quarta-feira, 23 de março de 2016

O que, em sua opinião, significa o Gráfico 1 (adiante)?


"É uma reestruturação das economias ocidentais dominantes, que se querem bem distantes de qualquer modelo democrático no qual representantes do povo e governo eleitos definem as políticas. A nova ordem representa mudanças básicas na economia política, uma economia que agora serve aos interesses exclusivos do 1% de cima. Bem-vindos ao Admirável Mundo Novo do Fed."

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Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


O que, em sua opinião, significa o gráfico abaixo?


Pois significa que a economia dos EUA debate-se nas vascas da 'Recuperação' mais completamente fracassada desde a 2ª Guerra Mundial.


"Mas como é possível" – pergunta você. – "Afinal, o Fed não 'garantiu' juros zero durante sete anos, ao mesmo tempo em que abastecia todo o sistema financeiro com mais de $4 trilhões?"



Sim, mas... Fizeram tudo isso, mas o tal estímulo monetário deles não conseguiu arrancar a economia das mais lentas calmarias, ou produzir a recuperação robusta que nos prometeram. Em vez disso, o PIB dos EUA despencou a abissais 2,2% desde 2009, o que é muito abaixo da média de 3,6% dos 60 anos anteriores. Resumo da ópera: Não há chance de a economia sair dessa estagnação de longo prazo, a menos que os políticos mudem dramaticamente de abordagem. 



Vejam o que mostra a Revista Fortune, com matéria do WSJ.




"Como se pode ver, as revisões mostram em geral número sempre mais anêmico de crescimento pós-recessão; mais anêmico do que supúnhamos. A partir de 2011 até o ano passado, a economia dos EUA, em média, cresceu apenas 2% a.a., muito abaixo de sua média de crescimento pós-guerra, de 3%." (Economia pós-recessão é pior do que EUA pensamos, Fortune, 30/7/2015)


Difícil acreditar, não é? Difícil acreditar que o Fed enterre mais de $4 trilhões no sistema financeiro e não consiga chegar nem ao objetivo que o próprio Fed fixou, de 2% de inflação! Como é possível? E nós que pensávamos que mais dinheiro significa mais inflação? Nos ensinaram errado?



Sim e não. Vejam bem: as políticas do Fed REALMENTE criaram inflação, mas não o tipo de inflação que estimula a atividade. O que o Fed criou foi inflação dos ativos [ing. asset inflation], fez subir os preços de ações e papéis que eventualmente levou à instabilidade financeira e a dolorosos períodos de ajuste. O índice S&P mais do que dobrou desde 2009, e o Dow Jones realmente triplicou. 



Preços de ações subiram à estratosfera, e os especuladores de Wall Street praticaram verdadeiro massacre. Só operadores panacas não se beneficiaram das políticas do Fed, porque nem um vintém do dinheiro 'gotejou' para baixo, até a economia real, onde poderia ter feito algum bem. Em vez disso, está tudo preso dentro do sistema financeiro, onde inflou bolhas gigantescas, uma depois de outra.



Vejam no Gráfico 3, o que é, desenhada, a operação do Fed de injetar dinheiro:



Gráfico 3: Índice S&P
Legenda: esq -> dir. Azul: 1º alívio quantitativo (AQ1) anunciado; Mercado antecipa fim de AQ1; AQ1 ampliado; fim de AQ1. Verde:Bernancke fala de 2º alívio quantitativo (AQ2); Fim de AQ2; Preto: Anunciada 'Operação Twist' (OT); Mercado antecipa fim da OT; OT ampliada. Vermelho: Bernancke fala de 3º alívio quantitativo (AQ3).

Estão vendo como a linha preta salta rumo à estratosfera a cada nova rodada de Alívio Quantitativo (AQ)? É assim que funciona essa política. Os ricos cada vez mais ricos, enquanto os trabalhadores tentam sobreviver com menos horas, salários sempre mais miseráveis, saúde cada vez mais cara e zero de poupança para a aposentadoria. Alguém ainda se surpreende por Bernie Sanders ter incendiado as massas?


Mas, se você examinar de perto o mesmo gráfico, verá que o Fed parou de bombear dinheiro para dentro do sistema em outubro de 2014, há um ano e meio, aproximadamente. Desde aquela data, as ações subiram gradualmente, o que sugere que os preços atuais reflitam acuradamente fundamentos sólidos. Mas será que ainda há quem acredite nisso? 



Não, não há. Todos acham que as ações estão em estado de bolha. De fato, o Fed nem pode falar de "apertar", sem lançar os mercados ladeira abaixo. Por exemplo, em dezembro – depois de meses avisando sobre uma intenção de elevar os juros em reles 25 pontos base – o Fed subiu os juros para 0,5%, 1 pp abaixo da inflação atual (o que significa que o Fed está de fato subsidiando empréstimos). Pois mesmo assim, os mercados entraram em crise coronária grave, que pôs as ações a tropeçar e despencar, no pior começo de ano de toda a história.



