domingo, 15 de outubro de 2017

E o Comunismo? Morreu mesmo?

12/10/2017, The Saker, Unz Review The Vineyard of the Saker






[ATENÇÃO: Excluíram-se da tradução desse artigo uns poucos trechos/repetições que nos pareceram muito enviesadas (p. ex: "se o Comunismo terminou formalmente na Rússia em 1991, os chineses também se afastaram silenciosamente dele, substituindo-o por uma modalidade tipicamente chinesa de Capitalismo" e/ou "Até o Comunismo chavista resultou em completa bancarrota da Venezuela": não são comentários factuais, nem são passos essenciais para desenvolver o argumento. 
As exclusões estão marcadas com "(...)" no texto abaixo, para que os trechos excluídos possam ser localizados e lidos no original.
Fazemos assim o que nos parece ser honesta tentativa para conhecer a posição que tem, sobre esse tema, um dos mais interessantes autores brotado na blogosfera, que tantas vezes citamos e repercutimos, e fonte pródiga de saberes que não há no Brasil sobre a Rússia e o Oriente Médio no século 21. Ao mesmo tempo tentamos não nos deixar enredar no discurso anticomunista vicioso da Guerra Fria [NTs]).





(...)
Comunismo – o passado:


Para começar, nunca houve "colapso" da União Soviética. A URSS foi desmantelada de cima para baixo pelos líderes do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) que decidiram que a nomenklatura soviética dividiria o "bolo" soviético em 15 fatias menores. O que aconteceu depois foi resultado da luta interna entre aquelas facções. Dado que ninguém jamais elegera aquelas gangues de apparatchiks do Partido para legitimamente dissolverem a URSS nem, de fato, para reformá-la fosse como fosse, as ações dos líderes soviéticos naquele momento devem ser descritas como golpe totalmente ilegal.


Todos eles ali, a começar pelas gangues de Gorbachev e Eltsin traíram o próprio partido, o povo russo e a Rússia. Quanto ao povo, só uma vez o povo soviético teve direito de manifestar a própria opinião, dia 17/3/1991, quando impressionantes 77,85% dos russos votaram a favor de



preservar "a URSS como federação renovada de repúblicas igualmente soberanas, na qual os direitos e liberdades do indivíduo de qualquer nacionalidade serão plenamente garantidos" (lê-se uma boa discussão daquela votação há tanto tempo esquecida, traduzida em Blog do Alok"Recordação de um referendum fútil" [NTs]).

Não houve colapso. Houve golpe ou, para ser ainda mais preciso, houve uma sequência de golpes, todos executados por traidores dentro do aparelho do Partido, em total ilegalidade e contra a vontade do povo. (Haverá quem rejeite o fato de que o Partido Comunista estivesse cheio de traidores. Estava. Mas não implica que o Comunismo só gere traidores. Nem o Cristianismo gera só traidores, nem democratas são todos mentirosos, nem todos os fascistas nunca renegam o fascismo).


Em segundo lugar, será o Comunismo uma ideologia viável? Para começar a discussão temos de saber que há duas escolas de pensamento sobre esse tópico dentro da ideologia marxista. Uma diz que o Comunismo é possível e realizável num só país; a outra diz que não, que para que o Comunismo seja possível é necessária uma revolução mundial. Deixemos de lado por um momento a primeira dessas escolas de pensamento, e consideremos só a segunda. 


Será complicado, de qualquer modo, porque só temos, para examinar e avaliar da correção empírica do Comunismo, uma lista relativamente curta de países. Já quase ouço as objeções "Como assim?! Será que Rússia Soviética, China de Mao, Kampuchea de PolPot e, digamos, a RPDC de Kim Il-sung não bastam?!" Não. Na verdade, não bastam. 


Para começar, segundo a ideologia soviética oficial, o Comunismo como tal jamais chegou à plena realização na URSS, só o Socialismo. Por isso o país chamou-se União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O Comunismo era a meta a alcançar; o Socialismo, uma fase transicional, intermédia, inevitável. Dizer que o Comunismo falhou na URSS é tão pouco lógico quanto dizer que um prédio em construção, ainda sem teto, garantiria abrigo suficiente e confortável. 


