terça-feira, 24 de abril de 2018

Tecnologia de mísseis russos tornou obsoleta a Marinha de US$1 tri, dos EUA, por Dmitry Orlov

21/4/2018, Dmitry Orlov, Russia Insider


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu



Pelos últimos 500 anos, as nações europeias – Portugal, os Países Baixos, Espanha, Grã-Bretanha, França e, por menos tempo, a Alemanha – conseguiram saquear todo o planeta, projetando o próprio poder naval sobre os mares e oceanos. Dado que grande parte da população mundial vive ao longo dos litorais, e muita gente comercia por água, navios armados que chegavam de repente, vindo ninguém sabia de onde, conseguiam pôr populações locais à mercê das próprias armas.

Brontosauro militar financeiramente cataclísmico

 As armadas podiam saquear, impor tributos, punir o desobediente, e na sequência usavam os saques e os tributos para construir mais navios para aumentar o alcance dos respectivos impérios navais. Assim foi possível que um país pequeno, com poucos recursos naturais e poucas vantagens locais nativas, além de intolerância extrema e grande quantidade de doenças contagiosas, dominasse o planeta por meio milênio.

O herdeiro derradeiro desse projeto imperial naval são os EUA, que, com a nova adição de poder aéreo, e com sua enorme frota de porta-aviões e vastíssima rede de bases militares pelo mundo, parecem perfeitamente capazes de impor a Pax Americana ao mundo. De fato, pareceram capazes, isso sim – durante o curto período entre o colapso da União Soviética e a emergência de Rússia e China como novas potências globais e o subsequente desenvolvimento de novas tecnologias antinavios e antiaviões. Hoje, esse projeto imperial chegou ao fim.

Antes do colapso soviético, os militares dos EUA de modo geral não se atreviam a ameaçar diretamente aqueles países sobre os quais a União Soviética havia estendido sua proteção. Mesmo assim, ao usar o próprio poder naval para dominar rotas marítimas que transportavam petróleo, e insistindo que o óleo fosse negociado em dólares norte-americanos, os EUA conseguiam viver acima das próprias capacidades, graças à emissão de papéis de sua própria dívida denominados em dólares, e forçando países por todo o planeta a investir naqueles papéis. 

Os EUA importaram o que bem quiseram, usando dinheiro emprestado, ao mesmo tempo em que exportavam inflação, pela expropriação das poupanças de todos os povos em todo o mundo. No processo, os EUA acumularam níveis absolutamente inacreditáveis de dívida nacional – além de tudo que jamais se viu, em termos tanto absolutos quanto relativos. Quando essa dívida-bomba finalmente explodir, ela espalhará devastação econômica para muito além das fronteiras dos EUA. E explodirá, sim, tão logo pare o bombeamento de riqueza em petrodólares, imposto ao mundo pela força naval e aérea dos EUA.

A nova tecnologia de mísseis da Rússia tornou fácil derrotar qualquer império naval. Antes, para combater uma batalha naval, era preciso ter navios que superassem os do inimigo em velocidade e poder de artilharia. A Armada Espanhola foi posta a pique pela Armada Britânica. Mais recentemente, passou a significar que só países cujo poder industrial equivalesse ao dos EUA poderiam sonhar, que fosse, com se opor militarmente aos norte-americanos. Hoje, isso mudou: os novos mísseis russos podem ser disparados de distâncias de milhares de quilômetros; nada consegue detê-los, e basta um daqueles mísseis para afundar um destróier, e apenas dois para afundar um porta-aviões. A Armada Norte-Americana pode hoje ser afundada, por alguém que nem precisa manter armada própria. 

As dimensões relativas das economias dos EUA e Rússia, ou dos orçamentos de defesa são irrelevantes. Os russos podem fabricar mais mísseis hipersônicos muito mais rapidamente e por menor preço, que os norte-americanos conseguem fabricar mais porta-aviões.

Igualmente significativo é o desenvolvimento de novas capacidades de defesa aérea, pela Rússia: os sistemas S-300 e S-400, que podem, na essência, vedar completamente o espaço aéreo de um país. Onde quer que esses sistemas sejam usados, como na Síria, as forças dos EUA são mantidas à distância, não importa o que tentem. 

Com sua superioridade naval e aérea evaporando rapidamente, tudo que resta aos EUA é voltar ao uso de vastas forças expedicionárias – opção politicamente impalatável e que já se provou inefetiva no Iraque e no Afeganistão. Há também a opção nuclear, e se não parece provável que o arsenal nuclear seja neutralizado em futuro próximo, é também verdade que as armas nucleares só são úteis como ferramentas de contenção. O valor especial dessas armas está em impedir que as guerras escalem além de dado ponto, mas esse ponto está localizado depois do fim da dominação global naval e aérea. Armas nucleares são muito piores que apenas inúteis e porque aumentam o compromisso agressivo contra oponente armado com armas nucleares: elas implicam invariavelmente um movimento suicidário. 