Por quê?



Porque todos sabem que os preços são falsos. A conversa de juros zero e Alívio Quantitativo é, toda ela, fiada, toda, conversa fiada do começo ao fim. E ainda não chegamos ao fundo do fundo do poço, motivo pelo qual o Fed está tão preocupado, porque, se o mercado dá uma reviravolta sem aviso, e as ações começarem a cair, ninguém sabe até onde a coisa irá. É possível que se veja o Crash do Século em apenas poucas semanas. Ninguém realmente sabe ou pode prever com razoável certeza.



Há um excelente artigo em Yahoo, publicado há poucas semanas, intitulado "O Fed causou 93% de todos os movimentos em todo o mercado de ações, desde 2008".



Segundo o analista-economista Brian Barnier, as ações subiram à estratosfera porque "o Federal Reserve aplicou-se em inundar com dólares o mercado financeiro, comprando bônus sem parar."



OK, mas, se o Fed é responsável por 93% de todo o movimento, nesse caso até onde as ações terão de cair, antes de os preços refletirem fundamentos?



Verdade é que terão de cair muito, muito, mais fundo do que qualquer um sequer tenta prever. Essa é a razão pela qual o Fed NÃO VENDEU e provavelmente NÃO VENDERÁ nem um centavo dos seus $4,5 trilhões de ativos que atualmente aparecem no balanço do banco. Tremem de medo de que os investidores vejam na venda um sinal de que o Fed está pondo fim ao apoio que dá aos mercados, o que disparará o mais vicioso pânico de venda. Em outras palavras, o Fed permanecerá condenado a um balanço doentiamente inchado até o Juízo Final, talvez ainda adiante.



Mas voltemos à nossa pergunta original: por que as ações subiram ainda mais, quando o Fed parou com as operações de bombear dinheiro, em 2014?



Resposta: Recompra de ações.



Vejam esse Gráfico 4, que encontrei no blog Contra Corner de David Stockman. Ajuda a ilustrar o modo como as ações estão subindo, não por fundamentos sólidos, mas porque executivos bigshots de grandes empresas têm tomado empréstimos pesados do mercado de ações, para recomprar suas próprias ações. É isso, altos executivos de empresas endividam-se para comprar ações das próprias empresas, o que faz engordar os lucros e os bônus que recebem sobre lucros da empresa. É clara manipulação, mas perfeitamente legal. Vejam no Gráfico 4:



Gráfico 4: "De repente, tudo fica claro: o que faz subir o índice S&P 500 é a recompra de ações (empresas compram suas próprias ações), desde 2010", 17/3/2016, 
ContraCorner

Isso é que faz o mercado subir. Não os números falsos do emprego, não a fantasia da recuperação do mercado imobiliário, e, com certeza, tampouco alguma confiança na recuperação lentíssima de Yellen do Fed. Tudo se baseia em dinheiro barato, engenharia fiscal e fraude. É isso, numa linha, hoje, o mercado de ações.


Agora deem uma olhada no que disse Bloomberg:

"As empresas que compõem o índice Standard & Poor, das 500 maiores, estão posicionadas para recomprar $165 bilhões de ações nesse trimestre, aproximando-se do recorde alcançado em 2007." (Só um comprador mantém vivo o mercado em alta das 500 de S&P, Bloomberg)

$165 bilhões de ações nesse trimestre traduzem-se em $660 bilhões/ano. É uma enxurrada de dinheiro, suficiente para manter o mercado em alta, até que investidores individuais [orig. retail investors] resolvam encerrar o expediente e cair fora. E os investidores individuais estão caindo fora. Segundo relatório recente do Bank of America (publicado em Zero Hedge):
"Clientes do Bank of America Merrill Lynch (BofAML) foram vendedores líquidos de ações dos EUA pela 7ª semana consecutiva (...) Fundos hedge e clientes privados também foram vendedores líquidos (...).
Resumo do Bank of America: "clientes não acreditam no rally [subida crescente], continuam a vender ações dos EUA" e estão vendendo especificamente para corporações cuja atividade de recompra se aproxima do recorde máximo de todos os tempos: "recompras por clientes corporativos aceleraram pela 3ª semana consecutiva para o seu nível mais alto em seis meses, e também estão acima dos níveis desse momento do ano passado." Buyback Blackout Period Starts Monday: Is This The Catalyst That Ends The S&P Rally?Zero Hedge)


VENDER. VENDER. VENDER. É como se o único agente que não está correndo para a saída são os honchos das grandes empresas, que querem mais um último gordo bônus, antes que o mercado entre em clima de "nosso-caso-está-na-hora-de-acabar", Sayonara. Mais um trecho, de Bloomberg:

As recompras corporativas são a única demanda q há para ações corporativas nesse mercado" – David Kostin, estrategista chefe para ações dos EUA no Goldman Sachs Group Inc., dia em entrevista, dia 23/2, à TV Bloomberg."

