It’s darkness at the break of (tropical) high noon [Bob Dylan, 1978]Faz escuro ao meio-dia (tropical)
"Tudo isso se vai amalgamando num choque neoliberal bamboleante, radicalmente antipopular, ‘caído do céu’; parafraseando Lênin, um caso de fascismo como estágio superior do neoliberalismo."
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Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga
Jean Baudrillard certa vez definiu o Brasil como “a clorofila do nosso planeta”. Pois uma terra tão amplamente associada em todo o mundo ao soft power da alegria de viver criativa acaba de eleger um presidente fascista.
O Brasil é terra dilacerada. O ex-paraquedista Jair Bolsonaro foi eleito com 55,63% dos votos. Número recorde de 31 milhões de votos nulos ou ausentes. Nada menos de 46 milhões de brasileiros votaram no candidato do Partido dos Trabalhadores, PT, Fernando Haddad; professor e ex-prefeito de São Paulo, uma das megalópoles cruciais do Sul Global. O fato impressionante é que mais de 76 milhões de brasileiros não votaram em Bolsonaro.
O primeiro discurso como presidente exsudava o sentimento de uma guerra santa jihad degradada, de seita fundamentalista casada com vulgaridade onipresente, e a exortação de uma ditadura ordenada por Deus como trilha rumo uma nova Era de Ouro para o Brasil.
O sociólogo franco-brasileiro Michael Lowy has descreveu o fenômeno Bolsonaro como “política patológica numa grande escala”.
Sua ascensão política foi facilitada por uma conjunção sem precedentes de fatores tóxicos, como o impacto social massivo do crime no Brasil, levando à crença amplamente difundida na repressão violenta como única solução; a concertada rejeição ao Partido dos Trabalhadores, catalisada pelo capital financeiro, rentistas, empresários do agro-business e interesses oligárquicos; um tsunami evangélico; um sistema de “justiça” que historicamente favoreceu e favorece as classes ricas e encarnado em juízes e procuradores “treinados” com financiamento pelo Departamento de Estado dos EUA, incluído aí o notório Sérgio Moro, cujo único objetivo, obcecadamente perseguido, durante as investigações supostas contra corrupção conhecidas como “Operação Lava-jato”, sempre foi meter Lula na prisão; e a aversão visceral, absoluta, à democracia, em vastos setores das classes governantes brasileiras.
Tudo isso se vai amalgamando num choque neoliberal bamboleante, radicalmente antipopular, ‘descido dos céus’; parafraseando Lênin, um caso de fascismo como estágio superior do neoliberalismo. Afinal de contas, quando um fascista vende uma agenda de “livre mercado”, ganha indulgência de todos os seus pecados.
O reinado da bancada BBBB
É impossível compreender a ascensão do bolsonarismo, sem o pano de fundo da Guerra Híbrida extremamente sofisticada movida contra o Brasil pelos suspeitos de sempre. Que a Agência Nacional de Segurança espiona o Brasil – da gigante de energia Petrobras, ao celular da presidenta Dilma Rousseff – é coisa sabida desde meados de 2013, depois que Edward Snowden mostrou que o Brasil era a nação mais espionada de toda a América Latina nos anos 2000.
A Escola Superior de Guerra no Rio de Janeiro, rendida ao Pentágono, sempre foi favorável a uma gradual – mas ininterrupta – militarização da política brasileira, alinhada aos interesses da segurança nacional dos EUA. O currículo das principais academias militares norte-americanas foi adotado, sem qualquer revisão ou crítica, pela Escola Superior de Guerra.
Os gestores do complexo industrial-militar-tecnológico sobreviveram amplamente à ditadura de 1964-1985. Aprenderam tudo sobre operações psicológicas (“psyops”) dos franceses na Argélia e dos norte-americanos no Vietnã. Ao longo dos anos, cevaram a própria concepção de “inimigo interno”, não apenas os “comunistas” proverbiais, de sempre, mas também “a esquerda” como um todo, além de vastas massas de brasileiros pobres e desassistidos.
Tudo isso levou à situação vigente, de generais a ameaçar juízes, se libertassem Lula. O vice-presidente de Bolsonaro, Generalito Hamilton Mourão, chegou a ameaçar com “um golpe dentro do golpe” se sua chapa não fosse eleita. O próprio Bolsonaro disse que jamais “aceitaria” alguma derrota.
Essa militarização crescente da política, combinou perfeitamente com o cartunesco Congresso Brasileiro, uma só grande bancada BBBB (Bala, Boi, Bíblia, Banco).
