade sem precedentes à população como um todo. 

Mas o governo Macron não investe no futuro, nem está fazendo coisa alguma para preservar as indústrias que restam. Sob a presidência de Macron, a empresa francesa Alstom de energia, crucial para o desenvolvimento do país, foi vendida à General Electric. 

Na verdade, é pura hipocrisia chamar de “eco-taxa” a nova taxa sobre o gás francês, porque o retorno de qualquer genuína eco-taxa teria de ser investido para desenvolver energias limpas – como as usinas movidas pela força das marés. Em vez disso, o dinheiro que entre já está comprometido com o ‘equilíbrio’ do Orçamento, vale dizer, para pagar dívida do governo. A taxa macroniana sobre o gás é mais uma medida dita de “austeridade”, como os cortes de serviços públicos e “vender as joias da família”, quer dizer, vender empresas que sempre poderão fazer dinheiro, como a Alstom, além de portos e dos aeroportos de Paris. 

O Governo nada vê 

(Alain Pitton/NurPhoto via Getty Images)

Respostas iniciais do governo mostraram que absolutamente não estavam ouvindo o povo. Foi mergulho na própria piscina de clichês, para denigrir algo que o governo Macron sequer se deu o trabalho de tentar compreender.

A primeira reação do presidente Macron foi culpar os manifestantes, invocando o mais poderoso argumentos dos globalistas quando querem impor medidas impopulares: o aquecimento global. Fossem quais fossem as pequenas queixas da população – Macron sugeriu – não se podem comparar à importância de salvar o planeta.

Mas não conseguiu impressionar o povo que, sim, já ouviu falar de mudança climática e preocupa-se, sim, como todos, com preservar o meio ambiente, mas que foi obrigado a responder: “Muito mais preocupado estou com o fim do mês, do que com o fim do mundo.”

Depois do segundo sábado dos Jalecos Amarelos, 25 de novembro, quando apareceram mais manifestantes e mais gás lacrimogênio, o ministro encarregado do orçamento, Gérard Darmanin, declarou que os Campos Elíseos haviam sido depredados pela “peste marrom” [fr. “la peste brune”referência às camisas marrons dos soldados da SS nazista (NTs)]. (Vale observar que Darmanin tem origens familiares na classe trabalhadora da Argélia.) A observação de Darmanin provocou uma onda de indignação, que ajudou a mostrar o quanto crescera a simpatia, na população francesa em geral, pelo movimento – mais de 70%, pelas pesquisas mais recentes, mesmo depois do vandalismo completamente fora de controle. O ministro do Interior do governo de Macron, Christophe Castaner, foi obrigado a declarar que a comunicação do governo fora mal gerida. Claro, é a desculpa de sempre, dos tecnocratas: nós nunca erramos; problema, só, é nossa “comunicação”; os fatos, a realidade, está tudo perfeito.

Talvez tenha perdido alguma coisa, mas das muitas entrevistas às quais assisti e que ouvi, jamais se pronunciou uma palavra, sequer, que fizesse pensar em “extrema direita”, menos ainda em “fascismo” – nem, mesmo, que sugerisse qualquer preferência por algum partido político, entre os manifestantes. Aquelas pessoas metidas em Jalecos Amarelos estão integralmente absorvidas em questões práticas. Nada, nem vestígio, de ideologia – o que chega a ser espantoso, em Paris!

Ignorantes da história francesa e ansiosos para exibir sentimentos de purismo esquerdista sugeriram que os Jalecos Amarelos seriam perigosamente nacionalistas, porque ocasionalmente erguem bandeiras da França e cantam La Marseillaise. Significa apenas que são franceses. A esquerda francesa é historicamente patriota, especialmente quando em revolta contra os aristocratas e os ricos, ou durante a Ocupação Nazista. (Exceção foi o levante de estudantes em maio de 1968, que não foi revolta da população pobre, mas revolta em tempos de prosperidade, a favor de maior liberdade pessoal: “É proibido proibir”. A geração de maio de 68 converteu-se na geração mais anti-França em toda a história, por razões que não cabem aqui. Em certa medida, os Jalecos Amarelos marcam um retorno do povo às ruas, depois de meio século de povo desprezado pela intelligentsia liberal.)

É um modo de dizer Somos o povo, nós fazemos o trabalho pesado, e vocês têm de ouvir nossas reclamações e nossas dificuldades. 

O “nacionalismo”, para fazer mal, só quando é agressivo em relação a outras nações. Esse movimento dos Jalecos Amarelos não ataca ninguém. Pode-se dizer que, apenas, estritamente falando, não saem da própria casa.

A Fraqueza de Macron

Os Jalecos Amarelos deixaram perfeitamente claro para todo mundo, que Emmanuel Macron não passa de produto artificial vendido ao eleitorado por uma extraordinária campanha de mídia.

