quarta-feira, 13 de março de 2019

Um país, duas sessões, ajustes variados, por Pepe Escobar


Congresso Nacional do Povo da China mostra o que é realpolitik sem diluição 


6/3/2019, Pepe Escobar, Asia Times


Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga



Ao contrário do que oferecem as sombrias catastrofistas interpretações ocidentais, duas sessões agora em curso em Pequim oferecem mistura fascinante de realpolitik e ativo soft power. Todos os anos, duas sessões que envolvem o Congresso Nacional do Povo (CNP, corpo legislativo) e a Conferência Política Consultiva do Povo Chinês (CPCPC, corpo político de aconselhamento) apresentam o equivalente chinês de um 'discurso do estado da nação'.

O relatório do premiê Li Keqiang reconheceu que Pequim prevê riscos "mais graves e mais complexos" e desafios previsíveis e imprevisíveis", para concluir que a China tem de estar "preparada para combater combates duros" em 2019. Foi realpolitik sem diluir.

Meta de crescimento econômico entre 6,0% e 6,5% ainda é meta de crescimento massivo em termos da expansão do capitalismo global – e não interessa o que gemam as carpideiras suspeitas de sempre sobre a "estagnação" da China, ou China mergulhada "em profunda crise".

Razão déficit/PIB definida em 2,8% – ligeiramente superior aos 2,6% do ano passado – não é problema para economia tão gigantesca como a chinesa. 

Intrigante é que "Made in China 2025" – nome completo – simplesmente sumiu do Plano de Trabalho do Governo 2019. 

Mas a política permanece – transmutada, no documento, em expansão do "inteligente plus" [ing. smart plus, expressão que designa o projeto chinês de desenvolvimento de alta tecnologia no século 21]. Ao estender os cortes de impostos às manufaturas e pequenos comerciantes, Pequim mostra que continuará, em alta velocidade, rumo ao que Li definiu como "construir um poderoso país manufatureiro" – do desenvolvimento industrial para a inovação tecnológica.

Prosperidade, estilo Sun Tzu

O ajuste à Sun Tzu é que Pequim baixará o tom da promoção pública do projeto "Made in China 2025". Ah, sim! Os chineses estão aprendendo técnicas de soft-power – e aprendem rápido. 

As principais metas de Pequim permanecem, digamos, como alvos: tirar da pobreza 30 milhões da população rural, e dobrar a renda per capita, ano que vem, em comparação à renda de há uma década, chegando assim ao tão prezado status de sociedade moderadamente próspera. Façam quantas contas queiram: essa é conquista sem precedentes, de proporção históricas.

É virtualmente impossível para o Ocidente compreender os meandros do modo como as decisões são tomadas na China. Primeiro todos são consultados – amplamente, verticalmente e horizontalmente. Depois se constrói um consenso – estratégico. Os resultados-alvo são definidos firmemente em reuniões anuais como essas duas hoje em curso, e em planos quinquenais detalhados. 

As Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE), estão amplamente planejadas até 2049. Ainda estamos na fase de planejamento; oficialmente, a implementação ainda nem começou. 

Paralelamente, os giros e viradas geopolíticas e geoeconômicas são constantemente objeto de ajustes táticos. A isso se refere a ênfase na preparação "para combater combates duros", no documento de Li. 

E aí está o desafio "que o sistema chinês concebido por Deng Xiaoping" impõe à luta de vale-tudo na lama conhecida como 'democracia ocidental'. A terminologia é irrelevante. Pode chamar de "democracia socialista" com características chinesas. O que interessa é se funciona. Para a China.

Na verdade, a terminologia sim, interessa – mas só no contexto chinês. Vejam por exemplo dixian siwei – expressão que pode ser traduzida, sem muito rigor, como "pensamento de base". Você se agarra ao que tem, conecta-se a alicerces firmes, e mantém-se "sóbria e estrategicamente focado" sempre que tiver de enfrentar novos desafios, nas palavras do presidente Xi Jinping, que se serve frequentemente desse conceito. Trata-se, sim, de uma atualização do "cruzar o rio sentindo as pedras" de Deng.

De um ponto de vista ocidental, o que pode abrir-se para amplo debate é a base fundacional do conceito: "Aderir completamente à linha política do partido". Para o bem e para o mal, ninguém encontrará qualquer outra linha no mercado, em termos de China do século 21. Uma espécie de "mantenha a calma e não pare de andar" com características chinesas. 

'Inteligente plus' conecta-se à Iniciativa Cinturão e Estrada 

Os raros analistas ocidentais bem-informados sobre a China, como Andy Rothman, dizem claramente que a China absolutamente não 'colapsará' em prazo curto. Para Rothman a situação é até simples: a China já se modificou estruturalmente, processo rápido, que se cristalizou ano passado.

Em resumo, o crescimento econômico é hoje movido pelo consumo; a economia é cada dia menos dependente de exportações; e acabou a predominância do investimento estatal.

E isso nos leva para os vetores externos – e o papel da ICE. 

Em grande medida, é uma estratégia de 'China rumo ao Oeste'. Assim Pequim enquadra conceitualmente esse movimento massivo para construir conectividade – conectividade ampliada para atravessar os escudos no Sul Global que protegem os mercados emergentes em todos os locais, contra choques provocados por algo que só a instabilidade ocidental pode construir. 

Minxin Pei, que ocupa agora a cátedra de relações com a China no Centro Kluge da Biblioteca do Congresso, está entre os que denunciam que a ICE estaria deslizando "rumo à obscuridade".

Mas não é questão de "tirar dinheiro dos aposentados chineses para construir uma estrada para lugar nenhum em terra distante" – como Pei escreveu na Nikkei Asian Review. Trata-se de a ICE servir como parceira internacional de "Made in China 2025". 

Trata-se também de Pequim oferecer uma única via, por exemplo, para os vizinhos da Ásia Central e do Sudeste Asiático – a ICE como padrão para desenvolvimento sustentável de longo prazo, e de misturar modelos econômicos híbridos industriais e agriculturais. 

E isso explica por que Pequim está-se interessando por reconfigurar projetos da ICE na Malásia, Myanmar, Paquistão ou Sri Lanka. 

Mais uma vez, dixian siwei está com o pé na estrada. É como se a Equipe Xi tivesse ouvido, baixinho, aquele famoso discurso em setembro do ano passado, de portas fechadas, de Deng Pufang, filho de Deng Xiaoping. Pufang conclamou a China a "entender o próprio lugar" e a não buscar "a dominância". Hoje se pode traduzir como "mantenha a calma e faça avançar uma estratégia 'inteligente plus'".*******

Nenhum comentário: