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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Jalecos Amarelos x Macron: O povo contra o ‘Rei’ Neoliberal

5/12/2018, Diana Johnstone,* Consortium News

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga



Todos os carros na França devem, por lei, ser equipados com um jaleco amarelo. De modo que, no caso de acidente ou problemas no carro em rodovias, o motorista possa vestir o jaleco e garantir que seja visto de longe, evitando atropelamentos.

Por isso se alastrou tão rapidamente a ideia de vestir o jaleco amarelo para protestar contra medidas impopulares do governo. O jaleco estava ali, à mão, e ninguém precisava esperar que Soros fornecesse o ‘instrumento’ para alguma “revolução colorida” mais, ou menos, pré-fabricada. O simbolismo era claro: em caso de emergência socioeconômica, mostre que você não quer ser atropelado.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Bem-vindo à Selva, por Pepe Escobar

29/10/2018, Pepe Escobar, especial para Consortium News


It’s darkness at the break of (tropical) high noon [Bob Dylan, 1978]Faz escuro ao meio-dia (tropical)
"Tudo isso se vai amalgamando num choque neoliberal bamboleante, radicalmente antipopular, ‘caído do céu’; parafraseando Lênin, um caso de fascismo como estágio superior do neoliberalismo."
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Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga





Jean Baudrillard certa vez definiu o Brasil como “a clorofila do nosso planeta”. Pois uma terra tão amplamente associada em todo o mundo ao soft power da alegria de viver criativa acaba de eleger um presidente fascista. 

O Brasil é terra dilacerada. O ex-paraquedista Jair Bolsonaro foi eleito com 55,63% dos votos. Número recorde de 31 milhões de votos nulos ou ausentes. Nada menos de 46 milhões de brasileiros votaram no candidato do Partido dos Trabalhadores, PT, Fernando Haddad; professor e ex-prefeito de São Paulo, uma das megalópoles cruciais do Sul Global. O fato impressionante é que mais de 76 milhões de brasileiros não votaram em Bolsonaro.

O primeiro discurso como presidente exsudava o sentimento de uma guerra santa jihad degradada, de seita fundamentalista casada com vulgaridade onipresente, e a exortação de uma ditadura ordenada por Deus como trilha rumo uma nova Era de Ouro para o Brasil. 

O sociólogo franco-brasileiro Michael Lowy has descreveu o fenômeno Bolsonaro como “política patológica numa grande escala”. 

Sua ascensão política foi facilitada por uma conjunção sem precedentes de fatores tóxicos, como o impacto social massivo do crime no Brasil, levando à crença amplamente difundida na repressão violenta como única solução; a concertada rejeição ao Partido dos Trabalhadores, catalisada pelo capital financeiro, rentistas, empresários do agro-business e interesses oligárquicos; um tsunami evangélico; um sistema de “justiça” que historicamente favoreceu e favorece as classes ricas e encarnado em juízes e procuradores “treinados” com financiamento pelo Departamento de Estado dos EUA, incluído aí o notório Sérgio Moro, cujo único objetivo, obcecadamente perseguido, durante as investigações supostas contra corrupção conhecidas como “Operação Lava-jato”, sempre foi meter Lula na prisão; e a aversão visceral, absoluta, à democracia, em vastos setores das classes governantes brasileiras. 

Tudo isso se vai amalgamando num choque neoliberal bamboleante, radicalmente antipopular, ‘descido dos céus’; parafraseando Lênin, um caso de fascismo como estágio superior do neoliberalismo. Afinal de contas, quando um fascista vende uma agenda de “livre mercado”, ganha indulgência de todos os seus pecados. 

O reinado da bancada BBBB

É impossível compreender a ascensão do bolsonarismo, sem o pano de fundo da Guerra Híbrida extremamente sofisticada movida contra o Brasil pelos suspeitos de sempre. Que a Agência Nacional de Segurança espiona o Brasil – da gigante de energia Petrobras, ao celular da presidenta Dilma Rousseff – é coisa sabida desde meados de 2013, depois que Edward Snowden mostrou que o Brasil era a nação mais espionada de toda a América Latina nos anos 2000.