Macron foi o coelho tirado magicamente de uma cartola, patrocinado pelo que se deve chamar de oligarquia francesa.

Depois de chamar a atenção de um conhecido e afamado fazedor de reis, Jacques Attali, o jovem Macron ganhou uma chance no Banco Rothschild, onde rapidamente ganhou uma pequena fortuna, com o que ficou assegurada sua lealdade eterna aos patrocinadores. Propaganda de saturação pela mídia, e campanha de medo do que seria governo da “fascista” Marine LePen (a qual, para piorar de vez a própria situação saiu-se muito mal no debate definitivo entre os dois candidatos) pôs Macron na presidência da França. O homem que conheceu a esposa quando ela lhe dava aulas de teatro, afinal conseguia o papel de presidente.

(Charles Platiau/AFP/Getty)
A missão que os patrocinadores deram a Macron foi clara. Teria de fazer avançar mais vigorosamente as “reformas” (medidas de arrocho, chamadas “de austeridade”) já iniciadas por governos anteriores, os quais contudo não haviam conseguido acelerar fortemente o declínio do Estado social. 

Mais que isso, Macron recebeu a missão de “salvar a Europa” – o que significava salvar a União Europeia do atoleiro em que está.

Por isso sua obsessão é cortar despesas e equilibrar o orçamento: porque para isso foi escolhido pela oligarquia que patrocinou sua candidatura. Foi escalado pela oligarquia financeira, primeiro, para salvar a União Europeia da ameaça de desintegrar-se, causada pelo euro. Os tratados que estabelecem a União Europeia e, sobretudo, a moeda comum, o euro, criaram um desequilíbrio insustentável entre os estados-membros. 

Ironia é que governos franceses anteriores, a começar por Mitterrand, são amplamente responsáveis por esse estado de coisas. Em esforço desesperado e tecnicamente mal avaliado para impedir que a Alemanha então recém unificada viesse a ser a potência europeia dominante, a França insistiu em ligar Alemanha e França por uma moeda comum. Os alemães aceitaram o euro, com relutância – e sob a condição de que fosse criado nos termos que a Alemanha propunha. Resultado disso é que a Alemanha tornou-se credora involuntária de estados-membros que tampouco queriam integrar-se à União Europeia – Itália, Espanha, Portugal e, claro, a Grécia, hoje arruinada. A cratera financeira que separa a Alemanha e seus vizinhos do sul só faz aumentar, o que provoca ira e má vontade de todos os lados.

A Alemanha não quer partilhar poder econômico com Estados que o país considera gastadores irresponsáveis. Assim, a missão de Macron é mostrar à Alemanha que a França, apesar da economia arruinada é “país responsável”; para isso, arrocha a população, para pagar juros da dívida. A ideia de Macron é que os políticos em Berlim e os banqueiros em Frankfurt ficarão tão impressionados que olharão e volta e dirão ‘belo trabalho, Emmanuel, estamos dispostos a meter nossa riqueza num cofrinho comum, para beneficiar todos os 27 Estados-membros. Essa é a razão pela qual Macron não se deixará conter por nada e ninguém na tarefa de pagar juros da dívida aos banqueiros credores: para que os alemães o amem.

Até aqui, a mágica não teve qualquer efeito sobre os alemães e está levando o próprio povo de Macron a ocupar as ruas.

Mas... será mesmo povo de Macron? Macron realmente dá qualquer importância ao ataque que comanda contra os franceses que trabalham para comer? O consenso é que não, não dá importância alguma. 

(Alain Pitton/NurPhoto via Getty Images)

Macron está perdendo o apoio do povo nas ruas e também dos oligarcas que o patrocinaram. Não está entregando o serviço que foi pago para fazer.

Macron, coelho tirado da cartola, e sua ascensão meteórica, deixam o presidente eleito com bem pouca legitimidade, tão rapidamente quanto sua imagem vai-se apagando das capas coloridas das revistas pra ricos. Com ajuda de amigos interessados, Macron inventou seu próprio partido La République en Marche, que significa praticamente coisa alguma, mas sugeriu ação. Encheu o partido com indivíduos da “sociedade civil”, quase sempre empreendedores medianos, sem experiência política, mais uns poucos que abandonaram seja o Partido Socialista seja o Partido Republicano, em troca dos principais postos do governo. 

O único recruta conhecido da “sociedade civil” foi um ativista popular ambientalista, Nicolas Hulot, que ganhou o posto de Ministro do Meio Ambiente, mas que renunciou repentinamente, num comunicado pelo rádio em agosto passado, falando de frustração.

