sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Entrevista: Presidente Bashar Al Assad da Síria

09/12/2015, Hala Jaber, Sunday Times, Londres (6/12/2015)
(Trad. ao port. Jihan Arar, Embaixada da República Árabe da Síria, Brasília)



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




Sunday Times: Obrigado por nos receber, Senhor Presidente. Como o senhor sabe, o governo britânico vai votar hoje se se junta ou não aos ataques aéreos da coalizão contra o ISIS. Na sua avaliação, seria correto a Grã-Bretanha se juntar aos ataques aéreos contra o ISIS na Síria? A participação da GB lhe parece bem-vinda? A participação promoverá alguma mudança positiva, ou piorará a situação?

Presidente Assad: Se quiser avaliar um livro, não posso escolher uma única sentença do livro e avaliar todo o livro, por ela. Teria de considerar títulos e subtítulos dos capítulos, e só depois se poderia discutir o resto do livro. Para saber se a GB será bem-vinda, 'o todo' é saber se tem vontade de lutar contra o terrorismo. Nós sabemos, desde o princípio, que Grã-Bretanha e França foram pontas da lança contra a Síria, desde o início do conflito. Sempre apoiaram os terroristas. Mas sabemos que esses países não têm vontade própria. Nesse caso, o 'capítulo' da participação militar de GB e França na coalizão teria que ser abrangente, ou seja, teria que ser pelo ar e por terra, em cooperação com as tropas nacionais sírias presentes em campo, para que essa intervenção ou participação seja legal. A participação de GB e França só pode ser legal se ocorrer em cooperação com o governo legítimo da Síria. Portanto, eu diria que GB e França não têm vontade de lutar contra o terrorismo e nem têm qualquer plano sobre a forma de derrotá-lo. 



E se você quer fazer uma avaliação, é preciso basear-se nos fatos. Voltemos à realidade em campo. Desde que a coalizão iniciou as suas operações, há pouco mais de um ano, qual foi o resultado? ISIS, Frente al-Nusra e as outras organizações ou grupos similares, foram-se expandindo livremente. Em compensação, como ficou a situação depois que os russos participaram, diretamente, na luta contra o terrorismo? O ISIS e a Frente al-Nusra começaram a encolher, o que é resultado positivo para os sírios. 



O que posso dizer que a participação da coalizão [dos EUA] não obteve nenhum resultado. 



Em segundo lugar, a participação de GB e França será nociva e ilegal e configurará, na verdade, apoio ao terrorismo, a exemplo do que aconteceu após a coalizão dar início às suas operações, há mais de um ano. 



As organizações terroristas são como um câncer. Câncer não se trata com um corte. É preciso extirpá-lo definitivamente. Esse tipo de operação [da coalizão e de GB e França] é como fazer um corte no câncer, e facilitar o processo de ele se alastrar pelo corpo todo, e de forma rápida.  



Sunday Times: Deixe-me esclarecer duas coisas. O senhor está dizendo que a intervenção britânica – e isso se aplica às outras partes da coalizão – é ilegal do ponto de vista do Direito Internacional? 



Presidente Assad: Com absoluta certeza. Definitivamente. A Síria é país soberano. Veja os russos. Quando eles quiseram formar uma aliança contra o terrorismo, a primeira coisa que fizeram foi iniciar conversações com o governo sírio, antes de qualquer outra parte. Em seguida, os russos discutiram a mesma questão com outros governos. E só então trouxeram suas forças. 



Essa é a maneira legal de agir para combater o terrorismo em qualquer parte do mundo.



Sunday Times: O senhor está dizendo que a França e a Grã-Bretanha são responsáveis pelo surgimento do terrorismo aqui. Mas eles não foram, por exemplo, responsáveis pela ascensão do ISIS. O senhor não acha que esta acusação é dura?  



Presidente Assad: Vamos começar pelo que [primeiro-ministro Tony] Blair declarou: que a invasão do Iraque levou ao surgimento do ISIS. Não é verdade. Nós sabemos que o ISIS surgiu, declaradamente, anunciando-se como estado, no Iraque, em 2006.  O líder do ISIS era Abu Mosaab al-Zarqawi, que foi morto durante um bombardeio americano. Os próprios norte-americanos anunciaram que o mataram. Portanto, sabiam da existência dele e sabiam que a organização do Estado Islâmico existia no Iraque, naquela época, e que se mudou para a Síria após o início do conflito, devido ao caos que se instalou. As autoridades britânicas, especialmente Tony Blair, reconheceram isso. E é o que a realidade mostra. Sabemos, porque é o que a realidade diz, que os países da hoje chamada 'coalizão' ajudaram na ascensão do ISIS e da Frente al-Nusra nesta região.



