segunda-feira, 20 de agosto de 2018

E agora? O que fará o supergrupo Os Sancionados?* Por Pepe Escobar

A cena solo de Trump nunca vencerá os presidentes hard rock do oriente elétrico

17/8/2018, Pepe Escobar, Asia Times

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




Longe vão os dias, da Guerra Fria dos 1960s e 1970s, quando realmente imperavam na terra os supergrupos de rock – de Cream a Led Zeppelin, a Yes e a Emerson, Lake & Palmer.

Bem-vindos de volta, amigos, ao show que nunca termina – e ao remix geopolítico pós-verdade do supergrupo. Com vocês, Os Sancionados; banda multinacional das estrelas multi-instrumentistas Vladimir Putin (Rússia), Xi Jinping (China), Hassan Rouhani (Irã) e Recep Tayyip Erdogan (Turquia).

Como todo o universo rock sabe, Os Sancionados correm eternamente o risco de serem ofuscados – por efeito de camadas e mais camadas de sanções –, pelo inigualável solo & purpurina de Donald Trump (EUA).

Os dois reais virtuosos da banda deliciam-se com tocar em perfeita sincronia. Putin vez ou outra cede e entrega-se a um solo ocasional à Jimmy Page (como quando lançou mísseis do Cáspio, contra o Daech na Síria); mas é mais como Keith Emerson invocando Mussorgsky, compositor russo clássico. Xi adora álbuns conceituais Pink Floyd-escos, à moda Nova Rota da Seda. Rouhani poderia ser Jack Bruce, do Cream – oferecendo aqueles momentos sutis de musicalidade sem mácula. E Erdogan, que não consegue resistir, colabora com as fanfarronices de homem da porta dos fundos[1] de Robert Plant.

Quanto a Trump, não é nenhum Dylan – e com certeza tampouco é Roger Waters; está mais para Ted Nugent com sobretons de Black Sabbath.

Assim sendo, o que inventarão agora Os Sancionados? Um horror, como Deep Purple sem Gillan e Blackmore, ou um épico feito Fanfare for the Common Man, de Emerson Lake&Palmer? Um cenário geoeconômico para A Fanfarra para o Homem Comum tem mais ou menos essa cara.

Putin-Xi – na parceria estratégica Rússia-China – oferecem a Erdogan a possibilidade de se integrar, como membro, aos (B)RICS** [na variante (B)RICS Plus] e à Organização de Cooperação de Xangai (OCX). Erdogan já manifestou publicamente interesse nos dois casos.

Turquia cai fora da OTAN. Militares turcos estrilarão, mas Erdogan, depois do fracassado golpe de estado de 2016 – do qual foi avisado pela inteligência russa –, realmente passou a controlar as forças armadas turcas.

Pequim e Moscou oferecem uma seleta de acordos comerciais; o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov já ofereceu comércio nas respectivas moedas. Por seu lado, Erdogan disse que a Turquia está pronta para começar a usar moedas locais no comércio com Rússia, China, Irã e União Europeia, UE.

Depois, Turquia reestrutura suas dívidas em EUA-dólares; China compra e tira a lira turca dos mercados de câmbio – operação fácil para o Banco do Povo da China [ing. People’s Bank of China (PBOC)]. Ankara já está preparando o lançamento de papéis denominados em yuan. O Banco Industrial e Comercial da China Ltda. [ing. ICBC] já anunciou empréstimo de $3,6 bilhões para energia/transporte.

Em agudo contraste com o Consenso de Washington, Erdogan sabe muito bem que a Turquia não pode "reescrever o manual de gerenciamento de crises para mercados emergentes", simplesmente por se render à 'austeridade' do FMI. Resposta possível seria passar a depender cada vez mais do Banco Asiático de Investimento e Estrutura [ing. Asia Infrastructure Investment Bank (AIIB)].

Quase todo o mesmo cenário – OCX, (B)RICS PlusAIIB, comércio que se afasta do EUA-dólar – serve também para o Irã, como nos dias quando Pink Floyd costumava oferecer bis de Dark Side of the Moon inteiro, várias vezes.

