sábado, 4 de novembro de 2017

Antes de outubro: Insuportável romantismo do marxismo ocidental


"As narrativas da queda [do fracasso da Revolução], além disso, desconsideram um ponto que Lênin tantas vezes repetiu, que a revolução nela mesma é a parte fácil; muito mais complexa é a tarefa de construir o comunismo. Resultado dessas narrativas da queda, é que até os marxistas mais empenhados preferem o tempo de antes de outubro, de antes da revolução propriamente dita, quando os bolcheviques, com massivo apoio popular, assaltaram e tomaram o poder."

Traduzido pelo Coletivo Vudu




Muitos marxistas ocidentais padecem de um ressentimento profundo: nunca tiveram a experiência direta de revolução comunista bem-sucedida. Por alguma razão imperscrutável, todas as revoluções bem-sucedidas aconteceram no 'Leste', no 'Oriente': Rússia, Bulgária, Romênia, Iugoslávia, Hungria, Tchecoslováquia, Polônia, China, Vietnã e por aí vai. E nenhuma das poucas revoluções no 'Oeste', no 'Ocidente', da Finlândia à Alemanha deu certo. A única exceção, Cuba, comprova a regra, porque a conversão ao comunismo e o apoio dos russos só aconteceram depois da revolução.



O ressentimento dos marxistas ocidentais contra as bem-sucedidas revoluções orientais manifesta-se numa mistura complexa de desdém e insuperável romantismo. Quanto ao romantismo, aparece visível na posição de que a revolução perfeita estaria ainda por vir, que acontecerá num indefinível momento utópico no futuro. O critério que definiria esse momento romântico muda sempre, dependendo da posição que cada um assuma, mas é sempre momento futuro, não aconteceu, traz mudança qualitativa inimaginável e com certeza absoluta não precisa de exército. 



Desnecessário dizer, nenhuma das revoluções orientais bem-sucedidas passa no teste, todas acabam dignas de piedade, caídas em desgraça, distanciadas dos ideais revolucionários românticos. Para encurtar, 'falhadas'. E a palavra código para tal 'fracasso' é Stalin. Quando uma revolução torna-se 'stalinista' – como todas se tornam, segundo os marxistas ocidentais –, prova-se que não era revolução de verdade. As sementes do fracasso estariam já incorporadas no próprio momento revolucionário.



Gostaria de discutir esse romantismo aplicado a revoluções em três níveis: um referente a recente incidente relacionado à China; outro referente a estranha discussão que envolve a Noruega; e um terceiro nível no qual considero o que se pode classificar como narrativas 'da queda' em relação à primeira revolução comunista bem-sucedida, a saber, a Revolução Russa.



Comunismo chinês 



Em visitas cada vez mais numerosas à China, para lecionar, viajar e participar de infindáveis discussões com marxistas, vi desmontarem-se a maior parte dos meus preconceitos, completamente descartados ou, então, tornados imensamente mais complexos. Aos poucos, comecei a partilhar a visão de meus interlocutores chineses, para os quais o envolvimento de marxistas ocidentais com a China carecia de sofisticação. Foi quando fiz contato com os organizadores de uma potente conferência nacional, um jornal e uma vibrante série de livros Historical Materialism. Minha ideia era organizarmos um ou dois painéis sobre "Comunismo na China Hoje". Reuniríamos alguns especialistas chineses que fariam um debate detalhado sobre o marxismo na China.



A resposta veio previsível, puro desapontamento: 'Mas e a China ainda é realmente comunista?', 'Será que ainda há marxistas na China?', 'Se houver, não sabem do que falam.' 'E quanto a liberdade, democracia, trabalhadores?' 



Resposta à minha sugestão de um painel de discussões foi um claro 'não', porque o marxismo que restaria na China não passaria de coisa sem sofisticação, se não alta traição a algum ideal impossível. Pessoalmente, eu esperava que o pessoal de Historical Materialism fosse mais aberto a debate vigoroso, que explorasse as questões de modo que ultrapassaria todos esses preconceitos. Mas a resposta que recebi era também previsível, porque obtive exatamente a mesma resposta também de todos os marxistas ocidentais, um após o outro: a China não é realmente comunista, e assim sendo não é assunto que interesse discutir. Alguns dos meus interlocutores até sugeriram que a China seja 'do mal', que visaria a dominar o mundo, que devemos temer o Império Chinês. 