Sunday Times: Em sua opinião, a ramificação da Al-Qaeda na Síria, representada pela Frente al-Nusra, pode ser ameaça para o Ocidente comparável ao ISIS? Ou, no longo prazo, poderá superar o ISIS? Será que o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, está lutando contra o inimigo errado? Quer dizer, ele estará indo atrás do ISIS, quando deveria ir atrás da Frente al-Nusra?



Presidente Assad: Sua pergunta considera a estrutura dessas organizações. E o problema não está relacionado à estrutura delas. Trata-se da ideologia adotada por estas organizações. Eles não baseiam suas ações na estrutura ou na organização, mas na ideologia wahhabista, obscurantista e deturpada. Implica dizer que não vale a pena tentar avaliar alguma 'diferença' entre os dois grupos. Não encontraremos nenhuma diferença, porque eles têm a mesma ideologia. Este é um dos aspectos. O outro aspecto é se quisermos falar sobre seus fundamentos, seus seguidores e seus membros, verificaremos que tampouco é possível separá-los, porque eles pulam de uma organização para a outra e de um grupo para outro. Por isso, às vezes eles brigam entre eles, por interesses de cada um, na escala local. Mas, na realidade, sempre cooperam uns com os outros em todos os níveis. 



Portanto, não é possível determinar quem é o mais perigoso, porque todos eles possuem a mesma mentalidade. Podemos dizer que a primeira organização está ligada a Al-Qaeda e a segunda também. A diferença está somente no nome e talvez em alguns detalhes secundários.



Sunday Times: Na semana passada, uma parte fundamental do argumento que Cameron usou para ampliar os ataques aéreos do Reino Unido na Síria foi um número: disse que 70 mil rebeldes moderados que, como ele disse, "não pertencem a grupos extremistas", mas já estão em campo, e o Ocidente poderia usá-los na luta contra o ISIS



Que grupo, senhor Presidente, tem 70 mil militantes? O senhor tem notícia da existência de 70 mil rebeldes moderados na Síria?



Presidente Assad: Vou ser franco e direto sobre isso: foi o mais novo episódio de uma longa comédia de David Cameron. É inaceitável. Onde estariam os 70 mil moderados de quem ele fala? Eles sempre falam sobre grupos moderados na Síria. É piada. É apresentar dados falsos e absurdos, para não deixar ver os fatos. Os russos têm-nos perguntado, desde o início de sua participação, há dois meses, sobre onde estariam os moderados. Ninguém sabe, ninguém jamais viu um moderado. Nunca houve na Síria militantes moderados. Todos eles são extremistas. 



Se quiser ter certeza de que não estou dando desculpas, consulte a internet, visite as páginas deles nas redes sociais. Você encontrará vídeos e imagens de seus discursos e suas atrocidades, com seus rostos à mostra. Eles usam espadas, fazem decapitações, comeram o coração de uma pessoa inocente, que antes tinha sido desmembrada e daí por diante. E, como você sabe, a confissão de um criminoso é a senhora de todas as provas. São esses os 70 mil moderados de quem ele está falando. 



Equivale a descrever os terroristas que cometeram os ataques a Paris, recentemente, e antes disso ao Charlie Hebdo, e antes dele ao Reino Unido, há quase dez anos, e antes à Espanha, e o ataque de 11 de Setembro em Nova Iorque, como oposição moderada. É inaceitável em qualquer parte do mundo. Não há 70 mil, não há 7 mil e nem, talvez, 10, desses ditos moderados.



Sunday Times: Nem, por exemplo, os curdos e o Exército Livre da Síria?



Presidente Assad: Os curdos estão lutando ao lado do Exército [Árabe] Sírio contra os terroristas, nas mesmas áreas.



Sunday Times: Mas os curdos também estão sendo apoiados, armados e treinados pelos americanos para lançar ataques e lutar.



