quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Analisando o colapso contínuo dos EUA, com Dmitry Orlov

11.01.2019 - The Saker, Dmitry Orlov - The Vineyard of the Saker, The Unz Review


Tradução: btpsilveira




A palavra ‘catástrofe’ tem muitos conceitos, mas em sua significação original, em grego, a palavra queria dizer “queda súbita” (katastrophé em grego, ‘queda, reviravolta’ de kata-cair, para baixo + strophé[radical strophein]-‘transformar, virar’). Da mesma forma, para a palavra ‘superpotência’ também há várias definições possíveis. A minha preferida é esta: “‘superpotência’ é o termo usado para descrever um Estado em posição dominante, caracterizado por sua grande capacidade de influenciar ou projetar poder em escala global. Consegue isso através da combinação de força econômica, militar e cultural, poder de convencimento (soft power) e diplomacia. Tradicionalmente, as superpotências predominam entre as grandes potências.” Outra: “uma nação extremamente poderosa, em particular capaz de influenciar eventos internacionais e os atos e políticas de nações menos poderosas” e ainda “um corpo governamental internacional capaz de impor sua vontade mesmo a Estados também poderosos”.
Tenho mencionado em muitos de meus artigos o visível declínio dos Estados Unidos e seu Império, assim não vou repetir aqui nada além disso: a “capacidade de influenciar e impor sua vontade” provavelmente é o melhor critério para medir o tamanho da queda dos Estados Unidos desde que Trump chegou ao poder (o processo já tinha se iniciado com Dubya e Obama, mas com certeza foi acelerado pelo Donald). Porém quero usar uma metáfora para revisitar o conceito de ‘catástrofe’ (Dubya é uma maneira de certa forma sarcástica de se referir a George W. Bush e diferenciá-lo de George H. W. Bush, seu pai. Ambos foram presidentes dos EUA. ‘Dubya’, tem a ver com a pronúncia da letra W – NT).

Se você colocar um objeto no meio de uma mesa e empurrá-lo diretamente para a borda, terá que dispender certa soma de energia que chamaremos de ‘E1’. Se a borda de mesa é lisa e você já empurrou o objeto até lá, basta apenas mais um pouco de energia que chamaremos de ‘E2’. Na maioria dos casos (sendo a mesa grande o bastante) é claro que você descobrirá que E1 é maior que E2, e que E2, acontecendo depois de E1, desencadeará um evento muito mais dramático: em vez de deslizar placidamente de cima da mesa, o objeto cairá subitamente e se despedaçará. Essa queda súbita pode ser chamada de ‘catástrofe’ e costuma acontecer na história, vide o exemplo da União Soviética.
Alguns leitores recordarão como Alexander Solzhenitsyn declarou repetidamente nos anos 80 que estava certo de que o regime soviético desabaria e que ele poderia voltar para a Rússia. Claro, foi vitriolicamente ridicularizado por todos os “especialistas” e “experts”. Afinal, porque alguém ouviria um exilado russo esquisito com ideias políticas suspeitas (corriam rumores de “monarquismo” e “antissemitismo”) quando na verdade a União Soviética era uma enorme superpotência, armada até os dentes com armas nucleares, um serviço de segurança imenso, com apoiadores e aliados pelo mundo inteiro? Não só isso, todos esses “respeitáveis” especialistas e experts eram unânimes em afirmar que, embora o regime soviético tivesse vários problemas, estava ainda muito longe do colapso. Era absolutamente impensável a simples noção de que a OTAN pudesse rapidamente substituir o exército soviético não apenas na Europa Oriental como em todas as partes da União Soviética. No entanto aconteceu, com presteza. Poder-se-ia mesmo argumentar que a União Soviética desabou completamente no curto espaço de menos de 4 anos: de 1990 a 1993. Como e porque isso aconteceu está além do alcance deste artigo, mas é inegável que em 1989 a União Soviética ainda parecia uma entidade poderosa, e pelo final de 1993 tudo acabara (quebrada em pedaços pela mesma nomelklatura que acostumava governar tudo). Como quase ninguém percebeu?
Quase ninguém percebeu porque análises conspurcadas pela ideologia levam à complacência intelectual, falta de imaginação e, no geral, a uma incapacidade quase total de prever resultados possíveis, mesmo hipoteticamente. É assim que quase todos os “especialistas sobre União Soviética” erraram (por falar nisso, a KGB já havia previsto a tragédia e alertado o Politburo, mas a gerontocracia soviética estava ideologicamente paralisada, foi incapaz e não quis tomar qualquer medida preventiva). O governo maçônico de Kerensky em 1917, a monarquia iraniana no Irã e o regime de Apartheid na África do Sul também colapsaram bem rápido uma vez que o mecanismo de autodestruição já existente tomou tração.
Na metáfora acima, você pode colocar esse “mecanismo do regime de autodestruição” como nossa fase E1. Para a fase E2, você pode pensar em qualquer tipo de pequeno empurrão que precipita a rapidez do colapso, aparentemente com grande facilidade e mínimo dispêndio de energia.
Neste ponto, é preciso explicar a aparência de um colapso final. Algumas pessoas têm em mente a percepção enganosa de que um colapso da sociedade ou país traz sempre um cenário como o do filme “Mad Max”. Não mesmo. A Ucrânia já é um Estado falido há vários anos, mas ainda consta do mapa.  O povo ainda vive por lá, trabalha, a maioria ainda dispõe de eletricidade (embora não 24/7), existe um governo e, ao menos oficialmente, a lei e a ordem está sendo mantida. Esse tipo de sociedade falida pode se manter por anos, talvez décadas e ainda assim está em estado de colapso, por ter alcançado todos os Cinco Estágios do Colapso como definido por Dmitry Orlov em seu livro seminal “Os Cinco Estágios do Colapso: Kit de Ferramentas para os Sobreviventes”, onde ele menciona os cinco estágios do colapso a seguir:
·         Estágio 1: Colapso financeiro. Acaba a confiança de que “tudo está (financeiramente) normal”.
·         Estágio 2: Colapso comercial. Finda a confiança de que “o mercado proverá”.
·         Estágio 3: Colapso político. Termina a confiança em que “o governo tomará conta de você”.
·         Estágio 4: Colapso social. Não existe mais a confiança de que “as pessoas em volta tomarão contra de você”.
·         Estágio 5: Colapso cultuiral. Acaba a confiança “na bondade da humanidade”.
·          
Tendo visitado pessoalmente a Argentina nos anos 70 e 80 e visto o que aconteceu com a Rússia no início dos anos 90, posso afirmar que dada sociedade pode colapsar totalmente, mesmo mantendo todas as aparências de uma sociedade normal e ainda em funcionamento. Ao contrário do Titanic, a maioria dos regimes fracassados não afunda totalmente. Cerca da metade permanece acima da linha d’água e talvez a orquestra permaneça tocando músicas alegres. Nas cabines mais luxuosas, um estilo de vida esplendoroso pode ser mantido pelas elites. Mas para a maioria dos passageiros esse colapso resulta em pobreza, insegurança, instabilidade política e uma queda violenta na qualidade de vida. Além disso, em termos de movimento, um navio com a metade afundada não é mais um navio.
Uma coisa crucial: enquanto o sistema de som do navio continuar anunciando tempo bom e que o café da manhã continua sendo servido e enquanto a maioria dos passageiros permanecerem nas cabines vendo televisão em vez de dar uma olhadinha pela janela, a ilusão de normalidade pode ser mantida por um tempo realmente longo, mesmo depois do colapso. Durante a fase E1 descrita acima a maioria dos passageiros pode ser mantida em total ignorância (longe, portanto, de protestos e agitações) e somente quando a fase E2 chutar a porta (totalmente inesperada para a maioria dos passageiros) a realidade pode eventualmente destruir a ignorância e as ilusões dos passageiros objetos de lavagem cerebral.