China tampouco "falhou". O Kampuchea de Pol Pot foi tentativa também de construir uma sociedade comunista quase do dia para a noite, mas essa pressa também contradiz a Teoria do Materialismo Histórico/Dialético do Marxismo, que ensina que a fase de transição socialista é necessária. Quanto à RPDC, a ideologia ali não seria Marxismo nem Comunismo, mas a Juche, prima distante. Assim sendo, esses poucos exemplos absolutamente não representam coisa alguma de relevante, dentre outros motivos porque amostra tão pequena é necessariamente irrelevante e porque nenhum desses casos passa pelo teste que define um "caso exemplar".


Agora, de volta ao item "o Comunismo é impossível num só país", analisemos de um ponto de vista ideológico à EUA puramente vermelho-azul-e-branco, e consideremos que os proponentes do capitalismo à norte-americana gostam de repetir que a corrida armamentista de Reagan teria levado a União Soviética à bancarrota, por não a ter podido acompanhar. Outros orgulhosos patriotas norte-americanos também gostam de dizer que, ok, os EUA derrubaram o preço do petróleo, impossibilitando assim que os soviéticos continuassem a gastar, e que a essa derrubada dos preços caberia o mérito pelo colapso da economia soviética.


Pessoalmente, esses argumentos me parecem estúpidos e arrogantes, mas aceitemos ambos como se fossem verdade autoevidente, só para argumentar. Esses argumentos mostram que a URSS entrou em colapso muito mais por fatores externos, não por alguma falha interna inerente. Certo? 


O adestramento moderno (não chamo isso de "educação") não estimula os estudos de lógica, o que me obriga a argumentar com uma pergunta retórica: aceitar que o Capitalismo ter derrotado o Comunismo provaria que o Comunismo não era viável ou provaria que o Capitalismo foi-lhe superior? Aos muitos que (infelizmente) responderão "sim", digo que não. E sugiro que, se se prendem uma hiena e um ser humano numa gaiola e os obrigam a lutar por recursos, é difícil que o ser humano saia vencedor. Isso não prova que o ser humano não é viável nem que a hiena lhe é "superior".


O Marxismo-Leninismo afirma claramente que o Capitalismo ergue-se sobre a opressão dos mais fracos, e que o Imperialismo é a fase superior do Capitalismo. Não precisamos concordar com esse argumento (embora eu concorde fortemente), nem podemos descartá-lo simplesmente porque não gostamos dele. De fato, argumentarei que desaprovar o que aí se lê pode vir a ser elemento chave de qualquer refutação séria do Comunismo. Mas para encurtar a conversa, direi só o seguinte: qualquer pessoa que tenha viajado pela Ásia, África ou América do Sul verá e poderá atestar que os Comunistas (URSS, China, Cuba) realmente distribuem quantidades imensas de ajuda, inclusive matérias primas, tecnologias, especialistas, médicos, conselheiros, agrônomos, engenheiros de distribuição de água e esgotos, etc. Mas pergunte a qualquer um naqueles continentes, o que o Capitalismo lhes dá, e só ouvirá uma resposta, única, de todos os lados: violência, exploração e muito apoio às gangues Compradoras governantes locais. A quem conteste esses fatos, só posso recomendar uma coisa: saia de casa e parta para conhecer o mundo.

[BARRA LATERAL: Ah, sim, ter usado uma hiena como símbolo do Capitalismo no exemplo acima é perfeitamente adequado e justo. Quanto à 'gaiola' – é o planeta Terra. A mim parece errado pretender que o Comunismo seja um ser humano. Mas isso, nesse ponto de nossa conversa, é minha pessoal opinião privada, não algum tipo de argumento. Fui anticomunista durante toda a minha vida, e assim continuo; mas isso não é razão pela qual eu tenha de aceitar qualquer argumento anticomunista logicamente falho e contrafatual.]

Nesse ponto de qualquer conversa, meu interlocutor capitalista típico põe-se a cacarejar slogans mais curtos ou mais longos, como "cara, nos países comunistas as eleições são fraudadas, já esqueceu as pessoas dos botes de exilados, os Marielitos ou as pessoas escalando e pulando o Muro de Berlin?" ou "todos os países do Leste Europeu, sem faltar um, rejeitaram o Comunismo no instante em que os tanques soviéticos saíram de lá – Será que isso não lhe diz algo sobre Comunismo?". Em geral quem diz isso exibe um brilho especial no olho, a certeza do pré-triunfo, do triunfo inevitável, e assim é especialmente prazeroso examinar a cara deles depois que se desmontou toda essa bobagem.


