segunda-feira, 18 de março de 2019

Robert Bibeau:* "Capitalismo é guerra"

8/2/2019, Entrevista a Mohsen Abdelmoumen, Blog Algerie Resistence 

"Repararam que, independentemente da tendência política dos partidos políticos no poder, os programas de 'austeridade' [é ARROCHO!] são semelhantes em todo o lado?"

"Enquanto o mundo for dominado por este modo de produção capitalista financeira, seremos impotentes ante todos e quaisquer massacres de crianças inocentes" (de Suzano ao Iêmen, passando pelo Haiti e pela Palestina).
_____________________________



Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga



Mohsen Abdelmoumen: Ao ler seu livro muito informativo e empolgante, Democracia nos EUA, farsas eleitorais, não há quem não se pergunte: E há realmente democracia nos EUA? Qual é o propósito das eleições nos EUA?

Robert Bibeau: Sim, há uma verdadeira democracia, mas só para a burguesia nos EUA como em todos os países capitalistas deste mundo. É óbvio que não há "democracia" popular-proletária nos EUA nem em qualquer outro país. Você acha que um multibilionário que se integre a um partido burguês, com as relações, com o poder de pressão que tem, seu canal de televisão e seus conselhos de administração, teria o mesmo peso "democrático" que meu vizinho da casa ao lado, num partido político pseudo-socialista? Só a esquerda burguesa, mesmo, para se dedicar a fazer crer em tamanho absurdo. Os trabalhadores americanos sabem disso. Já nem viajam para votar; ou usam o poder do "diz-que-vota" ou se beneficiam de um poder eleitoral quimérico exclusivo dos ricos.

Escrevi este volume sobre a campanha eleitoral americana de 2016 (e prólogo de um compêndio da campanha de Macron em 2017), para demonstrar que essas campanhas eleitorais são vastas e dispendiosas operações para enganar a população, comprometer os cidadãos, para que, no final, a burguesia possa declarar: "Foi sua escolha democrática, pare de protestar e espere até a próxima mascarada eleitoral, quando todos os candidatos serão novamente brancos, mesmo que sejam negros".

Deixemos de inflar nossa participação, emprestar credibilidade a estas farsas eleitorais e combatamos nosso inimigo de classe em nossos locais de trabalho, nas estradas e nas barricadas e bloqueios, onde reside nosso verdadeiro poder econômico de classe, o poder demonstrado pelos Coletes Amarelos, um poder que será proporcional à nossa capacidade de impedir ou bloquear a produção de mais-valia capitalista. Nesse momento, todos veremos onde está o verdadeiro poder.

Mohsen Abdelmoumen: Os EUA não são uma plutocracia?

Robert Bibeau: Este tipo de denominação é muito popular na esquerda. Desta forma, a pequena burguesia tenta distrair-nos da única verdade sem mácula: EUA são a potência hegemônica de um mundo capitalista em declínio; e os seus "plutocratas" – a sua classe de grande capital globalizado que interliga os grandes capitalistas do mundo inteiro – estão economicamente falidos. Portanto, os EUA são hoje extremamente malignos e perigosos e, como um tigre ferido, podem desencadear o apocalipse nuclear. Se isto corresponde ao seu conceito de "plutocracia", então sim, os EUA são uma plutocracia internacionalizada que disputa a hegemonia sobre o mundo capitalista com o campo imperialista dos plutocratas chineses e russos emergentes. Ambos são inimigos do proletariado mundial.

Mohsen Abdelmoumen: Ao ler o seu livro Manifesto do Partido dos Trabalhadores [fr.], lembramos que, para um marxista, é sempre necessário fazer atualizações concretas de acordo com situações concretas. Quais são os principais desafios que a classe trabalhadora e sua liderança revolucionária enfrentam hoje, na sua avaliação, a fim de emancipar esta classe trabalhadora, do 1% que governa o mundo?

Robert Bibeau: Você pergunta por um vasto programa... Em primeiro lugar, digamos que a classe social do grande capital que efetivamente lidera o mundo mediante seus parasitas, governos e administradores excessivamente remunerados e dourados não constitui sequer 1% da população mundial, mas isso não é importante. Importante é que eles estão ligados por seus profundos interesses econômicos, que forjam e aguçam a consciência de classe deles. Além disso, essas pessoas, menos de 1% da humanidade, repitamos, que em breve terão de enfrentar os proletários precários – pequenos burgueses empobrecidos, burgueses médios rebaixados – na realidade, não levam quase nada. As leis da economia política são imperativas; o único poder do 1% é acelerar ou atrasar as decisões econômicas e políticas necessárias, impulsionadas pelas necessidades do desenvolvimento do modo de produção capitalista. 

