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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

EUA, América Latina e soberania O que está em jogo na Venezuela?

8/2/2019, Greg Grandin, London Review of Books Online



“ ‘O povo da América do Sul é o mais ignorante, de visão mais enviesada, o mais supersticioso de todos os Católicos Romanos no Mundo Cristão,’ escreveu John Adams,
segundo presidente dos EUA, em 1815” (Greg Grandin, 
LRB, vol. 31, n. 20, 22/10/2009).

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga



1. O conceito de soberania pode referir-se ao controle político que um líder exerce sobre uma sociedade e território, ou o controle psíquico que um indivíduo exerce sobre si mesmo.

2. Soberania é conceito que tem longa história no pensamento político, no mínimo em relação à expansão das potências imperiais europeias. Mas foi na América Hispânica, que o conceito assumiu sua forma moderna – aplicado a estados-nações não imperiais ou não coloniais – e pela primeira vez foi posto em ação como norma diplomática.

3. À altura do final da década dos 1820s, todas as ex-colônias da Espanha na América, exceto Cuba e Porto Rico, já haviam alcançado a independência. Esses novos países – dentre os quais, a Gran Colombia, as Províncias Unidas, Bolívia, Peru, República do Chile e os Estados Unidos do México – aceitaram a integridade territorial dos demais, baseada em antigas fronteiras coloniais. Não tiveram alternativa, dado que cada nação legitimava e simultaneamente ameaçava todas as demais: legitimava, porque a independência de uma delas confirmava o direito das demais a se rebelarem contra a ordem monárquica estabelecida; e ameaçava, porque todas nasceram num tempo em que a lei internacional reconhecia a guerra e a conquista como meios válidos para obter território e estabelecer soberania.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Todos os golpes da CIA são o mesmo golpe - "Por que não nos agradecem?"

21/6/2012, Pankaj Mishra, London Review of Books, vol. 34, n.12, pp. 19-20 (traduzido em 15/6/2018)


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Resenha de
Christopher DE BELLAIGUE, Patriot of Persia: Muhammad Mossadegh and a Very British Coup, [Patriota da Pérsia: Muhammad Mossadegh e um golpe muito britânico], Bodley Head, 310 pp, fev.2012, ISBN 978 1 84792 108 6
___________________________

"O crescente sentimento antibritânico finalmente levou o xá Muhammad Reza a nomear Mossadegh primeiro-ministro no início de 1951. (...) Mossadegh (...) tratou rapidamente de nacionalizar a indústria do petróleo. Dezenas de milhares ocuparam as ruas para saudar os funcionários mandados de Teerã para assumir o comando das instalações britânicas de petróleo em Abadan, beijando os carros cobertos de poeira (...). O embaixador dos EUA relatou que Mossadegh tinha o apoio de 95% da população(...)"

[Três anos depois] Ao festejar a visita oficial do xá aos EUA em 1954, o Times exultava: 'Hoje Mossadegh está onde tem de estar – na cadeia. E o petróleo volta a correr para os livres mercados do mundo'."

"'Não somos liberais como Allende e Mossadegh 
[dentre taaaaaantos outros & outras, né-não?! (NTs)], que a CIA derruba quando quer' – disse o aiatolá Ali Khamenei, hoje supremo líder do Irã, durante a crise dos reféns em 1979. Até hoje [o artigo é de 2012, mas vale para junho de 2018] a história mostra que Khamenei sabe do que fala."






Em 1890, um ativista muçulmano itinerante de nome Jamal al-din al-Afghani estava no Irã, quando o então governante Naser al-Din Shah Qajar, entregou uma concessão de tabaco a um empresário britânico, G.F. Talbot, que, na prática, lhe garantia um monopólio de compra, venda e exportação. Al-Afghani chamou a atenção, sob um coro de aprovação de intelectuais seculares e também de comerciantes conservadores, que os plantadores de tabaco ficariam à mercê de infiéis, e a sobrevivência dos pequenos distribuidores, destruída. Organizou grupos de pressão em Teerã – inovação política até então desconhecida no país – que enviaram cartas anônimas a funcionários e distribuíram panfletos e cartazes conclamando os iranianos a se revoltarem. Na primavera seguinte, eclodiram protestos furiosos nas principais cidades. Ajudados pelo telégrafo, então recém introduzido no país, os manifestantes reunidos no Protesto do Tabaco – como se tornou conhecido – foram tão cuidadosamente coordenados como novamente o seriam na Revolução Islâmica de Khomeini cem anos depois, quando fitas-cassetes fizeram o papel do telégrafo e as mulheres participaram em grande número.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O que não se diz ao falar do 'hacking russo'

Jackson Lears, London Review of Books, vol. 40, n. 1, pp. 15-18, 4/1/2018


>> Washington ÉÉÉÉ Curitiba (menos autoritária, mas bem parecida)?!
"Pelo sim, pelo não, já começaram as prisões. Mas o que mais chama a atenção nessas prisões é que as acusações nada têm a ver com interferência de russos em alguma eleição.