Presidente Assad: Eles são apoiados pelo Exército [Árabe] Sírio e temos os documentos para comprovar. Enviamos armas para eles, porque eles são cidadãos sírios e porque eles querem lutar contra o terrorismo. Fazemos o mesmo com muitos outros grupos na Síria, porque não é possível mandar o exército para todas as partes da Síria. Portanto, a questão não se resume, somente, aos curdos. Muitos outros sírios estão fazendo o mesmo.



Sunday Times: O Secretário de Estado americano, John Kerry, disse, na última sexta-feira, que o governo sírio poderia cooperar com as forças da oposição contra o ISIS, mesmo sem o presidente Assad deixar o poder. Mas acrescentou que isso seria muito difícil, se os combatentes da oposição, que têm vindo lutar contra o presidente sírio, não acreditarem que ele possa, eventualmente, deixar o poder. Kerry disse, ainda, que quanto ao momento de deixar o cargo, a resposta é que não está claro se o presidente vai deixar o poder. Enquanto isso, o Ministro das Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, disse ao jornal Le Progres, no sábado, que não acredita que a saída do presidente [Assad] seja essencial para qualquer transição política na Síria, acrescentando que a transição política não significa que o presidente Assad deva renunciar antes do processo de transição, mas que devem existir algumas certezas quanto ao futuro. Minha pergunta é: O senhor pretende completar o seu mandato presidencial até 2021, ou o senhor espera que haja um referendo ou eleições presidenciais antes desta data? E, caso a resposta seja afirmativa, quando seriam realizadas estas eleições? E o que o faria decidir realizá-las? E se estas eleições forem realizadas, o senhor está decidido a participar delas? O que pode influenciar a sua decisão?



Presidente Assad: A resposta depende do contexto da pergunta. Se o contexto se refere a uma solução do conflito na Síria, então não há relação entre a antecipação das eleições e o fim do conflito. O conflito pode acabar no instante em que a luta contra o terrorismo alcançar seu objetivo; e desde que os regimes ocidentais e regionais parem de dar apoio aos terroristas. As eleições antecipadas só seriam realizadas como parte de um diálogo abrangente, sobre o futuro, entre as forças políticas e os grupos da sociedade civil na Síria. Nada, aí, depende da minha vontade; tudo depende da vontade do povo sírio. É um processo político. Se este processo for acordado, então eu tenho o direito de concorrer à eleição, como qualquer outro cidadão sírio. Minha decisão, neste caso, será baseada na minha capacidade para cumprir os meus compromissos e em se tenho ou não o apoio do povo sírio. 



Em todo o caso, ainda é cedo para falar sobre isso, porque, como você sabe, ainda não combinamos nada sobre este processo.



Sunday Times: O senhor acredita que o ISIS possa ser derrotado somente com os ataques aéreos? 



Presidente Assad: A coalizão conseguiu derrotá-los com ataques aéreos perpetrados por mais de um ano? Não conseguiu. Os americanos conseguiram alguma coisa com os ataques aéreos no Afeganistão? Não conseguiram nada. Conseguiram alguma coisa no Iraque, desde a sua invasão, em 2003? Nada. Você não pode derrotar o ISIS somente com ataques aéreos, sem a cooperação das forças em campo. Você não pode derrotá-los sem a participação do governo e das pessoas em geral. Eles não podem querer derrotar o ISIS com ataques aéreos. Eles vão falhar novamente. A realidade diz isso.



Sunday Times: Se a coalizão internacional se recusar, como o fez até agora, a coordenar ações com o Exército Sírio ou com as tropas locais em campo, qual será o seu próximo plano? Quero dizer, o senhor tem um plano B, para além do que está acontecendo? Como o senhor planeja acabar com esta guerra?



Presidente Assad: Esta coalizão é ilusória, é virtual, porque ela ainda não conseguiu nenhum resultado na luta contra o terrorismo em campo, na Síria. Portanto, já que é uma ilusão, ela não existe, e nós não perderemos o nosso tempo com o "antes e o depois". Desde o início, nós começamos a lutar contra o terrorismo, independentemente da presença de quaisquer potências mundiais. E damos as boas vindas a todos os que quiserem se juntar a nós. Juntando-se a nós ou não, nós continuaremos com a nossa luta contra o terrorismo. Este é o nosso único plano. E não vamos mudá-lo.