Repararam que, independentemente da tendência política dos partidos políticos no poder, os programas de 'austeridade' [É ARROCHO!] são semelhantes em todo o lado? 

Isto explica por que os Coletes Amarelos concordaram em não confiar nem na esquerda nem na direita burguesas. "Eles são todos iguais" é um slogan que é amplamente aceito entre os Coletes Amarelos ao redor do mundo.

Você não percebeu que, durante muitos anos, nem os líderes do mundo financeiro nem os asseclas políticos foram capazes de evitar repetidas crises econômicas, repetidas quedas das bolsas, acumulação de dívida soberana, desvalorização das moedas, desemprego, desvalorização do poder aquisitivo do proletariado e tantas outras calamidades? Estes magnatas financeiros e industriais não controlam nada. Não controlam sequer a taxa de lucro das suas empresas. 

Ao contrário da esquerda, nós, proletários revolucionários, não acreditamos que os capitalistas sejam perversos e cruéis e que tenham prazer em desencadear crises econômicas nas quais muitos deles vão à falência. Neste livro Manifesto do Partido dos Trabalhadores, eu explico que o capitalista conscienciosamente desempenha um papel de classe que lhe é atribuído sob o modo de produção capitalista. E de tempos em tempos substituem-se todos esses empresários por uma nova coorte de empresários e banqueiros que nada mudariam na economia política global. É o modo de produção capitalista que deve ser abolido.

Depois de escrever o Manifesto do Partido dos Trabalhadores, convenci-me de que o partido proletário revolucionário não existirá antes da revolução proletária, ao contrário do que Lenine e os bolcheviques proclamaram (que o partido federativo nasceria no próprio curso do movimento popular insurrecional que conduz à revolução proletária). Basta lembrar todos esses pseudo-partidos de vanguarda, os chamados social-democratas e, depois, os comunistas, que se sucederam desde Marx e que só conseguiram deslocar a classe revolucionária e apresentar-se como substituto dela, para fazer da classe revolucionária como que um apêndice do poder de Estado totalitário. O partido da classe proletária revolucionária só nascerá no e mediante o movimento da classe em revolta. Tudo vem da classe e tudo volta para a classe social. Se Marx não escreveu isso, devia ter escrito.

A classe proletária deve livrar-se da influência das organizações burguesas da chamada "resistência" que a oprimem e dificultam seu desenvolvimento. A classe proletária deve livrar-se de suas ilusões sobre o Estado burguês "democrático", porque sua primeira tarefa será derrubar esse tal estado burguês "democrático". Assim sendo... por que votar em governos que será preciso derrubar? 

Finalmente, o proletariado deve resignar-se a destruir o modo de produção capitalista sem arrependimento ou remissão. Os proletários, coletivamente, têm capacidade para isso. Nesta missão de classe, o partido virá da classe e exclusivamente a serviço da classe, nunca o contrário, ou reviveremos as ilusões e decepções do poder soviético.

Quanto ao resto, o que falta à classe proletária para desencadear a revolução proletária? Faltam situação econômica e política favoráveis e consciência de classe social em sintonia com essas condições.

Mohsen Abdelmoumen: Como explica que, face a uma ofensiva ultraliberal selvagem, a classe trabalhadora tenha dificuldade para se organizar?

Robert Bibeau: A classe industrial proletária industrial mecanizada e urbanizada ainda é jovem historicamente, 200 anos de antiguidade não é muito tempo na historiografia mundial. Considere que a classe de escravos existiu por mais de mil anos e que foi finalmente a aristocracia feudal que a libertou para melhor explorá-la como servos designados para as tarefas do seigneury. O primeiro elemento a ter em conta nesta chamada ofensiva "ultraneoliberal" é que essa "ofensiva" é de fato um reflexo para defender um sistema que está ameaçado na própria existência. 

A esquerda não gosta de ouvir o que estou dizendo aqui, porque a esquerda, como a direita, gosta que o proletariado pense que o sistema capitalista poderia funcionar de forma diferente, e vir a se tornar sistema econômico de esquerda, altermundista, justo, equitativo, fraternal, solidário; bastaria para isso que eleitores alienados lhes concedessem seu voto e o pseudopoder político (estatal) com o qual esses esquerdistas poderiam realizar reformas, dizem eles, e melhorar o destino dos trabalhadores, como nos anos 60 e durante os "Trinta Gloriosos" (sic). Sempre esquecerão de assinalar que esses mesmos anos 60 levaram esse modo de produção ao impasse em que está hoje; e que essa situação era inevitável. Em conclusão, as chamadas políticas ofensivas e de austeridade [é ARROCHO!] "ultraneoliberais" são inevitáveis, inevitáveis, inevitáveis, fatais, venham elas da esquerda ou da direita da burguesia. 