A Escola Superior de Guerra no Rio de Janeiro, rendida ao Pentágono, sempre foi favorável a uma gradual – mas ininterrupta – militarização da política brasileira, alinhada aos interesses da segurança nacional dos EUA. O currículo das principais academias militares norte-americanas foi adotado, sem qualquer revisão ou crítica, pela Escola Superior de Guerra. 

Os gestores do complexo industrial-militar-tecnológico sobreviveram amplamente à ditadura de 1964-1985. Aprenderam tudo sobre operações psicológicas (“psyops”) dos franceses na Argélia e dos norte-americanos no Vietnã. Ao longo dos anos, cevaram a própria concepção de “inimigo interno”, não apenas os “comunistas” proverbiais, de sempre, mas também “a esquerda” como um todo, além de vastas massas de brasileiros pobres e desassistidos. 

Tudo isso levou à situação vigente, de generais a ameaçar juízes, se libertassem Lula. O vice-presidente de Bolsonaro, Generalito Hamilton Mourão, chegou a ameaçar com “um golpe dentro do golpe” se sua chapa não fosse eleita. O próprio Bolsonaro disse que jamais “aceitaria” alguma derrota. 

Essa militarização crescente da política, combinou perfeitamente com o cartunesco Congresso Brasileiro, uma só grande bancada BBBB (Bala, Boi, Bíblia, Banco). 

O Congresso virtualmente controlado por forças militares, policiais e paramilitares; o poderoso lobby do agro-business & mineração, centrado no objetivo supremo de saquear completamente a Floresta Amazônica; facções evangélicas; e o capital banking/financeiro. Compare esse quadro e o fato de que mais da metade dos senadores e um terço do Congresso enfrentam processos criminais. 

A campanha de Bolsonaro usou todos os truques do manual para escapar de debates na TV, fiel à noção de que discutir política é para perdedores, sobretudo quando não há o que discutir. 

Afinal, o principal conselheiro econômico de Bolsonaro, Chicago Boy Paulo Guedes – atualmente sob investigação por fraude de seguros – já prometeu “curar” o Brasil, servindo-se dos feitiços de sempre: privatizar tudo; destruir o gasto social; livrar-se de todas as leis trabalhistas e também do salário mínimo; que o lobby do Boi saqueie a Amazônia; e armem-se cada vez mais os cidadãos, a níveis supra-ANR (Associação Nacional de Rifles). 

Não é surpresa que The Wall Street Journal já tenha normalizado Bolsonaro como “populista conservador” e “drenador do pântano-Brasil”. O endosso, que nada tem a ver com os fatos, ignora que Bolsonaro é político do ‘baixo clero’, que em 27 anos de nada fazer no Congresso só conseguiu aprovar dois projetos de leis.

Me mande num WhatsApp, para a Terra Prometida 

Embora as grandes massas desinformadas tenham conseguido começar a se aperceber, aos poucos, dos golpes de ativa manipulação, pela campanha de Bolsonaro, de notícias-lixo distribuídas por WhatsApp – uma saga tropical pós-Cambridge Analytica; e mesmo com Bolsonaro ameaçando pela TV que os adversários só teriam duas escolhas depois das eleições do domingo, cadeia ou exílio, nem isso foi suficiente para deter o tombo inexorável do Brasil rumo a uma BtE (Banana-teocracia Evangélica) distópica militarizada. 

Em qualquer democracia madura, uma gangue de empresários – com contabilidade clandestina – que financiasse uma pluritentacular campanha de fake news pelo WhatsApp, como se viu contra o candidato Fernando Haddad do Partido dos Trabalhadores, seria escândalo monstro. 

O WhatsApp é vastamente popular no Brasil, muito mais que Facebook; por isso teve de ser adequadamente instrumentalizado nesse remixde Guerra Híbrida estilo Cambridge Analytica à brasileira. 

As táticas foram absolutamente ilegais, porque pagas com doações não declaradas de dinheiro privado (proibidas pelo STF brasileiro desde 2015). A Polícia Federal do Brasil até iniciou uma investigação, já condenada ao mesmo destino que as investigações pelos sauditas de crimes dos sauditas, naquele fiasco à Pulp Fiction em Istanbul. 

