segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Como nasceu e cresceu a crise da moeda da Turquia

10/8/2018, Moon of Alabama [atualizado até hoje, ao final do artigo]


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu





O presidente Erdogan da Turquia repete sempre que 'potências estrangeiras' (quer dizer: os EUA) querem derrubá-lo. Diz que o 'lobby de interesses' (quer dizer: banqueiros; quer dizer: banqueiros judeus) quer prejudicar a Turquia. De certo modo, acerta nas duas pontas.

Desde a semana passada, a lira turca está em longa trajetória de queda. Só hoje, perdeu cerca de 20% do valor. Muito provavelmente arrastará com ela toda a economia turca, e Erdogan precisa de um bode expiatório.

Mas, se potências estrangeiras e bancos sem dúvida usam a crise para seus próprios objetivos, a maior parte da culpa cabe à política econômica do próprio Erdogan. O prolongado boom que Erdogan criou e inflou com dinheiro estrangeiro emprestado chegou afinal a estado de pré-explosão.

Aqui uma recapitulação de como a coisa chegou ao ponto que chegou.


O quadro político mais amplo


Durante a 'Primavera Árabe' induzida pelo EUA, o presidente Obama uniu-se ao Qatar e à Turquia numa tentativa para instalar governos da Fraternidade Muçulmana em todo o Oriente Médio. Quando Hillary Clinton deixou a posição de secretária de Estado e John Kerry assumiu, o governo Obama mudou de posição. Apoiou o golpe contra o presidente Morsi eleito no Egito e recuou da posição de usar força militar dos EUA para derrubar o governo da Síria.

Especialmente quanto à Síria, a Turquia foi deixada para trás com a mala na mão. Erdogan apoiara o plano dos EUA para derrubar o governo sírio. Ele ter convidado refugiados sírios e apoiado combatentes radicais islamistas na Síria foram movimentos que custaram quantia considerável de dinheiro e geraram muitos problemas. A rota do comércio turco que atravessa a Síria até o Golfo foi fechada. As relações econômicas com o Irã foram abaladas. Erdogan precisa arrancar algum proveito disso tudo.

Mas as políticas dos EUA viraram-se contra ele. Os protestos de Gezi em 2013 tinham todos os sinais de tentativa de 'golpe por revolução colorida' à moda dos EUA. A tentativa fracassou. Em 2014, o governo Obama começou a apoiar as forças curdas do PKK/YPG em Kobane, leste da Síria. O PKK é organização terrorista que tenta criar país próprio no leste da Turquia, norte da Síria e norte do Iraque. A aliança de EUA com os curdos, que os norte-americanos armaram, criou uma adaga PKK/YPG apontada para o baixo ventre da Turquia.

Em resposta a um ataque liderado pelos turcos em Latakia e Idleb em meados de 2015, a Rússia implantou forças suas na Síria. Analisado esse movimento em retrospectiva, foi quando o jogo de Erdogan na Síria acabou. Os EUA não iniciariam guerra contra as armas nucleares da Rússia. A Síria não cairia. Mas Erdogan insistiu.

Em novembro de 2015, a defesa aérea turca emboscou e derrubou um jato russo. A Rússia respondeu com a suspensão total de todas as trocas econômicas com a Turquia. Nada das sanções 'por beliscões' que os EUA frequentemente usam: foi total e abrupto fim instantâneo de todas as relações de comércio, incluídos os milhões de turistas russos que deixaram de visitar a Turquia. O dano econômico para a Turquia foi enorme. Erdogan teve de se submeter à Rússia. Putin foi generoso e permitiu que Erdogan salvasse a própria cara. O governo russo ofereceu um negócio lucrativo de gasoduto e algumas quinquilharias extras. 

Em meados de 2016, a CIA montou golpe à vera contra Erdogan, mas a inteligência russa alertou Erdogan, e o golpe fracassou. A Turquia quer que os EUA entreguem Fethullah Gulen, que Erdogan acusa de ter instigado o golpe. Gulen é pregador religioso turco, com grande número de seguidores; e é quadro ativo da CIA há muito tempo, atualmente vivendo na Pensilvânia.

Trazer a Turquia do campo 'ocidental' para o campo 'oriental' pode ser visto como parte da estratégia do Mar Negro da Rússia. É repetição de plano de meados do século 19 executado sob o czar Nicolau I. O plano atual até aqui está sendo bem-sucedido. Mas colide com os planos dos EUA para reviver a OTAN para mais uma lucrativa Guerra Fria. Daí que o plano dos EUA atualmente em curso é usar os problemas econômicos da Turquia, para afinal derrubar Erdogan.


