quarta-feira, 20 de junho de 2018

Alastair Crooke: Que sentido haveria, por hora, num encontro Trump-Putin?

13/6/2018, Alastair Crooke, Strategic Culture Foundation


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu





O presidente Trump trouxe à baila a ideia – e chegou a sugerir um convite ao presidente Putin, para que viesse a Washington. Ostensivamente, parece boa ideia: détente entre Rússia e EUA permitiria escoar a pressão geopolítica que cresce na 'retorta' cheia, já estourando nos rebites.

Uma reunião de cúpula pareceu a resposta correta – outrora. Mas a política exterior de Trump já não é a que um dia foi. E está andando de modo, pode-se dizer, inesperado. 

No nível formal, séries de documentos da política exterior e da defesa dos EUA caminharam por outra via, diferente, a começar pelo incômodo casamento dos destaques da campanha de Trump (sobre reabilitar o decadente 'cinturão da ferrugem' norte-americano', com a necessidade, para os EUA de 'vencer outra vez'); e atado pelo pé a um Conselheiro de Segurança Nacional, com a 'noiva' vestida num 'longo' à Paul Wolfowitz modelo primazia norte-americana global. E daí para uma posterior metamorfose, na qual Rússia e China convertem-se, de 'rivais e concorrentes', em subversivos ('potências revisionistas') dedicados a pôr a pique o 'lar' global – e (na derradeira formulação) bem quando os EUA renascem, reemergem, ressurgem, qual fênix dominante nuclear.

Essa progressão até a dominação não casa bem com a imagem inicial de campanha de um presidente que traria de volta os empregos perdidos, e não queria saber de aventuras militares. Imagem de campanha?! Morreu. Que descanse em paz. RIP.

De cenouras e porretes: o Império desaba

13/6/2018,Tom Luongo, Gold Goats 'n Guns


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu



Vencer sempre é importante para abusadores-provocadores. Porque, se a fraqueza deles for exposta, não podem continuar com os abusos-provocações.

Impérios não começam como abusadores-provocadores. Começam como reação ao Império anterior que se tornou abusador-provocador depois de se agarrar à húbris, não à humildade.

Perto do fim, os Impérios têm de recorrer a abusos-provocações, porque são fundamentalmente fracos. Todos se superdistenderam seguindo a depreciação da moeda, superdistensão a qual, por sua vez, degrada a vantagem cultural que a sociedade teve antes sobre o Império que se acabou.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Europa na encruzilhada: Sistema atlântico cai aos pedaços, por F. William Engdahl

15/6/2018, F. William Engdahl, New Eastern Outlook, NEO


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu:

Inscreve-se nesse quadro o golpe no Brasil-2016 – quando a CIA, operando com políticos-empresários corruptos do 'agronegócio', das 'comunicações', da Bíblia e das finanças de São Paulo e Rio de Janeiro e do crime organizado estabelecido no Congresso-BR, derrubou governo democrático eleito; e em seguida meteu na cadeia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato preferido dos eleitores em todas as pesquisas de intenção de voto para as eleições desse ano. Lula jamais cometeu qualquer crime, mas jamais desistiu de combater a brutal desigualdade social – desigualdade que, hoje
até o FMI está obrigado a dizer que combate!

Problema, aí, é o seguinte: 
CIA e seus políticos-empresários alugados têm muito mais medo de governos populares igualitaristas – que chamam em tom de desprezo de "populistas", como se ser popular fosse crime –, do que temem governos soberanistas.
O governo democrático do Brasil que a CIA derrubou sequer era soberanista no sentido bélico da disputa. No máximo, em matéria de soberanismo, era governo bolivariano, quer dizer, queria a integração latino-americana. Nosso governo Lula-Dilma não foi derrubado por ser bolivariano.

Nosso governo Lula-Dilma foi derrubado porque era igualitarista – simplesmente popular igualitarista; de fato, apenas muito docemente popular igualitarista, como Lula nunca negou, escreveu e assinou na "Carta ao povo brasileiro", em 2002.

Mas governos populares igualitaristas sejam como forem, até os mais doces, quando prosperam, estabelecem-se e criam condições objetivas efetivas para se manterem no poder. Se conseguem, pode acontecer de se tornarem cada vez mais igualitaristas e +homogeneamente bem-sucedidos e, por isso, cada vez mais elegíveis... O que pode ajudar a demonstrar – pelo menos no plano lógico-teórico libertário otimista – que democracia que realmente vise a se reproduzir democraticamente, com vistas sempre a mais ampla democratização, sempre tende ao igualitarismo.

