O "Estado Islâmico" (ing. ISIS) foi derrotado no Iraque e na Síria, apesar de ainda restarem uns poucos bolsões táticos. Mais importante, depois da decisão da comunidade internacional e dos outros países na região de pôr fim à guerra na Síria, al-Qaeda enfrenta lutas internas, tendo de, ao mesmo tempo reconhecer a derrota e aceita a impossibilidade de mudar o regime na Síria e dividir o território do Iraque. Significa que o extremismo sangrento que atingiu o Oriente Médio estaria superado e nunca mais voltará? Será que organizações terroristas sabem se auto-reformatar, inventar novasgriffesou recuperar o controle que um dia tiveram?
Aconteceu ontem uma imensa derrota do Estado Islâmico, que a imprensa-empresa "ocidental" não viu.
A milícia iraquiana Hashd e o exército do Iraque derrotaram combatentes do Estado Islâmico na refinaria de Baiji, na cidade de mesmo nome. Foi um enorme sucesso:
Filmes exibidos na TV estatal mostravam soldados iraquianos acenando com suas bandeiras dos telhados de Baiji, com grossos rolos de fumaça ao fundo.
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Baiji é a segunda mais importante área recapturada em Salahuddin nos últimos meses, com as forças pró-governo retomando a capital da província, Tikrit, em março passado, depois de semanas de disputa com militantes. retomada de Baiji pode ser um prelúdio da muito falada ofensiva sobre Mosul, que foi usada como capital de facto do EI no Iraque.
A estrada de Bagdá a Mosul corre do sul para o norte através de Balad, Samara, Tikrit e Baiji. Tikrit foi libertada em março, e a luta pela refinaria de Baiji e a cidade de Baiji não teve tréguas desde então. Agora, a vitória abre a estrada na direção de Mosul, a segunda maior cidade do Iraque e que está ocupada pelo EI.
Não é qualquer um/uma que deixa tudo e alista-se num grupo de combatentes estrangeiros para lutar contra os brutos teocráticos do Estado Islâmico. Mas é preciso ser ainda mais especial, para dar-se conta, quase sempre um pouco tarde demais, que o grupo anti-ISISescolhido tem ideologia política e religiosa tão diferente e oposta à sua, quanto a doISIS.
Em meses recentes, a mídia-empresa vive um caso de amor com norte-americanos, britânicos, australianos e outros ocidentais que se estão alistando nas forças de campo curdas para combater contra oISIS. Mas nem tudo são rosas no oeste do Curdistão.
Segundo Jonathan Krohn da AFP, muitos dos combatentes ocidentais mais motivados e entusiasmados são cruzados cristãos, decididos a derrotar os exércitos de Maomé. Mas eles rapidamente desistem da empreitada, quando se dão conta de que estão combatendo ao lado de comunistas curdos ateus:
Um veterano que deixou há sete anos o exército dos EUA, de nome Scott, disse que estava planejando unir-se aos curdos do partido "Unidades de Proteção Popular", YPG, que têm base na Síria, até descobrir que "não passam de um bando de Vermelhos sujos".
Não há como discordar: nas semanas recentes, a cada um dos movimentos de Moscou relacionados à crise na Síria, um depois do outro, quase se pode ouvir um "Xeque! Feito!" – o que deixa Washington e sua coorte de vassalos completamente desorientados, sem saber como reagir aos movimentos russos.
No centro da desorientação do 'ocidente', o que aparece aí, à frente de todos, são as espantosas, quase inacreditáveis mentiras e falsidades que se repetem sobre a Síria.
Essa semana, a porta-voz do ministério de Relações Exteriores da Rússia Maria Zahkarova desmontou a base de toda a argumentação do ocidente relacionada à Síria, com uma única proposta que, mais clara, impossível.
Zahkarova disse que, se Washington pretende continuar a insistir em que o presidente Bashar al-Assad da Síria deixe o governo, nesse caso, os EUA que providenciem para retirar sua assinatura do Comunicado Genebra 2012. E o mesmo ultimatum vale para Grã-Bretanha e França. Bingo! Xeque!
O Comunicado Genebra 2012, assinado há três anos por governos e também pela ONU, União Europeia e Liga Árabe, claramente dispõe que "o futuro político da Síria será determinado pelo próprio povo sírio".
Esse é documento oficial, que cria obrigações para todos os signatários, resultado de demoradas negociações entre Rússia, China e as potências ocidentais, e foi assinado em Genebra no verão de 2012 sob os auspícios do então secretário da ONU Annan. Na ocasião, Hillary Clinton ocupava a Secretaria de Estado dos EUA.
"Em lugar algum daquele documento fala-se ou menciona-se qualquer cláusula que determine que Assad da Síria teria de renunciar."
Aquele documento endossa um processo político de diálogo entre partidos políticos sírios, cujo resultado final terá, necessariamente, de ser decidido pelo povo sírio. E efetivamente, dois anos depois de o Comunicado ser assinado, o povo sírio votou; e, por larga maioria, reelegeu o presidente Assad para governar a Síria.
Pois atropelando a assinatura de sua própria secretaria de Estado... há quem ainda insista que "Assad tem de sair".