O quadro econômico mais amplo


Fora da Turquia, Erdogan é detestado. O estilo arrogante e autocrático não causa boa impressão. Mas dentro da Turquia teve carreira muito bem-sucedida e continua a contar com a maioria do povo turco. E a principal causa que explica esse apoio é o prolongado boom econômico que Erdogan inventou.

Em 2002, quando Erdogan tornou-se primeiro-ministro, a Turquia começava a se recuperar de uma recessão. O antecessor de Erdogan, Kemal Derviş, implementou algumas reformas significativas. Erdogan assumiu os créditos pelos resultados. E descartou, na sequência, várias regulamentações incômodas e aplicou uma varrida na burocracia. Chamou investimentos estrangeiros. O programa funcionou bem. A economia cresceu a passos rápidos, e muitos turcos foram tirados da pobreza. Uns poucos enriqueceram. Os primeiros anos de sucesso econômico sob governo Erdogan deixaram boas lembranças. A inflação foi mantida estável em nível relativamente baixo, mesmo quando havia muito dinheiro acessível, e a economia cresceu. Mas o programa de expansão econômica de Erdogan também aumentou a vulnerabilidade da Turquia.

A Turquia tem um déficit crônico na balança cambial. Importa mais bens e serviços do que exporta e tem de tomar dinheiro estrangeiro para cobrir a diferença. Nos primeiros anos de Erdogan, muito dinheiro voou para a Turquia. Mas foi investido em projetos improdutivos. As novas moradias fizeram Istambul crescer. Surgiram novas e esplêndidas pontes e aeroportos, foram construídos vários shopping centers e mais de 10 mil novas mesquitas, além de um palácio de mil salas para uso de Erdogan. Amigos de Erdogan, na indústria da construção, enriqueceram.

Mas indústrias produtivas que criem produtos para exportar para outros mercados são muito mais difíceis de construir, que mesquitas. Erdogan jamais deu prioridade àquelas indústrias. E assim os déficits da Turquia em conta corrente  cresceram, de 1% do PIB, para cerca de 6% do PIB. Essa situação era claramente insustentável.

Durante o boom, as taxas de juros do Banco Central turco caíram dos máximos iniciais, mas ainda foram mantidos mais altos que todos os demais. As indústrias e bancos tomaram empréstimos em euros ou dólares, que carregavam menos juros, mas isso também significou que assumiram alto risco monetário. Se a lira turca viesse a cair, os empréstimos teriam de ser pagos em moedas fortes, a serem acumuladas de lucros aferidos numa lira cujo valor não parava de cair.

Em circunstâncias normais, o Banco Central da Turquia teria arquitetado uma ou mais recessões moderadas ao longo dos 16 anos do longoboom. Alguns maus empréstimos teriam sido descartados. O consumo de bens importados e o déficit em conta corrente teria sido reduzido. Mas Erdogan tem estranha compreensão da teoria econômica. Para ele, altas taxas de juros causam inflação.

Cada vez que o banco central turco aumentou suas taxas de juro para manter algum controle sobre a inflação e deter a queda da lira, Erdogan não poupou desaforos contra o movimento e ameaçou pôr fim à independência do banco central. O dinheiro relativamente barato continuou a jorrar, o boom à moda Erdogan continuou a rolar. Mas os problemas estruturais se agravaram.

Desde o início de 2017, a inflação na Turquia acelerou. De lá pra cá, subiu de 8% para os atuais 15%. A moeda desabou. O valor de 1 lira caiu de US$0,30 em 2016, para US$0,20 há uma semana. Nos últimos poucos dias caiu mais 25%, para US$0,15. Agora, são necessárias mais de 2 mil liras para pagar o principal de um empréstimo de mil liras tomado em EUA-dólares em 2016. As indústrias e bancos turcos tomaram cerca de $150 bilhões em moedas estrangeiras. Só os que exportam em moeda forte a maior parte do que produzem conseguirão pagar o que devem. Todos os demais estão praticamente falidos.

A conta do prolongado boom está chegando. A lira turca está desabada. Ninguém, em todo o mundo, quer emprestar mais dinheiro à Turquia. E exigem juros estratosféricos, para cobrir tamanho risco. Em breve a Turquia já não conseguirá pagar pelas importações, especialmente pelo petróleo e gás de que necessita. Relações inamistosas com os EUA praticamente impossibilitam qualquer recurso ao FMI, em busca de um empréstimo de emergência. Só viria sob condições extremamente duras, com exigências de 'reformas', quer dizer, com o fim de todos os benefícios que Erdogan assegurou aos seus eleitores.


