domingo, 18 de dezembro de 2016

Robert Fisk: Samantha Power esqueceu os massacres cometidos em nome dos Estados Unidos

16.12.2016 - Robert Fisk, The Independent


Traduzido por btpsilveira




Quando Samantha Power falou sobre “barbárie contra civis” em Alepo, subitamente lembrei a morte dos civis palestinos massacrados nos campos de refugiados de Sabra e Chatila em Beirute, 1982, massacrados pelas milícias libanesas ligadas a Israel, enquanto o exército israelense – o mais poderoso aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio – assistia:



Lá estava Samantha Power fazendo suas ceninhas de “vergonha” na ONU. “Não há sequer um ato de barbarismo contra civis, nenhuma execução fria de criança que lhes faça pelo menos um pouco de medo?”, a embaixadora dos Estados Unidos para a ONU perguntou a russos, sírios e iranianos. Ela falava de Halabja, Ruanda, Srebrenica “e agora, Alepo”.

Estranho. Para aqueles a quem Samantha falou sobre “barbárie contra civis” em Alepo, lembrei de repente da morte dos civis palestinos massacrados nos campos de refugiados de Sabra e Chatila em Beirute, 1982, massacrados pelas milícias libanesas ligadas a Israel, enquanto o exército israelense – o mais poderoso aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio – assistia. Mas Samantha não mencionou esse massacre. Será que talvez tenha sido por que não houve palestinos mortos em número suficiente? Afinal, morreram apenas 1.700, incluindo mulheres e crianças. Em Halabja foram mais de 5.000 mortes. Mas com certeza Sabra e Chatila me assustaram, na época.


Daí, lembrei da monstruosa invasão dos (norte)americanos no Iraque. Talvez mais de meio milhão de mortos. É apenas uma das estatísticas disponíveis. Com certeza bem mais que as 9.000 mortes em Srebrenica. Posso dizer a vocês com toda a certeza que os 500.000 mortos no Iraque “me assustaram muito”, isso para não falar do medo que eu tinha das torturas e mortes que aconteceram nos centros de interrogatórios da CIA no Afeganistão e no Iraque. Mas apavorado mesmo eu fiquei ao saber que o presidente dos Estados Unidos costumava mandar prisioneiros inocentes para serem interrogados... na Síria de Assad! Sim senhor! Eles eram mandados por Washington para serem “questionados” no que Samantha agora chama de “Gulag sírio”.

Eita mundo velho divertido! Samantha, que Deus lhe abençoe, não mencionou Gaza onde muitas crianças palestinas foram devidamente massacradas pelos israelenses. Nem o Iêmen, onde os aliados mais queridos dos (norte)americanos estão arrasando os xiitas e já mataram por volta de 4.000 civis. Nem os assassinatos em massa em Mosul. Nem – e isto realmente é de cair o queixo – mencionou os acontecimentos de 9/11. Este, com certeza, foi um crime internacional contra a humanidade bom para que Samantha o citasse como a cereja do bolo do amontoado de “vergonhas” de Samantha. 3996 pessoas inocentes mortas. Coisa boa – você deve convir – para lançar na cara de russos, sírios e iranianos.


Pensando bem, melhor não. Para este crime contra a humanidade existe um pequeno problema, é ou não é? Acontece que o 9/11 foi trabalho da al-Qaeda. E na Síria a al-Qaeda mudou o nome para al-Nusra e depois para Jabhat Fatah al-Sham e – bem, é a tal de al-Sham (aliás, Nusra, aliás al-Qaeda) que está lutando contra o regime de Assad na parte oriental de Alepo. Convenhamos que é um pouco difícil, veja só, para Samantha expressar seu horror pelo mais terrível ataque desfechado contra seu país na história recente – ou falar disso como “barbárie contra civis” – quando a organização “jihadista” criminosa que cometeu este ultraje está, pois é, na parte oriental de Alepo lutando contra o exército sírio.

Logo, Samantha Power tem que pegar as mortes acontecidas em 11/09 e simplesmente jogar no lixo, porque senão não poderá nos dizer quão assustados estão os coitadinhos da al-Qaeda por causa do comportamento de seus inimigos. Bem, ela também terá que esquecer ou jogar na mesma lata de lixo os Cristãos mortos ou deportados pelo Estado Islâmico em Mosul, os Yazidis, sujeitados pelo Estado Islâmico a uma “limpeza étnica” – algo que parece ser a especialidade de Samantha, que pontifica sobre isso quando se trata da Bósnia. Na realidade, o Estado Islâmico simplesmente não existe na narrativa de Samantha, ou então estão limpos como o cordeiro de Deus.

Nós jornalistas, vamos engolindo todas estas besteiras. Qual foi a última vez que você ouviu falar sobre o catastrófico retorno do Estado Islâmico a Palmira, na última semana – com certeza uma vitória incontestável para aqueles a quem deveríamos estar derrotando em Mosul? E muitos dos atacantes de Palmira na realidade vieram de Mosul! Como podem ter feito isso quando Mosul supostamente está cercada pelo exército iraquiano e por todos aqueles “conselheiros” (norte)americanos? E por falar nisso, qual foi a última vez que você ouviu falar sobre Mosul, cercada por um exército governamental e seus aliados (exatamente como Alepo) que tenta entrar na cidade (exatamente como em Alepo) lutando contra os defensores jihadistas (exatamente como Alepo) – com a diferença que Mosul tem muito mais civis cercados dentro da cidade que Alepo?