O verdadeiro início do fim aconteceu com Obama

Vivi nos Estados Unidos de 1986 a 1991 e vivo atualmente desde 2002 e não tenho quaisquer dúvidas de que o país experimentou um *enorme* declínio nas últimas décadas. Na realidade, poderíamos argumentar que os EUA têm vivido sobre o domínio da fase E1 pelo menos desde Dubya e que esse processo só se acelerou sob os governos Obama e Trump. Acredito que chegamos na fase E2 “à beira da mesa” em 2018 e que a partir de agora até um incidente relativamente menor pode resultar em uma queda súbita (isto é, uma “catástrofe”). Mesmo assim, resolvi checar com o especialista incontestável neste assunto e, portanto, mandei um email para Dmitry Orlov com a seguinte pergunta:
Em seu artigo recente “O ano em que o planeta desandou” você pinta um quadro devastador sobre o estado do Império:
Já se pode declarar o fracasso do plano de Trump para Tornar os Estados Unidos Grandes Novamente (MAGA – Make America Great Again – NT). Por trás das estatísticas cor-de-rosa do crescimento da economia (norte)americana) esconde-se o fato terrível de que isto é o resultado de uma isenção fiscal garantida para as empresas multinacionais a fim de seduzi-las para repatriar seus lucros. Ao mesmo tempo em que não as ajuda (suas ações estão desabando atualmente) tem sido um desastre para o governo e a economia dos EUA como um todo. A receita caiu. O déficit orçamental para 2018 excedeu a quantia de 779 bilhões de dólares. Ao mesmo tempo, o resultado das guerras comerciais iniciadas por Trump é o crescimento do déficit comercial para mais 17% a partir do ano anterior. Os planos para repatriar a produção industrial dos países de baixo custo continuam impossíveis por causa de três elementos fundamentais com os quais a China se industrializou (energia de baixo custo, trabalho de baixo custo e facilidade para transações comerciais) e que continuam ausentes nos EUA. O débito governamental já ultrapassou o limite do razoável e sua expansão está acelerando. Só o pagamento do serviço da dívida deve custar meio trilhão de dólares dentro de apenas uma década. Esta trajetória é mau presságio para que os EUA continuem a existir como entidade em pleno funcionamento. Ninguém, nos EUA ou fora, tem qualquer poder para alterar essa trajetória. O desespero estridente de Trump pode ter movido as coisas para pior mais rápido do que já estavam, pelo menos no sentido de ajudar a convencer o mundo inteiro de que os Estados Unidos são egoístas, imprudentes e em última análise, autodestrutivos e em geral, não confiáveis como parceiros. Entre outras coisas, o presidente dos Estados Unidos foi bem sucedido em prejudicar a maioria de seus aliados europeus. Seus ataques contra a exportação de energia pela Rússia para a Europa, contra as empresas montadoras de automóveis europeias e contra o comércio europeu com o Irã causaram uma boa quantidade de danos, tanto políticos quanto econômicos, sem qualquer compensação real visível. Enquanto isso, a ordem mundial globalista (que muitas populações europeias parecem prontas a declarar fracassada), começa a desandar, a União Europeia torna-se rapidamente ingovernável, com os partidos atualmente no poder incapazes de formar coligações com os partidos populistas arrivistas que surgem cada vez em maior número. Ainda é muito cedo para afirmar que a União Europeia já fracassou totalmente, mas parece seguro dizer que dentro de uma década não será mais considerada como um fator internacional que deva ser levado a sério. Embora a péssima qualidade e os enganos desastrosos da própria liderança europeia mereçam serem cobertos de vergonha, alguns deles podem ser creditados ao comportamento errático e destrutivo de seu Big Brother transoceânico. A União Europeia já se transformou em assunto estritamente regional, incapaz de projetar poder ou sonhar com quaisquer ambições geopolíticas globais. A mesma coisa para Washington, que vai ou partir voluntariamente (devido a simples falta de dinheiro) ou será colocada sem cerimônia para fora na maior parte do mundo. A retirada da Síria é inevitável mesmo que Trump, sob pressão intensa de seus senhores da guerra bipartidários, resolva ou não voltar atrás em sua promessa. Agora a Síria está armada pela Rússia com armas de defesa atualizadas e os Estados Unidos não têm mais superioridade aérea, e sem superioridade aérea o exército dos EUA é incapaz de fazer seja o que for. O Afeganistão virá a seguir; ali, parece bizarro crer que os (norte)americanos sejam capazes de conquistar qualquer acomodamento razoável com o Talibã. Sua partida significará o fim de Cabul como o centro de corrupção a partir do qual os estrangeiros roubam a ajuda humanitária e outros recursos. Em algum lugar da jornada as tropas (norte)americanas remanescentes também serão colocadas para fora do Iraque, onde o parlamento, enraivecido com a visita súbita de Trump a uma base aérea dos Estados Unidos, votaram recentemente pela expulsão dos soldados (norte)americanos. Neste instante, cabe colocar aqui a quantia gasta pelos EUA em suas aventuras (e desventuras) no Oriente Médio desde o incidente de 11/09: $4.704.439.588.308 (quatro trilhões, setecentos e quatro bilhões quatrocentos e trinta e nove milhões, quinhentos e oitenta e oito mil e trezentos e oito dólares) já foram desperdiçados, ou, para ser ainda mais preciso, $14.444 (quatorze mil, quatrocentos e quarenta e quatro dólares) para cada homem, mulher e criança nos Estados Unidos. Os maiores ganhadores serão, sem dúvida, os habitantes de toda a região, porque não serão mais objetos de assédio e bombardeio. A seguir, Rússia, China e Irã, com a Rússia solidificando sua posição como o árbitro incontestável nos acordos de segurança internacional, graças a sua capacidade militar sem paralelo e a já demonstrada capacidade em know how para fazer a paz coercitiva. O destino da Síria será decidido pela Rússia, Irã e Turquia, e os Estados Unidos sequer serão convidados para as conversações. A Afeganistão será açambarcado pela esfera do Organização de Cooperação de Xangai (Shangai Cooperation Organization, SCO – NT). Os maiores perdedores serão os antigos aliados dos Estados Unidos, em primeiro lugar Israel, seguido de perto pela Arábia Saudita.