Sunday Times: O senhor os está convidando a pedir ao governo sírio para coordenar e cooperar com o exército sírio e com a força aérea síria na luta contra os terroristas?



Presidente Assad: Somos muito realistas. Sabemos que eles não o farão. Esta questão está relacionada ao Direito Internacional mais do que qualquer outra coisa. Será possível que os governos ou os regimes ocidentais não conheçam os fundamentos do Direito Internacional? Será possível que eles não entendam o significado de um Estado soberano? Ou que não tenham lido a Carta das Nações Unidas? Eles não respeitam o Direito Internacional e nós não pediremos sua cooperação.



Sunday Times: Mas o senhor gostaria que eles cooperassem?



Presidente Assad: Se eles estão dispostos e são genuinamente sérios no combate ao terrorismo, então nós daremos as boas-vindas ao país ou governo e a qualquer esforço político que tenha este objetivo. Quanto a isso, não somos radicais, somos totalmente pragmáticos. Em síntese, o que queremos é resolver a situação na Síria e evitar mais derramamento de sangue. Essa é a nossa missão. Então, não se trata de amor ou ódio, aceitação ou não aceitação, mas sim da realidade. Eles estariam realmente dispostos a nos ajudar na lutar contra o terrorismo?  A impedir ou não os terroristas de entrarem na Síria através de governos que são seus agentes em nossa região? Esta é a verdadeira questão. Se eles estiverem dispostos, nós aceitaremos de braços abertos. Essa não é uma questão pessoal.



Sunday Times: O senhor acredita ser possível para vocês, na Síria, e para os seus aliados – Rússia, Irã, Hezbollah e outros aliados – derrotar militarmente o ISIS?  E, em caso afirmativo, quanto tempo o senhor acha que poderia levar?



Presidente Assad: A resposta está baseada em dois fatores: De um lado, as nossas capacidades; de outro, o apoio recebido pelos terroristas. Do nosso ponto de vista, se cessar o apoio dado àqueles grupos por vários países da nossa região e do Ocidente em geral, será uma questão de meses, para que cumpramos a nossa missão. Não é situação complexa e a solução está muito clara para nós. No entanto, estes grupos recebem apoio ilimitado desses países, o que faz com que a situação se arraste, se prolongue, se torne mais complexa e mais difícil de resolver. 



Significa que a nossa missão será cumprida, mas o custo será elevado, e quem acabará pagando o preço serão os sírios. 



Sunday Times: Mas o preço já está sendo alto demais. Mais de 200.000 pessoas foram mortas.



Presidente Assad: Você está certo. Esta é uma das consequências do apoio que os países de que falei deram e continuam a dar aos terroristas. 



Sunday Times: Mas, também, uma grande parte desta responsabilidade é atribuída ao governo sírio e ao uso da força, que, em determinadas situações, não faz distinção entre civis e combatentes. Foi isso que levou a um grande número de vítimas. Qual a sua resposta para isso?



Presidente Assad: Em primeiro lugar, digo que todas as guerras são ruins. Não existe essa coisa de boa guerra. Em toda guerra há sempre muitas vítimas inocentes. E isso só pode ser evitado se se põe fim à guerra. É evidente que as guerras, em qualquer lugar do mundo, resultam em perdas de vidas. Além disso, o discurso que tem sido repetido no Ocidente, por um longo tempo, ignora o fato de que, desde o primeiro dia da crise, os terroristas vêm matando pessoas inocentes. Ele também ignora o fato de que muitas das pessoas que foram mortas eram partidárias do governo e não o contrário. Nossa única resposta, como governo, é lutar contra os terroristas. Não há outra escolha. Não podemos parar de lutar contra os terroristas, que matam civis, por medo de sermos acusados pelo Ocidente de que fazemos uso da força.



Sunday Times: Vamos falar sobre o papel da Rússia. Quão importante é o papel da Rússia? A Síria estava prestes a cair, se não fosse pela intervenção da Rússia, naquele momento em que interveio?



Presidente Assad: O papel da Rússia é muito importante. E teve um impacto significativo nas arenas política e militar na Síria. Mas dizer que sem este papel, o governo ou o estado teria entrado em colapso, é hipotético. Desde o início do conflito na Síria, havia apostas sobre o colapso do governo. No início era uma questão de semanas, depois era questão de meses, depois, de anos. Em todas as vezes, essa 'avaliação' foi gerada por pensamento desejante, não por algum fato. 