Houve muitas conversas sobre a possibilidade de os acusados apresentarem provas contra Trump em troca de sentenças mais leves, mas não passavam de especulação."


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu



A política nos EUA só muito raramente exibiu espetáculo mais desalentador. As atitudes repelentes, grotescas e perigosas de Donald Trump são incômodas que chegue, mas também é horrorosamente incômodo o fracasso da liderança do Partido Democrata, que absolutamente não é capaz de se dar conta do que significou a campanha eleitoral de 2016. O desafio que Bernie Sanders impôs a Hillary Clinton, combinado ao triunfo de Trump, revelou a extensão da fúria popular contra a política de sempre, dos EUA – essa mistura de política doméstica neoliberal e política externa intervencionista que é consenso em Washington. Os neoliberais celebram a serventia do mercado como único critério de valor; os intervencionistas exaltam o aventureirismo militar em outros continentes como meio para combater o mal, de modo a preservar o progresso global. Essas duas agendas já se mostraram calamitosas para a maioria dos norte-americanos.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Sado-austeridade vs social-democracia atenuada

7/6/2017, Glen Newey, London Review of Books (Blog)










Entreouvido na Vila Vudu:
Digam o  que disserem os entendidos em 
'palavra do ano', "fake news" acaba de ser destronada. 
A palavra de 2017 é "sado-austeridade". 
Segura essa, D. Mírian Leitão! 😂🌹🙄








Essa eleição foi feita, como disse Proudhon da revolução de 1848, sem uma ideia, além de proteger o poder para os Tories e blindá-los contra o revide pós-Brexit. A estratégia deles pressupunha que as pessoas não tivessem qualquer dúvida quanto à competência dos líderes do Partido, e que os eleitores só pensavam em Brexit, de modo q ninguém ter ideia alguma sobre tudo mais não faria diferença (apesar de o governo também não ter ideia alguma sobre Brexit). Disso nasceu o Manifesto Conservador.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Trump: Alguns números

14/11/2016, R.W. Johnson, London Review of Books (online)












"Mas gênero não é identidade de coesão em termos eleitorais. Na hora de as mulheres decidirem o próprio voto sempre predominam as divisões por classe e por etnia. (...) 2016 foi a eleição em que o peso da classe se fez ver mais claramente que em todas as eleições anteriores desde o New Deal. (...)

A velha classe política foi derrubada. Clinton ainda mantém os ricos, mas perdeu a classe trabalhadora. Os trabalhistas ingleses ganham Londres, a porção mais rica do Reino Unido, mas perderam os trabalhadores para o Partido Independente e para o Partido Nacional Escocês. Estamos em território ainda não mapeado.

(...) Clintons e Blairs surfaram por cima das dores e das desigualdades sociais, cuidando de enriquecer e deixando os eleitores para trás, comendo o pão que o diabo amassou. A classe trabalhadora percebeu esse 'desenvolvimento', e aí está uma das razões pelas quais a velha política já não funciona."







Por mais que estejamos frustrados ou desgostosos com o resultado da eleição nos EUA, 2016 seria quase com certeza absoluta ano Republicano. Se se examinam os governos no pós-guerra que cumpriram dois mandatos e, em seguida, quem venceu as eleições de meio de mandato no sexto ano, torna-se muito fácil prever quem vencerá a presidencial dois anos depois, exceto em um ou dois casos. 

Em 2014 os Republicanos derrotaram pesadamente os Democratas, ganhando nove novos lugares no Senado, o que lhes garantiu clara maioria nas duas casas. Levando-se em conta exclusivamente esse dado, nenhum outro, já se poderia prever que qualquer candidato Republicano teria vencido em 2016. Se se acrescenta que os Republicanos foram às eleições com o partido ocupando o governo de 31 dos 50 estados – fato de grande peso, porque a administração desses estados é efetivamente entregue ao partido do governador – 2016 seria ano de sucesso garantido para qualquer Mitt Romney ou John McCain, sobretudo contra candidata tão impopular quanto Hillary Clinton.