A atual escalada


A escalada da crise monetária durante a última semana coincidiu com a escalada de conflito menor com os Estados Unidos.

Depois da tentativa de golpe em 2016, a Turquia prendeu um pastor norte-americano, que há anos trabalhava no país, e o acusou de terrorismo. Semana passada foi fechado um acordo para trocar Brunson por um indivíduo turco preso em Israel acusado de terrorismo. A Turquia esperava mais dessa troca. Queria libertar também Mehmet Hakan Atilla, banqueiro turco preso pelos EUA por ter infringido sanções norte-americanas contra o Irã. (A infração consistiu em montar um negócio pelo qual o petróleo iraniano seria pago com ouro. Desse negócio beneficiaram-se a Turquia – e especialmente o círculo mais íntimo da família de Erdogan.)

Semana passada, os norte-americanos disseram que Erdogan voltara atrás no acordo da troca:


O acordo tinha duas etapas, pessoalmente construído por Trump, para trocar um cidadão turco preso em Israel sob acusações de terrorismo, por Brunson. Mas parece que deu em nada na 4ª-feira, quando um tribunal turco, em vez de mandar o pastor para os EUA, converteu sua pena, para prisão domiciliar, enquanto prossegue a tramitação normal do julgamento.


Trump e Pence, seu vice-presidente evangélico ficaram furiosos:


Na 5ª-feira pela manhã, depois de conversa nada amistosa pelo telefone com Erdogan, Trump revidou. Os EUA "imporão amplas sanções" à Turquia, tuitou ele. "Esse inocente homem de fé tem de ser libertado imediatamente."

O vice-presidente Pence fez-lhe eco, em discurso numa conferência religiosa, dizendo que a Turquia tem de libertar Brunson agora" ou prepare-se para enfrentar as consequências." O secretário de Estado Mike Pompeo telefonou ao seu contraparte em Ancara.


Os EUA impuseram sanções a dois ministros do gabinete de seu tradicional aliado na OTAN. Mas Erdogan não cedeu. Os mercados reagiram às ameaças públicas de sanções e contrassanções. A lira começou a despencar, de 4,80 liras por dólar, para 5,20 por dólar. Na 4ª-feira, uma delegação turca viajou a Washington para prosseguir na negociação, mas as conversas fracassaram, e a lira foi a 5,50 por dólar. Os mercados financeiros deram sinais de alarme. A queda acelerada ameaça impactar bancos europeus.

Hoje pela manhã (10/8) Erdogan pronunciou um discurso, no qual descartou qualquer temor de um crash da lira:


"Há várias campanhas em circulação. Não lhes deem importância" – disse Erdogan.

"Não esqueçam: se eles têm os dólares deles, nós temos nosso povo, nosso Deus. Estamos trabalhando duro. Pensem onde estávamos há 16 anos e olhem para nós hoje" – continuou."


Erdogan disse que não se renderá à bandidagem econômica. Os bancos que emprestaram muito dinheiro à Turquia podem ter lido aí uma ameaça de calote da dívida turca.

Ao meio dia a lira caía minuto a minuto, ao ritmo de 20% ao dia. O genro de Erdogan, Berat Albayrak, recentemente nomeado ministro das Finanças, fez um discurso já marcado sobre a situação da economia. Esperava-se que oferecesse números dos déficits e listasse medidas concretas que o governo tomaria para superar o problema da lira. Mas nada disso aconteceu. Albayrak tentou acalmar os mercados, com o argumento de que o Banco Central turco é independente e faria o que fosse preciso fazer. Ninguém na Turquia crê que o Banco Central mova uma palha sem a aprovação de Erdogan. Erdogan é inimigo autodeclarado de juros altos, e o Banco Central não interveio hoje, quando a intervenção era urgentemente necessária.

Ainda durante o discurso de Albayrack, Donald Trump tuitou pessoalmente:


Donald J. Trump
@realDonaldTrump 12:47 utc - 10 Aug 2018Acabo de autorizar que sejam dobradas as tarifas sobre aço e alumínio relativas à Turquia, enquanto a moeda deles, a lira turca, perde valor rapidamente contra nosso muito poderoso dólar! Agora, alumínio será 20% e aço 50%. Nossas relações com a Turquia não são boas nesse momento!


Aço é um dos principais itens de exportação da Turquia. Os EUA importam por ano o equivalente a mais de 1 bilhão de dólares de aço turco. Mais tarde, a Casa Branca disse que essas tarifas estão relacionadas à segurança, não ao comércio.