Minha pergunta para você é a seguinte: Onde você colocaria os Estados Unidos (ou o Império) em seus cinco estágios do declínio e você acredita que os EUA (ou o Império) podem reverter a tendência?
A seguir, a resposta de Dmitry:
O colapso, em cada estágio, é um processo histórico que leva tempo para adquirir tração, pois o sistema se adapta a circunstâncias cambiantes, acha compensações para as fraquezas e encontra maneiras de continuar funcionando a certo nível. Mas o que pode mudar de repente é a confiança, ou, para colocar em termos mais profissionais, os sentimentos. Um grande segmento da população ou determinada classe política dentro de um país ou mesmo no mundo inteiro pode funcionar baseado em certos conjuntos de pressupostos por muito mais tempo que a situação permitiria, mas também pode mudar para um conjunto diferente de suposições em curto período de tempo. Só o que mantém o status quo depois desse ponto, é a inércia institucional. Ela impõe limites quanto à rapidez com que os sistemas podem mudar sem desabar completamente. Além desse ponto, as populações só continuarão a tolerar as velhas práticas enquanto não encontram substitutos para elas. 
Estágio 1: colapso financeiro. Acaba a confiança de que “tudo está (financeiramente) normal”.
Internacionalmente, a maior mudança no sentimento do mundo tem a ver com o papel do dólar dos Estados Unidos (e, por extensão, do Euro e do Yen – as outras duas moedas que formam as três pernas do sistema globalista de bancos centrais). O mundo está em transição para o uso de moedas locais, trocas entre moedas e mercado de commodities lastreados em ouro. A catálise desta mudança de sentimento foi devidamente providenciada pela própria administração dos Estados Unidos, que minou as próprias fundações pelo uso de sanções unilaterais. Ao usar seu controle sobre as transações comerciais baseadas em dólares para bloquear transações internacionais, os EUA não podiam senão forçar os países atingidos a buscar alternativas. Agora, um número crescente de países pensam em se libertar das cadeias do dólar como um objetivo estratégico. A Rússia e a China usam o Rublo e o Yuan no seu comércio em crescimento; O Irã vende petróleo para a Índia e recebe em Rupias. A Arábia Saudita começou a aceitar o Yuan para o pagamento de seu petróleo.
Esta mudança traz muitos efeitos cumulativos. Se o dólar não for mais necessário para conduzir o comércio internacional, outras nações não precisarão mais manter grandes quantidades dessa moeda em reserva. Consequentemente, não haverá mais necessidade de comprar grandes somas de títulos do tesouro (norte)americano. Assim sendo não será necessário manter grande excedente comercial com os Estados Unidos, o que quer dizer, na essência, ter prejuízo comercial. Além disso, o atrativo dos Estados Unidos como um mercado para exportação cairá, enquanto os custos de importação dos Estados Unidos subirão, inflacionando os custos. Na sequência, uma espiral viciosa na qual a capacidade do governo dos Estados Unidos de emprestar do mundo todo para financiar a enormidade de seus vários déficits se tornará ineficiente. Então, o default soberano (aka “calote”) do governo e o seguimento lógico da falência nacional acontecerão.
Os Estados Unidos podem ainda parecer poderosos, mas sua situação fiscal complicada, somada à sua negação da implacabilidade da falência faz com que pareçam a Blanche DuBois da peça de Tennessee Williams chamada “Um bonde Chamado Desejo”. Ela era sempre “dependente da gentileza de estranhos”, mas tragicamente incapaz de perceber a diferença entre gentileza e desejo. No caso, o desejo (dos estranhos) é pela vantagem e segurança dos países e de minimizar os riscos, livrando-se de um parceiro comercial inconveniente.
Se isso vem e passa rapidamente é difícil de adivinhar e impossível de calcular. É possível pensar em termos do sistema financeira usando uma analogia da física, com a massa financeira se deslocando a dada velocidade, adquirindo certa inércia (p=mv) e com forças agindo sobre essa massa par acelerá-la ao longo de uma trajetória diversa (F=ma). Também é possível pensar em hordas de animais em disparada que podem mudar de curso abruptamente quando em pânico. O movimento súbito nos mercados financeiros, onde trilhões de dólares de valores nacionais puramente especulativos viraram fumaça em apenas algumas semanas, estão mais alinhados com o último modelo.
Estágio 2: Colapso comercial. Finda a confiança de que “o mercado proverá”.
Na realidade, não há, dentro dos Estados Unidos, alternativa a não ser o mercado. Até que há certos enclaves rústicos, principalmente comunidades religiosas que podem alimentar a si mesmas, mas trata-se de uma raridade. Para todos os demais não há chance a não ser tornar-se um consumidor. Consumidores quebrados são chamados “imprestáveis”, mas ainda assim são consumidores. Na medida em que os Estados Unidos tem uma cultura, esta é comercial, na qual a bondade de uma pessoa é inferida pela boa soma de dinheiro que possua. Esta cultura pode morrer ao se tornar irrelevante (quando todos estão quebrados) mas ao se chegar nesse ponto, todos os elementos formadores dessa cultura provavelmente estarão também mortos. Como alternativa, essa cultura pode ser substituída por outra mais humana, que não se baseie inteiramente no culto à Mammon – ouso pensar, talvez, através de retorno à ética pré/católica/cristã/protestante que valorize a alma da pessoa mais que os objetos de valor?