E lá vamos nós mais uma vez trilhar o caminho já batido que deve ser percorrido por todos aqueles críticos inimigos da Síria (e dos EUA). Pois é. Bashar al Assad é um ditador, suas eleições não passam de uma farsa, suas milícias são compostas de assassinos, seu exército é implacável, suas prisões são tão bárbaras que até Washington mandou para lá seus prisioneiros para um pouco de interrogatório brutal. Na realidade já vi um relato de uma sessão na qual os interrogadores sírios acabaram por concluir que os Estados Unidos tinham mandado para lá um homem completamente inocente. Falando sério, se nós todos devemos estar assim tão “assustados” – como Samantha – então deveríamos ou não deveríamos fazer uma intervenção militar na Síria (apesar dos russos) para resgatar os lutadores da oposição?

Mas há alguns elementos estranhos na indignação ocidental – e basta olhar as atrocidades escolhidas por Samantha para descobrir onde está o gato. Porque os ataques a gás contra os curdos de Halabja foram cometidos pela força aérea de Saddam Hussein – árabes, portanto. O genocídio em Ruanda foi cometido por gente de Ruanda mesmo. Os massacres de Srebrenica foram cometidos pelas milícias de Milosevic, que era composta de sérvios. Podemos até ter “ficado de braços cruzados”, como diz o ditado – e que é exatamente o que vamos fazer em Alepo, mas nem nós nem nossos aliados cometemos as atrocidades citadas por Samantha. No final das contas ela ficou em terreno seguro, não ficou?

Também é isso o que nós europeus estamos fazendo. O presidente francês e o Parlamento Britânico – onde o antigo chanceler George Osborne soltou o seu “ai de mim” – todos lamentamos que não tenhamos feito seja o que for para evitar o sofrimento de Alepo. Aliás não temos a menor intenção de fazer seja o que for; por isso, os assentos vazios no debate de Westminster.

Penso saber o motivo – é porque esta é uma das poucas vezes nas quais não manchamos as mãos de sangue no Oriente Médio. Desta vez, nem nós nem nossos aliados – com exceção dos meninos da al-Nusra que são apoiados pelo Qatar e outros camaradas do Golfo, mas que são todos bons rapazes, os nossos rapazes – somos culpados de nada além de indiferença. È exatamente o que aconteceu em Halabja, Ruanda e Srebrenica. Nós não fizemos nada, senhor. Não fomos nós desta vez.

Assim, lance a culpa nos sírios, russos e iranianos. E nem precisa se assustar tanto. Só um pouquinho, OK?


3 comentários:

Katia M. Pimentel disse...

Mortes de civis? Ora, ela bem que podia citar Hiroshima, Nagasaki, Coréia, Vietnam, Laos, os Bálcãs ou, para ser mais atual, qualquer das dezenas de países hoje sob ataques de guerra não convencional com drones e o escambau.
Quem dera a hipocrisia fosse uma doença fatal ao hospedeiro, mas... só mata terceiros.

Unknown disse...

QUE CONSIGAMOS SUPERAR ESSA INSANIDADE.


O EUA ESTÁ SE LIXANDO PARA A HUMANIDADE

Esclareço:
O governo e o aparato instalado
O grupo de interesse representado, um pequeno punhado
Particularmente
O capital financeiro, mesclando orgias, vilania e o agir insidioso e sorrateiro
E a indústria bélica, o monstro de seis cabeças que caminha e voa pelo mar, na Internet, com os clones: a banal destruição em ação.

Armado de razões
Das cabines de caças com joystick e vídeo game
Parcela expressiva da população do Iraque dão adeus à vida
Tigris, Eufrathes, bombardeados com produtos radioativos ficam sem vida
Bagdad e um patrimônio da humanidade
Destroços se tornam em sua irreversivel ida.

Por não concordar em se subjugar
O líder da Líbia, kadafi, pela mídia dominante foi desfigurado e o telespectador enganado
Pintado como um terrorista deveria ser exterminado
Passando por cima de resolução da ONU
A OTAN, uma das seis cabeças da indústria bélica em contínua guerra
Varreu a Líbia e a maioria de sua população da face da Terra.

Foi no Afeganistão onde a guerra sangrenta acontece e
E o total de população civil exterminada, aparentemente, se desconhece
Foi no Afeganistão que uma nova e ampla ação se estruturou
O sangrento bombardeio aéreo de hospitais, como do MSN
Ato classificado como crime de guerra.

Que se alastrou em tais proporções na Síria
Que uma derrota indispensável e inapelável
Ao império se tornou inadiável.

Os pouco sobreviventes desses holocaustos sem norte ficaram
E a luz mais próxima que viram foi a Europa
Onde começa a história da trágica migração
Que chocou os habitantes de todos os continentes.

A ambição do capital financeiro
E o objetivo insano da fictícia segurança
Propagandeada pela indústria da guerra
Diversificou a ação monstruosa que pelo mundo erra.

Sem abrir mão das guerras que varreram e varrem do mapa cidades e população civil
Novos modos operacionais acrescentaram-se à ação senil
Sem abdicar das parcerias militares
Essas ações se fizeram através de pactos com o Judiciário e o Ministério Público local e o centro do poder imperial.

Com traidores instalados dentro dos Estados Nacionais independentes
Como na Procuradoria Geral da República, Ministério Público e Justiça
Órgãos de espionagem e contra-espionagem do Estado bélico
Orquestraram e organizaram golpes de Estado com recorrências
Naqueles locais onde a Independência e a não-subserviência
Se atrelavam a idéias contrárias ao neoliberalismo
O barco que determina o rumo do caminho.
José Antônio


silvio marcus barroso salgado disse...

O timinho da KILLary continua rides again!!!! Turminha do Diabo, igual sem ter que nem pôr e tirar da DIREITA que manda=governa=expropria o __braziUS__.