É por isso que os proletários revolucionários como os "Coletes Amarelos" não são nem de esquerda nem de direita. O que impõe à classe trabalhadora um grave dilema. 

Quanto mais se aprofunda a crise econômica, mais a classe trabalhadora toma consciência de que as reformas propostas pela esquerda, pela direita, pela burocracia sindical, pela correia de transmissão do poder – pelos intelectuais, pelos guardiões do poder – são fúteis, ineficazes, ilusórias. E daí a única alternativa que se abre frente à classe trabalhadora: rejeitar e derrubar esta infraestrutura produtiva e a superestrutura social que sustenta.

Marx resume essa relação dialética entre infraestrutura e superestrutura da seguinte forma:


" [...] na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e a qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social. Não é a consciência que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência" (MARX, Karl, Contribuição a crítica da economia política. 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p.).


No entanto, a classe proletária hesita e coletivamente se pergunta se tem a força para derrubar o aparelho de Estado burguês totalitário, seu exército e seus órgãos repressivos. A revolta dos Coletes Amarelo pode ser vista como uma experiência, para verificar o grau de resistência do estado burguês e para testar a coesão e o poder da classe proletária revolucionária em ação.

Mohsen Abdelmoumen: Você estudou o movimento dos Coletes Amarelos na França em vários escritos. Na sua opinião, estamos perante um movimento revolucionário?

Robert Bibeau: O movimento dos Coletes Amarelos é um movimento popular de recusa global que expressa a frustração da grande maioria da população francesa ante a deterioração das suas condições de vida e de trabalho. Dizemos que este movimento é "popular", porque une as demandas e a resistência dos pequenos capitalistas em dificuldade, pequenos comerciantes ameaçados, artesãos precários, aposentados abandonados, estudantes abandonados, a pequena burguesia empobrecida, bem como as demandas dos desempregados, proletários alienados e trabalhadores precários.

Esse movimento populista, que reúne reformistas que só querem melhorar suas condições de vida, baixar impostos, e uma distribuição mais justa da riqueza capitalista (podem sempre sonhar), uma mudança nas políticas governamentais de austeridade [é ARROCHO!], ou uma mudança nos peões políticos à cabeça do Estado burguês – estas reivindicações são federadas com as exigências da classe trabalhadora de um aumento substancial dos salários (ou seja, um aumento do valor da força de trabalho e uma diminuição do valor da mais-valia do trabalho e, portanto, da mais-valia capitalista). Esse tipo de movimento "omnibus" [cabem todos e sempre cabe mais um], diria eu, não pode ser revolucionário. 

Mas, sim, pode estar na origem de uma insurreição popular que seria a primeira etapa de uma revolução proletária, se e somente se se a classe proletária tomar a liderança hegemônica do movimento, rejeitando a liderança pequeno-burguesa reformista e levando a luta de classes até a derrubada do poder e da máquina estatal burguesa e, portanto, ao nível da revolução social global. Só a classe social proletária pode realizar uma revolução social proletária. 

Ainda não chegamos lá, nem na França nem em qualquer outro lugar. O movimento dos Coletes Amarelos é, no entanto, um momento necessário no vasto movimento proletário revolucionário. Ele confirma todas as teses que a revista Les7duquebec.com tem promovido nos últimos cinco anos. Voltaremos a isto mais tarde.

A possibilidade de uma escalada revolucionária nos Coletes Amarelos tem sido perfeitamente compreendida pela experiente classe capitalista francesa – que tem alto nível de consciência de classe e forte coesão social. Se Macron não recebeu ordens para fazer grandes concessões aos Coletes Amarelos, é porque os cofres do Estado estão vazios e a economia, à beira da recessão. Assim sendo, Macron põe-se a falar e tenta ganhar tempo até que cheguem a nova edição da grande mascarada das eleições burguesas, como a apresentamos no prefácio de Democracia nos EUA. Mascaradas eleitorais.

Mohsen Abdelmoumen: Você acha que o movimento dos Coletes Amarelos vai-se espalhar pela Europa e pelo mundo, abrindo novas oportunidades para a classe trabalhadora?