Novo álbum, sucesso de vendas 

O novo álbum Os Sancionados (vinil 180g mais todos os formatos e plataformas), intitulado "Eurasian Integration" visa ao status de muitos discos de platina e a atender arenas multiobjetivos, de Izmir e Hamadan a Chongqing e Vladivostok.

Traz o Irã como nodo ainda mais crucialmente importante para as Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) – em conjunção com o impulso de nova conectividade entre Rússia e Irã assinado na importantíssima Convenção do Mar Cáspio.

Numa trilha paralela, o corredor de conectividade China-Cazaquistão-Irã já exibe trens de carga que cumprem a rota de ponta a ponta, até o porto de Bandar-e Anzali no Cáspio Iraniano (mapa).

Outra faixa chave no novo álbum gira em torno do Acordo de Reserva de Contingência [ing. Contingent Reserve Agreement, CRA] dos (B)RICS, decidido na mais recente reunião; um mecanismo para desdolarizar economias que será expandido, conforme os (B)RICS convertam-se em (B)RICS Plus (ou (B)RICS+).

Depois de assinar acordo provisório há três meses, o Irã já está a caminho de se engajar, no início de 2020, num acordo comercial pleno, com a União Econômica Eurasiana (UEE). Na sequência, virá a Turquia.

Com empresas da UE saindo do Irã sancionado, empresas chinesas e russas apressam-se. Dado que o Congresso dos EUA aplicou seu нет и нет [não e não!] e recusa-se a vender jatos de combate F-35 à Turquia, porque Ankara está comprando o sistema russo S-400 de defesa aérea, Boeing e Airbus no Irã correm o risco de perder sua fatia de mercado para jatos russos, como o MS-21 ou o IL-96-400M.

E com o comércio Irã-Turquia em crescimento, o Ramo Turco – a parceria estratégica de energia Rússia-Turquia – está longe de descarrilhar.

Erdogan sabe muito bem o quanto a Turquia é o conector estratégico quintessencial "onde o Oriente encontra o Ocidente" no centro da Eurásia. E também sabe das "culpas" que lhe estão sendo realmente cobradas: comprar os S-400s, ter contido a obsessão de "Assad tem de sair", promover o Ramo Turco e insistir em que a Turquia continuará a comprar petróleo do Irã.

Assim, enquanto vai aperfeiçoando sua cena de Robert Plant – “You need coolin’/ Baby I’m not foolin’/ I’m gonna send ya/ back to schoolin’" [Você precisa esfriar, baby, sério, não é enganação, vou mandar você de volta pra escola] – Erdogan vai fazendo as contas de como uma parceria entre iguais com as Novas Rotas da Seda, ao lado de relacionamento íntimo com o Banco Asiático para Investimentos e Infraestrutura e a União Econômica Eurasiana, pode ser mais lucrativa que um coquetel tóxico de OTAN inchada, nada de União Europeia e muita 'austeridade' [é ARROCHO] neoliberal do FMI.

É o que explica em parte a dança de dervixes rodantes de Ankara, rodando para bem longe dos T-bills, bônus e notas dos EUA que estão em 50% desde o fim de 2017. Ao mesmo tempo, em paralelo, Moscou e Pequim (acompanhados à distância por Nova Delhi e até pela própria Ankara) continuam empilhando ouro e mais ouro, antecipando a super bonanza de "Eurasian Integration", o álbum-sucesso.

Termômetro muito acessível da popularidade de Erdogan pode ser encontrado em Fatih, bairro de trabalhadores religiosos praticantes, no litoral europeu de Istanbul.

Fatih manifesta a imensa popularidade de Erdogan em toda a Anatolia. Apesar dos muito visíveis incandescentes traços antiesquerdas, o programa de desenvolvimento de Erdogan não é coisa só de mais mesquitas e mais shopping centers. Ao longo dos anos o partido AKP deu jeito de implantar um sistema de seguro-saúde universal bastante decente – incluindo a modernização de hospitais públicos – e um sistema de aposentadorias.

Agora, outra vez, é hora de mostrar serviço – nacionalmente e globalmente.

Calling all Eurasian young dudes [Convocando todos os caras jovens da Eurásia (diria David Bowie, ver adiante)]

Ao mesmo tempo, a Rússia continuará a desenvolver estratégia muito sofisticada para o Mar Negro.