Diferentes de governos soberanistas – que podem ser 'disciplinados' à bomba e à bala ou com Hollywood e televisão, universidades liberais e uma gangue de bispos de imbecilizamento por TV –, governos igualitaristas bem-sucedidos são praticamente invencíveis ou, no mínimo, não se deixam explorar tão facilmente, nem se deixam derrubar sem resistência.

Sem conhecer o estado terminal em que está hoje o 'sistema atlântico' que gravita em torno do EUA-dólar e do assalto às periferias do planeta, a favor 'do centro', não se pode compreender suficientemente:

(a) a ameaça existencial que as democracias nacionais igualitaristas impõem, em tese, a todo o sistema de exploração global atlanticista que gira em torno dos EUA; nem

(b) a ameaça existencial que 
um governo democrático igualitarista no Brasil (praticamente 'uma China' implantada no quintal dos EUA) impõe, muito concreta e diretamente, ao tal 'sistema atlântico'.

Em liquidação terminal, os EUA e seus financistas sionistas puseram-se a atirar para o lado da América Latina (depois, claro, de terem destruído parte considerável do Oriente Médio, mas não todo o Oriente Médio).

Os demais (B)RICS defenderam-se adequadamente. A Síria derrotou o 'ocidente' em armas, com luxuoso auxílio dos russos. A Venezuela bolivariana resiste, com auxílio luxuoso de russos e chineses. E os iranianos 
não são "liberais como Allende e Mossadegh, que a CIA derruba quando quer", como disse o aiatolá Ali Khamenei, hoje supremo líder do Irã, durante a crise dos reféns em 1979mas vale até hoje, 39 anos depois.

Nesse contexto sobraram Brasil, Argentina, Colômbia, cujos governos, mesmo quando aconteça de serem mais igualitaristas, ainda são liberais do tipo que "a CIA derruba quando quer". Então, hoje, o estado norte-americano e seus financistas sionistas dedicam-se a tentar destruir o Brasil, como destruíram a Palestina, a África, o Iraque, a Líbia, o Iêmen... 
E como também já destruíram, como se lê bem explicado, adiante, também os próprios EUA!

Afinal, os EUA foram país de imigrantes, potencialmente igualitarista, pelo menos em tese, na origem. Foram. Até serem desgraçados pelo soberanismo hegemonista ensandecido dos sionistas que ocuparam o bas-fond do fundo do poço do esgoto do estado profundo dos EUA, para onde trouxeram a grana  roubada de europeus brancos pobres (judeus, ciganos e outros pobres), grana que foi pra Wall Street e prôs cassinos e virou bancos e 'empresas de comunicação' os quais, juntos, partiram pra inventar Israel. Ao sistema assim criado e que começa agora a ruir, chama-se "Sistema Atlântico".

Nesse ponto estamos hoje. Segue a luta.
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Os eventos do mundo em dias recentes são muito mais significativos do que a divisão que todos veem no bloco das nações industrializadas, G7. Se imaginamos o planeta como um campo gigante de força elétrica, as linhas do fluxo estão em processo dramático de reordenação, com o sistema global pós-1945 baseado no dólar já entrado numa caótica fase final. As elites políticas da Europa estão hoje divididas entre a racionalidade e a irracionalidade. Os desenvolvimentos para o oriente contudo acumulam cada vez mais e mais força, e estamos assistindo às fases iniciais do que se pode descrever como uma reversão da polaridade geopolítica dentro da União Europeia, do Ocidente para o Oriente. Os desenvolvimentos mais recentes na Eurásia, incluindo Oriente Médio, Irã e principalmente entre Rússia e China estão ganhando importância – e Washington só oferece guerra, seja guerra comercial, guerra de sanções, guerra de terror ou guerra cinética.

The Saker: União Europeia pode ser parceira da Rússia?

15/6/2018, The Saker, Unz Reviewin The Vineyard of the Saker



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




A renomeação para os mesmos cargos (embora um pouco modificada) do "bloco econômico" do governo Medvedev gerou muitas explicações, umas melhores que outras. Hoje quero examinar uma hipótese específica que se pode resumir nos seguintes termos: Putin decidiu contra o expurgo de um "bloco econômico" (impopular) ativo dentro do governo russo, porque queria apresentar à União Europeia (UE) "caras conhecidas" e parceiros nos quais os políticos da UE pudessem confiar. Nesse momento, ante o comportamento insano de Trump, que acintosamente afasta praticamente todos os líderes europeus, é a hora perfeita para acrescentar um empurrão russo ao "tranco" dos EUA, e ajudar a trazer a UE para mais perto da Rússia. Ao renomear "liberais" russos (eufemismo para designar os russos aderidos a OMC-Banco Mundial-FMI e assemelhados), Putin dá à Rússia ares capazes de atrair, na medida do possível, a UE.