Robert Bibeau: Em primeiro lugar, bom que você tenha proposto a perspectiva da revolução proletária ao nível europeu e mundial. A revolução social proletária será internacional, ou não será. Nessa perspectiva, os referendos nacionais (França, Alemanha, Itália, Espanha, Bélgica, Canadá) irão desaparecendo pouco a pouco, à medida que a globalização da economia capitalista e da classe proletária internacionalista se espalha. Como eu disse na pergunta anterior, o movimento de revolta popular dos Coletes Amarelos confirma a proposta que fizemos no volume: Questão Nacional e Revolução Proletária sob o Imperialismo Moderno. Para que a revolução proletária ocorra, a classe deve ter-se libertado dos preconceitos nacionalistas chauvinistas e das garras da pequena burguesia, que é particularmente apaixonada pelo nacionalismo e pela forma fascista do poder capitalista. Acreditamos que o movimento dos Coletes Amarelos, em sua forma, tem muitas características proletárias, o que desarma vermes ativos nos meios de desinformação. Assim, a ideia de recusar a designação de representantes de estrelas que os meios de comunicação pagos poderiam estipular é uma conquista de lutas anteriores. Em resumo, o momento dos Coletes Amarelos mostra claramente que a classe proletária não está privada de recursos e as boas-vindas internacionais que a iniciativa recebe o provam. Não sei se a classe proletária será capaz de fazer deste movimento seu instrumento de organização e libertação, mas a experiência já valeu a pena? Temos muito o que aprender com os Coletes Amarelos, caros camaradas das barricadas e dos bloqueios de ruas e estradas.

Mohsen Abdelmoumen: O mundo está a salvo de uma nova guerra total entre o imperialismo norte-americano, por um lado, e a China e a Rússia, por outro? Na sua opinião, a Terceira Guerra Mundial já começou?

Robert Bibeau: A Terceira Guerra Mundial está em curso, lamento informá-lo. Vamos imediatamente refutar a teoria "revisionista" dos eurocomunistas e outros esquerdistas sobre o "equilíbrio do terror". De acordo com esta teoria americano-soviética que remonta aos anos 60, que os comunistas de todo o mundo venderam, o arsenal termonuclear seria tão terrível que os poderes capitalistas não poderiam usá-lo sem destruir todo o planeta. 

Esta teoria idealista é baseada na falsa premissa de que há apenas uma forma de guerra – a guerra militar – e que a guerra militar é o fruto voluntário de estrategistas psicopatas que os especialistas pequeno-burgueses rotulam de "falcões" em oposição a "pombas", como se houvesse capitalistas maus e bons, com os quais a classe proletária deveria manter uma "coexistência pacífica"... Que estupidez! Tudo aí não passa de novelão, e visa apenas a produzir "notícias" para vender publicidade e embalar as pessoas, até as fazer dormir. 

Meu próximo livro, em preparação, explica que a guerra militar é o ato final, o resultado, das outras formas de guerra que a precedem e são chamadas: guerra comercial, guerra ideológica (propaganda e falsas notícias), guerra diplomática, guerra monetária e financeira, guerra política, etc. As grandes potências econômicas estão sempre em guerra, mesmo aquelas que se dizem aliadas. 

Os EUA não sancionaram alguns bancos franceses com pesadas multas por violarem as leis americanas a partir do solo europeu? Não responderam à União Europeia com sanções contra Google – Microsoft – Apple – Facebook pela prática monopolista? Donald Trump lançou uma guerra comercial contra a China, arrastando atrás de si o Canadá, uma guerra que ele não pode vencer, como a nossa revista Les7duquebec.com demonstrou recentemente. 

Repito: sob o modo de produção capitalista, a guerra é permanente e multifacetada e está fora do controle de empresários, banqueiros, políticos ou estrategistas militares, que apenas a supervisionam.

Aqui está outro exemplo. China e Rússia lançaram uma política comercial que descarta o EUA-dólar, sabendo muito bem que essa ofensiva "monetária" provocaria a ira do grande capital americano, que efetivamente retaliou ao punir certas empresas chinesas e empresários russos, para fazer deles exemplo para assustar os empresários de todo o mundo. 

China e Rússia não estão à procura de guerra contra os EUA, mas as suas economias não têm escolha: usar o EUA-dólar no comércio internacional é ação cada vez de mais alto risco, dada a dívida dos EUA e o enorme desequilíbrio da sua balança comercial. Muito em breve, o EUA-dólar será desvalorizado, para desgraça dos tenham reservas enormes dessa moeda. Esta medida de guerra financeira defensiva era necessária, independentemente do partido político no poder em Moscou e Pequim.