Comecemos pela 'fraude' nas eleições. Absoluto nonsense. Sim, é verdade que alguns fugiram, sim, das sociedades comunistas. Mas a ampla maioria não fugiu, mas ficou. E por favor não me venham com aquela da "a família foi sequestrada e é refém" ou então "a polícia secreta lá estava, em todos os locais, para impedir fugas". Não. A verdade é muito mais simples:


Do lado do "empurra": Todas as famosas ondas de emigrantes das sociedades comunistas estão ligadas a crises profundas naqueles países, que tiveram muitas causas, inclusive causas externas.


Do lado do "puxa": Em todos os casos sempre houve um poderoso sistema de propaganda ocidental, usado para convencer as pessoas a emigrar e prometendo "leite e mel" se fugissem.


Lamento se tenho de destruir algumas das ilusões ingênuas de um ou outro leitor. Mas, como alguém que trabalhou durante vários anos como tradutor-intérprete, entrevistando candidatos à condição de refugiado político, posso atestar que a maioria dos refugiados políticos nada têm de políticos: praticamente todos são refugiados econômicos, e uns poucos são refugiados sociais, o que significa que determinadas circunstâncias pessoais os levaram a decidir que partir seria melhor que ficar. 


Entrevistei centenas de refugiados da União Soviética, e as histórias que contavam sobre repressão eram cômicas, principalmente para mim, que sabia como realmente funcionava a repressão política, muito real, na União Soviética. Aos que digam que, bem, o Comunismo inevitavelmente resulta em crise econômica, limito-me à demonstração acima sobre o pouco – ou nada – que se pode concluir a partir dos poucos exemplos de sociedades marxistas que a história oferece.

[BARRA LATERAL: Diferente de 99,99% dos leitores que leem essas palavras, eu realmente passei muitos anos da vida como conhecido ativista anti-soviético. Viajei a muitos portos onde havia navios soviéticos ancorados para distribuir literatura anti-soviética, fiz listas de endereços onde moravam diplomatas soviéticos para meter documentos nas respectivas caixas de correio, ajudei a mandar dinheiro para famílias de cristãos ortodoxos nas prisões soviéticas e campos de trabalho, organizei contatos ilegais com cidadãos soviéticos que viajavam pelo mundo (caminhoneiros, artistas, engenheiros navais, sacerdotes, circos – de tudo). E também fiz coisas que ainda não posso discutir publicamente. Nunca participei de ação violenta mas, tirando isso, fiz de tudo que pude no campo da guerra ideológica para derrubar o Comunismo na Rússia.
Resultado dessa atividade, a KGB (hoje defunta) listou meu nome como perigoso agente provocador e postou minha foto em específicos gabinetes soviéticos pelo mundo (como o Sovhispan na Espanha) para alertar sobre a minha pessoa. Devo dizer a vocês a verdade: a maioria dos cidadãos soviéticos que não gostavam do sistema soviético jamais sequer tentou emigrar. Não porque tivessem parentes 'tomados como reféns' ou por causa da "todo-poderosa KGB", mas pelo simples fato de que é possível amar o lugar onde você nasceu, mesmo odiando o regime que esteja no poder. Pior ainda, muitos dos que realmente saíram de lá (e pessoalmente ajudei vários deles a sair) viveram como miseráveis no ocidente; em menos de um ano todas as ilusões deles haviam sido destruídas, e só lhes restou, para sempre, uma invencível nostalgia. Por essa razão, eu pessoalmente sempre aconselhei os que pude aconselhar, a nãoemigrar. Se insistiam, alguns emigraram, ajudei no que pude. Mas sempre aconselhei a não vir. Agora, tantos anos depois, ainda acho que fiz a coisa certa].

Por fim, quanto aos "aliados" soviéticos no Leste da Europa, a rejeição que manifestam contra o Comunismo é tão lógica e previsível quanto o movimento deles a favor do Capitalismo, da OTAN, da União Europeia e o resto todo. Eles ouviram, por décadas a fio, que o ocidente vivia em paz e prosperidade, enquanto lá eles viviam oprimidos e na miséria, e que a culpa de toda aquela infelicidade seria dos russos. O movimento deles, de correrem a abraçar o Império Norte-americano no instante em que tiveram a chance, foi tão previsível quanto ingênuo. 


