segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Modi enterra a ‘servidão unipolar’ da Índia, por MK Bhadrakumar

3/11/2018, MK Bhadrakumar, Indian Punchline

Da série “EUA perderam”: 
Pra EUA sóssobrô BB&MoMo (Brasil de Bolsonaros e Moro&Morão)

(2/3) EUA perderam a Índia

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga




Essa semana trouxe surpresas em dois campos. De um lado, o espectro de Nova Guerra Fria EUA-China teve morte súbita, quando opresidente Trump, na 5ª-Feira, telefonou ao presidente Xi Jinping para atrasar o relógio de volta a tempos mais felizes. 



Sem meias palavras, Trump tentou encerrar de vez a guerra comercial e remendar todas as pontes com a China. Realista, Trump sabe que os EUA simplesmente não têm meios para impor seus desejos à China. Pequim está visivelmente satisfeitíssima.



No outro campo, Trump anunciou na 6ª-feira que os EUA estão ‘reimpondo’ sanções já velhas de várias décadas contra o Irã, mas, dessa vez, com ‘passe livre’ para China, Índia, Turquia, etc., para comprar petróleo iraniano. Mesmo assim, o Irã não amoleceu. A reação do Ministério de Relações Exteriores do Irã sugere que o país exigirá que os EUA retrocedam até o acordo de 2015. Nada menos que isso satisfará o Irã.



Esses dois desenvolvimentos mostram eloquentemente que os EUA já não tem capacidade para pressionar outros países. 



O governo Modi compreende bem essa realidade geopolítica e essa compreensão, por sua vez, explica as duas importantes decisões de política exterior que seu governo tomou recentemente – e que afirmam a autonomia estratégica da Índia vis-à-vis os EUA.



A decisão de concluir o acordo para compra do sistema de mísseis russos de defesa S-400 ABM (com custo estimado de cerca de $6 bilhões); e de se afastar do sistema-dólar, para pagar a compra em rublos, é indiscutivelmente uma orgulhosa afirmação de interesses nacionais claramente postos. De fato, os rugidos ameaçadores de Washington durante a negociação do acordo para comprar o S-400 ABM russo não tiveram qualquer efeito sobre o primeiro-ministro da Índia. 






“Única saída que ainda vale a pena tentar é oferecer um acordo a Trump. Provavelmente a Índia terá de tratar de se apressar para concluir algum dos vários grandes acordos de compra de programas da Defesa que já discutimos com os EUA ao longo dos anos, o que capacitará Nova Delhi a manter as capacidades que sempre desejo, ao mesmo tempo em que oferecemos a Trump um incentivo para garantir o passe livre de que a Índia tanto carece. Só assim os dois lados poderão avançar. Mas para que a tentativa funcione e realmente atraia a atenção de Trump, a proposta da Índia tem de ser suficientemente lucrativa para os EUA e garantir efeitos importantes em termos de impacto estratégico potencial. E o detalhamento deve aparecer já quase completamente pronto, de diálogo discreto entre políticos da Índia e dos EUA, nos mais altos níveis. Solução rápida para as disputas comerciais mais urgentes só acelerariam ainda mais esse processo.”


Obviamente, Modi descartou o conselho de Tellis. Nada fez com vistas a “oferecer um acordo a Trump”, como “incentivo para garantir o passe livre” para a Índia.


O mais espantoso, em relação à chantagem que Tellis tentou, é o quanto esses ‘analistas’ pedestres de think-tanks EUA-indianos absolutamente nada compreendem da política exterior do próprio país. Eis o que Tellis escreveu sobre relações Índia-Rússia:



“Hoje, a Índia luta para manter um arremedo de relações produtivas com a Rússia, num momento em que Putin oscilou na direção do pior inimigo da Índia, a China; a Rússia se reinseriu no Afeganistão e no Paquistão de modos que nada ajudam os interesses da Índia; e simplesmente sumiu qualquer simpatia que por acaso houvesse nos laços que restam entre Moscou e Nova Delhi.”



Imagem: Modi e Putin em Sochi, junho,2018



Que avaliação, essa, vinda de um ‘especialista’ da Fundação Carnegie! Semana passada, outro especialista de think tankJeff Smith, de outrothink tank neoconservador, Heritage Foundation, já dizia coisa diferente. Como ficaram as coisas? Smith agora culpa a “multidão antialinhamento” da Índia, a qual, palavras dele, vê “qualquer aliança com os EUA como pacto com o demônio, com obrigações de alto custo e danos à independência.”



Ora, bem faria Smith se tirasse férias e visitasse um a um alguns países – Turquia, Paquistão, Coreia do Sul ou Arábia Saudita –, para aprender o que esses tradicionalíssimos aliados dos EUA pensam hoje sobre alianças com os EUA. E, para piorar, nenhum desses quatro países jamais teve qualquer coisa a ver com “não alinhamento” em toda a história moderna. O mais provável é que, agora, comecem a conhecer os encantos do não alinhamento.



O que esses norte-americanos não veem é que o primeiro-ministro Modi da Índia realmente tomou uma decisão consciente de que a Índia realmente precisava do sistema de defesa S-400 ABM e do petróleo do Irã, e que seu governo realmente se dedicaria a cuidar dos interesses do próprio país. 



De fato, os dois grandes desenvolvimentos do fim de semana – o recuo de Trump na guerra comercial contra a China e a decisão unilateral dos EUA, de afrouxar o regime de sanções contra o petróleo do Irã – só destacam o quanto teria sido estúpida a decisão, caso Modi optasse por dependurar-se no rabo do fraque dos norte-americanos.



Numa perspectiva histórica, a decisão do governo Modi, de prosseguir na compra do sistema de defesa S-400 ABM russo, e a evidência de que os indianos não piscaram ao fazer valer seu direito na questão das importações de petróleo do Irã, não são fulgores passageiros. Devem-se esperar mais decisões desse tipo, nas relações da Índia com Rússia e Irã, porque algo mudou fundamentalmente: Modi enterrou a servidão unipolar pós-URSS, da Índia.*******

3 comentários:

Anônimo disse...

Realmente os Países SOBERANOS como a Índia não servem de exemplo para o ___braZiU$$$A___, aqui chegamos a um ponto que perdemos a Identidade como Nação, Valores Nacionais , e vontade de ser útil a Pátria. Os MILITARES do ___braZiU$$$A___ com seu ANTI-PATRIOTISMO latente são os principais responsáveis pelo desaparecimento de nossa ''brasilidade'' / tradições / civilidade. Inveja de países como a Índia / China / Rússia / Irã / Síria / Coreia do Norte / Cuba / Venezuela / Nicarágua / . . . etc. Imaginam como os ANGLO_SIONISTAS riem as nossas costas e as nossas custas pela subserviência.

toni silva disse...

Com Lula e Celso Amorim o Brasil já foi altaneiro; pertenceu por pouco tempo a esse rol de nações.
Vamos resistir e recolocar o Brasil na luta por um mundo multipolar.

armalio disse...

argentina también ya fue altanera -soberana, tal vez sea un término más apropiado- con néstor y cristina.

ahora el mundo se ríe de nosotros, representados por un payaso...

canalla y mafioso, eso sí.