18/11/2016, Aristide Leucate, Boulevard Voltaire, Paris

Entreouvido na Vila Vudu:
Artigo enroladíssimo, à francesa, mas oferece uma novidade importantíssima, que se deve recolher e anotar: a expressão-conceito "artesãos da reinformação".
É a melhor e mais clara ideia que encontramos até agora, para começarmos a definir o trabalho que nós fazemos.
Até aqui sempre falamos de "propaganda política de redemocratização". É bom, mas obriga a reconceituar antes o termo "propaganda", para salvar a parte aproveitável do conceito – que confronta diretamente o viés de classe e a falsa 'isenção' da mídia-empresa comercial.
"Artesãos da reinformação" é expressão muito melhor, mais clara, mais direta, como conceito que define o trabalho da blogosfera progressista não jornalística.
O dicionário Oxford escolheu como palavra do ano a salafrarice da tal "pós-verdade".
"Pós-verdade" carrega o vício mortal de afirmar que, antes, teria algum dia havido alguma tal "verdade" no jornalismo comercial, o que jamais houve; tem também o vício mortal de fazer-crer que algum dicionário Oxford teria feito a crítica radical do jornalismo 'velho' e estaria indicando o caminho para algum jornalismo 'novo'.
A prova de que essa salafrarice linguística tem 1001 utilidades para todos os lados, e salva todos, é que já foi convertida em 'achado inteligentíssimo' no Brasil do Golpe e, de fato, em todo o mundo dito 'ocidental' – o mundo no qual a Killary foi derrotada.
A salafrarice já ilustra (i) as páginas mais atrasistas do 'jornalismo' brasileiro (FSP e Globo e Veja), mas também foi pautada por jornalista muitíssimo mais respeitável, Bob Fernandes; e por um dos melhores blogs progressistas com que contamos, Tijolaço (repercutindo Bob Fernandes).
Como se não bastasse, a salafrarice já está repercutida em todo o planeta, verdade seja dita, desde 1992. Mas chegou agora para o grande público periférico pelas asas da mídia-empresa, claramente para salvar o velho 'jornalismo' pré-desglobalização (o velho jornalismo do velho mundo unipolar, do império anglossionista, de Killary, vale dizer, o velho jornalismo-empresa comercial fracassado).
Nenhuma 'pós-verdade' nos interessa aos progressistas, porque entre "pós-Killary" e "pós-verdade" nada se critica, tudo se simplifica e salvam-se todos.
Nesse quadro, a Vila Vudu oferece também a sua palavra/sintagma do ano. A expressão, que foi recolhida do artigo abaixo traduzido, do Blog Boulevard Voltaire contra o jornalão Libération, diz MUITO BEM o que é o trabalho da blogosfera progressista.
O que a blogosfera progressista faz é "artesanato da reinformação".
Nada tem de 'pós-verdade' ("A verdade não veio nem ficou. O erro mudou. E era sempre melhor o que passou").
Mas, sim, é "artesanato" (contra a manufatura e a mais-valia da indústria-comércio da informação); e é "reinformação" (onde havia informação jornalística, criticamos a informação que nos chega pronta, jogamos fora no lixo e, em lugar dela, pomos a informação que nós mesmos construímos, valha o que valer.
Se cada um construir e publicar a sua reinformação, e se forem muitas, se construirá uma espécie de informação construída na/pela multidão, informação de todos.
Os partidos socialistas e comunistas terão a tarefa de criticar essa 'diversidade' no que tenha só de dispersão e diluição; e de resgatar o que essa diversidade tenha de legitimamente e densamente democrática. Contruída na blogosfera progressista, contra a midiasfera oligárquica, a reinformação sempre terá milhões de lados.
Se não prestar, sempre prestará mais que o velho jornalismo-empresa do momento rampante do capital, que diz-que apresentaria "os dois lados", que não apresentou jamais os zilhões de lados da sociedade realmente democrática; e sempre, sempre, apresentou só o lado do dono da empresa.
"Artesanato da reinformação" é "pós mídia-empresa capitalista em mundo que já se desglobaliza".
(Só pensamos até aqui. Correções e comentários são bem-vindos. Aguardem os próximos capítulos)

A midiaesfera oligárquica não consegue, definitivamente, recuperar-se do choque que foi para ela a eleição Donald Trump, ou, melhor dizendo, – exceto casos raros como o do New York Times – obstina-se em não admitir que errou completa e absolutamente, porque acreditou nas mentiras abundantes e anestesiantes de 'pesquisas de opinião' que punham à frente e sem contestação, a candidata que encarnava interesses e esperanças das próprias empresas jornalísticas e jornalistas.