Não esqueçamos que a história é escrita pelos vitoriosos, e só o tempo saberá realmente dizer que legados o Comunismo e o Capitalismo deixarão no Leste Europeu. 


O que se sabe é que, ainda que a ocupação soviética do Afeganistão tenha resultado em guerra viciosa horrenda, e ainda que o povo afegão também pareça ter abraçado o "suave patrocínio" por EUA e aliados, as coisas já estão começando a mudar. Os anos de governo secular e até a ocupação soviética começam agora a ser revisitados por número crescente de historiadores e analistas afegãos, que veem as coisas agora de modo muito mais nuançado do que veriam no passado. 


Uma simples comparação da vida diária dos afegãos antes e depois da invasão soviética, ou lista comparativa do que os soviéticos e os norte-americanos construíram de fato no país, já contará história muito diferente (até os norte-americanos usam ainda hoje vários prédios construídos pelos soviéticos, inclusive a hoje já infame base aérea de Bagram). Atenção ao que estou dizendo aqui:


Não estou fazendo qualquer apologia da invasão soviética. Estou dizendo apenas que a sabedoria de "abraçar o outro lado" não pode ser avaliada logo no ano seguinte de alguma 'troca' de posição e realinhamento. – Às vezes são necessárias várias décadas e até mais, para que se possa ter avaliação equilibrada do que realmente aconteceu.


Meu ponto em tudo que acima se lê é simples: a máquina imperial oficial de propaganda (codinomes "a mídia" e "o sistema educacional") tentou apresentar uma narrativa simples sobre o Comunismo quando, na realidade, até uma escavação bem superficial, que só avance um pouco abaixo dos slogans, já mostra que as coisas são muito, muito mais complicadas que a narrativa crua, compreensível e falsa que nos impingem.


Comunismo – o futuro:


Nesse item já vou logo mostrando minhas cartas, e declaro que creio e até espero que o Comunismo não esteja morto. De fato, acredito que ainda tenha futuro duradouro e dos mais interessantes. Explico por quê.


Primeiro, a ideologia Comunista como tal, jamais chegou a ser amplamente derrotada, se não por outras razões, simplesmente porque não surgiu qualquer ideologia comparável em amplidão e profundidade dos objetivos e que desafiasse a ideologia Comunista. De ideologia que refutasse ou substituísse o Comunismo, então, nem se fala. 


Para começar, o Comunismo é construção intelectual *gigantesca*, e abalar apenas uns poucos "pavimentos superiores" de modo algum ameaça a estabilidade de todo o edifício. Consideremos um exemplo simples: o slogan marxista "De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades." Marx popularizou a frase, que parece não ser invenção dele. Algumas fontes dizem que o autor seria August Becker em 1844, ou Louis Blanc em 1851 ou Étienne-Gabriel Morelly, 1775. Outras dizem que a frase é de Pierre-Joseph Proudhon, mas em versão ligeiramente diferente: "De cada um segundo suas habilidades, para cada um segundo seu trabalho ".


Essa segunda foi a versão aceita na URSS como aplicável à fase de transição socialista na trilha até a plena realização do Comunismo. E há também, claro, a famosa frase de São Paulo no Novo Testamento, "se alguém não quer trabalhar, que não coma"(Tessalonicenses 3:10), além das palavras do próprio Cristo "a cada homem segundo sua habilidade" (Mateus 25:15). 


Tudo isso se torna rapidamente muito complexo, mas a complexidade não é desculpa para ignorar um dos pilares fundacionais do Marxismo-Leninismo. E há muitos desses pilares chaves, porque o Comunismo não pode ser compreendido, imagine se se poderá avaliá-lo, sem discussão muito ampla do Materialismo Dialético, ele mesmo adaptação da dialética de Hegel à historiografia, a qual serve como fundamento para o Materialismo Histórico que, por sua vez, oferece crítica também ampla da natureza do Capitalismo. 