Estágio 3: colapso político. Termina a confiança de que “o governo tomará conta de você”.
Neste momento, tudo está muito complicado, mas ouso apostar que a maioria da população dos Estados Unidos está tão alheia, tão estressado e tão preocupada com seus próprios vícios e obsessões para prestar atenção ao mundo da política. Dos que prestam atenção, um grande número aparentemente entendeu o fato de que os Estados Unidos já não é mais uma democracia, mas uma quadra de areia só para a elites nas qual as corporações multinacionais e interesses oligárquicos constroem e destroem os castelos de areia uns dos outros.
A polarização política extrema, onde dois partidos igualmente favoráveis ao capitalismo e à guerra fingem entrar em batalha tentando demonstrar uma virtude imaginária pode ser um sintoma do estado decrépito de todo o espectro político: colocam o povo para apreciar a fumaça e ouvir a barulhada, na esperança de que assim sejam iludidos e não percebam que nada está funcionando direito.
As coisas parecem ter tomado um caráter de briga palaciana – as picuinhas no interior da Casa Branca, os entreveros entre as duas casas do Congresso e no meio de tudo um inquisidor sombrio chamado Mueller – tem chegado no cerne da questão e lembram estranhamente vários outros colapsos políticos, como a desintegração do Império Otomano ou a queda e posterior decapitação de Luís XVI. O fato de que Trump, como os otomanos iminentes, preenche seu harém com mulheres oriundas da Europa Oriental empresta um toque de estranheza à coisa toda. Dito isso, a maioria do povo (norte)americano parece cego quanto à natureza de seus líderes, de uma maneira que os franceses definitivamente não está, como exemplificado pelos Gilets Jaunes.
Estágio 4: Colapso social. Não existe mais a confiança que “as pessoas em volta cuidarão de você”.
Há tempos (alguns anos) venho dizendo que o colapso social está em andamento dentro dos Estados Unidos, mesmo não se podendo dizer que o povo acredite que isso realmente importa. Isso seria assunto totalmente diferente. Como definir o “nosso povo”? É muito difícil. Os símbolos estão por aí – a bandeira, a estátua da liberdade e uma certa predileção por drinques gelados e pratos repletos de comida frita e gordurosa – mas o cadinho parece ter derretido e escorreu todo para a China. Atualmente, na metade das casas no interior dos Estados Unidos a linguagem falada não é mais o inglês, e em grande parte do restante, o que se fala é uma espécie de dialeto, variante do inglês, que não tem muito a ver com o “dialeto” falado nas televisões abertas e entre professores de universidades.
Como uma nação e como uma colônia britânica, os Estados Unidos tem sido dominados por uma etnia originária dos anglo saxões. A designação “etnia” não é um rótulo étnico. Não é baseada estritamente em genealogia, linguagem, cultura, habitat, forma de governo ou qualquer outro fator único ou grupo de fatores. Tudo isso pode ser importante de uma maneira ou outra, mas a viabilidade de determinada etnia é baseada unicamente na sua coesão, na inclusão mútua e nos objetivos comuns de seus membros. A etnia anglo saxã alcançou se ápice na sequência da Segunda Guerra Mundial, na qual foram misturados pelo exército os seus grupos sociais e seus integrantes mais inteligentes.
Um potencial fantástico livrou-se das amarras quando o privilégio – maldição que acompanhava a etnia anglo saxã desde seus primórdios – foi temporariamente substituído pelo mérito e os homens desmobilizados mais talentosos, de qualquer extração, receberam uma chance de educação e avanço social através do GI Bill (Lei aprovada pelos EUA depois da Segunda Guerra Mundial para beneficiar veteranos daquela guerra – NT). Falando um tipo novo Inglês (norte)Americano baseado no dialeto de Ohio como Lingua Franca (Língua franca ou língua de contato é a língua que um grupo multilíngue de seres humanos intencionalmente adota ou desenvolve para que todos consigam sistematicamente comunicar-se uns com os outros. Essa língua é geralmente diferente de todas as línguas naturais faladas pelos membros do grupo – NT – Fonte: Wikipedia) esses yankees – machos, racistas, sexistas e chauvinistas e, pelo menos era o que achavam, vitoriosos – estavam prontos para refazer o mundo inteiro à sua própria imagem.
Manejaram para inundar o mundo inteiro com petróleo (naquela época a produção de petróleo dos EUA estava a pleno vapor) e máquinas para queimá-lo. Esses atos apaixonados de etnogênese são raros mas não incomuns: os romanos que conquistaram toda a bacia do Mediterrâneo, os bárbaros que saquearam Roma a seguir, os mongóis que mais tarde conquistaram a Eurásia e os alemães que por um breve período de tempo possuíram um imenso Lebensraum (espaço vital-conceito – NT) são outros exemplos.  
Chegou o momento de perguntar: o que resta dessa orgulhosa etnia Anglo Saxã de conquistadores atualmente? Ouvimos apenas feministas esganiçadas gritando contra uma certa “masculinidade tóxica” e minorias de todo tipo berrando contra “whitesplaining” (linguagem de rua, White_’splaining, Whitesplainin’ intraduzível, mas com o sentido aproximado de “racista enrustido” – NT) e em resposta ouvimos apenas alguns resmungos, mas quase sempre, silêncio. Aqueles orgulhosos, aqueles viris yankees conquistadores que encontraram e fraternizaram com o Exército Vermelho no Rio Elba em 25 de abril de 1945 – onde se esconderam? Por acaso não se metamorfosearam numa pequena e lamentável subetnia de moleques afeminados viciados em pornografia que depilam os pelos pubianos e que precisam de permissão explícita para fazer sexo sem medo de ser mais tarde acusado de estupro?