O Congresso virtualmente controlado por forças militares, policiais e paramilitares; o poderoso lobby do agro-business & mineração, centrado no objetivo supremo de saquear completamente a Floresta Amazônica; facções evangélicas; e o capital banking/financeiro. Compare esse quadro e o fato de que mais da metade dos senadores e um terço do Congresso enfrentam processos criminais.
A campanha de Bolsonaro usou todos os truques do manual para escapar de debates na TV, fiel à noção de que discutir política é para perdedores, sobretudo quando não há o que discutir.
Afinal, o principal conselheiro econômico de Bolsonaro, Chicago Boy Paulo Guedes – atualmente sob investigação por fraude de seguros – já prometeu “curar” o Brasil, servindo-se dos feitiços de sempre: privatizar tudo; destruir o gasto social; livrar-se de todas as leis trabalhistas e também do salário mínimo; que o lobby do Boi saqueie a Amazônia; e armem-se cada vez mais os cidadãos, a níveis supra-ANR (Associação Nacional de Rifles).
Não é surpresa que The Wall Street Journal já tenha normalizado Bolsonaro como “populista conservador” e “drenador do pântano-Brasil”. O endosso, que nada tem a ver com os fatos, ignora que Bolsonaro é político do ‘baixo clero’, que em 27 anos de nada fazer no Congresso só conseguiu aprovar dois projetos de leis.
Me mande num WhatsApp, para a Terra Prometida
Embora as grandes massas desinformadas tenham conseguido começar a se aperceber, aos poucos, dos golpes de ativa manipulação, pela campanha de Bolsonaro, de notícias-lixo distribuídas por WhatsApp – uma saga tropical pós-Cambridge Analytica; e mesmo com Bolsonaro ameaçando pela TV que os adversários só teriam duas escolhas depois das eleições do domingo, cadeia ou exílio, nem isso foi suficiente para deter o tombo inexorável do Brasil rumo a uma BtE (Banana-teocracia Evangélica) distópica militarizada.
Em qualquer democracia madura, uma gangue de empresários – com contabilidade clandestina – que financiasse uma pluritentacular campanha de fake news pelo WhatsApp, como se viu contra o candidato Fernando Haddad do Partido dos Trabalhadores, seria escândalo monstro.
O WhatsApp é vastamente popular no Brasil, muito mais que Facebook; por isso teve de ser adequadamente instrumentalizado nesse remixde Guerra Híbrida estilo Cambridge Analytica à brasileira.
As táticas foram absolutamente ilegais, porque pagas com doações não declaradas de dinheiro privado (proibidas pelo STF brasileiro desde 2015). A Polícia Federal do Brasil até iniciou uma investigação, já condenada ao mesmo destino que as investigações pelos sauditas de crimes dos sauditas, naquele fiasco à Pulp Fiction em Istanbul.
O tsunami de fake news foi gerenciado pelos chamados Bolsominions. São exército voluntário hiper-fiel, que castiga qualquer pessoa que ouse questionar o “Mito” (como se referem ao líder), e manipula conteúdo, que é convertido em memes, vídeos fake-virais e as mais variadas expressões da ira do “Bolsô-enxame”, 24 horas/dia, sete dias/semana.
Imaginem a fúria em Washington, se os russos algum dia interferissem em eleições nos EUA, como foram acusados de ter feito, usando as mesmas táticas que norte-americanos e suas elites comprador usaram no Brasil.
Esmagar os BRICS
Na política exterior, no que tenha a ver com Washington, Reichskommissar Bolsonaro pode ser muito útil em três frentes.
A primeira é geoeconômica: capturar para as gigantes norte-americanas de energia a fatia do leão das vastas reservas de petróleo do pré-sal no Brasil.
Passou a ser medida absolutamente necessária, golpe de misericórdia e consequência imediata contra Dilma Rousseff, que, em 2013, sancionou lei que determinava que 75% dos royalties do petróleo fossem investidos em educação e 25% em atenção pública à saúde: significativos 122 bilhões de dólares ao longo de dez anos.
As duas outras frentes são geopolíticas: rebentar os BRICS de dentro para fora, e mandar o Brasil fazer o serviço sujo numa operação de mudança de regime na Venezuela, satisfazendo assim a obsessão do Departamento de Estado com esmagar o eixo Venezuela-Cuba.
Usando o pretexto de uma imigração em massa da Venezuela para a área brasileira da Amazônia legal, a Colômbia – elevada ao status de parceiro chave da OTAN, e estimulada por Washington – passa a contar com apoio militar do Brasil para fazer a ‘mudança de regime’.
E há também a história crucial, da China.