Há boa razão pela qual qualquer boa biblioteca sobre Marxismo-Leninismo terá facilmente todo um piso dedicado exclusivamente ao ensino e à crítica do Marxismo-Leninismo: porque esse corpo de ensinamentos é gigantesco e incorpora história, sociologia, economia, filosofia e muitas outras disciplinas. Só o Materialismo já incluicorpus vastíssimo de escritos, que vão dos filósofos pré-socráticos até o "Deus está morto" de Nietzsche e, infelizmente, também os escritos infantiloides de Dawkins. 


Se se olha honestamente e atentamente para o âmago do Marxismo-Leninismo, veem-se lá as mais impressionantes pérolas filosóficas (ou desafios, dependendo de como se as examina) em praticamente todos os andares do prédio Marxista-Leninista. Antes portanto de declarar que "o Comunismo morreu", é preciso enfrentar cada "piso" do prédio Marxista-Leninista e trazer para o nível do chão pelo menos, minimamente, os conceitos cruciais, para não sermos acusados, com justiça, de ignorância mal-intencionada.


Segundo, a ideologia Comunista nos oferece a crítica mais ampla e abrangente que há, de toda a sociedade globalista-capitalista em que vivemos hoje. Considerando que atualmente só o mais deliberadamente cego dos cegos poderá ainda tentar negar que nossa sociedade atravessa crise profunda, que possivelmente levará ao que se tem chamado "TEOTWAWKI" (The end of the world as we know it) [O fim do mundo como o conhecemos], temos de questionar a correção de quem declare o Comunismo morto-e-não-se-fala-mais-nisso. 


Afinal, nos informar sobre a crítica comunista do Capitalismo não implica adotar soluções comunistas para os males do capitalismo – assim como aceitar um diagnóstico médico não implica consentir numa determinada linha de tratamento. Apesar disso, nossa sociedade capitalista globalista até hoje só fez rejeitar completamente o diagnóstico, sob o pretexto de que em alguns casos o tratamento falhou. Pode-se dizer, sim, que é estupidez quase insuperável.


Terceiro, corpus dos ensinamentos Comunistas e Marxistas-Leninistas não é só imenso: também é muito diversificado. O próprio Leninismo já é um desenvolvimento das ideias Marxistas. Seria ilógico só examinar os pais fundadores da ideologia e ignorar ou, pior, descartar deliberadamente, os seguidores modernos. Tomemos um exemplo simples: a religião.


É fato conhecido que Marx declarou que "a religião é o ópio do povo". (...). Contudo, se se observam os vários regimes marxistas na América Latina (incluindo Cuba e Venezuela), vê-se rapidamente que ali substituíram qualquer ateísmo raivoso pelo endosso de um específico tipo de Cristianismo que se pode descrever, em termos bem gerais, como "Teologia da Libertação". Contudo, para Cristão Ortodoxo linha-dura como eu, a Teologia da Libertação não faz minha cabeça (sem meias-palavras: politicamente, me autodescreveria como defensor de uma "Monarquia Popular" (народный монархист) na tradição de Lev Tikhomirov, Feodor Dostoevsky, Ivan Solonevich Ivan Ilyin). 


Mas o ponto aqui não são as qualidades inerentes da Teologia da Libertação (ou a ausência de boas qualidades), mas o fato de que os marxistas latino-americanos bem evidentemente se livraram do ateísmo obrigatório. E se o fizeram por convicção de um renascimento e renovação espiritual, ou por ver a religião como irrelevante, em consideração às cínicas políticas de poder; e mesmo que tenham cedido ante as pressões, ainda assim fizeram algo que os antecessores [não fizeram] (...). 


Fato é que, em vez de denunciar a religião como reacionária, temos líderes como Hugo Chavez declarando que "Jesus Cristo foi autêntico Comunista, anti-imperialista e inimigo da oligarquia". Sincero? Sabe-se lá! Importante? Sim, sem dúvida, muito importante. Minha hipótese é que, se esse pilar crucial, central, básico, que é o ateísmo militante, pôde ser descartado pelos Marxistas modernos, é provável que estejam interessados em descartar quaisquer outros fundamentos do Marxismo que concluam que sejam errados (por qualquer razão). Confundir os Comunistas do século 21 e seus predecessores do século 19 é ignorância e estupidez imperdoáveis.