Praticamente todos os veículos da imprensa-empresa 'ocidental' passaram batidos, mas nós noticiamos que uma brigada de tropas regulares dos Emirados Árabes Unidos invadiu o Iêmen pelo porto de Aden. Vídeos do Iêmen mostram longas colunas de tanques Leclerc de fabricação francesa e outros modernos equipamentos dos EAU. O porta-voz dos sauditas e dos EAU declarou que apenas levavam equipamento para os iemenitas, mas é mentira. Os tanques serão certamente operados por gente com o necessário e demorado treinamento no uso desses caros veículos high tech, não por calouros recém recrutados nas ruas com poucas semanas de treinamento básico.
Depois de tomar Aden, os militares dos EAU, algumas forças de infantaria iemenita treinadas ao longo dos últimos meses fora do país e alguns grupos separatistas sulistas locais moveram-se para o norte e atacaram a base aérea de Al Anad, controlada pelos houthis e por partes do exército iemenita leal ao ex-presidente Saleh. Depois de poucas rápidas escaramuças, os houthis recuaram e as tropas dos EAU entraram na base. Na sequência, avançaram para o norte, na direção de Taiz.
Mas os militares dos Emirados Árabes Unidos não são a única força que está invadindo o Iêmen.
Mais uma vez sem praticamente qualquer noticiário no 'ocidente', uma brigada saudita invadiu o Iêmen pelo norte e avançou de Sharoah na Arábia Saudita pra o Distrito de AlAbr, e dali para oeste, na direção de Marib:
"Dúzias de tanques, blindados e veículos para transporte de soldados, além de centenas de soldados iemenitas treinados na Arábia Saudita, chegaram ao Iêmen durante a noite", pela passagem de fronteira em Wadia, no norte do país – informou à AFP uma fonte militar do Iêmen.
Avalio, sem fonte confiável, que a unidade saudita tenha o mesmo tamanho, aproximadamente, que a unidade dos EAU. Cada uma consiste de uma brigada mecanizada de 3 mil a 4 mil soldados, com vários batalhões de soldados de infantaria iemenitas recentemente treinados e com mercenários locais integrados à brigada.
O alvo estratégico desse ataque em pinça é a capital Sanaa, atualmente sob controle dos houthis. Provavelmente serão empurrados para o norte, de volta à sua província natal de Sadah.
Para a força invasora, a parte fácil já acabou. Daqui em diante será batalha, literalmente, morro acima. A capital e arredores que os militares sauditas e dos EAU terão de tomar são terreno montanhoso. As estradas são fáceis de fechar naquele espaço confinado e, como os israelenses aprenderam no Líbano em 2006, enormes tanques de combate viram pata choca, não conseguem sair do lugar e podem ser derrotados por pequenas equipes antitanques.
Há também um fator desconhecido que atende pelo nome de AlQaeda na Península Arábica [ing. AQAP], que governa, disfarçada como "Filhos de Hadramaut", aquela província oriental e a cidade-porto de Mukalla. AQAP acaba de manifestar o que pensa da cultura e da religião iemenita, fazendo voar pelos ares uma mesquita local construída há mais de 700 anos.
Há alguns meses, a AQAP recebeu armas da Arábia Saudita para atacar os Houthis, mas a lealdade da AQAP aos sauditas e aos Emirados Árabes Unidos é muito duvidosa. Há relatos confirmados de que a AQAP tomou algumas cidades próximas de Aden, e agora surgiram rumores de que a AQAP tem presença em Aden e quer tomar aquela grande cidade-porto. Os soldados dos Emirados Árabes Unidos permanecerão confortáveis, com uma AQAP incontrolável bem ali, comandando a principal linha de abastecimento deles?
A estação de fronteira de Wadia, que os sauditas usaram para entrar no Iêmen, tampouco é segura. Há cerca de um ano, dois soldados sauditas foram mortos ali, quando alguns tipos da AQAP atacaram, vindos do Iêmen.
Há também forças do Estado Islâmico no Iêmen, e um grupo alinhado com o ISIS na Arábia Saudita reivindicou o atentado suicida de ontem, que matou 17 guardas da segurança saudita em Abha, perto da fronteira com o Iêmen.
Quando se movimentarem pelas montanhas na direção de Sanaa, os soldados que estão invadindo o Iêmen não terão de evitar só as armadilhas e emboscadas preparadas pelos Houthis. Terão também de vigiar atentamente a retaguarda. Será que o "jovem general", como é tratado zombeteiramente o ministro saudita da Defesa, faz alguma ideia do caldeirão em que seus soldados estão entrando? *****
Quando a revista Foreign Policy anunciou recentemente, em artigo com o mesmo título, que "Turquia Vai à Guerra", o que queriam dizer realmente era "EUA vão à guerra". Isso, porque o longo plano que a revista expõe naquele artigo não é criação turca, mas antigo plano dos EUA, guardado na gaveta há, no mínimo, desde o início de 2012.
O artigo diz que:
Ambos, EUA e Turquia concordam que o Estado Islâmico tem de ser varrido de seu território e da fronteira turca, embora funcionários dos EUA só falem de uma "zona de facto segura", onde sírios refugiados possam encontrar abrigo contra os tiros dos Jihadis e de al-Assad.
Mas essas tais "zonas seguras" são precisamente o que a Brookings Institution, think tank norte-americano conspira para criar desde o primeiro dia do conflito sírio, sob os mais diversos pretextos – primeiro, por fingida preocupação "humanitária", semelhante à farsa que inventaram para justificar a guerra da OTAN contra a Líbia em 2011, agora usando o chamado "Estado Islâmico" (ISIS/ISIL/Daesh) como pretexto.