O tsunami de fake news foi gerenciado pelos chamados Bolsominions. São exército voluntário hiper-fiel, que castiga qualquer pessoa que ouse questionar o “Mito” (como se referem ao líder), e manipula conteúdo, que é convertido em memes, vídeos fake-virais e as mais variadas expressões da ira do “Bolsô-enxame”, 24 horas/dia, sete dias/semana. 

Imaginem a fúria em Washington, se os russos algum dia interferissem em eleições nos EUA, como foram acusados de ter feito, usando as mesmas táticas que norte-americanos e suas elites comprador usaram no Brasil. 

Esmagar os BRICS

Na política exterior, no que tenha a ver com Washington, Reichskommissar Bolsonaro pode ser muito útil em três frentes. 

A primeira é geoeconômica: capturar para as gigantes norte-americanas de energia a fatia do leão das vastas reservas de petróleo do pré-sal no Brasil. 

Passou a ser medida absolutamente necessária, golpe de misericórdia e consequência imediata contra Dilma Rousseff, que, em 2013, sancionou lei que determinava que 75% dos royalties do petróleo fossem investidos em educação e 25% em atenção pública à saúde: significativos 122 bilhões de dólares ao longo de dez anos. 

As duas outras frentes são geopolíticas: rebentar os BRICS de dentro para fora, e mandar o Brasil fazer o serviço sujo numa operação de mudança de regime na Venezuela, satisfazendo assim a obsessão do Departamento de Estado com esmagar o eixo Venezuela-Cuba. 

Usando o pretexto de uma imigração em massa da Venezuela para a área brasileira da Amazônia legal, a Colômbia – elevada ao status de parceiro chave da OTAN, e estimulada por Washington – passa a contar com apoio militar do Brasil para fazer a ‘mudança de regime’. 

E há também a história crucial, da China. 

China e Brasil são parceiros BRICS muito próximos. Hoje, os BRICS já são, essencialmente RC (Rússia e China), para grande desgosto de Moscou e Pequim, que contavam com que Haddad seguisse os passos de Lula, fator importante para reforçar o peso geopolítico dos BRICS. 

Assim chegamos a um ponto chave de inflexão no golpe de Guerra Híbrida em curso, quando os militares brasileiros meteram-se na cabeça que o gabinete de Rousseff estava tomado por agentes da inteligência chinesa. 

Seja como for, a China ainda é o principal parceiro comercial do Brasil – à frente dos EUA, com comércio bilateral que chegou a $75 bilhões ano passado. Além de ser consumidora ávida de commodities brasileiras, desde 2003 Pequim já investiu $124 bilhões em empresas brasileiras e em projetos de infraestrutura no Brasil. 

Guedes, o Chicago Boy, reuniu-se recentemente com diplomatas chineses. Bolsonaro receberá uma delegação chinesa de alto nível logo no início de seu mandato. Durante a campanha, ele repetiu que “a China não está comprando no Brasil: está comprando o Brasil”. Bolsonaro é perfeitamente capaz de ter, contra a China, um surto de sanções à moda mini-Trump. Deve considerar que o poderoso lobby do agro-businessestá lucrando imensamente, consequência da guerra comercial EUA-China. 

Espera-se suspense máximo na reunião dos BRICS-2019, que acontecerá no Brasil: imaginem o valentão Bolsonaro cara a cara com o verdadeiro patrão, Xi Jinping. 

Tudo isso posto, o que realmente estão querendo os militares brasileiros? Resposta: é a “Doutrina da Dependência” brasileira – em versão neocolonial cabocla. 

Num nível, a liderança militar no Brasil é desenvolvimentista, orientada para a integração territorial, fronteiras bem guardadas e “ordem” social e econômica interna sob perfeita disciplina. Ao mesmo tempo, creem que tudo isso deva ser feito sob supervisão da “nação indispensável”. 

Para os líderes militares, o país deles não é capaz de combater o crime organizado, cuidar da cyber-segurança, da biossegurança e, na economia, não é capaz de conduzir do começo ao fim um estado mínimo, combinado com reforma fiscal e austeridade. Para o cerne da elite militar brasileira, o capital privado de outro país é sempre bondoso. 