Quarto, o moderno Comunismo está sendo servido em vários sabores, novos e até surpreendentes. Um dos mais interessantes parece aí estar, sob a forma de República Islâmica do Irã. 


Claro, o Irã moderno absolutamente não é cópia da velha República Democrática Germânica. Ramin Mazaheri, correspondente em Paris da Press TV, disse bem "A Europa chegou ao Socialismo mediante a industrialização, a teoria e guerra, mas o Irã chegou ao Socialismo mediante suas próprias e tradicionais crenças religiosas e morais". 


E que ninguém se engane: quando Mazaheri elogia as conquistas "socialistas" do Irã, ele absolutamente não está opondo a noção de Socialismo à noção de Comunismo (Mazaheri é comunista declarado e orgulhoso), nem se está referindo ao "Socialismo caviar" da Esquerda Francesa. Em vez disso, fala do "Socialismo" como conjunto de valores subjacentes e princípios comuns ao Marxismo e à visão Islâmica do mundo. Esquece-se muito frequentemente que os principais ideólogos da Revolução Iraniana, Ali Shariati, foiclaramente influenciado por ideias Socialistas, até mesmo Marxistas.


E o Irã, vale registrar, não é caso único no mundo muçulmano. Por exemplo, os escritos de Sayyid Qutb (1906-1966) contêm muitas ideias que se podem apresentar como Marxistas. Eu diria até que o Islã, o Cristianismo e o Confucionismo, todos esses incluem fortes elementos seja de universalismo seja de coletivismo, tipicamente associados ao pensamento Marxista, especialmente em contraste com o tipo de hiper-individualismo inflado promovido na visão de mundo Capitalista (que chamo de "visão de mundo do 'eu, mim e o meu'" [ing. me-myself-and I)]. 


Sem dúvida, a moderna doxa tenta rotular todas as formas de Islã como medievais e retrógradas e em todos os casos reacionárias, mas seria na verdade muito mais justo definir o Islã como revolucionário, social e progressista. Mas não vamos confundir ononsense cuspido pela máquina de propaganda sionista sobre os infelizes que ainda dão ouvidos ao sionismo, e a realidade, certo? Com certeza, podemos concordar que não há pior meio de tentar aprender sobre o Islã, que dar ouvidos à mídia EUA-sionista [ing. US Ziomedia]!


Comunismo – o desafio:


Nem chega a realmente surpreender que os norte-americanos, que não derrotam nada ou ninguém já faz muito tempo, estejam fortemente inclinados a adotar a ideia de que teriam vencido a Guerra Fria e/ou o Comunismo. Num país onde adultos pressupostos bem-informados e bem-educados não se envergonham de dizer, sem rir, que Obama 'é Socialista' (quem sabe seria até Comunista?!), aquele absurdo só muito raramente será desmentido e contestado. É elemento para que se avalie o estado lastimável da educação, num país que fantasia que seria "nação indispensável", mas que não tem qualquer interesse real em compreender o resto do mundo, para nem falar de conhecer e compreender a própria história. 


Pode-se até rir dos Comunistas supostos tolos, do "Comunismo científico" deles, e das cátedras universitárias de Marxismo e Leninismo, mas permanece inegável que, para compreender a propaganda Comunista é indispensável um nível mínimo de educação, e que aquela propaganda expõe as pessoas a tópicos que hoje já estão praticamente mortos nas sociedades ocidentais (como a Filosofia ou a História). 


Quando vejo o tipo de nonsense que passa por ciência política ou filosofia, só posso concluir que o orgulhoso mundo ocidental já não tem hoje sequer o mínimo elementar de educação indispensável para compreender, muito menos para refutar, os ideólogos Marxistas. E isso é escandaloso vexame, porque também creio profundamente que o Marxismo e o Comunismo sejam ideologias inerentemente ao mesmo tempo muito atraentes e muito tóxicas (...).


[BARRA LATERAL: O que eu pense, pessoalmente, do Marxismo, não é absolutamente nosso tópico hoje. (...) Dentre outros ideólogos utopistas modernos, Hitler poderia até ser elogiado pela relativa modéstia – "só" prometeu um Reich de 1.000 anos. Pior fez Francis Fukuyama, que prometeu o "fim da (de toda!) história". (...) Satã também ofereceu uma sociedade utópica a Cristo, na tentação no deserto (Mateus 4:1-11) (...). Só até aí já vejo razões suficientes, pelo menos para mim, para rejeitar [o Marxismo] e qualquer outra ideologia que prometa qualquer tipo de "paraíso na terra". Na minha opinião, todas as ideologias utopistas são inerentemente e por definição satânicas].

É possível refutar convincentemente todo o gigantesco corpus do edifício ideológico Marxista/Comunista? Acho que sim e, assumindo-se que a humanidade não se autodestrua em futuro próximo, acho também que ele acabará por ser refutado. Mas exigirá esforço de natureza e de magnitude completamente diferentes da coleção de slogans primitivos que hoje se lançam contra o Marxismo. De fato, creio também que o Cristianismo Ortodoxo já refutou preventivamente o Marxismo, vários séculos antes do nascimento de Karl Marx, ao denuciar seus pressupostos, na Escritura, nos escritos dos Pais da Igreja, nos sermões dos Pais do Deserto, na Vida dos Santos, em seus textos litúrgicos e ícones, mas na nossa sociedade pós-cristã, aquela refutação só é acessível à pequena minoria dos expostos a esses saberes e que são suficientemente educados para compreender tudo isso (bom exemplo dessa pessoa pode ser Fedor Dostoevskii).


Para o futuro que hoje se pode antever, o Comunismo terá vida longa e brilhante, especialmente com o colapso em curto tempo do Império Anglo-Sionista e com o debate que advirá desse colapso. Quem viva nos EUA pode até ser perdoado se não vir futuro para o Comunismo. Mas do Sudeste Asiático até o subcontinente indiano, e da África à América Latina, os ideais, valores e argumentos do Comunismo continuam a ter, para milhões de pessoas, apelo imenso. 


Quando Donald Trump, em seu recente discurso na ONU, presumiu que teria autoridade para dar aulas de Socialismo ao mundo, só fez mostrar que a ignorância não é impedimento à arrogância, e que as duas quase sempre andam de mãos dadas. Se a intenção de Trump foi flar ao público interno nos EUA, talvez tenha conseguido que uns poucos se sentissem bem com eles próprios e com o sistema político no qual vivem. Mas se realmente falava a um público internacional, só fez reforçar os piores clichês do antiamericanismo. 


Por hora, o espectro do Comunismo continuará a assombrar grande parte do nosso planeta, especialmente nas áreas onde falta educação e a pobreza abunda. No mundo basicamente não educado mas rico, o Comunismo provavelmente permanecerá praticamente no pé em que hoje está: universalmente ignorado e, portanto, desconhecido. Mas quando o grande edifício do Capitalismo finalmente vier abaixo e suas vítimas redescobrirem a diferença entre propaganda e educação – nesse caso é possível que surja algum moderno desafio à ideologia Comunista. Mas por hora e no futuro próximo, o Comunismo permanecerá não simplesmente vivo, mas ainda sem o que o derrote.*****

3 comentários:

Anônimo disse...

Não entendi muito bem a posição do autor. ELe é a favor do comunismo ou contra o comunismo?

Eduardo Lima - Anti-imperialismo disse...

Ele é contra, mas ao mesmo tempo diz que o marxismo é uma teoria que não foi superada porque é a que faz a melhor crítica do capitalismo global. Por isso ele usou a metáfora da pessoa que aceita o diagnóstico (marxismo) mas não aceita o tratamento (comunismo). Ele é um monarquista e católico ortodoxo por isso critica o ateísmo militante da URSS mas renega o imperialismo e os males do capitalismo atual. Espero que eu tenha conseguido te explicar.

Vitor Souza disse...

Muito bom o artigo. Em alguns momentos é difícil acreditar que ele seja realmente anti-marxista. Em outros isso fica bem claro. Acho que a tônica do texto é: se o comunismo é ruim, o capitalismo é tanto ou até mais. E o interessante e coincidente, no meu caso, é que vivo questionando os liberais da seguinte forma: "mas você, que defende o capitalismo, não tem QUALQUER crítica ao mesmo?". Nessas horas a resposta costuma ser uma expressão de confusão mental e silêncio desconcertante. O que costuma me trazer uma sádica satisfação sempre e sempre. É divertido.