China e Brasil são parceiros BRICS muito próximos. Hoje, os BRICS já são, essencialmente RC (Rússia e China), para grande desgosto de Moscou e Pequim, que contavam com que Haddad seguisse os passos de Lula, fator importante para reforçar o peso geopolítico dos BRICS.
Assim chegamos a um ponto chave de inflexão no golpe de Guerra Híbrida em curso, quando os militares brasileiros meteram-se na cabeça que o gabinete de Rousseff estava tomado por agentes da inteligência chinesa.
Seja como for, a China ainda é o principal parceiro comercial do Brasil – à frente dos EUA, com comércio bilateral que chegou a $75 bilhões ano passado. Além de ser consumidora ávida de commodities brasileiras, desde 2003 Pequim já investiu $124 bilhões em empresas brasileiras e em projetos de infraestrutura no Brasil.
Guedes, o Chicago Boy, reuniu-se recentemente com diplomatas chineses. Bolsonaro receberá uma delegação chinesa de alto nível logo no início de seu mandato. Durante a campanha, ele repetiu que “a China não está comprando no Brasil: está comprando o Brasil”. Bolsonaro é perfeitamente capaz de ter, contra a China, um surto de sanções à moda mini-Trump. Deve considerar que o poderoso lobby do agro-businessestá lucrando imensamente, consequência da guerra comercial EUA-China.
Espera-se suspense máximo na reunião dos BRICS-2019, que acontecerá no Brasil: imaginem o valentão Bolsonaro cara a cara com o verdadeiro patrão, Xi Jinping.
Tudo isso posto, o que realmente estão querendo os militares brasileiros? Resposta: é a “Doutrina da Dependência” brasileira – em versão neocolonial cabocla.
Num nível, a liderança militar no Brasil é desenvolvimentista, orientada para a integração territorial, fronteiras bem guardadas e “ordem” social e econômica interna sob perfeita disciplina. Ao mesmo tempo, creem que tudo isso deva ser feito sob supervisão da “nação indispensável”.
Para os líderes militares, o país deles não é capaz de combater o crime organizado, cuidar da cyber-segurança, da biossegurança e, na economia, não é capaz de conduzir do começo ao fim um estado mínimo, combinado com reforma fiscal e austeridade. Para o cerne da elite militar brasileira, o capital privado de outro país é sempre bondoso.
Consequência inevitável, é verem as nações latino-americanas e africanas como untermenschen [al. “social e racialmente inferiores”]; e a reação contra a ênfase que Lula e Dilma deram à União das Nações Sulamericanas (Unasul) e a uma mais íntima integração logística e de energia com a África.
Não se pode descartar o golpe militar
Apesar disso, há descontentamento militar interno – que pode até abrir um possível caminho para a remoção de Bolsonaro, mero fantoche, a ser substituído por material de primeira mão: um general.
Com o Partido dos Trabalhadores no poder, a Marinha e a Força Aérea gostaram de alguns projetos estratégicos, como um submarino nuclear, um jato supersônico e satélites lançados por foguetes Made in Brasil. Ainda não se sabe como reagirão, caso Bolsonaro bloqueie, sumariamente, esses projetos de avanço tecnológico na área militar.
A questão chave talvez seja se há conexão direta entre o crème de la crème das academias militares brasileiras; os “generais dependentistas” e suas técnicas de operação psicológica; diferentes facções do evangelismo; e as táticas pós-Cambridge Analytica das quais se serviu a campanha pró-Bolsonaro. Haverá aí uma nebulosa, mantida coesa por poderosas forças interestelares, ou mera rede frouxa?
Até aqui, a melhor resposta nos vem do professor Piero Leirner, especialista em antropologia da guerra, que conduz há anos pesquisa profunda nas Forças Armadas do Brasil, e que me disse que não, que “não há qualquer conexão prévia. Bolsonaro é um pós-fato. A única conexão possível acontece entre traços da campanha e as operações psicológicas.” Leirner destaca que “Cambridge Analytica e Bannon representam a infraestrutura, mas a qualidade da informação – disparar sinais contraditórios, e na sequência a solução pela ‘ordem’ vem de uma terceira voz – essa é a estratégia militar dos manuais de operação psicológica da CIA.”
Mas há fissuras. Leirner vê o arco de forças disparatadas que apoiam Bolsonaro como uma “bricolage” [fr. no orig.],[1] que mais cedo ou mais tarde se desintegrará. O que virá depois? Um general sub-Pinochet?
Bolsonaro não é Trump
Em The Road to Somewhere; The Populist Revolt and the Future of Politics, The New Tribes Shaping British Politics,[2] David Goodhart mostra que a força que move o populismo não é o amor fascista de alguma ultra-nação, mas a anomia: o sentimento de que a modernidade traz alguma vaga ameaça existencial. Aplica-se a todas as formas de populismo de direita no ocidente.