O fato é que o apoio russo ao povo e ao governo sírio, em consonância com o forte e firme apoio iraniano, teve papel muito importante para manter a resistência do Estado sírio na luta contra o terrorismo.



Sunday Times: O senhor se refere ao apoio anterior ou à recente intervenção militar?



Presidente Assad: Eu me refiro ao apoio como um todo, não apenas à recente participação. Eles nos deram apoio desde o início, em todos os aspectos, tanto o político quanto o militar e o econômico.



Sunday Times: Como e por que a participação russa aconteceu agora? O senhor pode nos dar alguns detalhes sobre as discussões que ocorreram entre o senhor e o Presidente Putin, e o que levou àquelas conversas? Quem deu o primeiro passo? Foi o senhor quem pediu, ou foram eles que se ofereceram?



Presidente Assad: Você terá que perguntar aos russos pelo motivo de sua participação. Do nosso ponto de vista o que víamos e vemos até hoje é que desde que a coalizão ocidental começou a atuar na Síria, o ISIS se expandiu, a Frente al-Nusra se expandiu, assim como todos os outros grupos extremistas e terroristas, controlando mais territórios na Síria e no Iraque. Os russos viram claramente que isto representava uma ameaça para a Síria, para o Iraque e para toda a região, bem como para a Rússia e para o resto do mundo. Podemos ver isso na realidade vivida pela Europa de hoje. 



Se você fizer uma leitura e uma análise do que aconteceu recentemente em Paris e do que aconteceu no Charlie Hebdo, sem separar entre os dois incidentes, você perceberá algo muito importante. Quantas células extremistas existem atualmente na Europa? Quantos extremistas vocês exportaram da Europa para a Síria? É aí que mora o perigo. O perigo reside na existência de uma incubadora. Os russos souberam ver e compreender tudo isso com muita clareza. 



Os russos querem proteger a Síria, o Iraque, a região, a si mesmos e até mesmo a Europa. Não exagero quando digo que os russos, hoje, estão protegendo toda a Europa.



Sunday Times: Foram eles que o procuraram e disseram: Nós queremos ajudar, ou foi o senhor quem os procurou e pediu ajuda?



Presidente Assad: Foi uma decisão cumulativa. A coisa não aconteceu por causa de uma ideia que eu propus ou porque eles propuseram outra ideia. Como você sabe, a nossa relação com os russos remonta a mais de cinco décadas, e eles sempre mantiveram equipes militares na Síria (pode chamá-los de 'especialistas',  ou por qualquer outro nome que você queira). Esta cooperação acelerou-se e cresceu durante a crise. Suas equipes estão aqui, conosco, e podem ver a situação em tempo real. Este tipo de decisão não começa de cima para baixo: sempre começa de baixo para cima. Há discussões políticas e militares diárias entre os nossos dois países. E quando estas discussões chegaram ao nível presidencial, já estavam maturadas o suficiente, e os fundamentos estavam prontos para que pudéssemos tomar uma decisão rápida.



Sunday Times: Mas deve ter havido um momento em que eles disseram: Nós pensamos, e se vocês estiverem de acordo, que chegou o momento de intervirmos diretamente. 



Presidente Assad: Repito que começou nos níveis mais baixos. Esses funcionários concordaram, conjuntamente, que a participação se fazia necessária e cada parte discutiu o assunto com seus líderes. E quando chegamos à fase da discussão entre nós, quero dizer, entre o Presidente Putin e eu, concentramo-nos, em nossas discussões, sobre como isso seria feito. É claro que isso não aconteceu de forma direta, porque nós não tínhamos nos encontrado antes, e é impossível discutir essas questões por telefone. O encontro foi organizado por altos funcionários de ambas as partes.  Foi isso o que aconteceu. Em termos de procedimento, enviei uma carta ao presidente Putin, na qual incluí um convite para que suas forças participassem do combate ao terrorismo.



Sunday Times: Então o senhor fez um pedido ao presidente Putin depois de ter sido aconselhado por seus funcionários?



Presidente Assad: Exatamente, depois de chegarmos a este ponto, mandei uma carta oficial ao Presidente Putin e divulgamos um comunicado anunciando que o tínhamos convidado para se juntar aos nossos esforços. Não vamos esquecer que o presidente Putin já tinha dado um passo, neste sentido, quando declarou que estava disposto a criar uma coalizão. Minha resposta a isso é que nós estávamos prontos, caso ele quisesse participar com suas forças.