Mohsen Abdelmoumen: O que você pensa da retirada do exército americano da Síria decidida pela administração Trump?


Robert Bibeau: Diferente dos especialistas togados, não me surpreendeu esse anúncio, que a equipe de campanha eleitoral de Donald Trump sugeriu-lhe em 2016, no meio das eleições presidenciais americanas. O compromisso eleitoral de Donald Trump está registrado em nosso volume Democracia nos EUA.

Mas mais importante que isso, é entender por que essa decisão foi tomada e em que contexto internacional ela ocorreu.

Deve-se sempre começar qualquer análise política pelo estudo das perspectivas a longo prazo para a economia. E, no longo prazo, a economia americana está destinada ao fracasso. Aproxima-se queda dramática da Bolsa de Valores, pior que as quebradeiras de 1929 ou 2008: desvalorização da moeda, desemprego, hiperinflação e, finalmente, está no horizonte a grande depressão. As grandes empresas americanas já sabem de tudo isso. Por isso os banqueiros meteram uma estrela de "reality show" na Casa Branca, depois de convocarem Ronald Reagan, ator de filmes "B", para apadrinhar o colapso do império soviético. E se a economia não está indo bem, nada está indo bem. Os EUA têm tem de repensar as suas ambições militares, políticas, diplomáticas, jurídicas, jurídicas, financeiras e monetárias, para fazê-las corresponder ao seu poder econômico em declínio – como o Império Britânico teve de fazer no período entre guerras. 

Nessa perspectiva, os EUA têm de abandonar certas zonas de intervenção e reorientar seus exércitos para as próximas zonas de conflito onde se decidirá o futuro da economia globalizada. É evidente que o Médio Oriente e o seu petróleo já não são o centro da economia mundial. Os EUA fazem guerra de sanções econômicas contra o Irã, sem destacarem um único soldado para o terreno. 

O Mar da China será uma questão muito mais importante nos próximos anos. Perante a imensa China emergente, a contribuição da frota do Golfo Pérsico será apreciada por Taiwan. Cuidado às firulas norte-americano-coreanas na fronteira das duas Coreias. A Europa também será zona de intenso conflito, sobretudo do lado ucraniano. Os EUA querem impor sua hegemonia a toda a América, e Trump quer reabilitar a doutrina Monroe relacionada com seu slogan de campanha "América primeiro... aos americanos". A burguesia venezuelana pagará caro pela deserção a favor da China e da Rússia. O que a retirada das tropas americanas da Síria, do Iraque e, em breve, do Afeganistão significa é isso, outras guerras.

Mohsen Abdelmoumen: Como avalia a aliança estratégica entre a Arábia Saudita e Israel? Por que razão Israel continua a massacrar impunemente palestinos?

Robert Bibeau: Há já algum tempo o Pentágono prepara-se para a retirada das tropas americanas do Médio Oriente. Antecipando essa retirada, Donald Trump, capanga do Pentágono na Casa Branca, recebeu a missão de resolver a questão palestina – como a nossa revista revelou em Fevereiro de 2017 –, oferecendo o "negócio do século" à burguesia palestina, que está muito interessada com a oportunidade, que quer aceitar, mas sem se desmascarar. O objetivo do Pentágono é reduzir a pressão sobre a sua base militar israelita no Levante, especialmente depois que o Hezbollah e o Irã fortaleceram-se, com a guerra síria. Por outro lado, Trump sugeriu a criação de uma OTAN do Oriente Médio incluindo a Arábia Saudita, os Emirados Árabes, Qatar, Jordânia, Egito e Israel, para reforçar Israel antes de os EUA retirarem-se do Levante. Estes projetos e planos de guerra sofrerão o mesmo destino que a famosa trama sionista para criar o "Novo Grande Oriente Médio do Caos" vendida por "especialistas" ocidentais no Pentágono.

Normalmente, esses grupos subestimam o adversário e são baseados na alegação de que o poder militar americano seria ilimitado. São argumentos que já se ouvem desde o Vietnã. 

Quem queira conhecer o futuro do Médio Oriente, tem de conhecer o que dizem Vladimir Putin, Erdogan, Rouhani, Hezbollah e Bashar al-Assad, e parar de dar ouvidos ao Quai d'Orsay, Londres ou ao Pentágono.

Mohsen Abdelmoumen: Quais são as causas profundas do apoio dos EUA à entidade sionista e criminosa de Israel?