Daí a oposição entre os “Algum-lugares” [ing. “Somewheres”] e os “Qualquer-lugares” [ing. “Anywheres”]. “Alguns-lugares” são os que querem que a democracia da nação deles seja usufruída só pela etnicidade “de dentro”, sem deixar que a cultura nacional seja contaminada por influências “estrangeiras”.
“Qualquer-lugares” são os que habitam o vórtex pós-moderno sem raízes do multiculturalismo e das viagens internacionais de negócios. São minoria em termos demográficos – mas são maioria nas elites políticas, econômicas, educacionais e profissionais.
Com isso Goodhart pode demarcar uma distinção crucial entre populismo e fascismo – ideologicamente e psicologicamente.
A distinção legal padrão está formalizada na Constituição Alemã. O populismo de direita é “radical” – e legal. O fascismo é “extremo” [extremista] – e ilegal.
É erro rotular Trump de “fascista”. No ocidente, Bolsonaro foi declarado “O Trump Tropical”. Fato é que Trump é populista de direita – com políticas que, algumas delas, podem até ser consideradas posições da Velha Esquerda.
Bolsonaro tem falas racistas, misóginas, homofóbicas, quer todos armados pelas ruas, prega a favor de um Brasil branco, patriarcal, hétero-normativo e “homogêneo”; absurdo numa sociedade profundamente desigual, ainda devastada pelos efeitos da escravidão e cuja população é majoritariamente mestiça. Além disso, em termos históricos, o fascismo é uma Solução Final burguesa radical com vistas à total aniquilação da classe trabalhadora. Bolsonaro portanto é definido como total fascista.
Trump é até mais moderado que Bolsonaro. Não incita seus apoiadores a exterminar, literalmente, seus oponentes. Afinal, Trump tem de respeitar o quadro de uma república com longa história de, mesmo que não sejam perfeitas, instituições democráticas.
Instituições democráticas é coisa que jamais se viu, na jovem democracia brasileira – onde um presidente está hoje autorizado a agir como se direitos humanos não passassem de complô de comunistas mancomunados com a ONU. As classes trabalhadoras no Brasil, as elites intelectuais, os movimentos sociais e todas as minorias têm muitas razões para temer a Nova Ordem; em palavras do próprio Bolsonaro, “serão banidos de nossa pátria”. A criminalização/desumanização de qualquer oposição significa, literalmente, que dezenas de milhões de brasileiros são declarados sem imprestáveis, sem valor.
Conversem com Nietzsche
O sofisticado golpe de Guerra Híbrida em curso no Brasil, que começou em 2014, teve um ponto de inflexão em 2016 e culminou em 2018 com a presidenta derrubada por impeachment; o ex-presidente preso; Direita e Centro-Direita esmagadas; e, à moda de uma pós-política enlouquecida de esteroides, abriu o caminho para o neofascismo.
Mas Bolsonaro é rima medíocre. Não tem a estrutura política, o conhecimento, para nem falar da inteligência, para ter chegado tão longe, saído do nada, sem o apoio de um sistema de apoio de inteligência hiper-complexo, estado-da-arte, transfronteiras. Não surpreende que seja um dos queridinhos de Steve Bannon.
Comentário lateral
Para um tão afamado ‘mago da manipulação’, é erro grave.
Bannon, ‘o Mago’, que trabalha para ‘o Mito’ trouxe à tona esse Capitão Bolsonaro jamais promovido em 27 anos, que o “deputado Bolsonaro” vive para fazer esquecer. Tsk, tsk, tsk...
Bannon errou. OK. Ninguém é perfeito ;-). [NTs]
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Em contraste, a Esquerda – como na Europa – mais uma vez perdeu, emperrada no modo analógico. De nenhum modo qualquer frente progressista, especialmente nesse caso, com Bolsonaro sendo exposto na última hora, conseguiria combater com sucesso o tsunami tóxico de guerra cultural, políticas identitárias e fake-news microdirigidas.
Essas esquerdas perderam batalha importante. Pelo menos aprenderam que é guerra, guerra total, guerra hardcore.
Para destruir Lula – o mais importante prisioneiro político hoje no mundo – as elites brasileiras tiveram de destruir o Brasil. Mas Nietzche sempre vence: o que não mata fortalece. A vanguarda da resistência global contra o neofascismo como estágio superior do neoliberalismo mudou-se agora para o sul, abaixo do Equador. No pasarán.*******