quinta-feira, 17 de setembro de 2015

E então? Os russos estão fazendo o que, na Síria?

13/9/2015, The Saker, The Vineyard of the Saker



Acho que uma semana depois de Ynet ter começado a 'noticiar' uma intervenção militar russa na Síria, já se pode afirmar com certeza que a coisa não passou de mais uma típica operação Anglo-Sionista de guerra psicológica [ing.PSYOP] – com o objetivo de inibir o envolvimento dos russos na guerra do Império para destruir a Síria, e que a suposta 'intervenção' não tem qualquer base na realidade.
Ou será que tem?






Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu







O que afinal se está descobrindo é que sempre houve uma pequena noz de verdade em todas aquelas histórias. Não: a Rússia não estava mandando “MiG-31s para bombardear Daesh”, nem os russos estão mandando um SSNB (submarino armado com mísseis balísticos intercontinentais) para a costa síria. Todos esses rumores são completo nonsense. Mas há sinais crescentes de que a Rússia, sim, está fazendo duas coisas:

1) ampliando seu envolvimento diplomático no conflito sírio; e 

2) entregando ao sírios material militar não especificado mas importante. 

O segundo item é o mais interessante. Desnecessário dizer que, como é típico nesses casos, o real conteúdo da carga que a Rússia está mandando por ar e mar não é divulgado. Mas sempre se pode especular. Primeiro, sabemos que a Síria precisa muito de peças de reposição e reparo para equipamentos. São já quatro anos de guerra, e os sírios deram uso intensivo aos seus equipamentos. Segundo, os sírios não têm alguns sistemas de combate que muito os podem ajudar. Por exemplo radares antibaterias (radares que veem de que ponto a artilharia inimiga está atirando) e sistemas eletrônicos de combate. Além disso, fontes russas dizem que a Síria está precisando de mais veículos blindados para transporte de tropas.

Sabemos que Síria e Rússia mantêm contratos militares há muito tempo e sabemos que a Rússia está entregando seu equipamento pesado por mar, e os sistemas mais leves por ar. Alguém está vendo aí algum fator que possa "virar o jogo"?

Não. Pelo menos até esse momento.

Nesse caso, por que o pânico no planeta Anglo-Sionista?


Meu palpite é que um dos detalhes que os estão deixando nervosos é que os russos, pelo que se pode ver, escolheram a cidade de Latakia como seu "local de entrega"  




Diferente de Damasco, Latakia é locação ideal: é segura, sem ser distante demais das linhas de frente, e é relativamente próxima da base russa em Tartus. O aeroporto e o porto naval são sabidamente fáceis de isolar e proteger. Já há relatos de que os russos estenderam as pistas e melhoraram a infraestrutura no aeroporto de Latakia, e pesados AN-124s já foram vistos pousando lá. Quanto à Marinha Russa, também enviou navios para o aeroporto de Latakia.




Antonov An-124

Em outras palavras, em vez de limitarem-se a Tartus ou de ir para Damasco, muito exposta, os russos parecem ter criado nova cabeça de ponte no norte do país, que pode ser usada para entrega de equipamento e até para desembarque de forças, à área de combate no norte do país.

Isso também explicaria os rumores apavorados de que os russos estariam enviando suas unidades de Infantaria Naval, da Crimeia para a Síria: forças de Infantaria Naval são ideais para proteger  uma base como aquela e, considerando que as linhas de frente não estão muito distantes, faria perfeito sentido que os russos usassem essas unidades para proteger sua cabeça de ponte.

Além disso, se o equipamento pesado é enviado por mar, os russos podem entregar por ar os seus sistemas de defesa aérea: o AN-124 é mais que suficiente para transportar os sistemas S-300s. Basta isso para explicar o pânico dos Anglo-Sionistas.

Tudo sugere que esteja acontecendo o seguinte: os russos estão, ao que parece, enviando materiais limitados mas importantes para garantir assistência imediata às forças sírias. Ao fazê-lo, também criaram as condições para manter abertas suas opções. Assim sendo, embora não esteja acontecendo qualquer massiva intervenção russa, alguma coisa mudou, sim, definitivamente, no conflito sírio.

Gostaria de acrescentar aqui que, apesar de as forças do governo terem perdido recentemente a base aérea de Idlib no norte do país (e não distante de Latakia), todas as minhas fontes confirmam que as forças sírias estão em muito melhor posição que o ISIS/ISIL/Daesh/EI, e que a guerra está evoluindo muito mal para os Takfiris. Os sírios liberaram recentemente a cidade de Zabadan e estão em ofensiva em muitos pontos; e, embora seja verdade que Daesh ainda controla muito território, a maior parte dessas áreas são desertos.