Consequência inevitável, é verem as nações latino-americanas e africanas como untermenschen [al. “social e racialmente inferiores”]; e a reação contra a ênfase que Lula e Dilma deram à União das Nações Sulamericanas (Unasul) e a uma mais íntima integração logística e de energia com a África. 

Não se pode descartar o golpe militar 

Apesar disso, há descontentamento militar interno – que pode até abrir um possível caminho para a remoção de Bolsonaro, mero fantoche, a ser substituído por material de primeira mão: um general. 

Com o Partido dos Trabalhadores no poder, a Marinha e a Força Aérea gostaram de alguns projetos estratégicos, como um submarino nuclear, um jato supersônico e satélites lançados por foguetes Made in Brasil. Ainda não se sabe como reagirão, caso Bolsonaro bloqueie, sumariamente, esses projetos de avanço tecnológico na área militar.

A questão chave talvez seja se há conexão direta entre o crème de la crème das academias militares brasileiras; os “generais dependentistas” e suas técnicas de operação psicológica; diferentes facções do evangelismo; e as táticas pós-Cambridge Analytica das quais se serviu a campanha pró-Bolsonaro. Haverá aí uma nebulosa, mantida coesa por poderosas forças interestelares, ou mera rede frouxa?

Até aqui, a melhor resposta nos vem do professor Piero Leirner, especialista em antropologia da guerra, que conduz há anos pesquisa profunda nas Forças Armadas do Brasil, e que me disse que não, que “não há qualquer conexão prévia. Bolsonaro é um pós-fato. A única conexão possível acontece entre traços da campanha e as operações psicológicas.” Leirner destaca que “Cambridge Analytica e Bannon representam a infraestrutura, mas a qualidade da informação – disparar sinais contraditórios, e na sequência a solução pela ‘ordem’ vem de uma terceira voz – essa é a estratégia militar dos manuais de operação psicológica da CIA.”

Mas há fissuras. Leirner vê o arco de forças disparatadas que apoiam Bolsonaro como uma “bricolage” [fr. no orig.],[1] que mais cedo ou mais tarde se desintegrará. O que virá depois? Um general sub-Pinochet?

Bolsonaro não é Trump 


Em The Road to Somewhere; The Populist Revolt and the Future of Politics, The New Tribes Shaping British Politics,[2] David Goodhart mostra que a força que move o populismo não é o amor fascista de alguma ultra-nação, mas a anomia: o sentimento de que a modernidade traz alguma vaga ameaça existencial. Aplica-se a todas as formas de populismo de direita no ocidente. 

Daí a oposição entre os “Algum-lugares” [ing. “Somewheres”] e os “Qualquer-lugares” [ing. “Anywheres”]. “Alguns-lugares” são os que querem que a democracia da nação deles seja usufruída só pela etnicidade “de dentro”, sem deixar que a cultura nacional seja contaminada por influências “estrangeiras”.

“Qualquer-lugares” são os que habitam o vórtex pós-moderno sem raízes do multiculturalismo e das viagens internacionais de negócios. São minoria em termos demográficos – mas são maioria nas elites políticas, econômicas, educacionais e profissionais. 

Com isso Goodhart pode demarcar uma distinção crucial entre populismo e fascismo – ideologicamente e psicologicamente. 

A distinção legal padrão está formalizada na Constituição Alemã. O populismo de direita é “radical” – e legal. O fascismo é “extremo” [extremista] – e ilegal. 

É erro rotular Trump de “fascista”. No ocidente, Bolsonaro foi declarado “O Trump Tropical”. Fato é que Trump é populista de direita – com políticas que, algumas delas, podem até ser consideradas posições da Velha Esquerda. 

Bolsonaro tem falas racistas, misóginas, homofóbicas, quer todos armados pelas ruas, prega a favor de um Brasil branco, patriarcal, hétero-normativo e “homogêneo”; absurdo numa sociedade profundamente desigual, ainda devastada pelos efeitos da escravidão e cuja população é majoritariamente mestiça. Além disso, em termos históricos, o fascismo é uma Solução Final burguesa radical com vistas à total aniquilação da classe trabalhadora. Bolsonaro portanto é definido como total fascista. 