Sunday Times: Então, quais forças foram destacadas? Estou me referindo às forças russas. Há relatos, por exemplo, da presença de mil soldados, além de forças especiais. Isso está correto? O senhor acredita que haverá o tempo em que os russos não vão se restringir às forças aéreas e que participarão, também, com as forças terrestres? 



Presidente Assad: Não. Até o presente momento, isso não existe. Não há tropas terrestres, exceto o pessoal que eles enviaram junto com os militares e aviões para vigiar a base aérea e isso é normal. Eles não têm quaisquer tropas terrestres, em absoluto, lutando com as forças sírias.



Sunday Times: E não há planos neste sentido?



Presidente Assad: Ainda não discutimos isso. E eu não acredito que precisaremos dessa discussão agora, porque as coisas estão indo na direção certa. Podemos considerar isso com o passar do tempo ou em outras circunstâncias, mas no presente momento isso não está sendo discutido. 



Sunday Times: Houve relatos ou sugestões de que a Síria poderá adquirir o sistema S-300 dos russos e que este sistema permitirá aos sírios proteger o seu espaço aéreo. A Síria usará este sistema contra as forças da coalizão, lideradas pelos Estados Unidos, até mesmo se houver a participação da Grã-Bretanha? Considerando que os aviões da coalizão estão no céu da Síria, como o senhor havia dito, sem uma autorização oficial ou soberana, quando a Síria adquirir o sistema S-300, ela o usará para impor a proteção ao seu espaço aéreo e para mandar um recado à coalizão de que ‘vocês devem tratar conosco de forma direta’ ou ‘coordenar conosco em campo’?  



Presidente Assad: Os sírios temos o direito de fazê-lo. E deve-se esperar que proibamos qualquer avião de violar nosso espaço aéreo. Isso é absolutamente legal. Usaremos qualquer meio disponível para proteger o nosso espaço aéreo. Não se trata deste armamento em particular, porque todos os sistemas de defesa aérea são usados para este fim.



Sunday Times: O senhor já possui este sistema de defesa?



Presidente Assad: Não. Não o possuímos até o momento.



Sunday Times: E se o senhor adquirir este sistema de defesa?



Presidente Assad: Usaremos todos os sistemas de defesa que adquirirmos para este fim. Se não vamos proteger nosso espaço aéreo, por que então compraríamos este tipo de armamento? Isso é elementar.



Sunday Times: E se o adquirir?



Presidente Assad: Não é o momento propício para falarmos sobre este assunto. A nossa prioridade é lutar contra o terrorismo em campo.  Este é o maior perigo no momento. É claro que estamos dispostos a proteger nosso espaço aéreo e impedir a intervenção estrangeira nos nossos assuntos internos, tanto os militares como os outros. Mas a nossa prioridade agora é derrotar os terroristas. Ao derrotar os terroristas, alguns dos quais são sírios, podemos ir além e defender o país inteiro dos estrangeiros. É uma questão de prioridades.



Sunday Times: Mas eu me referia aos aviões da coalizão que estão, de fato, sobrevoando o espaço aéreo sírio no presente momento. Então, isso não é uma prioridade no momento?



Presidente Assad: Não. Neste momento não. Nossa prioridade é combater o terrorismo.



Sunday Times: Se a Arábia Saudita convidá-lo para realizar discussões sérias sobre o futuro da Síria, o senhor aceitaria esse convite? Ou as relações entre a Síria e a Arábia Saudita foram severamente cortadas ao ponto de levá-lo a não considerar este tipo de convite?



Presidente Assad: Não, não há nada impossível na política. Não se trata de eu aceitar ou não. Trata-se das políticas de cada governo. Quais são as políticas daquele governo em relação à Síria? Aquele governo continuará ou não a apoiar os terroristas? Aquele governo continuará a jogar os seus jogos perigosos na Síria, no Iêmen e em outros lugares? Se estiverem dispostos a mudar suas políticas, especialmente no que diz respeito à Síria, não teremos nenhum problema em nos reunirmos com ela. Portanto, não se trata da reunião ou se participaremos ou não dela. Trata-se da abordagem daquele governo, em relação ao que está acontecendo na Síria.