Robert Bibeau: Você deve saber que nós, proletários materialistas, não damos crédito à teoria de que haveria uma grande trama judaica contra a humanidade. Para nós, a história da humanidade é a história da luta de classes. 

As leis da economia política têm precedência sobre tudo. Mais cedo ou mais tarde, um grupo financeiro ou um Estado acaba por fazer o que ordenem os seus interesses econômicos, mesmo que fazendo-crer que estaria deixando de lado o próprio interesse.

Exatamente em 1967, os EUA, que se tinham mostrado bastante indiferentes a Israel – prova de que até esse amor "eterno" começou em data e circunstâncias conhecidas e terá fim – decidiram, após a vitória militar de Israel na Guerra dos Seis Dias, fazer deste pequeno país belicoso a peça central do seu jogo no Médio Oriente, onde EUA tinham interesse em conter as ambições coloniais francesas, britânicas e soviéticas. Deve-se lembrar que, naquela época, todos os estrategistas concordaram que quem quisesse controlar o recurso estratégico do petróleo tinha de ocupar territórios militarmente, ou pelo menos ameaçar convincentemente. 

Hoje, qualquer corretor da bolsa faz 'palestras' para ensinar que quem quiser controlar o petróleo tem de comprar ativos das companhias petrolíferas e ser capaz de influenciar o preço do barril.

Assim, Israel – estado fantoche a serviço do imperialismo franco-britânico –, mudou 'de lado' e plantou-se, por algum tempo, como se fosse a "polícia" do império americano no Oriente Médio. Hoje, Israel não tem condições para desempenhar esse papel de guardião, que, além do mais, já não é necessário na economia financeira globalizada. Assim, a burguesia israelense, repentinamente irada, ficou nervosa. Pergunta-se se fez bem ao martirizar o povo palestino, agora que os EUA, protetor todo-poderoso de Israel, dá sinais de desinteressar-se das atrações estratégicas. 

Se eu fosse israelense de fé judaica (eles são uma minoria em Israel), eu consideraria seriamente a possibilidade de sair de lá para sempre. Não sei se AIPAC ainda pode protegê-los. A imunidade e a impunidade para os crimes de Israel aproximam-se do fim. É a minha impressão.

Mohsen Abdelmoumen: Como explica o silêncio ensurdecedor do mundo face ao crime cometido pela Arábia Saudita e seus aliados contra o povo do Iêmen?

Robert Bibeau: Por favor, não diga "silêncio do mundo". O "mundo" só têm bem poucos meios para obter informações, e ainda menos meios para intervir na tragédia do Iêmen. Tampouco dispunha de meios para intervir nas tragédias do Iraque ou da Síria. É importante estabelecer corretamente as responsabilidades. 

A tragédia do povo iemenita é outra dessas tragédias humanas e sociais, consequência da hegemonia desse modo de produção capitalista que corrompe tudo. O que fazem as organizações internacionais ante do genocídio de crianças iemenitas perpetrado por um Estado bandido, cujos príncipes-polichinelos não hesitam em decapitar e desmembrar um antigo servidor que passou para a oposição? 

O grande capital internacional não se importa com o Iêmen, terra de miséria, que nem petróleo tem. Então o príncipe Mohammed Ben Salman pode divertir-se por lá, enquanto a imprensa, em troca, vira a cabeça para não ver o insuportável. As ONGs financiadas não fazem melhor. 

Enquanto o mundo for dominado por este modo de produção capitalista financeira, seremos impotentes ante todos e quaisquer massacres de crianças inocentes.

Mohsen Abdelmoumen: Num dos seus artigos muito interessantes, como todos os seus escritos, você faz uma pergunta fundamental: por que a Segunda Guerra Mundial não provocou a Revolução Proletária? Como explica que, mais de 70 anos depois de fascismo e nazismo terem sido derrotados, em vez de revolução proletária, tenhamos neonazis e fascistas de volta ao poder na Europa, em países como a Áustria, Itália, Hungria, etc.? Qual é o papel exato do grande capital no ressurgimento dos movimentos neonazis e de extrema-direita na Europa?

Robert Bibeau: Deve-se entender que na sociedade capitalista burguesa tudo é controlado, regulado e administrado pela classe dominante – a burguesia. Nada escapa ao controle da burguesia. Se os partidos neofascistas aparecem, é porque a burguesia quer. Hitler, Mussolini, Franco não foram acidentes da história, mas fruto da necessidade de sobrevivência do capital mundial.