Trump é até mais moderado que Bolsonaro. Não incita seus apoiadores a exterminar, literalmente, seus oponentes. Afinal, Trump tem de respeitar o quadro de uma república com longa história de, mesmo que não sejam perfeitas, instituições democráticas. 

Instituições democráticas é coisa que jamais se viu, na jovem democracia brasileira – onde um presidente está hoje autorizado a agir como se direitos humanos não passassem de complô de comunistas mancomunados com a ONU. As classes trabalhadoras no Brasil, as elites intelectuais, os movimentos sociais e todas as minorias têm muitas razões para temer a Nova Ordem; em palavras do próprio Bolsonaro, “serão banidos de nossa pátria”. A criminalização/desumanização de qualquer oposição significa, literalmente, que dezenas de milhões de brasileiros são declarados sem imprestáveis, sem valor. 

Conversem com Nietzsche

O sofisticado golpe de Guerra Híbrida em curso no Brasil, que começou em 2014, teve um ponto de inflexão em 2016 e culminou em 2018 com a presidenta derrubada por impeachment; o ex-presidente preso; Direita e Centro-Direita esmagadas; e, à moda de uma pós-política enlouquecida de esteroides, abriu o caminho para o neofascismo.

Mas Bolsonaro é rima medíocre. Não tem a estrutura política, o conhecimento, para nem falar da inteligência, para ter chegado tão longe, saído do nada, sem o apoio de um sistema de apoio de inteligência hiper-complexo, estado-da-arte, transfronteiras. Não surpreende que seja um dos queridinhos de Steve Bannon.


Comentário lateral

Mas nem Bannon é perfeito. Dia 26/10, a Reuters citou Bannon [e a mídia brasileira de direitaextrema direita e independente, que vive, toda ela, de repetir agências, repetiu], em borbulhantes elogios ao“Capitão Bolsonaro”.

Para um tão afamado ‘mago da manipulação’, é erro grave.
O Exército abortou a carreira militar de Bolsonaro em 1987, condenando-o ao posto de “Capitão Eterno”, como punição por atos criminosos contra o Exército, bem narrados pela FSP.

Bannon, ‘o Mago’, que trabalha para ‘o Mito’ trouxe à tona esse Capitão Bolsonaro jamais promovido em 27 anos, que o “deputado Bolsonaro” vive para fazer esquecer. Tsk, tsk, tsk...
Bannon errou. OK. Ninguém é perfeito ;-). [NTs]
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Em contraste, a Esquerda – como na Europa – mais uma vez perdeu, emperrada no modo analógico. De nenhum modo qualquer frente progressista, especialmente nesse caso, com Bolsonaro sendo exposto na última hora, conseguiria combater com sucesso o tsunami tóxico de guerra cultural,[3] políticas identitárias e fake-news microdirigidas. 
Essas esquerdas perderam batalha importante. Pelo menos aprenderam que é guerra, guerra total, guerra hardcore.

Para destruir Lula – o mais importante prisioneiro político hoje no mundo – as elites brasileiras tiveram de destruir o Brasil. Mas Nietzche sempre vence: o que não mata fortalece. A vanguarda da resistência global contra o neofascismo como estágio superior do neoliberalismo mudou-se agora para o sul, abaixo do Equador. No pasarán.*******