Será que a etnia anglo saxã sobreviverá apenas como uma relíquia distante, algo parecido com o que os ingleses conseguiram fazer com sua realeza (que hoje já não pode ser considerada tecnicamente como uma aristocracia, dado a exogamia que praticam com os plebeus)? Ou por acaso se acabará em uma onda de depressão, doença mental e abuso de drogas, lançando ao chão sua gloriosa história de rapinas, pilhagem e genocídio, derrubando as estátuas de seus heróis/criminosos de guerra? Só o tempo dirá.
Estágio 5: Colapso cultural. Fim da confiança na “bondade do ser humano”.
O termo “cultura” significa diferentes coisas para diferentes pessoas, mas é muito mais produtivo observar as culturas que matutar sobre elas. As culturas se expressam através de comportamentos estereotipados dos povos, que podem ser facilmente observados. Deixe-se de lado os estereótipos negativos, que servem apenas para identificar e excluir pessoas não identificadas com a etnia, e observe-se os estereótipos positivos – padrões culturais de comportamento, na realidade – tidos como indispensáveis para adequação e inclusão social. Podemos avaliar facilmente a viabilidade de determinada cultura apenas observando o comportamento estereotipado de seus membros.
·         As pessoas convivem e forma única e contínua, como um domínio soberano abrangente, ou está disposta de forma exclusiva, com enclaves potencialmente  beligerantes, segregadas por renda, etnia, nível educacional, filiação política, etc? Você pode ver muitos muros, portões, barreiras, câmeras de segurança e placas de “proibida a passagem”? A lei é exercida de forma uniforme e alcança todos os lugares, ou há vizinhanças “boas” e vizinhanças “más”, existem zonas de acesso proibido onde nem a polícia se atreve a entrar?
·         As pessoas comuns podem andar juntas espontaneamente em público, podem entrar em conversação ou se reunirem e se sentirem bem reunidas, ou são tímidas e temerosas, preferindo esconder o rosto no retângulo de um smartphone, guardando ciosamente seu espaço pessoal, prontas para considerar qualquer invasão desse espaço como prenúncio de assalto?
·         As pessoas continuam de boa paz e tolerantes mesmo sob pressão, ou se escondem por trás de uma fachada de polidez tensa e superficial, reagindo imediatamente com um acesso de raiva à menor provocação? Suas conversas ocorrem em tom baixo, respeitoso e polido, ou são altas, estridentes, rudes e cheias de palavras de baixo calão? As pessoas se vestem bem, por respeito ou por exibição ou são desleixadas, mesmo aquelas com dinheiro suficiente?
·         Observe o comportamento das crianças: elas tem medo de estranhos e estão fechadas em seu mundinho particular, ou estão abertas para o mundo e prontas para tratar os estranhos como um irmão irmã, tio ou tia, avó ou avô substituto, sem exigir qualquer introdução especial? Os adultos ignoram intencionalmente os filhos dos outros ou se comportam espontaneamente como se fôssemos uma grande família?
·         Se acontecer um acidente rodoviário, as pessoas se apressarão em ajudar uns aos outros no resgate e afastar os outros antes que tudo exploda, ou elas, como nas imortais palavras de Frank Zappa “vão telefonar e chamar mais alguns flocos” que “apressados, danarão com tudo ainda mais”? [1]
·         Na hipótese de um incêndio ou inundação os vizinhos oferecerão suas casas para abrigar os que ficaram ao relento, ou preferirão esperar que as autoridades tomem conta, levando-os para algum abrigo improvisado?
É possível numerar estatísticas ou providenciar evidência empírica para afirmar o estado ou viabilidade de determinada cultura, mas observando e utilizando outros sentidos poderemos providenciar por nós mesmos toda a evidência necessária para resolvermos por nós mesmos quanta confiança na “bondade da humanidade” poderemos acalentar em relação às pessoas que nos cercam.
Dmitry concluiu sua resposta resumindo sua visão desta forma:
O colapso social e/ou cultural estão ainda relativamente distantes. O colapso financeiro está só esperando algo que lhe dê início. O colapso comercial acontecerá em estágios, alguns dos quais – locais com escassez de alimentos frescos e saudáveis, por exemplo – já acontece em vários pontos do país. O colapso político só se tornará visível quando a classe política finalmente entregar os pontos. Nada é simples, nem é fácil dizer que estágio já alcançamos. Todos eles acabam acontecendo em paralelo, de alguma maneira.
Minha própria opinião (totalmente subjetiva) é que os Estados Unidos já estão sofrendo os estágios de 1 a 4, e que há sinais de que o estágio 5 começou; principalmente nas grandes metrópoles, enquanto nas pequenas cidades e áreas rurais dos EUA (aliás, a base do poder de Trump) ainda se luta para continuar mantendo as normas e comportamentos observáveis nos Estados Unidos dos anos 80. Quando recebo visitas da Europa eles sempre comentam quão amigáveis e hospitaleiros os (norte)americanos são (e é verdade, eu moro em uma pequena cidade no centro-leste da Florida, não em Miami...). São comunidades que votaram em Trump porque ele disse: “queremos nosso país de volta”. Infelizmente, em vez de dar ao povo seu país de volta, Trump o deu de presente aos neocons...

