quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Estupidez norte-americana sem-noção contra Rússia tem a ver com a humilhação que Snowden impôs à 'segurança'/EUA

4/9/2017, M.K. Bhadrakumar, Asia Times











Caso alguém ainda não tenha sabido, o toma-lá-dá-cá diplomático entre Moscou e Washington tornou-se mortalmente grave.

Depois de expulsar todo o pessoal no sábado, autoridades norte-americanas ocuparam e assumiram o controle de três prédios onde funcionavam serviços diplomáticos russos em San Francisco, Washington e New York. O Departamento de Estado disse que controlará todo o acesso aos prédios e assume a responsabilidade pela segurança e manutenção dos locais.

Na 6ª-feira, o Ministério de Relações Exteriores da Rússia convocou o vice-chefe da Missão Diplomática dos EUA e fê-lo saber que o movimento dos EUA seria "ação agressiva sem precedentes". Washington decidiu manter o curso e criar um precedente.

Os russos estão furiosos. Declaração em Moscou no domingo denunciou a manobra dos EUA como "movimento ultrajante" e "ato claramente hostil". Alegaram que "Serviços especiais dos EUA com apoio de policiais armados assumiram o controle de prédios" [os quais] "são propriedade da Rússia e são protegidos por imunidade diplomática".

Moscou exigiu também que as autoridades dos EUA "voltem à razão" e devolvam imediatamente os prédios. Caso não o façam, Washington "carregará toda a culpa" por o que quer que advenha daqueles atos.

Significativamente, a declaração alertava que a degradação dos laços Rússia-EUA sem dúvida terá impacto negativo "sobre a atual situação de estabilidade global e segurança internacional."

Com certeza os russos retaliarão. As vinhas russas fervilham de especulações. Um contramovimento possível seria os russos retomarem a Spaso House, residência do embaixador dos EUA em Moscou.

Espera-se a palavra final. O presidente Vladimir Putin está atualmente em Xiamen, China, participando da reunião de cúpula dos BRICS, que se encerra na 3ª-feira.

A Spaso House tem significação legendária e seria enorme golpe contra o prestígio dos EUA se as autoridades russas cancelassem a concessão e exigissem a propriedade da mansão.

Localizada no famoso distrito Arbat no centro de Moscou, a Spaso House é prédio catalogado como renascimento neoclássico, construída em 1913 por industrial e banqueiro siberiano muito rico, de nome Nikolay Vtorov. Segundo a revista Forbes, foi um dos homens mais ricos na Rússia Czarista, com fortuna pessoal estimada em mais de US$700 milhões de dólares.

Ironicamente, graças ao aguçado faro para negócios, Vtorov foi conhecido como o "Siberiano Norte-americano". Depois da Revolução Bolchevique, foi morto em circunstâncias misteriosas, em 1918, e a mansão onde morava tornou-se propriedade do estado. Adiante viria a ser convertida em residência do embaixador dos EUA, em 1935, quando os dois países estabeleceram relações diplomáticas.

Evidentemente, a história mais famosa sobre a Spaso House tem a ver com a era Stálin. Em 1945, autoridades soviéticas aproveitaram-se da paixão que o então embaixador William Harriman tinha por esculturas em madeira e o presentearam com uma bela réplica, em madeira, do Grande Selo dos EUA. Tão maravilhado ficou Harriman com o presente que mandou pendurar a peça na parede de seu gabinete. Mas o ingênuo diplomata não sabia que a KGB plantara uma escuta, chamada Chrysostom (que o mercado conhece como Boca de Ouro), junto ao bico da águia. A escuta, que acabou no Museu da CIA em Langley, só foi descoberta quase dez anos depois, em 1952.


A Spaso House assistiu a vários eventos históricos ao longo dos anos, dentre os quais o jantar oficial, na visita histórica que fez a Moscou o presidente Ronald Reagan e a esposa, Nancy, em maio de 1988, do qual participaram Mikhail e Raisa Gorbachev. O Departamento de Estado levou por avião, para Moscou, toda a comida, pratos, copos e toda a porcelana usada naquele jantar.

Surpreendentemente, sempre houve máximo decoro e absoluta civilidade nas relações EUA-Rússia durante a era soviética. Hoje já não se vê nem vestígio daquela decência. Mesmo no auge da Guerra Fria, seria impensável "tomar" as grandes propriedades diplomáticas de qualquer lado, em alguma espécie de surto de ira.

O Departamento de Estado não pode pretender que 'não sabe' que tão flagrantes violações da Convenção de Viena absolutamente não serão perdoadas no tribunal da opinião pública. O mais provável é que a ação tenha sido deliberadamente planejada e executada, com o objetivo de atingir o orgulho russo.

A grande pergunta é se o presidente Barack Obama previu que tudo isso poderia vir a acontecer quando ordenou sanções violentas contra a Rússia em dezembro passado, incluindo a expulsão de 35 diplomatas russos, em retaliação contra supostos esforços dos russos para interferir na eleição presidencial nos EUA.

Parece altamente improvável que o diktat de Obama tenha sido ato maquiavélico para impedir seu sucessor de promover as políticas para a Rússia que alardeava. Explicação mais generosa seria que o presidente Obama tenha acendido o pavio, mas sem ver o que fazia.

O que é visível e bem claro é que os diplomatas de carreira em Washington foram todos postos em quarentena ou em retiro sabático forçado. O establishment de segurança dos EUA parece ter assumido o lugar do motorista, determinado a derrubar todos os recordes reais e imaginários de desaforos e humilhações jamais cometidos contra os EUA. Aqueles recordes permanecem nunca superados, até hoje, desde que o sentinela tocador de apito de alerta da Agência de Segurança Nacional Edward Snowden apareceu vivo e forte no aeroporto Sheremetyevo em Moscou, dia 23 de junho de 2013.*****



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