Nos casos em que insisti, meu interlocutor recorreu a algum artigo no Washington PostNew York Times ou algum outro jornal ocidental, como 'prova'. E se eu citasse fonte chinesa, a fonte não era admissível, pouco digna de crédito, enviesada. Nesses assuntos, os marxistas ocidentais em nada diferem dos burgueses que criticam a China.



O socialismo burguês da Noruega 



O segundo exemplo é ainda mais espantoso.[1] Segundo algumas fontes na Noruega, o país chegou ao socialismo sem revolução. Esqueçam as confusas e 'falhadas' revoluções orientais; na Noruega, o socialismo chegou por vias pacíficas. O argumento pode ser claramente exposto, nas seguintes premissas e conclusão:


– A burguesia é absolutamente dominante.– A burguesia é firmemente de esquerda.– A burguesia apoia o estado de bem-estar norueguês.– A classe trabalhadora foi praticamente desmantelada, porque todos os seus desejos foram alcançados.– O que resta da classe trabalhadora é firmemente de direita.
CONCLUSÃO: A Noruega é país socialista.


O que se pode entender, dessas premissas contraditórias? Assumamos que façam sentido. Significaria que a Noruega teria conseguido chegar ao socialismo por uma via não revolucionária. Em outras palavras, o país é manifestação do argumento de Bernstein (dos social-democratas alemães do século 19), para quem o que se tem de fazer é convencer a burguesa das vantagens do socialismo, e com isso a classe burguesa veria a luz. Naquele momento, Bernstein logo se viu distanciado do movimento socialista, mas talvez fosse mesmo a hora dele –, se é que se deve acreditar nesse relato.


Fato é que posso garantir que a Noruega é talvez um dos lugares mais burgueses que se pode conhecer, exemplo do sucesso pervasivo do projeto burguês. O problema é que o que passa por 'socialismo' na cabeça dos noruegueses é o bom velho liberalismo em sua manifestação autêntica (que induz os revolucionários a só pensar em pregar o feminismo, defender gays, imigrantes etc.). Tudo isso posto, a pergunta continua sem resposta: será a Noruega realmente um caso da exceção Bernsteiniana, a tal ponto que é exceção ao resto do mundo, tendo alcançado o que no máximo seria um estado 'socialista de butique' [ing. 'chardonnay socialist’ state]? Claro que não, porque seria mais uma manifestação do ressentimento contra as revoluções bem-sucedidas no Oriente, argumentando nesse caso que a revolução ocidental, sim, realmente aconteceu, paradoxalmente sem revolução comunista.



A Revolução Russa 'falhada': uma narrativa 'da queda' 



A terceira instância de insuportável romantismo aparece no que chama narrativas 'da queda'. Por narrativa da queda faço referência ao que se lê em Gênese 2-3, de Eva e depois Adão que comem do fruto da árvore proibida (do conhecimento do bem e do mal) e são por isso banidos por Deus do paraíso. Essa narrativa é tolamente aplicada por analistas ocidentais (não necessariamente marxistas) a revoluções no Oriente. Uso como exemplo a primeira revolução comunista bem-sucedida na Rússia.



Segundo esses analistas ocidentais, quando teria acontecido a traição, de onde a queda? Os menos generosos sugerem que teria acontecido até antes da revolução, especialmente mediante maquinações supostamente desviantes, de Lênin; e sua recusa a cooperar com outros grupos socialistas como os Mencheviques e os Socialistas Revolucionários (com as duas alas Esquerda e Direita). Exemplo dessa abordagem encontra-se nos dois trabalhos massivos de Bruce Lincoln, Passage through Armageddon Red Victory.[2] O segundo livro termina com uma seção intitulada 'a revolução devora seus autores', na qual a ascensão de Stálin seria o 'travestimento' final da revolução. 



Mas as condições para a tal 'queda' estariam também já dadas no que Lincoln insiste em chamar de guerra 'civil' (inobstantes os 160 mil soldados de EUA, Reino Unido, Grécia, Itália, Japão, Alemanha, Áustria, França e Turquia, além de infindáveis equipamento, dinheiro e apoio logístico para os Exércitos Brancos), se não, mesmo, antes, na própria natureza do comunismo. Para Lincoln, o comunismo, por sua própria natureza, levaria àquela traição e 'queda'. Lincoln mostra suas verdadeiras cores nas simpatias pela última posição do Exército Branco na Crimeia, sob Wrangel. Para Lincoln, aquele aristocrata seria bom especialista em táticas além de bom organizador, supostamente lutando para garantir um regime justo. Depois que foi derrotado, a retirada de cerca de 150 mil brancos da Crimeia é narrada com sentimento de perda.