A primeira questão é, portanto, entender por que o grande capital internacional está tendo de rasgar pelo menos uma parte de sua máscara de virgindade pacifista, democrática, demagógica, e está sendo obrigado a mostrar seu verdadeiro rosto belicista, fascista, hediondo e assassino, pronto a destruir até o último proletário, numa guerra impiedosa.

A segunda questão é compreender o papel dos pequenos grupos fascistas e antifascistas (como os comunistas na década de 1930), nesta fase preparatória e complementar de uma nova fase da guerra competitiva permanente entre os diferentes campos capitalistas. Estamos assistindo a um remake do cenário dos anos 30?  Sim e não. Alguns elementos concordam e outros são diferentes. 

Seguindo caminhos diferentes, creio que estamos num momento em que se tornou necessário repensar a tática do "fascista versusdemocrático-antifascista". Considere o discurso de um burguês de boteco chique, típico esquerdista americano antifascista "democrático". 

Os escritos de Noam Chomsky contribuem para tornar crível este cenário complicado, e para torná-lo 'palatável' para pequena burguesia do mundo. O importante para a burguesia não é que o fascismo se alastre, mas que o proletariado jamais se una contra o grande capital internacional, inimigo comum de burgueses e proletários. Por conseguinte, é necessário apresentar adversários alternativos aos proletários. Em 1939, os espantalhos Hitler, Mussolini e Hirohito opuseram-se aos polichinelos Churchill, Roosevelt e Stálin. No entanto, do lado da mídia paga e seus mestres do grande capital, esquecemos que hoje o proletariado beneficia-se da experiência da década de 1930. Que o proletariado evoluiu muito desde aqueles anos de grande depressão. Além disso, o modo de produção capitalista aproxima-se agora do pico e, mesmo, já está em declínio em alguns aspectos, o que muda muito a situação.

Eis como os camaradas de Nuevo Curso resumem a situação contemporânea:


"Nas condições atuais, as organizações e seitas que perpetuam a tradição interclassista, pró-capitalista e autoritária do fascismo clássico podem cumprir as funções de supervisão do proletariado (como em 1923-1939, observa Robert Bibeau), disciplinando-o e equipando-o com novos trajes patrióticos. Às facções burguesas, não interessam esses vestígios ou tendências adjacentes à extrema direita. Tampouco interessam às facções burguesas as seitas neoliberais, abertamente repressivas, machistas e conservadoras. 

Nesse quadro, o novo fascismo (neofascismo), como o antigo, é agitado contra as "elites" representativas dos setores mais obsoletos da burguesia estatal e da pequena burguesia em declínio. Mas o neofascismo tem interesse em mostrar como suas as bandeiras populares, porque parece "revolucionário" – de um novo grupo interclasses supostamente "democrático", "igualitário" e, claro, "patriótico". 

Ou seja, o fascismo estatal é o primeiro que passa a mão na bandeira do antifascismo contra a reação bárbara e assustada de sua própria classe burguesa: assim, o fascismo estatal gera as condições de sua possibilidade".


Mohsen Abdelmoumen: Quando vemos a redistribuição da OTAN em torno da Rússia, podemos dizer que a Guerra Fria terminou?

Robert Bibeau: A guerra comercial intercapitalista competitiva é permanente. Nunca parará, enquanto o capitalismo sobreviver. Há circunstâncias em que esta guerra assume formas militares mortais. Noutras ocasiões, assume a forma de guerra latente suave – fria – e, finalmente, como neste momento, esta guerra permanente intensifica-se em preparação para um novo grande conflito mundial, quando os campos imperialistas se confrontarão, para novamente distribuir entre eles os mercados mundiais. Então, sim, pode-se dizer que a guerra fria continua entre o campo ocidental e o campo russo-chinês.

Mohsen Abdelmoumen: Por que você acha que os EUA e seus aliados ocidentais nunca combateram terroristas? A Al-Qaeda e o Daech servem aos propósitos do império? O imperialismo precisa do terrorismo, como precisa de guerras, para sobreviver?


Robert Bibeau: Afirmar que o grande capital "precisa" do terrorismo e da guerra para sobreviver é simplificar: livra-se de qualquer responsabilidade o modo de produção capitalista. E é ele o responsável. E é confundir a todos quanto ao que são a luta de classes, a história e os modos de produção social. Com efeito, as potências imperialistas de todos os lados criam e alimentam grupos terroristas que não sobreviveriam uma semana sem esse apoio ativo. A guerra do Ocidente contra a Rússia, na qual a Síria foi martirizada, provou precisamente isso. 