Iraque fraco e dividido tropeça rumo a futuro sem equilíbrio, por Elijah J. Magnier

8/6/2018, Elijah J. Magnier, Blog

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu:

"Brasília é a neo-Bagdá [pano rápido].
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EUA, Irã e Arábia Saudita todos mandaram representantes ao Iraque para apoiar a reeleição de Haidar al-Abadi. O objetivo comum, em vez de indicar Iraque estável, manterá o país enfraquecido e politicamente dividido entre os principais grupos dominantes.

Sobretudo, a decisão do Parlamento, de anular os votos de iraquianos que residem fora do país, de cancelar 954 urnas em dez províncias, e de recontar manualmente as eleições de 12 de maio criará movimento de resistência, especialmente no movimento liderado por Moqtada al-Sadr. Al-Sadr, aparentemente contando com o maior número de deputados (54 cadeiras com votos, resultado não oficial), verá nessa ação movimento dirigido principalmente contra ele, especialmente quando o grupo é acusado, dentre outras coisas, de ser responsável por grande fraude em Bagdá e no sul do Iraque.

Resultados reais do encontro Trump-Kim 'Você congela, eu congelo' (e coisas engraçadas)

14/6/2018, Moon of Alabama


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu






O que se vê depois do encontro Trump-Kim em Singapura confirma o que escrevi antes. Os dois lados assinaram um compromisso de "você congela, eu congelo" que a Coreia do Norte já oferecia desde, no mínimo 2015. Os EUA põem fim aos ameaçadores exercícios de guerra, e a Coreia do Norte suspende os testes nucleares e de mísseis. Os dois lados comprometem-se a voltar a conversar sobre um tratado de paz em troca de algum desarmamento nuclear.

Todos os golpes da CIA são o mesmo golpe - "Por que não nos agradecem?"

21/6/2012, Pankaj Mishra, London Review of Books, vol. 34, n.12, pp. 19-20 (traduzido em 15/6/2018)


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Resenha de
Christopher DE BELLAIGUE, Patriot of Persia: Muhammad Mossadegh and a Very British Coup, [Patriota da Pérsia: Muhammad Mossadegh e um golpe muito britânico], Bodley Head, 310 pp, fev.2012, ISBN 978 1 84792 108 6
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"O crescente sentimento antibritânico finalmente levou o xá Muhammad Reza a nomear Mossadegh primeiro-ministro no início de 1951. (...) Mossadegh (...) tratou rapidamente de nacionalizar a indústria do petróleo. Dezenas de milhares ocuparam as ruas para saudar os funcionários mandados de Teerã para assumir o comando das instalações britânicas de petróleo em Abadan, beijando os carros cobertos de poeira (...). O embaixador dos EUA relatou que Mossadegh tinha o apoio de 95% da população(...)"

[Três anos depois] Ao festejar a visita oficial do xá aos EUA em 1954, o Times exultava: 'Hoje Mossadegh está onde tem de estar – na cadeia. E o petróleo volta a correr para os livres mercados do mundo'."

"'Não somos liberais como Allende e Mossadegh 
[dentre taaaaaantos outros & outras, né-não?! (NTs)], que a CIA derruba quando quer' – disse o aiatolá Ali Khamenei, hoje supremo líder do Irã, durante a crise dos reféns em 1979. Até hoje [o artigo é de 2012, mas vale para junho de 2018] a história mostra que Khamenei sabe do que fala."






Em 1890, um ativista muçulmano itinerante de nome Jamal al-din al-Afghani estava no Irã, quando o então governante Naser al-Din Shah Qajar, entregou uma concessão de tabaco a um empresário britânico, G.F. Talbot, que, na prática, lhe garantia um monopólio de compra, venda e exportação. Al-Afghani chamou a atenção, sob um coro de aprovação de intelectuais seculares e também de comerciantes conservadores, que os plantadores de tabaco ficariam à mercê de infiéis, e a sobrevivência dos pequenos distribuidores, destruída. Organizou grupos de pressão em Teerã – inovação política até então desconhecida no país – que enviaram cartas anônimas a funcionários e distribuíram panfletos e cartazes conclamando os iranianos a se revoltarem. Na primavera seguinte, eclodiram protestos furiosos nas principais cidades. Ajudados pelo telégrafo, então recém introduzido no país, os manifestantes reunidos no Protesto do Tabaco – como se tornou conhecido – foram tão cuidadosamente coordenados como novamente o seriam na Revolução Islâmica de Khomeini cem anos depois, quando fitas-cassetes fizeram o papel do telégrafo e as mulheres participaram em grande número.