Com mais frequência, pelo menos para marxistas ocidentais, o momento da queda é a própria Revolução de Outubro, se não imediatamente depois dela. A partir daquele momento – dizem, numa dentre várias fórmulas – o partido e mesmo a classe trabalhadora desintegraram-se; os bolcheviques tornam-se 'renegados'; o pensamento de Lênin perde coerência; sua 'narrativa heroica' de uma revolução socialista da classe trabalhadora vitoriosa começa a se esfacelar; a burocracia torna-se pervasiva; acontece uma transformação, de partido aberto, democrático e flexível, para uma das organizações políticas mais centralizadas e 'autoritárias' da história moderna; a ditadura do proletariado torna-se a ditadura do secretariado; a revolução muda, de revolução de baixo para cima, para revolução de cima para baixo; os sovietes democráticos desmancham-se ante um partido centralizado e ditatorial.[3] 



O problema com essas narrativas da queda é que tendem a ser teológicas (sempre a mesma 'queda' do paraíso) e não enfrentam, muito menos dão conta, da complexidade da história.[4] Além disso assumem, como destacou Tamara Prosic,[5] que os comunistas seriam seres humanos perfeitos que nunca poderiam 'pecar'. As narrativas da queda, além disso, desconsideram um ponto que Lênin tantas vezes repetiu, que a revolução nela mesma é fácil; muito mais complexa é a tarefa de construir o comunismo. Resultado dessas narrativas, é que até os marxistas mais solidários e empenhados preferem o tempo de antes de outubro, de antes da revolução propriamente dita, quando os bolcheviques, com massivo apoio popular, assaltaram e tomaram o poder. 



Alguns lamentam as oportunidades perdidas, sugerindo que o ideal seria governo amplo, pluripartidário, como o que foi criado na Revolução de Fevereiro.[6] Outros concedem que o curto tempo depois da revolução até foi válido, mas que a guerra 'civil' corroeu todos os ganhos, porque foi período de controle centralizado, de medidas duras, da Cheka [polícia secreta] e do 'comunismo de guerra', tudo isso agentes e fatores que traíram a revolução.[7] Para alguns, a solução é aliar-se a Trotsky, argumentando que, se Trotsky tivesse derrotado Stálin, a situação teria sido muito diferente. É exemplo clássico da mais fútil narrativa de 'mas e se...?'.



Todas essas são narrativas da queda, relatos de traição contra a revolução comunista. Muito melhor, nesse caso, focar o período antes de Outubro, porque é ali que se encontram, perpetuamente, os marxistas ocidentais. Quanto a mim, pessoalmente, prefiro o tempo depois de outubro. Por quê? Porque é história de surpreendentes sobrevivência e sucesso da revolução, contra todas as probabilidades. 



Na Rússia, a sensação disseminada era que o novo governo soviético colapsaria em poucos dias. No momento da revolução a situação era desesperadora, depois de três anos de guerra contra Alemanha e Áustria –, com falta de comida, de combustível para calefação, de transporte, de produção industrial, além da desmobilização espontânea do exército. E as coisas ainda pioraram depois da revolução, com um bloqueio econômico contra os soviéticos, e mais quatro anos de guerra 'civil' no norte, leste e sul: Denikin, Kolchak, Iudenich, com vários Exércitos Brancos comandados por Wrangel chegando ao ponto de declarar novos estados nos territórios que conquistavam. 



Os poloneses criaram mais um front no oeste, o que reduziu o novo estado soviético a uma amostra miserável do que deveria ser. E todos esses estados apoiados entusiasticamente pelas potências capitalistas hostis aos sovietes, com tropas, dinheiro, equipamento, treinamento e aconselhamento. 



Como o relato de Ransome mostra bem, os russos sabiam que tinham de superar aquela devastação sem nenhuma ajuda de fora.[8] Pois mesmo assim, com firmeza, determinação e fartura de recursos e convicções, os comunistas conseguiram e foram bem-sucedidos.