[1] Em boca de antropólogo, “bricolagem” evoca necessariamente Lévi-Strauss. Em O pensamento selvagem ([1962], Campinas: Papirus, 1989) o termo está definido: criação de objetos desejados, feitos de “resíduos e fragmentos de acontecimentos (...) testemunhos fósseis da história de um indivíduo ou de uma sociedade”, rearranjados na intenção de que “isso sempre pode ter utilidade”. O bricoleur usa “expedientes e recursos que se afastam dos processos normais adotados pela técnica [do engenheiro]”. O conceito é muito mais complexo e rico que isso, mantém-se próximo da ideia do bricoleur (fr.). Fica aqui só anotada essa associação de ideias, para algum uso futuro” [NTs].
[2] 2017, Kobo Edition, Canadá, sem tradução no Brasil (port. Estrada para algum lugar. Revolta popular e o futuro da política. Novas tribos que modelam a política britânica), edição digital disponível [NTs].
[3] “Guerra cultural” deve ser a arma criada para combater o “marxismo cultural”. Diz a Reuters, 22/9: “Conversamos e concluímos ter a mesma visão de mundo”, escreveu Eduardo Bolsonaro, deputado mais votado do Brasil, acima de uma foto em que aparece sorrindo ao lado de Bannon. Ele disse que os dois planejam “somar forças, principalmente contra o marxismo cultural(sic)”. Sinceridade? Mais cognitivamente dissonante que “guerra cultural”, só mesmo “bispo-ladrão”... [NTs].

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

EUA: Sete dias em setembro - 'Democracia’ aos “tropeços” no século 21, por Joe Lauria

3/10/2018, Joe Lauria,* Consortium News

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga



Nos primeiros sete dias de setembro, foram divulgados – quase inacreditavelmente – esforços empreendidos para cercar e talvez para derrubar um presidente constitucionalmente eleito nos EUA, levantando questões complexas sobre o tão louvado sistema democrático norte-americano.

O que se passou parece extraído do romance, depois filme, Sete Dias em Maio: história de um golpe militar fracassado contra um presidente dos EUA que tentava melhorar as relações com a Rússia. O presidente na ficção foi baseado no presidente real, John F. Kennedy, que abriu a Casa Branca em 1963 ao diretor Frankenheimer para que filmasse as únicas cenas de filme de Hollywood jamais filmadas lá.

domingo, 23 de setembro de 2018

Ocidente contra o resto, ou ocidente contra ele mesmo? Por Pepe Escobar

18/9/2018, Pepe Escobar, de Paris, especial para Consortium News

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu



Qual a história mais abrangente? Ocidente contra o resto, ou ocidente contra ele mesmo?

O Quarteto Iliberal [ing. Illiberal] – Xi, Putin, Rouhani e Erdogan – está na linha de tiro das mais arrogantes homilias sobre “valores ocidentais”.

iliberalismo[1] [ing. Illiberalism] é arrogantemente e provocativamente desqualificado no ocidente, repetidamente, como uma Invasão dos Tártaros 2.0.* Mas mais perto de casa, o mesmo iliberalismo é responsável pela Guerra civil social nos EUA, com a América de Trump já esquecida há muito, do que tratava o Iluminismo Europeu.

A visão ocidental é um turbilhão de pseudofilosofia pendurada em Hegel, Toynbee, Spengler e em obscuras referências bíblicas, que não para de alertar para um ataque de asiáticos contra a mission civilisatrice “iluminada” do ocidente.

O turbilhão engole qualquer pensamento crítico que avalie o Confucionismo de Xi, o Eurasianismo de Putin, a realpolitik de Rouhani e o Islã Xiita “não ocidentoxicado” [ing. non-Westoxified], além dos anseios de Erdogan que arde por liderar a Fraternidade Muçulmana global.

Em vez de pensamento, o ocidente nos dá as mais ridículas “análises” de como a OTAN deveria ser elogiada por ter impedido que a Líbia se tornasse uma Síria – o que, sim, a OTAN realmente fez.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

De volta ao (Grande) Jogo: A vingança das potências terrestres da Eurásia, por Pepe Escobar


30/8/2018, Pepe Escobar, Consortium News vol. 24, n. 242



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




Preparem-se para uma grande sacudida no tabuleiro de xadrez geopolítico: doravante, cada borboleta que bater as asas e deflagrar um tornado conecta-se diretamente à batalha entre a integração da Eurásia e as sanções usadas como política exterior do ocidente.

É a mudança de paradigma trazida pelas Novas Rotas da Seda da China versus É-do-nosso-jeito-ou-é-pé-na-bunda à moda dos EUA. Vivíamos sob a ilusão de que a história acabara. Como se chegou a isso?

