terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Jornada histórica pela Crimeia, por Pepe Escobar

15/12/2019, Pepe Escobar, Asia Times


Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga


Porto de Kerch, Mar de Azoz, controlado pelos russos, Asia Times.

Aqui estamos nas ruínas de Panticapaeum, capital do Reino de Bósforo, fundado em meados do século 6º antes de Cristo nas duas margens do Estreito de Kerch.

Começamos a caminhada pela colina de Mithridates, no coração do Kerch moderno, onde foi morto o ‘terrível’ rei Mithridates de Pontus (134-64 AC). O geógrafo grego Estrabão (63 AC-23 DC) disse que o Panticapaeum foi o país-mãe de “todas as cidades milesianas [de Mileto] do Bósforo”. Foi uma grande cidade, com um estaleiro e um conveniente porto.

Conforme se sobe, chega-se a um obelisco que celebra a vitória na Grande Guerra Patriótica [nos EUA, chamada “2ª Guerra Mundial” (NTs)]. É um dos últimos pico no leste da Crimeia. Para a esquerda está o porto de Kerch sem navios de guerra, só barcos de patrulha da guarda-costeira. Para a esquerda, o azul escuro do Mar de Azov, o estreito Kerch – atualmente um dos pontos quentes da geopolítica desse jovem século 21 – e à distância está Krimsky Most, a ponte da Crimeia.

Cruzar a ponte – A travessia por essa maravilha da engenharia, 19 km de comprimento, construída em apenas dois anos – é suave e demora menos de 15 minutes. À direita, seguem os trabalhos da ponte ferroviária, que estará pronta ano que vem.

A Ponte da Crimeia, Asia Times.


Atravesso na direção de Novorossiysk, e retorno saindo do território central da Rússia. Há um controle de passaportes e de alfândega, apesar de a Crimeia ser hoje território russo. Carros e ônibus são cuidadosamente examinados; a preocupação com um ataque terrorista é constante. Os guardas são gentis: “Bem-vindo a Krym”. Digo que já estivera em Krym. Eles sorriem.

Ponte sobre águas turbulentas[1] 

Washington insiste oficialmente em que todas as sanções relacionadas à Crimeia permanecerão vigentes até que Moscou devolva a península à Ucrânia. Jamais acontecerá. Para Moscou, a Crimeia apenas se reintegrou oficialmente, ao país do qual nunca saiu. Afinal de contas, Nikita Khrushchev, ucraniano sentimental, transferiu a Crimeia à Ucrânia em 1954 num surto de fraternidade proletária, mas em ato que violou flagrantemente a Constituição da URSS.

Os neoconservadores norte-americanos e sortimento variado de russófobos insistem em que Washington arme ainda mais a terra de Kiev, com forças de mar e ar, para reagir contra a “agressão russa”, mas, para os crimeanos, os rugidos dos EUA são tratados como piada de mau gosto.

Todo mundo sabe que o presidente ucraniano Petro Poroshenko precisa desesperadamente desviar as atenções para bem longe do próprio governo, ilegal e fracassado. E o mesmo se pode dizer – nos termos dos Acordos de Minsk – dos bombardeios de cidades no Donbass e do recente “incidente Kerch”.

Poroshenko mal consegue chegar a magros 8% de popularidade no país. Serviu-se do incidente Kerch para impor lei marcial. Mas queria três meses, e o Parlamento em Kiev só lhe concedeu um mês. As próximas eleições estão praticamente perdidas para ele. Mais de dois milhões de ucranianos votaram com os pés na estrada e procuraram refúgio na Rússia. Poroshenko não tem meios para iniciar qualquer guerra contra o Donbass sem dinheiro e sem armas, e com mínimo apoio efetivo da União Europeia.

Durante quatro anos, Poroshenko serviu-se de um tsunami de propaganda para manipular a extrema direita ucraniana, que sempre odiou russos, poloneses e judeus, e direcionar todo esse ódio exclusivamente contra os russos que são maioria na população da Ucrânia. Pois nem isso bastou para “resolver” qualquer dos incontáveis problemas do que já é “estado falhado” [orig. failed state].

Apesar de Washington já ter destruído qualquer possível détente com Moscou, a posição do presidente Putin permanece muito clara, como exposta no 15º aniversário do Valdai International Discussion Club em Sochi em outubro passado:

“A Crimeia é nossa terra. Não estamos nos mudando para terra de qualquer outro país. Lá estamos, lá ficaremos. Por que é nossa terra? Não porque lá chegamos e tomamos a terra. O povo da Crimeia votou num referendum e escolheu, primeiro a favor de se tornar independente da Ucrânia; depois, por se reintegrar à Rússia. Permitam lembrá-los, pela centésima vez, de que não houve referendum algum no Kosovo; apenas o Parlamento votou a favor da independência, nada além disso. Todos que sempre quiseram destruir a antiga Iugoslávia respiraram aliviados: ótimo, graças a Deus, para nós, está muito bom. Mas no caso da Crimeia, discordaram. Ok, vamos examinar os fatos, os documentos da ONU, vamos ver o que diz a Carta da ONU sobre a questão, os capítulos em que se declara o direito das nações à autodeterminação. Será discussão longa, sem fim. Então agimos conforme o desejo manifesto dos cidadãos que vivem naquele território.”