Conclusão: ligando os pontos; ou não

Enquanto isso, as elites que governam o país estão armadilhadas em um conflito interno surdo, que só enfraquece cada vez mais os Estados Unidos. É revelador perceber que o Partido Democrata ainda está ligado em um abraço de morte com as mesmas velhas, incompetentes e infinitamente arrogantes lideranças, apesar do fato de todo o mundo saber que o Partido Democrata está mergulhado em crise profunda e novas lideranças são desesperadoramente necessárias. Mas não, eles continuam presos as suas velhas práticas e nas mãos da mesma velha gang de gerontocratas que continua a ditar os rumos do partido.

Que não se espere nada desses dois perdedores.
Não arrumarão nada e só tornarão as coisas ainda piores...
Um sinal infalível de degeneração: ocorre quando um regime só consegue produzir líderes incompetentes, sempre velhos, completamente fora da realidade e que creditam a culpa de seus fracasso a fatos ou internos (“deploráveis”) ou externos (“Rússia”).  Pense novamente na União Soviética sob Brezenev, o regime de apartheid na África do Sul sob F. W. de Klerk ou na Rússia de 1917 sob o regime Kerensky. A situação fica claríssima quando se pode afirmar que o líder político que os AngloSionistas mais tentam assustar refira-se a eles como “idiotas completos”, é ou não é?
Quanto aos Republicanos, basicamente não passam de partido subsidiário do Likud israelense. Basta dar uma olhada na quantidade de imbecis que o Likud produz em casa para fazer uma ideia do estrago que causa nos Estados Unidos, sua colônia.
Os Estados Unidos eventualmente poderão ser reconstruídos; não tenho dúvidas quanto a isso, de forma alguma. Trata-se de um grande país, com milhões de pessoas muito talentosas, recursos naturais imensos e sem nenhuma ameaça real para o seu território. Mas isso só acontecerá quando houve uma mudança *verdadeira* de regime (ao contrário de uma mera mudança na administração presidencial) a qual, por si mesma, só acontecerá depois da fase “E2” do colapso.
Enquanto isso, continuaremos a esperar Godot.

The Saker

[1] Tratam-se de dois versos da canção “Flakes” de Frank Zappa, onde o poeta/compositor fala da indiferença e inutilidade do ser humano, comparando-o a flocos de neve, que não servem para nada, duram pouco e só conseguem tornar as coisas ainda piores. Abaixo, a transcrição da música:

FLAKES

Flakes! Flakes! 
Flakes! Flakes! 
They don't do no good 
They never be workin' 
When they oughta should 
They waste your time 
They're wastin' mine 
California’s got the most of them 

Boy, they got a host of them

Swear t'God they got the most 
At every business on the coast 
Swear t'God they got the most 
At every business on the coast 
They got the Flakes

Flakes! Flakes!

They can't fix yer brakes 
You ask 'em, "Where's my motor?"
"Well, it was eaten by snakes . . . " 

You can stab 'n shoot 'n spit 
But they won't be fixin' it 
They're lyin' an' lazy 
They can be drivin' you crazy

Swear t'God they got the most 
At every business on the coast 
Swear t'God they got the most 
At every business on the coast 
(Take it away, Bob . . . )

I asked as nice as I could 
If my job would 
Somehow be finished by Friday 
Well, the whole damn weekend 
Came 'n went, Frankie 
(Wanna buy some mandies, Bob?)
You know what? They didn't do nothin' 
But they charged me double for Sunday

Now, you know, no matter what you do, 
They gonna cheat 'n rob you 
'N then they'll give you a bill 
'N it'll get your senses reelin' 
And if you do not pay 
They got computer collectors 
That'll get you so crazy 
'Til your head'll go through th' ceilin' 
Yes it will!

I'm a moron 'n this is my wife 
She's frosting a cake 
With a paper knife 
All what we got here's 
American made 
It's a little bit cheesey, 
But it's nicely displayed 
Well we don't get excited when it 
Crumbles 'n breaks 
We just get on the phone 
And call up some Flakes 
They rush on over 
'N wreck it some more 
'N we are so dumb 
They're linin' up at our door 
Well, my toilet went crazy 
Yesterday afternoon 
The plumber he says 
"Never flush a tampoon!" 
This great information 
Cost me half a week's pay 
And the toilet blew up 
Later on the next day ay-eee-ay 
Yeah ay-eee-ay
Yeah ay-eee-ay
Yeah ay-eee-ay
Blew up the next day 
WOO-OOO

One Two Three Four!

Flakes! Flakes!
Flakes! Flakes!
Flakes! Flakes!

One Two Three Four!
FLAKES!

We are millions 'n millions
We're coming to get you 
We're protected by unions 
So don't let it upset you 
Can't escape the conclusion 
It's probably God's Will 
That civilization 
Will grind to a standstill 
And we are the people 
Who will make it all happen 
While yer children is sleepin', 
Yer puppy is crappin' 
You might call us Flakes 
Or something else you might coin us 
We know you're so greedy 
That you'll probably join us

We're coming to get you, we're coming to get you 
We're coming to get you, we're coming to get you 
We're coming to get you, we're coming to get you 
We're coming to get you, we're coming to get you

7 comentários:

Luã Reis disse...

Texto épico do The Saker

Anônimo disse...