Para resumir tudo isso, quero dizer o seguinte: os Anglo-Sionistas estão enlouquecendo, porque a guerra deles contra a Síria fracassou. Por mais que Daesh tenha criado desgraça e terror em vários países, há muitos sinais de que os países vão-se decidindo, aos poucos, a fazer alguma coisa. Os EUA tampouco conseguiram derrubar o presidente Assad; a crise dos refugiados detonou gravíssima crise política na Europa, e agora os europeus já veem Assad sob luz dramaticamente diferente. 

Claramente a Rússia decidiu envolver-se politicamente com todas as potências regionais, efetivamente deslocando os EUA, e há indicações bastante boas de que os russos estão mantendo abertas suas opções. E, embora absolutamente não haja razões para desconfiar de que a Rússia esteja planejando grande intervenção militar no conflito em termos de quantidade, há sinais de que o apoio russo subiu a um novo nível qualitativo.

Aqui, é preciso destacar duas coisas:

Primeira: num nível político, ainda é altamente improvável que a Rússia venha a empreender grande ação militar unilateral nessa guerra. Embora a Síria seja nação soberana, e embora haja acordos sírio-russos suficientes para garantir legalidade a qualquer movimento militar feito de comum acordo entre os dois países, a Rússia fará todo o possível para não agir sozinha. Isso explica o motivo pelo qual o ministro Lavrov de Relações Exteriores tanto se tem empenhado para criar algum tipo de coalizão.

Segunda: num nível militar, o país em direção ao qual se deve olhar não é a Rússia: é o Irã. Os iranianos tem linha terrestre protegida e segura para a Síria (pelo norte do Irã) e têm o tipo de forças de combate que poderiam enfrentar com sucesso os terroristas do ISIL/ISIS/Daesh/EI. E o mesmo vale para o Hezbollah, que já mandou e mandará no futuro suas forças de elite para apoiar os sírios em áreas estrategicamente vitais. 

Se houver necessidade de grande operação por terra para apoiar forças sírias, Irã e Hezbollah são as forças que se deve esperar que intervenham – não os russos.

Putin, o estrategista

Para concluir, eu diria que o que estamos vendo acontecer é "Putin típico”: enquanto líderes ocidentais preferem ações de alta visibilidade que geram resultados imediatos (mas de curta duração), Putin prefere deixar que o oponente cause o máximo de dano possível a si próprio, antes de intervir – gradualmente, em passos lentos. 

A criação e o lançamento do Daesh pelos Anglo-Sionistas foi uma espécie de "Choque & Pavor" político, que por pouco não derrubou o governo sírio. Na sequência, essa estratégia inicial 'espetaculosa' e rapidíssima, mas de curtíssimo prazo, falhou; Assad está onde sempre esteve; e o Daesh está convertido num monstro que ameaça todos e que ninguém consegue controlar. 

Quanto a Assad, foi-se transformando aos poucos, de "um novo Hitler" que "usava gás venenoso contra o próprio povo", em alguém que, sem dúvida, será parte da solução (seja qual for alguma "solução" que surja).

A lição para todos que lutam na Resistência contra o Império é óbvia: o mais difícil e permanecer ereto depois do primeiro ataque das forças imperiais. Quem consegue sobreviver ao primeiro ataque (como o Donbass e a Síria sobreviveram), logo verá que o tempo corre a seu favor. 

Passado o primeiro golpe, se não é bem-sucedido, a posição do Império começa a ruir, lentamente, mas garantidamente, por causa das próprias contradições internas do Império. Quando esse processo se configura, o importante é não se deixar apanhar na armadilha do super envolvimento. Mas, sim, tratar de ir gradualmente ocupando cada posição (política ou outra) que o Império tenha de abandonar no processo da própria desintegração; ao mesmo tempo em que se cuida de proteger adequadamente cada pequeno passo do caminho.

É muito cedo para qualquer tipo de triunfalismo – Daesh ainda está aí, como também aí estão os ucronazis em Kiev, e o Império ainda não desistiu de investir neles. A boa notícia é que a maré está visivelmente mudando e, por mais que ainda haja muita luta pela frente, uma eventual derrota dos nazistas e dos Takfiris já aparece como possibilidade real. *****

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