Sunday Times: O senhor espera algum resultado das negociações em Viena? Que tipo de acordo poderia resultar dos encontros de Viena?



Presidente Assad: O ponto mais importante no comunicado Viena é que os sírios devem se reunir para discutir o futuro da Síria. Todo o resto é secundário. Se este ponto principal não existir, os outros pontos secundários não terão valia. Desta forma, a única solução é que nos reunamos como sírios. Viena em si não passa de uma reunião para declarar intenções, e não um processo real de sentar-se à mesa e discutir o futuro. Então, a questão não é o que resulta de Viena, mas sim o que nós sírios somos capazes de alcançar quando nos sentamos juntos.



Sunday Times: Mas o senhor atentou para o fato de que alguns dos líderes da oposição, eu me refiro a figuras da oposição que são contra pegar em armas e tudo o mais, têm medo de entrar na Síria, porque, no momento em que eles colocarem o pé na Síria, serão detidos pelos agentes de segurança e colocados na prisão. Isso já aconteceu com os outros.



Presidente Assad: Não, isso nunca aconteceu. Existe uma oposição na Síria e ela é livre para fazer o que quiser.



Sunday Times: Não, eu me refiro à oposição externa. Por exemplo, alguém como Haitham Mannaa não pode voltar.



Presidente Assad: Temos dito, claramente, que quando houver um encontro na Síria, em que eles queiram participar, nós garantimos que eles não serão presos ou detidos. Temos dito isto repetidas vezes. Nós não temos nenhum problema a este respeito.



Sunday Times: A Arábia Saudita convidou 65 personalidades, entre as quais líderes da oposição e até mesmo comandantes rebeldes, empresários e figuras religiosas para uma reunião na Arábia Saudita, com o objetivo de apresentar uma frente unida em preparação para as conversações de janeiro, em Viena. No entanto, o governo sírio, que é o outro componente importante neste processo todo, que tem por objetivo discutir o futuro da Síria, não parece estar falando com a oposição. O senhor tem realizado quaisquer negociações com a oposição? E já chegou a algum consenso com ela?



Presidente Assad: Temos canais diretos com alguns grupos de oposição, mas outros grupos não podem se comunicar conosco, porque os governos que os controlam não lhes dão permissão para isso. De nossa parte, estamos abertos para discussões com todas as partes pacíficas da oposição. Não temos nenhum problema quanto a isso. Quanto à reunião a ser realizada na Arábia Saudita, os sauditas apoiam o terrorismo de forma direta, pública e explícita. Essa reunião não mudará nada em campo. Antes e depois da reunião, a Arábia Saudita continuará fornecendo apoio aos terroristas. Não se trata de um divisor de águas que possa ser discutido. Nada vai mudar de fato.



Sunday Times: O senhor vislumbra a chegada de um momento, no futuro, em que, para proteger a Síria ou salvar a Síria ou para movimentar o processo político com determinados grupos ou um grupo específico que o senhor considere terrorista atualmente, mas com o qual o senhor concordaria em negociar no futuro, porque isso seria benéfico para o futuro da Síria?



Presidente Assad: Nós já fizemos isso.  Desde o início, um dos pilares da nossa política foi iniciar um diálogo com todas as partes envolvidas no conflito, sendo elas sírias ou não. Negociamos com muitos grupos terroristas – e para ser bem preciso não negociamos com as organizações – que queriam desistir das armas e voltar à vida normal. Estas negociações resultaram no anúncio de mais de uma anistia e fomos bem-sucedidos em muitas situações. Além disso, muitos desses combatentes se juntaram ao Exército Sírio e estão lutando com as nossas forças. Portanto, sim, nós estamos negociando com aqueles que cometeram atos ilegais, tanto militares quanto políticos, na Síria, para alcançarmos soluções, com a condição de que eles deponham as armas e voltem à vida normal. Isso não significa que nós negociaremos com organizações terroristas como o ISIS, a Frente al-Nusra e outros. Quando me refiro a grupos, quero dizer aqueles que participaram da luta, arrependeram-se de suas escolhas e quiseram voltar à vida normal.