O colapso de que o texto trata já é, sim, perceptível e está fazendo como primeira vítima o sonho dos eua de impor-se como poder unipolar incontestável pós derrocada da URSS.
A pá de cal nesse "sonho americano" foi posta por Putin no seu memorável discurso de março de 2018, onde ele apresentou uma série de novos armamentos que deitaram por terra qualquer pretensão estadunidense de vencer uma guerra contra a Rússia. Se isso já não era possível antes da fala de Putin, agora, muito menos.

O autor para melhor explicar essa nova realidade a desdobra em cinco fases, apresentando cada uma delas como um degrau a ser descido pelos eua rumo a "débâcle". No geral o texto tem nexo com a realidade, ficando a critério de cada um dar mais ênfase a esse ou aquele aspecto da crise descrita pelo autor. Digamos que pelo menos há consenso em relação ao fato de que dias sinistros estão chegando para os estadunidenses.

Mas o que me chama a atenção são certas afirmações, que eu fico na dúvida se foi o autor, Dmitry Orlov, ou The Saker.
Comecemos pela citação a Solzhenitsyn, que suponho ter sido feita pelo The Saker, já que ele o citou em outro texto que li aqui no blog. Solzhenitsyn foi um "queridinho" do ocidente até que os russos lhe deram um pé na bunda e o mandaram para a Suíça. Foi recebido com rosas vermelhas em Genebra, festejado como grande escritor (o que ele não era mesmo!!!), e mais toda aquele papagaiada dispensada aos tais dissidentes que saiam ou eram saídos da URSS. Mas a lua de mel no paraíso capitalista durou pouco, durou até o momento em que o "escritor" foi intimado a pagar impostos sobre a venda de seus livros. Como bom cristão ultraliberal que era e continua sendo, Solzhenitsyn achava que no ocidente não era preciso pagar impostos ou qualquer outros tributos, pois na sua fantasia isso era coisa de comunistas totalitários. Assim, o breve romance acabou com um Solzhenitsyn desiludido e despeitado, tendo que morrer com os pilas do imposto e afirmando que o ocidente era dissoluto e sem envergadura moral para derrotar a URSS. E, ainda por cima, afirmando justamente o oposto daquilo que ele pregara toda a vida: o iminente colapso da URSS!!! Quanto a isso, não foi nenhum feito notável, pois no brasil daquele época, qualquer vereadorzinho da arena de qualquer cafundó previa todo dia o... colapso da URSS...
Quanto a seus livros, li "pavilhão dos cancerosos" e "1914". O primeiro, uma ode ao próprio ego e ao liberalismo a lá tatcher, que a faria enrubescer de inveja. O segundo, uma ode ao militarismo pelo militarismo, pecado capital para quem se pretende intelectual.
Sim, a URSS acabou se esfacelando. Mas todos esquecem de mencionar que foi aquela URSS, stalinista e mais isso e mais aquilo, que uma certa esquerda babaca renega para passar por palatável, que assentou as bases materiais e morais nas quais a Rússia deu a volta por cima e hoje bota na mesa para o império de uma forma que nem a URSS imaginou ser possível.

Anônimo disse...

continua

Outra passagem se refere as tais "análises conspurcadas pela ideologia". Como assim????????????????????????? Que análise, opinião, avaliação ou seja lá o que for que não está impregnada de ideologia, tanto para a direita quanto para a esquerda? Simplesmente não existe nada que o ser humano produza, tanto material como conceitualmente, que seja imune a ideologia. Essa negação ridícula do caráter ideológico de tudo parece discurso dos néscios do instituto milleniun. As pessoas que dizem isso parecem não saber o exato significado da palavra ideologia.
E aqui o autor que fala em análises ideologicamente conspurcadas cai numa tremenda contradição, pois ele mesmo cita que a "KGB já havia previsto a tragédia e alertado o Politburo, mas a gerontocracia soviética estava ideologicamente paralisada". Ora, se havia alguma coisa que caracterizava a ideologia dominante na URSS, essa era justamente a KGB como parte do aparelho do estado, que não estava "paralisada", e cumpriu judiciosamente o seu papel ideológico de defesa do sistema alertando para a crise que se avizinhava. O que falou foi ação da liderança ao não cumprir o seu papel na defesa da ideologia.

Em mais de uma vez aparece no texto a citação a velhos no controle do poder. Qual é o problema? É certo que a velhice está associada a decreptude. Mas também, inegavelmente, ao acúmulo de experiência. Putin já não cozinha mais na primeira fervura e não está longe da idade que tinham os gerontocratas da URSS. Mas alguém aqui, de sã consciência, trocaria o Putin pelo micron ou pelo trudeau, guri de recados do trampa, que fez aquela bela merda de prender a empresária chinesa e agora está as voltas com um traficante canadense condenado a morte na China?

Segundo uma passagem do texto, "a maioria do povo (norte)americano parece cego quanto à natureza de seus líderes, de uma maneira que os franceses definitivamente não está, como exemplificado pelos Gilets Jaunes". Quanto aos estadunidenses isso é a mais pura verdade. Mas seria mesmo diferente no caso dos franceses? O curioso é que antes das manifestações do tais coletes amarelos aconteceram outras muito maiores, mas que tiveram pouca ou nenhuma cobertura nos noticiários, ao contrário das atuais, amplamente midiatizadas. O que também é curioso é o fato de tais manifestações terem eclodido justamente depois do micron ter defendido a criação de uma força militar exclusivamente europeia e não subordinada a OTAN, o que na prática seria o fim da dessa aliança e consequentemente do domínio dos eua sobre a europa. Até agora não vi nenhuma análise, aqui e em outros lugares, que afaste de mim a desconfiança sobre os tais coletes não serem alguma coisa do tipo ir pra rua "protestar" vestindo camisetas da seleção do jogo de chutar bola que... também eram amarelas.