Em muito pouco tempo, Putin já reformatou o Mar Negro – geopoliticamente e geoeconomicamente. O símbolo do movimento é a suntuosa ponte para a Crimeia no Estreito Kerch – tour de force de engenharia inaugurada há apenas três meses.

As performances multi-instrumentais de Putin aparecem em todos os palcos. Erdogan ganha S-400s, usinas nucleares e o Ramo Turco (que também beneficia vastas áreas no sul da Europa). Rouhani e os centro-asiáticos ganham uma Convenção do Cáspio e a possibilidade bem real de uma sucessão de negócios de energia. Damasco e Teerã – com Ankara só um pouco atrasada – conseguem ver o fim possível do ciclo trágico da guerra na Síria.

Com Erdogan convertendo progressivamente as reservas da Turquia para yuan – e ouro – virão novos benefícios, efeito da maior interação com a galáxia ICE/UEE/OCX em tudo, de tecnologia eletrônica e nuclear, a armas avançadas. E mais conectividade pode trazer também, por exemplo, produtos chineses em trânsito por portos russos em Krasnodar e Crimeia até portos turcos no Mar Negro.

O Mar Negro, para todas as finalidades práticas, está sendo configurado como um Mar Mediterrâneo russo-turco – mais ou menos como o Cáspio está agora configurado como um Mar Mediterrâneo centro-asiático, não-OTAN.

Em paralelo, Os Sancionados também assistem a uma performance de astro convidado, o Emir of Qatar, Xeique Tamim al-Thani, importante na oferta de um empréstimo de $15 bilhões a Ankara. E isso depois que o Qatar já restaurou boas relações com o Irã, incluindo colaboração de energia, no campo partilhado Pars Sul/Domo Norte – o maior campo de gás conhecido do planeta.

É crucial considerar que no evento de o Comando de Força Conjunta Combinada Qatar-Turquia vir a "desaparecer" por alguma razão, poderia abrir-se a trilha para uma desagradável invasão contra Doha, por sauditas e Emirados Árabes Unidos, com graves consequências; como o confisco duplo do fundo soberano do Qatar e do campo Domo Norte – o que ajudaria a salvar a já quase naufragada Casa de Saud & respectiva "Visão 2030".

Deve-se assumir desde já que, sim, Os Sancionados enfrentam ameaça real de ter seu álbum-sucesso "Eurasian Integration– despachado para o fundo das paradas, com o corolário de as novas rotas de conectividade de ICE e UEE para a Europa e entroncamentos turcos serem parcialmente bloqueados ou gravemente perturbados.

Como David Bowie (o verdadeiro) escreveu para o supergrupo Mott the Hopple: Todos os caras (eurasianos) jovens, levem as notícias.*******



* Tradução quase impossível, com zilhões de referências cruzadas e metáforas vertiginosas, que só os roqueiros dedicadamente especialistas em anos 60-70 ss realmente compreenderão. Aqui fizemos um primeiro esforço. Todos os comentários e correções são bem-vindos [NTs].
[1] A expressão "back door man" é verbete de 'dicionários do blues', com significado de "amante [quase sempre negro, de mulher branca casada] que escapa pela porta dos fundos quando o marido chega". Mas essa acepção parece nada ter a ver com a referência acima. Também dá título a blues de Willie Dixon, que se ouve em https://www.youtube.com/watch?v=O6DAdDyWZaQ[NTs].
** NOTA DOS TRADUTORES: Escrevemos "(B)RICS+" (o Brasil entre parênteses), para fazer lembrar que desde 2/12/2015 o Brasil vive sob golpe. Ninguém deve pressupor que, por estarem presentes à reunião dos (B)RICS, as autoridades brasileiras que lá apareçam tenham qualquer legítima representação democrática.

Um comentário:

silvio marcus barroso salgado disse...

Agora e nos próximos 50 anos: TRICIS - TURQUIA / RÚSSIA / ÍNDIA / CHINA / IRÃ / AFRICA do SUL. Sabem onde esta o ___braZiU$$$A___? Na sola do chinelo dos ANGLO_SIONISTAS correndo atrás do NAFTA e/ou do ALCA.