Ninguém precisa referir-se a novo material de arquivo[9] para ver dos dois lados: o quanto a situação era desesperadora e o quanto foi extraordinária a vitória do Exército Vermelho e, assim, da revolução comunista contra forças gigantescas. Basta ler os torrenciais escritos de Lênin desse período – textos, palestras, telegramas, conversas por telefone, para ver que aquele período foram tempos de fazer e avançar, numa luta diária sem descanso e sem muito tempo para contemplação.[10] Mas nada disso interessa aos marxistas ocidentais românticos, porque a luta real não passa de 'prova' de o quão completamente a revolução caiu em desgraça e 'fracassou', 'por culpa' de Stálin.*****


Referências
Anweiler, Oskar. The Soviets: The Russian Workers, Peasants, and Soldiers Councils, 1905-1921.  New York: Pantheon, 1974 [1958].
Boer, Roland.  In the Vale of Tears: On Marxism and Theology V, Historical Materialism Book Series.  Leiden: Brill, 2012.
Cliff, Tony.  The Revolution Besieged: Lenin 1917-1923.  London: Bookmarks, 1987.
Donald, Moira.  Marxism and Revolution: Karl Kautsky and the Russian Marxists, 1900-1924.  New Haven: Yale University Press, 1993.
Harding, Neil.  Lenin’s Political Thought.  Chicago: Haymarket, 2009.
Laue, Theodore H. von.  Why Lenin? Why Stalin? A Reappraisal of the Russian Revolution, 1900-1930.  London: Weidenfeld and Nicolson, 1964.
Lenin, V.I.  Collected Works.  47 vols.  Moscow: Progress Publishers, 1960.
Lih, Lars T.  Lenin.  London: Reaktion Books, 2011.
Lincoln, W. Bruce.  Passage through Armageddon: The Russians in War and Revolution 1914-1918.  New York: Simon & Schuster, 1986.
———.  Red Victory: A History of the Russian Civil War.  New York: Simon and Schuster, 1989.
Rabinowitch, Alexander.  The Bolsheviks in Power: The First Year of Soviet Rule in Petrograd.  Bloomington: Indiana University Press, 2007.
Ransome, Arthur.  The Crisis in Russia.  New York: Dodo, 2011 [1921].



[1] A sessão seguinte é resultado de conversa com um intelectual norueguês.
[2] W. Bruce Lincoln, Passage through Armageddon: The Russians in War and Revolution 1914-1918 (New York: Simon and Schuster, 1986), W. Bruce Lincoln, Red Victory: A History of the Russian Civil War (New York: Simon and Schuster, 1989).
[3] Moira Donald, Marxism and Revolution: Karl Kautsky and the Russian Marxists, 1900-1924 (New Haven: Yale University Press, 1993), pp. 221-46, Neil Harding, Lenin’s Political Thought (Chicago: Haymarket, 2009), vol. 2, pp. 283-328, Lars T. Lih, Lenin (London: Reaktion Books, 2011), Tony Cliff, Lenin 1917-1923: The Revolution Besieged (London: Bookmarks, 1987), Theodore H. von Laue, Why Lenin? Why Stalin? A Reappraisal of the Russian Revolution, 1900-1930 (London: Weidenfeld and Nicolson, 1964), Oskar Anweiler, The Soviets: The Russian Worker, Peasants, and Soldiers Councils, 1905-1921 (New York: Pantheon, 1974 [1958]).
[4] Roland Boer, In the Vale of Tears: On Marxism and Theology V, Historical Materialism Book Series (Leiden: Brill, 2012).
[5] Personal communication.
[6] Alexander Rabinowitch, The Bolsheviks in Power: The First Year of Soviet Rule in Petrograd (Bloomington: Indiana University Press, 2007).
[7] Cliff, Lenin 1917-1923: The Revolution Besieged.
[8] Arthur Ransome, The Crisis in Rússia (New York: Dodo, 2011 [1921]).
[9] Rabinowitch, The Bolsheviks in Power: The First Year of Soviet Rule in Petrograd.
[10] V.I. Lenin, Collected Works, 47 vols. (Moscow: Progress Publishers, 1960), vols. 23, 26-33, 36, 42.

Um comentário:

Pedro Henrique disse...

Não entendi a foto com os macacos (um parece ter duas cabeças). Alguém me explica pf?

gde abs