Sunday Times: Existe algo que os rebeldes chamam de “barris explosivos” e o senhor rejeita este nome. Independente do nome, as bombas não fazem distinção entre combatentes e civis. O senhor reconhece que a Síria fez uso de bombas que não fazem distinção entre civis e combatentes, em algumas áreas, o que resultou na morte de muitos civis?



Presidente Assad: Vamos supor que esta parte da propaganda seja verdadeira, mesmo não sendo. Mas, para poder falar sobre essa questão, façamos a mesma pergunta no que diz respeito aos vários ataques perpetrados pelos americanos e os britânicos, com seus aviões e mísseis de altíssima precisão, no Afeganistão e no Iraque. Não somente após a invasão do Iraque, em 2003, mas também durante a primeira guerra do Golfo, em 1990. Quantos civis e pessoas inocentes foram mortas por esses ataques aéreos com esses mísseis de altíssima precisão? Eles mataram mais civis com seus mísseis, do que terroristas. Portanto, a questão não são os chamados ‘barris explosivos’ ou ‘este presidente malvado que mata pessoas de bem que estão lutando pela liberdade’. Esta imagem romantizada é falsa, nada tem a ver com a realidade. A questão é como você usa seus armamentos, independente de serem barris explosivos ou mísseis de alta precisão. É sobre como você usa essas armas, o tipo de informações que você tem e quais são as intenções. Será que queremos matar pessoas inocentes? Como seria possível, se o Estado é quem os defende? Se fizéssemos isso, nós os estaríamos empurrando para os braços dos terroristas. Se quiséssemos matar os civis ou os inocentes, por qualquer motivo, isso servirá aos interesses dos terroristas. E isso vai contra os nossos interesses. Por que atiraríamos no nosso próprio pé? É surreal e incoerente. Não dá mais para vender este tipo de propaganda. Ninguém mais acredita nela. 



Sunday Times: Senhor Presidente, uma última pergunta. Como presidente do seu país, que comanda o exército e os outros setores, por conta do seu posto, o senhor não assume a responsabilidade por algumas coisas que aconteceram na Síria?



Presidente Assad: Eu fui questionado sobre isso muitas vezes, especialmente por redes de comunicação ocidentais e seus jornalistas. O objetivo da pergunta é me constranger, me encurralar entre duas respostas: se digo que seja responsável, eles dirão: viram? O Presidente é responsável por tudo o que aconteceu. Se digo que não sou responsável, eles dirão que não é verdade, ‘você é o presidente, como você pode não ser o responsável?’



Sunday Times: Porque o senhor é o presidente, ou digamos o chefe da família. 



Presidente Assad: Deixe-me concluir. Você só ouviu uma introdução para a minha resposta. 



É muito simples. Desde o início, nossa política foi baseada em dois pilares: engajar-nos no diálogo com todos e lutar contra o terrorismo em todos os lugares da Síria. Agora, se você quer falar sobre responsabilidade, você tem que discutir os vários aspectos do conflito na Síria, bem como a razão pela qual estamos aqui, hoje, nesta situação difícil e triste. 



Se eu assumisse a 'responsabilidade', significaria que estaria assumindo também a responsabilidade pelo dinheiro pago pelo Qatar aos terroristas? Ou pelo dinheiro dos sauditas que financiam as atividades dos terroristas? Ou pelos governos ocidentais que ordenam que os terroristas entrem na Síria? Ou teria de assumir, eu, toda a responsabilidade pela proteção política que governos ocidentais dão aos terroristas, a ponto de haver quem os considere 'moderados'? E seria eu responsável, também pelo embargo que o ocidente impôs ao povo sírio? O que temos de discutir é isso.



Não faz sentido algum dizer que o presidente seria responsável por isso ou aquilo outro. É preciso falar sobre cada aspecto e discernir entre as decisões tomadas no âmbito político, de um lado; e as práticas, de outro lado. Entre a estratégia e as táticas. Portanto, é uma avaliação muito complexa. 



Além disso, se você quiser avaliar quem assumiu ou não responsabilidades na Síria, é avaliação que só se poderá fazer ao final da guerra. Quando poderemos investigar toda a situação, durante e depois.



Sunday Times: Senhor Presidente, muito obrigado por nos receber. [Fim da transcrição]

Um comentário:

Roberto Machado Cassucci Cassucci disse...

Olá! Bom dia a todos... Muito seguro e perspicaz o Presidente Sírio Bashar Al Assad...