O mais forte apoiador político de Macron foi Gérard Collomb, prefeito socialista de Lyons, que ganhou o principal cargo do gabinete, de ministro do Interior, encarregado da polícia nacional. Mas pouco depois da saída de Hulot, Collomb também anunciou que deixaria o governo para retornar a Lyons. Macron tentou fazê-lo ficar, mas Collomb renunciou, com uma declaração forte, em que falou dos “imensos problemas” que seu sucessor enfrentaria. Nos “subúrbios difíceis” das grandes cidades, disse Collomb, a situação está “gravemente degradada”: reina ali a lei da selva, traficantes de drogas e islamistas radicais assumiram o lugar da República.” Aqueles subúrbios teriam de ser “reconquistados”.

Depois dessa antevisão do trabalho por fazer, Macron ficou sem nome para o Ministério do Interior. Vasculhou em volta e afinal apareceu com um amigo pessoal que já escolhera para presidir seu partido, o ex-socialista Christophe Castaner. Com graduação em Criminologia, a principal experiência de Castaner que o qualificava para dirigir a Polícia nacional vinha de uma ligação de juventude, muito próxima, desde os anos 1970s, com um Mafioso de Marselha, ao que se sabe surgida de uma queda, de Castaner, por jogar pôquer e beber whisky em locais de jogo clandestino. 

No sábado, 17 de novembro, os manifestante mostraram-se pacíficos, mas sentiram os pesados ataques com gás lacrimogênio. No sábado seguinte, 25 de novembro, as coisas ficaram mais sérias, e no sábado 1º de dezembro, o mundo veio abaixo. Sem liderança e sem ‘segurança própria’ (militantes designados para proteger os manifestantes contra ataques, provocações e infiltrados), era inevitável que casseurs (lit. “quebradores”; mídia-empresa no Brasil já decidiu que são “vândalos”) entrassem na manifestação e se pusessem a quebrar vitrines, saquear lojas e incendiar latas de lixo, carros e até prédios. Não só em Paris, mas por toda a França: de Marselha a Brest, de Toulouse a Strasbourg. Na remota vila de Puy en Velay, conhecida por sua capela escavada numa rocha e pela tradicional manufatura de renda de bilros (fr. dentelles aux fuseax), o prédio da Prefeitura (na França, autoridade do governo nacional) foi incendiado. Foram canceladas as visitas de turistas à cidade, os restaurantes tradicionais estão vazios, e as lojas de departamentos já temem por suas vitrinas ornamentadas para o Natal. Os danos econômicos são enormes.

E o apoio aos Jalecos Amarelos permanece alto, provavelmente porque as pessoas sabem distinguir entre os cidadão realmente ofendidos e humilhados, e os vândalos que amam destruir sem ver o quê, para saquear.

Na 2ª-feira, houve novos tumultos nos subúrbios sobre os quais Collomb alertara ao se recolher de volta a Lyons. Ali passou a haver um novo alvo para a polícia nacional, cujos representantes deixaram transparecer que a coisa estava crescendo demais para seus recursos. Decretar estado de emergência absolutamente não resolverá coisa alguma.

Macron é uma bolha que estourou. A legitimidade de sua autoridade está fortemente questionada. Mas foi eleito em 2017, para mandato de cinco anos, e seu partido tem ampla maioria no Parlamento, o que torna praticamente impossível que seja destituído. 

Assim sendo, o que acontecerá? Apesar de superados nas urnas por Macron em 2017, políticos de todas as cores e bandeiras tentam recuperar as ruas – mas discretamente, porque os Jalecos Amarelos deixaram já bem evidente que não confiam nos políticos. O movimento em curso na França não visa a tomar o poder. Visa, simplesmente, a tornar possível a vida diária para grande número de franceses. O governo deveria ter ouvido a rua, aceitado discutir lealmente e fazer concessões. Quanto mais passa o tempo, mas difícil será, mas nada é impossível.

Já há duzentos, trezentos anos, gente que se conhecia como “esquerda” esperava que movimentos populares liderassem as mudanças para melhor. Hoje, muita gente na esquerda sente-se em pânico ante movimentos populares para mudar, convencidos de que “populismo” leva fatalmente ao “fascismo”. É atitude, dentre muitos outros fatos, que indica que as mudança futuras não serão comandadas pela esquerda que hoje existe. Quem tema mudanças não aparecerá para ajudar a fazer acontecer as mudanças. Mas mudar é inevitável e não significa que tenha de ser para o pior.*******



* Diana Johnstone é autora de Fools’ Crusade: Yugoslavia, NATO, and Western DelusionsHer new book is Queen of Chaos: the Misadventures of Hillary ClintonO livro de memórias do pai de Diana Johnstone, Paul H. Johnstone, From MAD to Madness, foi publicado pela editora Clarity Press, com comentário da filha. Recebe e-mails emdiana.johnstone@wanadoo.fr.
** Sobre energia maremotriz no Brasil ver COPPE, UFRJ, 2006 
É o caso de procurar saber que destino teve esse projeto, no quadro do desmonte da pesquisa e das universidades públicas no Brasil, no governo Temer-Bolsonaro [NTs].

Nenhum comentário:

Postar um comentário