Pule a bordo, para uma essencial viagem no tempo. Durante séculos a Antiga Rota da Seda, pela qual viajavam nômades, estabeleceu o padrão de concorrência para a conectividade no comércio por terra, uma rede de estradas ligando a Eurásia ao – dominante – mercado chinês.

No início do século 15, baseado no sistema tributário, a China estabelecera uma Rota Marítima da Seda pelo Oceano Índico diretamente às costas da África, puxada pelo lendário almirante Zheng He. Mas não tardou, e a Pequim imperial concluiu que a China era autossuficiente o bastante – e que devia enfatizar as operações por terra.

Privados de conexão comercial por corredor terrestre entre Europa e China, os europeus partiram pelas suas próprias rotas marítimas da seda. Todos conhecemos o resultado espetacular da empreitada: por meio milênio o ocidente dominou o mundo.

Até que recentemente os últimos capítulos desse Admirável Mundo Novo foram conceptualizados pelo trio Mahan, Mackinder e Spykman trio.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

As Guerras Sem Fim dos EUA, por Alastair Crooke

13/2/2018, Alastair Crooke, Conflicts Forum (de Consortium News, 2/2/2018)


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




Deixando de lado por hora a obsessão do presidente Trump contra Obama e tudo que Obama fez (especialmente o Joint Comprehensive Plan of ActionJCPOA [Plano de Ação Abrangente Conjunto], conhecido como "acordo nuclear iraniano"), e a íntima relação que há entre Netanyahu e Trump, toda a política exterior do atual governo dos EUA aparece para os que não vivam dentro da área demarcada pela Av. Beltway (como esse que lhes escreve) como ação incoerente, política exterior sem projeto estratégico: aumentar o nível de tropas dos EUA no Afeganistão (depois de 16 anos de guerra); inventar um 'paraestado' militarizado a ser construído no nordeste da Síria; urdir um complô para dividir e criar guerra no Líbano; aceitar cooperação operacional com a guerra dos sauditas contra o Iêmen; e 'tirar Jerusalém da mesa de discussões'? Tudo isso dá a impressão de ser pensado com muito intrigante indiferença à alta probabilidade de os EUA fracassarem em todas as frentes e de serem humilhados.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Mão do FBI no 'Russia-gate

11/1/2018, Ray McGovern, Consortium News


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


"Além do mais, o tal Russia-gate [como no Brasil o 'processo' inventado de Moro contra Lula] tornou-se tão central no discurso do establishment, que parece já não haver espaço para qualquer revisão ou para desfazer os malfeitos. O ímpeto é tal que alguns Democratas e os grandes veículos da mídia-empresa só fazem soprar mais e mais sobre as mesmas velhas brasas do Russia-gate, na esperança tresloucada de que, ninguém sabe como, o simples alarido acabe por justificar o impeachment de Trump [como CIA fez no Brasil de Dilma, com sucesso notável (NTs)] (...)

Mas o processo sórdido de usar meios legais e de investigação para influenciar resultados políticos, só faz desgastar e comprometer cada vez mais o princípio básico do "Estado de Direito" e a respeitabilidade das mídia-empresas e do jornalismo em geral aos olhos de muitos norte-americanos. Depois de um ano de Russia-gate, o "Estado de Direito" e a "busca da verdade" parecem reduzidos a frases grandiloquentes pintalgadas de latinismos, para mudar o veredito das urnas, processo que os Republicanos e fascistas em geral muitas vezes usaram contra os Democratas e agora parece já ser método universalmente aceito por todos os partidos para castigar adversários políticos, ainda que ninguém consiga encontrar nem um fiapo de prova de coisa alguma" [negritos nossos].


Pronto. Russia-gate já está virando FBI-gate, depois da divulgação oficial de mensagens de texto entre o agente de contrainteligência e língua-frouxa do FBI Peter Strzok e sua namorada muito falante e advogada do FBI Lisa Page. 