Mas mais importante a entender é que o capitalismo é guerra. Que a guerra não é 'resultado' dos planos maquiavélicos de alguns banqueiros traiçoeiros ou de "falcões" raivosos. Os falcões são chamados, porque são necessários. O princípio da competição pelos mercados, que é a base do capitalismo mercantil, carrega a guerra, digamos, no próprio DNA, guerra local, regional, terrorista, "jihadista", religiosa, étnica, racial, comercial, financeira, monetária, diplomática, legal e, finalmente, militar e global. 

Essa é verdade que é preciso compreender: a guerra é a concubina preferida do capital; enquanto o capital reinar nesta terra de miséria, o destino de todos nós será a guerra, inclusive dos capitalistas.

Mohsen Abdelmoumen: A burguesia comprador é um perigo real em alguns países como a Argélia. Na sua opinião, uma das principais tarefas não seria neutralizar esta burguesia comprador, para evitar a desestabilização imperialista? Não seria essencial neutralizar os agentes internos ou a 5ª Coluna ligada ao imperialismo, para salvaguardar a soberania de cada nação?


Robert Bibeau: No meu volume "National Question, Proletarian Revolution under Modern Imperialism" explico que nenhuma nação é soberana – nenhuma – nem mesmo a nação americana.

Em artigo recente, "África 2019, nunca libertada – sempre neocolonizada e cobiçada", nossa revista resume nos seguintes termos o problema africano:


"Na África, as potências imperialistas erigiram cerca de cinquenta Estados nacionais fantoches, cuja governação atribuíram a incensadores nacionais e nacionalistas – tendo grande cuidado em manter um ou mais lacaios de reserva para cada país – todos dispostos a vender-se e a tecer uma guerra de "libertação nacional" (sic) ou um golpe de estado palaciano – contra o exército (cujos oficiais são formados na França metropolitana), ou à frente das facções criminosas dos "revolucionários" barbudos de sempre. Isto, em poucas palavras, que resume os últimos cinquenta anos de evolução política deste continente mártir, todos intercalados por guerras fratricidas, genocídios, massacres sem número e fome endêmica. Todos estes jacobinos e o nacionalismo racista e reacionário só foram possíveis porque estes Estados-nação emergentes ainda não possuíam nem qualquer pequena burguesia coerente nem classe trabalhadora substancial. Isso mudou rapidamente desde que este continente tornou-se campo de batalha entre os dois principais blocos concorrentes (China-Rússia-OCS) e (EUA-OTAN).

Só o corajoso e experiente proletariado argelino, consciente das suas responsabilidades históricas, pode libertar o povo argelino dos seus demônios nacionalistas chauvinistas, capitalistas compradores, burguesia industrial, comercial e militar, e dos seus apparatchiks estatais. O proletariado afro-argelino não pode contentar-se com deixar pela metade o trabalho de libertação social. Não basta desalojar uma facção do grande capital para deixar brotar outra, não é boa estratégia, como nos ensina a história da Argélia e do Canadá. É o modo de produção capitalista burguês que tem de ser revertido, independentemente da máscara com que se cubra hoje. Quanto mais o proletariado argelino desenvolve-se, mais se internacionaliza e mais insensível torna-se às quimeras da soberania nacional.

Mohsen Abdelmoumen: Segundo você, já não é vitalmente necessário ter uma frente mundial anti-imperialista e anticapitalista, que levante as esperanças das pessoas contra a oligarquia que controla toda a riqueza do mundo?

Robert Bibeau: Pense na história do Ocidente de 1919 a 1945. Foi o tempo das Frentes Unidas, das Frentes Populares, das Frentes Comuns, de toda a esquerda fraterna, da Terceira Internacional à frente, reunidas numa comunhão de solidariedade para enfrentar o ogre fascista ou militarista e o espectro nazi... E em que deu tudo isso? Deu numa guerra mundial imperialista, na qual o proletariado mobilizou-se de um lado, para defender a nação germânica ou italiana ou japonesa em perigo, numa guerra de massacre contra o proletariado francês, britânico, belga, americano, canadense, argelino, defendendo os interesses do capital nas nações "liberais", numa vasta frente unida de sabujos nas frentes de extermínio militar. Não será hora de uma frente internacionalista proletária – exclusivamente proletária –, para nos livrar do capitalismo em agonia?*******

Notes



* Robert Bibeau é jornalista e autor, canadense, vivendo em Montréal. Economista e analista político da esquerda revolucionária, Robert Bibeau dirige a revista de economia política internacional Les7duquebec.com.

Nenhum comentário: