quinta-feira, 1 de março de 2018

Mais uma guerra que os EUA perderam: Afeganistão, novo conector na integração da Eurásia, por Pepe Escobar

26/2/2018, Pepe Escobar, Asia Times


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




A inauguração do gasoduto TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia) sinaliza que Cabul está a bordo, no grande projeto da integração da Eurásia.

Uma das mais dramáticas sagas que se desenrolam no que há muito anos batizei de Oleogasodutostão, acaba de passar por virada decisiva.


O gasoduto TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia), de US$8 bilhões e 1.814 km de extensão, foi oficialmente inaugurado ontem, com grande pompa, e com transmissão ao vivo pela TV afegã, na fronteira entre Turcomenistão e Afeganistão, perto de Herat.

O presidente do Afeganistão Ashraf Ghani recebeu o primeiro-ministro paquistanês Shahid Khaqan Abbasi, o presidente turcomeno Gurbanguly Berdymukhamedov e o ministro de Relações Exteriores da Índia M.J. Akbar.

Se não houver complicações extraordinárias – e esse é um "se" gigante –, o gasoduto TAPI pode, em teoria, estar concluído em 2020. Até aqui, é verdade, número incontável de 'prazos finais' vieram e foram-se.

O gasoduto TAPI simplesmente jamais existirá sem a aprovação dos talibã. Conforme declaração do porta-voz dos talibã Qari Mohammad Yusuf Ahmadi, "O Emirado Islâmico considera esse projeto um importante elemento da infraestrutura econômica do país, e acredita que a adequada implementação beneficiará o povo afegão. Anunciamos nossa cooperação, cuja segurança será preservada em áreas sob nosso controle."

Outra facção talibã, liderada por Mulá Mohammad Rasool, também fez saber, pelo porta-voz, Mulá Abdul Manan Niazi, que, "não permitiremos que nenhum grupo ou estado interrompa o projeto."

Tudo isso é como que uma senha para que os talibã recebam a parte deles –, item que sempre foi o ponto crucial de todas as discussões desde que o primeiro governo Clinton resolveu que os então governantes do Afeganistão mereciam suficiente confiança para que os EUA negociassem com eles.

Portanto, quando Ahmadi diz que o TAPI começou a ser planejado quando os talibã estavam no poder em Cabul, de 1996 a 2001, está perfeitamente certo. Os talibã foram festejados e bajulados em Houston em 1997, como eu mesmo noticiei em Asia Times, mas a coisa parou ali. A discussão girou toda em torno das taxas de passagem.

Para Cabul, o jogo doravante só tem a ver com garantir a segurança necessária – da construção à operação. Afinal, o projeto é potente gerador de empregos, que envolverá cerca de 30 mil trabalhadores afegãos e gerará US$500 milhões anuais para Cabul, em taxas de passagem.

Havia rumores em Herat sobre um bando de jihadistas não identificados, supostamente treinados no Irã, que planejariam atacar a cerimônia de inauguração. Nada se confirmou quanto a isso, nem de fontes afegãs nem de fontes iranianas. O próprio presidente Ghani rejeitou como inconcebível a ideia de que Teerã sabotaria o TAPI.

Os rumores brotaram, sem dúvida, de uma mini Guerra Fria no Oleogasodutostão entre os gasodutos TAPI e IPI – o gasoduto concorrente Irã-Paquistão-Índia, o qual sob furiosa pressão dos governos Bush e Obama, acabou reduzido a IP.

Situação de ganha-ganha

O gasoduto TAPI é excelente negócio para Ashgabat – dado que permite que o Turcomenistão finalmente diversifique os mercados de exportação, em vez de ter de depender exclusivamente do seu maior cliente, a China. Gurbanguly, sobretudo, quer converter o gasoduto TAPI em um corredor de energia/TI/conectividade.

Washington apoia o TAPI – mas não o IPI/IP –, porque sua principal fonte de financiamento é o Banco de Desenvolvimento Asiático [ing. Asian Development Bank (ADB)], chefiado pelo Japão, e porque pode ser fator chave de estabilização unindo Afeganistão, Paquistão e Índia.

Do ponto de vista de Islamabad, ambos os gasodutos, TAPI e IP são muito necessários. TAPI suprirá pelo menos 20% do gás natural de que precisa o Paquistão, e 10%  de suas necessidades de energia.

Em termos econômicos e geopolíticos, um cordão umbilical de aço que cubra a intersecção de Ásia Central e Sul da Ásia é jogo absolutamente de ganha-ganha.

O que se tem aqui é uma virada de grande amplitude, em termos de integração da Eurásia. O corredor de energia do Turcomenistão agora em construção fatalmente se conectará a um dos grandes projetos da Iniciativa Cinturão e Estrada – o Corredor Econômico China-Paquistão –, o que ampliará dramaticamente a conectividade na Ásia Central.

Mesmo Nova Delhi, inobstantes as imensas reservas que a Índia tem contra o Corredor Econômico China-Paquistão, também já está festejando o gasoduto TAPI, nas palavras do ministro Akbar, como "verdadeiro símbolo de nossos objetivos" e "nova página na cooperação" entre os quatro países.

Adicionalmente, o gasoduto TAPI amplia a conectividade da Índia com a Ásia Central, via Afeganistão, movimento que se consubstancia no investimento de New Delhi no porto iraniano, em Chabahar.

Ghani, por sua vez, disse que "Esperamos que nossa próxima geração veja esse gasoduto como a pedra fundamental de uma posição conjunta em nossa região, com vistas a melhorar a economia, criar empregos e aumentar nossa segurança, na nossa luta contra os extremistas."

Mas a peça chave é o reconhecimento público por Ghani, de que o Afeganistão, lenta mais firmemente, pode agora se posicionar – finalmente, como conector entre a Ásia Central e o Sul da Ásia.

A próxima peça virá da Organização de Cooperação de Xangai – com Rússia, China, Índia, Paquistão e Irã confirmando que, sim, a guerra do Afeganistão chegou ao fim, e do melhor modo possível.*****

Um comentário:

silvio marcus barroso salgado disse...

Os U$$raHell estão sendo enrabados em doses homeopáticas pelos : CHINA / RÚSSIA / PAQUISTÃO / ÍNDIA / TURCOMENISTÃO / IRÃ / . . . etc, e todos os outros países da região. Ah, ah, ah, ah, . . . .