Entrementes, Erdogan conversou por telefone com o presidente Vladimir Putin da Rússia, para "discutir os laços econômicos". É provável que tenha pedido um empréstimo de emergência. Enquanto isso, a lira caiu a 6,80 por dólar.

Erdogan então pronunciou outro discurso, no qual atacou a pressão norte-americana, sem citar Trump e sem mencionar o tuíto.

Ao final do dia, a lira estava em 6,50 por dólar, depois dos 5,50 de ontem. Ações turcas caíram em torno de 2%. Ações de alguns bancos e produtores de aço turcos perderam 15%. Bancos espanhóis, italianos e franceses, que emprestaram dezenas de bilhões de euros a bancos turcos, também perderam. Bloomberg acompanhou ao vivo o tique-taque das cotações.


Daqui, para onde?


Erdogan tem agora o fim-de-semana para discutir a questão com seus conselheiros. Se nada for feito até 2ª-feira, a queda da 6ª-feira ganhará ímpeto. A lira continuará a cair. O Banco Central terá de subir os juros 30% ou mais, para deter a queda e atrair o dinheiro estrangeiro tão desesperadamente necessário. A economia turca entrará em recessão profunda. Bancos e empresas entrarão em falência. O desemprego aumentará. 

Erdogan culpará os EUA e o "lobby da taxa de juros" por todas as desgraças. Seus eleitores e seguidores acreditarão nele. É vã qualquer esperança que Erdogan seja derrubado por causa disso.

Mas os problemas da Turquia são estruturais. Que a bolha turca explodiria era evento já esperado há muito tempo. Aquele déficit na balança comercial é simplesmente insustentável. Terá de reduzir importações e fazer crescer as exportações. Para isso precisará de vastos empréstimos de emergência.

Sim, os EUA estão usando a situação para pressionar a Turquia. Mas os EUA não são a causa raiz do problema. Apenas o expuseram à vista de todos.

A pressão dos EUA nada tem a ver com a economia turca, nem com o pastor Brunson. A pressão só tem a ver, como sempre, desde 2013, com obrigar Erdogan a alinhar-se com a agenda dos EUA. Terá de pôr fim às boas relações com a Rússia. Terá de suspender a compra do sistema russo S-400 de defesa aérea. Talvez receba ordens para suspender a construção do gasoduto russo. Terá de obedecer aos EUA, na questão síria. Enquanto não for assim, os EUA tentarão de tudo para derrubá-lo.

A única chance que tem a Turquia para escapar das exigências dos EUA é aprofundar a aliança com a Rússia. Putin sabe que Erdogan precisa dele. Ganhará tempo para que a pressão aumente e, então, apresentará as suas próprias condições. Erdogan terá de desistir completamente dos planos que tem para a Síria. Todo o território sírio que Turquia e seus prepostos estão hoje ocupando deve ser devolvido ao estado sírio. Só depois disso, a rota comercial turca para os estados do Golfo será reaberta. E só depois disso Rússia (e Irã) ajudarão a Turquia a superar suas crises.

Na 2ª-feira, o ministro Lavrov, de Relações Exteriores da Rússia, visitará a Turquia.

Será que Erdogan aceitará as condições dos russos? Ou se dobrará de volta para o lado dos EUA, rendendo-se a Trump e ao FMI? Ou encontrará alguma outra saída para escapar da calamidade?

ATUALIZAÇÃO (11/81, 8:45 UTC, 5h45, horário de Brasília):

Erdogan publicou hoje coluna assinada no New York Times. Relembra as décadas de boas relações, lista suas acusações contra ação recente dos EUA e culpa os EUA pela deterioração das relações entre os dois países. Culmina no seguinte parágrafo:


"Num momento em que o mal continua a rondar o mundo, ações unilaterais dos EUA contra a Turquia, aliada há décadas dos EUA, só servirão para minar e comprometer interesses e segurança dos norte-americanos. Antes que seja tarde demais, Washington deve desistir da noção descabida de que nosso relacionamento poderia ser assimétrico e reconciliar-se com o fato de que a Turquia tem alternativas. Se a tendência atual de unilateralismo e desrespeito não for revertida, teremos de começar a procurar novos amigos e aliados."


7 comentários:

Anônimo disse...

O começo da parte "o contexto econômico mais amplo" lembra muito o que ocorreu com certo país da América Latina. Mais um excelente texto, como sempre. Parabéns e obrigado por manter esse blog.

Unknown disse...

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