"Única demanda"? Quer dizer: "os únicos que estão comprando ações-cocô são as empresas que lançam as ações"?


É isso, e a culpa é daqueles rapazes amigáveis, no Fed. Não fossem a taxa zero de juros e os $4 trilhões de Alívio Quantitativo do Fed, essa derradeira onda suicida de especulação jamais teria acontecido. Vamos encarar: se os juros fossem normais, os executivos espertalhões não conseguiriam toma dinheiro emprestado para pagar pelas próprias ações. Seria caro demais e, portanto, o problema nem existiria. Dinheiro barato cria bolhas, e o produtor n. 1 de dinheiro barato no planeta hoje, você já adivinhou, é Janet "Em Pânico" Yellen.



Então, qual o verdadeiro objetivo dessa coisa toda, o quê, de fato, o Fed quer realmente conseguir? Com certeza, depois de sete anos de fazer sempre a mesma coisa, outra e outra vez, o Fed não pode estar esperando resultado diferente, não é?



Não, claro que não. Afinal, o Fed não é louco, está longe disso. O Fed sabe exatamente o que está fazendo. Sabe que essa política monetária está "tocando uma corda" que não terá impacto algum no emprego, nos investimentos ou no crescimento, assim como sabem que o Alívio Quantitativo não fará subir a inflação, enquanto os salários permanecerem arrochados. Eles sabem disso, porque já viram acontecer exatamente esse cenário & resultados em todos os países em que usaram esse combo de dinheiro fácil e 'austeridade' (arrocho). 



Não esqueçam que a gangue dos Bancos Centrais implementou esse mesmo programa no Reino Unido, União Europeia, Japão e EUA. Em todos os casos, a classe política pôs freios no crescimento (cortando investimentos do Estado, conhecidos como "gastos do governo") ao mesmo tempo em que os Bancos Centrais[1] bombeavam trilhões no sistema financeiro. 



E o resultado sempre foi exatamente o que se podia esperar: os investidores chafurdando em bilhões, enquanto a economia fenece, entra em coma. Que outra prova ainda seria necessária?



Como já dissemos, esse fenômeno tampouco é limitado aos EUA. É uma reestruturação das economias ocidentais dominantes, que se querem bem distantes de qualquer modelo democrático no qual representantes do povo e governo eleitos definem as políticas. A nova ordem representa mudanças básicas na economia política, uma economia que agora serve aos interesses exclusivos do 1% de cima. Bem-vindos ao Admirável Mundo Novo do Fed.



A chave aqui para as elites do 'estado-profundo' – que controlam todo o apparatus por trás da cortina de fumaça dos bancos centrais – é a inflação. Enquanto a inflação permanecer baixa, os bancos centrais podem continuar a canalizar mais riqueza para os magnatas do andar de cima. Por isso a economia não pode crescer, porque se a economia crescer depressa demais, e mais pessoas conseguirem trabalho, nesse caso as pressões salariais aumentam, o que obrigaria os Bancos Centrais a aumentarem as taxas de juros.



As elites não podem permitir que aconteça, porque taxas mais altas de juros ameaçam sabotar a boa vida do dinheiro fácil sem esforço algum. Então a economia tem de ser estrangulada com muita 'austeridade' (é arrocho), para que osuber-ricos possam sempre arrancar mais lucros para eles mesmos. Por isso a economia vai continuar de velas murchas, na pior calmaria, por todo o futuro que hoje se possa entrever. A política é essa.



Esse é o motivo oculto por trás da 'austeridade' (é arrocho). Nada tem a ver com alguma preocupação com a dívida pública ou déficits crescentes. Tudo isso é conversa fiada. Trata-se de manter baixa a inflação, para que os oligarcas possam arrancar pedaço ainda maior do bolo. Só isso. Fim de conversa.



Como já escrevi, o Fed sabe exatamente o que está fazendo, exatamente como os Bancos Centrais sabem o que estão fazendo. Não é difícil de entender. É um plano bem claro e direto, embora pervertido, para reestruturar a economia, de modo que um punhado de plutocratas obscenamente ricos acabem por controlar tudo. Esse é o grande objetivo. Querem controlar tudo.



E então? Como se derruba ou inverte-se toda essa jogada? 



Infelizmente, estou atolado bem nesse ponto.*****







[1] Ver sobre isso "A geopolítica do sistema de Banco Central", 17/3/2016, Valérie Bugault, Katehon [em tradução (NTs)].

Um comentário:

rafael carvalho disse...

vc poderia me ajudar a entender pq no Brasil as taxas de juros andam tao altas mas a inflacao se recusa a baixar? nao eh do interesse das elites a baixa inflacao pq seria diferente no brasil?