Na viagem, de Simferopol até Kerch via Sevastopol, todas as pessoas com quem falei confirmaram que votaram a favor de a Crimeia ser reintegrada à Rússia, e que não se arrependeram.

Para os crimeanos que amam a Rússia e todos os russos em geral, a Crimeia estar reintegrada à Mãe Rússia é fato consumado no campo geopolítico e de segurança nacional, além de feito de que todos se orgulham nacionalmente. E ainda sem falar que a Rússia fez mais pela Crimeia em quatro anos, que a Ucrânia, em seis décadas.

Aeroporto e ondas 

Minha primeira impressão ao chegar ao recém inaugurado, novíssimo Simferopol International Airport (chamado “a onda da Crimeia” e cujodesign mostra 146 ondas), foi que qualquer cidade de porte médio em todo o ‘ocidente’, mataria e morreria por aeroporto igual.

Simferopol International Airport, Asia Times

Marina Borodina, graduada pela Universidade da Crimeia e produtora da agência Rússia Hoje [ru. Rossiya Segodnya] mostra-me a cidade, que vive verdadeiro boom imobiliário, inclusive os arredores do aeroporto. A Crimeia vive sob sanções, mas os negócios adaptam-se. Sem Visa ou Mastercard? As pessoas usam o sistema de pagamentos Mir, ou rublos. Smartphones com SIMs de provedores russos só fazem chamadas locais. Quer dizer, sem rede 4G e roaming internacional.

Há também um boom de construção de rodovias. A rodovia costeira, de Sevastopol a Kerch está sendo reformada, mas a joia da coroa é a rodovia Taurida, 240 k, leste-oeste, cuja reforma estará concluída ano que vem, e se ligará à ponte da Crimeia.

Sevastopol – entrada pela qual o cristianismo, segundo mistura complexa de lenda e história, teria entrado na Rússia – foi inteiramente construída pela Rússia acompanhando a bela paisagem de ancoradouros azuis da região, sempre cheios de navios. Está inscrita na psique nacional russa, especialmente pela épica defesa de que a cidade foi protagonista, durante dois anos, na Guerra da Crimeia, e por ter repelido um cerco que durou dez meses, pelos nazistas, na Grande Guerra Patriótica [chamada no ocidente, “2ª Guerra Mundial”.

O delicioso Hotel Sevastopol, com ares de velho mundo, ainda reina supremo, completado agora com uma brasserie francesa anexa e ecos longínquos de uma Paris do século 19 que influenciou os tempos do czar.

Militares passeiam com a família pela famosa Promenade naquele momento decorada para o Natal, e a cena desmente qualquer ameaça de mais confrontos no Mar de Azov. O Mar Negro e o Mar de Azov são de facto “lagos russos”.

Quando os tataros mongóis da Horda Dourada chegaram à Crimeia, viram uma torre e a descreveram como Kerim (“forte”), daí o nome Crimeia. Na sequência os tataros penetraram pelo território, para Bakhchisaray, onde construíram o gracioso palácio do khan, num vale verde protegido por rochedos. Foi o ápice do período do Khanato Tataro da Crimeia, Krym Tartary.

Palácio Bakhchisaray, Asia Times

Tive tempo para visitar um Bakhchisaray virtualmente deserto, até que apareceram um casal de noivos celebrando seu casamento tataro, para posar para as fotos obrigatórias, acompanhados de um cortejo de carros Mercedes pretos, com a bandeira azul-claro dos tataros, com o selo amarelo. Davam sinais de estar bem de vida e falaram de boas oportunidades de negócios. Disseram que não tinham qualquer problema com o governo russo. Há cerca de 300 mil tataros na Crimeia, numa população de 2 milhões.

Os ‘civilizados’ e os ‘bárbaros’

Anna Naumenko no museus de Kerch, Asia Times.

No museu Kerch, a curta distância da colina Mithridates, tive o privilégio de conversar com uma das curadoras, Anna Naumenko – também graduada e pós-graduada na Universidade da Crimeia – que me ofereceu um tour comentado pelo museu. Há lá uma pequena coleção de maravilhosos objetos gregos e bizantinos, mas a maior parte dos achados arqueológicos da região estão no museu Hermitage em S.Petersburgo.

A Crimeia foi cenário de um encontro histórico de vastíssimas consequências. Imaginem colonos gregos, essencialmente urbanos, que alcançaram a Crimeia depois de navegarem no mínimo um mês, do Bósforo ao sul da Rússia, e que ali se viram diante de nômades da Ásia Central que haviam cruzado um mar de grama [estepes] – os citas – confederação de povos falantes do idioma indo-iraniano, que já sobreviviam graças aos suas capacidades de povo nômade pelas estepes crimeanas quando os gregos lá chegaram, no século 8º AC.