Apesar de ter trabalhado como chefe da sessão de contrainteligência do FBI, Strzok teve a ideia ingênua de que mensagens de texto, em telefones do FBI não poderiam ser rastreadas. Strzok deve ter dormido durante a aula "Security 101." Ou talvez estivesse ocupadíssimo trocando mensagens durante a aula. E a namoradinha Page não deve ter gostado de se ter deixado conversar pela ideia dele de que usar os telefones do Bureau seria via segura para levar adiante aquele (e talvez outros) casos amorosos.

sábado, 18 de novembro de 2017

Revelado o esquema saudita de Trump, por Alastair Crooke

17/11/2017, Alastair Crooke, Consortium News


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




Aaron Miller e Richard Sokolsky, na revista Foreign Policysugerem "que o mais notável sucesso internacional de Mohammed bin Salman pode bem ser a operação de cortejar e conquistar o presidente Donald Trump e seu genro, Jared Kushner." Na verdade, esse "sucesso" talvez venha a ser o único sucesso de e MbS.

"Nem precisou de muito esforço", escrevem Miller e Sokolski: "Sobretudo, a nova amizade colorida refletiu oportuna coincidência de imperativos estratégicos".

sábado, 2 de setembro de 2017

Razões do pânico de Netanyahu, por Alastair Crooke

1/9/2017, Alastair Crooke, ConsortiumNews


"segundo testemunhas oculares da parte aberta das conversações, o primeiro-ministro israelense estava emocionalmente descontrolado e, mesmo, próximo do pânico. Netanyahu descreveu ao presidente russo um quadro do apocalipse que o mundo conheceria, se não se tomassem medidas para conter o Irã, o qual, como Netanyahu crê, estaria determinado a destruir Israel."










Netanyahu e assessores, à beira de um ataque de nervos, recebem um não de Putin

Uma delegação de alto nível da inteligência israelense visitou Washington, semana passada. Em seguida, o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu apareceu em Sochi, durante um fim de semana de férias do presidente Putin, onde, segundo alto funcionário de Israel (citado no Jerusalem Post), Netanyahu ameaçou bombardear o palácio presidencial em Damasco e anular todo o processo de cessar-fogo de Astana, se o Irã continuar a "ampliar seu poder sobre a Síria."

Pravda da Rússia escreveu que, "segundo testemunhas oculares da parte aberta das conversações, o primeiro-ministro israelense estava emocionalmente descontrolado e, mesmo, próximo do pânico. Netanyahu descreveu ao presidente russo um quadro do apocalipse que o mundo conheceria, se não se tomassem medidas para conter o Irã, o qual, como Netanyahu crê, estaria determinado a destruir Israel."

Assim sendo... o que está acontecendo? Seja rigorosamente acurada a citação do Pravda, ou não (embora a descrição tenha sido confirmada por conhecidos analistas israelenses), o que é absolutamente claro (como se lê em fontes israelenses) é que nas duas cidades, em Washington e Sochi, altos funcionários de Israel movimentaram-se muito, mas nada conseguiram. Israel está só. De fato, há notícias de que Netanyahu não teria "pedido a Lua" (a saída do Irã), mas apenas "garantias" relacionadas ao futuro papel que o Irã terá na Síria. Sim, mas... como poderiam Washington ou Moscou, com realismo, dar tais garantias a Israel?

domingo, 12 de março de 2017

O 'aniquilamento' apocalíptico de Steve Bannon, por Alastair Crooke

9/3/2017, Alastair Crooke,* Consortium News












Steve Bannon costuma iniciar muitas de suas palestras para ativistas e reuniões do Tea Party com a seguinte 'história':


"Às 11h do dia 18/9/2008, Hank Paulson e Ben Bernanke disseram ao presidente dos EUA que já haviam soprado $500 bilhões de liquidez para dentro do sistema financeiro nas 24 horas anteriores – mas precisavam de mais um trilhão de dólares, naquele mesmo dia.

A dupla disse que, se não obtivessem o dinheiro imediatamente, o sistema financeiro dos EUA implodiria nas 72 horas seguintes; o sistema financeiro mundial, em três semanas; e o caos político e a agitação social sobreviriam em um mês." (No final, Bannon observa, o mais provável é que tenham requisitado $5 trilhões, mas ninguém sabe realmente quanto foi, porque não houve qualquer registro de todos esses trilhões).