Anônimo disse...

continua

Sinceramente eu fico confuso e desconcertado sobre certas coisas que são ditas no texto como essa pergunta sobre onde se esconderam "aqueles orgulhosos, aqueles viris yankees conquistadores que encontraram e fraternizaram com o Exército Vermelho no Rio Elba em 25 de abril de 1945?" Os termos "orgulhosos" e "viris" estão sendo usados ironicamente, já que a ascensão do nazismo contou com o apoio dos capitalistas estadunidenses, não é?
Em seguida lê-se: "Por acaso não se metamorfosearam numa pequena e lamentável subetnia de moleques afeminados...". Pequena não. Grande!!! Mas o que tem os efeminados com isso? Por acaso deveríamos preferir "aqueles orgulhosos, aqueles viris yankees conquistadores" com sua "gloriosa história de rapinas, pilhagem e genocídio"?
"...viciados em pornografia...". Inegavelmente.
"...que depilam os pelos pubianos...". Sim, mas essas "viadagens" ridículas não são exclusividade dos efeminados.
"...e que precisam de permissão explícita para fazer sexo sem medo de ser mais tarde acusado de estupro?" Perai, como assim? Até onde sei, se não houver consentimento explícito por parte do parceiro ou parceira, está configurada algum tipo de violência, que vai desde coação moral até a física. Não entendo onde o Dmitry quer chegar com isso. Bem confuso.

Aqui o Saker, ao falar das "comunidades que votaram em Trump porque ele disse: “queremos nosso país de volta”, afirma que "infelizmente, em vez de dar ao povo seu país de volta, Trump o deu de presente aos neocons..."
Pô, ou eu estou muito enganado ou próprio Saker já publicou aqui textos onde ele mesmo diz que o para estado sionista, que é quem realmente manda nos eua, está fazendo de tudo para ferrar o trampa!!!

Longe de mim defender esse cara. Ele é um capitalista e ainda por cima dos mais perversos. Mas como capitalista ele defende que é preciso construir alguma coisa de concreto, nem que seja um cassino com suas roletas e caça níqueis para tomar o dinheiro dos otários, ao contrário dos mega especuladores ligados aos neocons, que querem transformar a economia mundial num grande e infernal cassino onde as roletas são as hipotecas podres, sobres as quais foi feito o fundamental documentário "Trabalho Interno"(Inside Job), obrigatório para quem quer entender no que o capitalismo transformou-se.
Quem deveria sair vencedor na ópera bufa que são as "eleições" nos eua era a Clinton, que já estava agendada pelos sionistas para atacar o Irã assim que assumisse.
A vitoria do trampa melou todo o plano. E uma vez no governo ficaram evidentes as tentativas de golpe, onde vários indicados por ele conspiravam contra seu governo com o apoio descarado da mídia e do judiciário, que ainda turbinaram aquela enxurrada de mentiras sobre a interferência russa na campanha eleitoral. Quando trampa anunciou pela primeira vez a intenção de retirar os militares dos eua da Síria, o mundo desabou sobre ele. Agora, novamente está tentando e sofrendo uma tremenda oposição, inclusive de seus comandados. Então não é isso ai que o Saker diz, que ele entregou o governo assim no mais.

Anônimo disse...

continua

Que outro presidente foi tão achincalhado como o trampa, sendo que ele não está fazendo nada mais nada menos do que aquilo que o criminoso de guerra obama fez na Síria, por exemplo? Ou contra os refugiados? Isso só acontece porque ele está contrariando profundamente o poder do para estado dos eua, poder que nem faz mais questão de ficar nas sombras e que se admite publicamente como poder paralelo ou mesmo sobreposto ao poder "oficial".
O trampa, mesmo sendo o tosco que é ou parece ser, percebeu que o poder unipolar dos eua ficou para as calendas gregas e está querendo salvar os dedos, defendendo a ideia de que é preciso trazer de volta as corporações a fim de retomar o crescimento da economia estadunidense. Na minha opinião ai é que mora a sua grande ilusão, pois o que os eua vive agora é a húbris da tal globalização que os próprios estadunidenses impuseram a ferro e fogo.

No capitalismo globalizado as corporações foram atrás do trabalho mais barato e na maioria dos países só sugaram recursos e semearam a miséria. Mas na China, com seu capitalismo planificado o papo foi outro. Lá o estado cedeu uma geração de mão de obra barata para as transnacionais mas apropriou-se de tecnologia, por meios lícitos e ilícitos, até mesmo roubando. Fez o caminho inverso dos países capitalistas tradicionais, que roubavam as matérias primas ou pagavam preços aviltantes por elas. A china apropriou-se do conhecimento e deu um primeiro salto tecnológico e de conquista de mercados. Discretamente transformou-se no que é hoje, a maior economia do mundo. Agora, prepara-se para mais um salto tecnológico segundo um texto que me parece ter lido aqui mesmo, onde os planejadores buscam o aprimoramento da qualidade da manufatura chinesa, de tal forma que possa competir em outros setores mais avançados como o da tecnologia de ponta.
Esse novo patamar que a China busca atingir bate de frente com os eua e um mercado que os estadunidenses consideravam cativo. Isso sim é o que explica as sansões contra a China, que ameaça seriamente um pais que sempre defendeu o livre mercado quando reinava soberano nele.
A expansão comercial chinesa está descrita aqui nesse blogue por uma série de artigos do Pepe Escobar e outros sobre a nova rota da seda. Agora a competição é pra valer e a base industrial dos eua está minada. E é nesse cenário adverso que o trampa quer recompor a economia estadunidense.

Vai ser muito difícil e a grande dúvida que paira é sobre como os eua lidarão com sua crise estrutural, se aceitarão a convivência multi polar ou virarão o tabuleiro do jogo do poder na impossibilidade de controlá-lo. Por tudo o que está demonstrado até aqui e pelas características autodestrutivas daquela sociedade, loucos não faltam nos eua com disposição para virar a mesa. Ou somos nós ou não é nada.


José Ferreira disse...

Excelente texto e este comentário está complementando o texto, e demonstrando alguns eqivoequí, parabéns.

Anônimo disse...

Realmente, partes do texto bem confusas, mal escritas mesmo ou afirmações para lá de contestáveis, mas no todo, ótima análise. Qual a causa desses problemas? erros de tradução ou vêm do original?