Em seguida vieram sármatas, godos, hunos, cazares – pastores nômades falantes do turcomano da Ásia Central; os cumanos (também nômades falantes do turcomano), tataros-mongóis da Horda Dourada, antes de Bizâncio e do Império Otomano. Os tataros crimeanos converteram-se ao Islã no século 14. O khanato manteve-se até 1783, quando Catarina a Grande conquistou a Crimeia.

Isso mostra como a Crimeia sempre foi uma intersecção sem igual no planeta, onde a “civilização” entreteceu-se com o que os gregos atenienses talvez tenham descrito como “barbarismo”. Essas ondas de choque permearam dali em diante para sempre a autopercepção de uma suposta superioridade ocidental em relação a um Outro suposto inferior e em geral nômade.

A lendária Horda Dourada – hoje o braço ocidental do império tataro-mongol – controlou as estepes ao norte do Mar Negro e a Crimeia, desde meados do século 13, até pelo menos meados do século 15.

É informação crucial, porque foram na verdade os primeiros unificadores da Eurásia, garantindo a estabilidade nas estepes, da China à Hungria. E a estabilidade levou à conectividade comercial; as Antigas Rotas da Seda serpenteavam da China até o Mar Negro, e dali navegavam para o Mediterrâneo. Esses laços estão impregnados na memória coletiva de todos os povos eurasianos.

Bizâncio foi o que o especialista russo Mikhail Rostovtzeff, em seu maravilhoso Iranians and Greeks in South Russia (1923), descreveu como uma civilização mista “muito interessante”. Assim também o Mar Negro e a Crimeia.

A Antiga Rota da Seda trouxe seda, especiarias, porcelana, bronze e ouro da China, Pérsia e Índia, enquanto os gregos exportavam vinho, cerâmica, joias e ornamentos fabricados primeiro na Grécia, depois no reino do Bósforo em Kerch.

A paz nas estepes traduziu-se em trânsito livre entre o Mar Negro e o Mediterrâneo. Os tataros mongóis chegaram ao Mar Negro quando o Império Bizantino já estava morto. Por trás dos exércitos terrestres dos Cruzados estavam as fábricas de Veneza e Gênova, ansiosas por aumentar a conectividade comercial com os mercados do Mar Negro.

Depois que os Cruzados desabaram como tempestade sobre Constantinopla em 1204, deslizaram pelo Bósforo, até que finalmente alcançaram a Crimeia. Por algum tempo, mercadores em Tana – importante colônia de Veneza no Mar de Azov, conseguiram monopolizar para Veneza e através de Veneza virtualmente todo o comércio com a China.

Os europeus tiveram de encontrar uma abertura. Sudak, no sudeste da Crimeia, era então colônia grega e genovesa. Mas, como se sabe, tudo isso acabou quando os turcos capturaram Constantinopla em 1453 – e acabou-se Império Bizantino em torno do Mar Negro.


Impérios cadentes 

Os nazistas tinham planos para a Crimeia. Dois meses antes de a Alemanha invadir a URSS, decidiu-se que a Crimeia seria separada da Rússia e que seria entregue a uma Ucrânia fantoche: foi o Projeto Gotland.

A maioria dos que colaboraram com os nazistas na Crimeia durante a 2ª Guerra Mundial não eram tataros. Mesmo assim, no governo de Stálin, os tataros foram a primeira minoria étnica a ser integralmente deportada. Quando o poder soviético voltou à Crimeia, os que lá estavam foram expulsos em massa para a Ásia Central, por crime de “traição à Pátria”. Agora, os filhos e netos daqueles tataros estão voltando aos milhares.

Quando a URSS desfez-se, também foram dissolvidos o império russo czarista do século 19, além da Novorossiya do século 18 de Catarina a Grande que cobria o litoral norte do Mar Negro.

Cruzando por partes da estepe crimeana, é fácil relembrar Chekhov, que foi criado em Taganrog no Mar de Azov e amava o cheiro das ervas no verão da estepe.

É também o terreno perfeito para refletir sobre impérios em colapso. O desejo russo de alcançar as águas tépidas do Mediterrâneo sempre colidiu contra o impulso turco para se agarrar às conquistas otomanas em torno do Mar Negro. Essa história reverberou na Guerra da Crimeia nos anos 1850s e também na 1ª Guerra Mundial, com a Turquia aliada à Alemanha e ao Império Austro-húngaro, e a Rússia invadindo a Anatólia. E antes até de a 1ª Guerra Mundial acabar, os dois impérios – o dos czares e o otomano – estavam mortos.

Hoje, a Crimeia é outra vez parte da Rússia, virtualmente sem qualquer custo, a união selada pela Ponte da Crimeia. É realidade sobre a qual se deve refletir, visível, gráfica, nas ruínas do Panticapaeum. 

Ruínas de Panticapaeum. Foto: Asia Times



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