O que os EUA hoje enfrentam é essencialmente um problema financeiro de uma dívida impagável, e de uma bomba que deveria bombear riqueza alheia, mas já não funciona; e deveria ser gritantemente óbvio que detonar uma bomba atômica em algum ponto do mundo jamais resolverá os problemas de um império que rachará pelo meio.

Eventos que sinalizam mudanças vastíssimas, mudanças que inauguram uma nova época frequentemente parecem menores quando vistos separadamente, fora de contexto. Júlio Cesar atravessar o Rubicão foi apenas atravessar um rio; tropas soviéticas e norte-americanas reunidas e confraternizando no rio Elba foi, em termos relativos, evento menor – nada que nem de longe se compare ao sítio de Leningrado, à batalha de Stalingrado ou à derrubada do muro de Berlin. Mesmo assim aqueles eventos 'menores' sinalizaram mudança de proporções tectônicas na paisagem histórica. 

É possível que tenhamos acabado de presenciar algo similar, na recente, pateticamente mínima Batalha de Gouta Leste na Síria, onde os EUA usaram um incidente encenado, de suposto uso de armas químicas, como pretexto para lançar ataque também encenado contra algumas pistas de pouso e alguns prédios na Síria. O establishment da política exterior dos EUA queria mostrar que ainda faria grande diferença, que ainda teria papel a desempenhar. Mas o que se viu foi que o poder naval e aéreo dos EUA já é, comprovadamente, quase totalmente imprestável.

Claro que essa é notícia terrível para os dois establishments, militar e de política exterior dos EUA, bem como para vários deputados e senadores em cujos distritos operem empresas fornecedoras para os militares ou onde se localizem bases militares dos EUA. Claro que essa notícia também é péssima notícia para os fornecedores do Departamento de Defesa, para quem trabalha nas bases militares e para muitas outras pessoas. E é notícia simplesmente abominável no campo da economia, dado que o dinheiro gasto na defesa é praticamente o único meio efetivo de estímulo econômico acessível para o governo dos EUA em termos políticos. Os empregos prontos de Obama, "só faltando o acabamento" [ing. shovel-ready jobs], se vocês recordam, nada fizeram para minorar a queda dramática da fatia correspondente ao trabalho, que não passa de eufemismo, para a queda real da taxa de emprego real. Há também o magnífico plano para enfiar montanhas de dinheiro na SpaceX de Elon Musk (ao mesmo tempo em que o país continua a comprar dos russos motores vitalmente importantes para foguetes –, bem quando a Rússia já discute bloquear a importação desses itens para os EUA, como retaliação contra mais sanções dos EUA). Em resumo, tire o estímulo que lhe dá a Defesa, e a economia dos EUA fará blup, seguido de um pffff, que diminuirá gradualmente até se extinguir.

Desnecessário dizer, todos os envolvidos farão de tudo para negar ou esconder pelo maior tempo possível o fato de que os establishments de política exterior e de defesa dos EUA já foram completamente neutralizados. 

Prevejo que o império aéreo e naval dos EUA não desabará porque seja derrotado militarmente, nem será desmantelado tão logo todos se deem conta de que se tornou imprestável. Não, em vez disso, será forçado a restringir suas operações por falta de dinheiro. Talvez ainda se ouçam alguns bangs estridentes, antes que desistam, mas o que mais se ouvirá serão choramingas. Assim se foi a URSS. Assim também se irão os EUA.*******

7 comentários:

José Artur Grossi disse...

"Destino manifesto" às avessas, ou "o feitiço virou contra o feiticeiro"...

Anônimo disse...

Não tenho nada contra o povo americano que é ainda mais manipulado do que o povo brasileiro, mas rezo para que o império mais sanguinário que apareceu na face da terra se exploda o mais rápido possível para podermos finalmente vivermos em paz!

Jonas disse...

Quem planta vento, colhe tempestade! Esperem e verao, esse dia chegará para os EU, e nao demorará

Rodolfo Machado disse...

Não estou tão otimista quanto o autor do texto em relação aos misseis russos, se ele se refere ao Kinzhal, já esta mais do que na hora de os russos divulgarem imagens mais detalhadas dos testes, principalmente do míssil atingindo o alvo.

Aparentemente o Kinzhal é baseado no Iskander, na internet tem um video do Iskander sendo disparado e atingindo o alvo a 200 Km de distancia..

Todo o material bélico russo já conhecido, principalmente misseis anti-navio, esta fartamente demonstrado na internet com textos e vídeos, posso citar o P-270 Moskit, o P-700 granit, o P-800 Oniks,,KH-35 etc.

Minha opinião é de que os russos tenha blefado um pouco em relação a estas novas armas, espero estar enganado, mas aparentemente os americanos não se intimidaram.

Os EUA estão testando os limites dos russos, pois sabem que eles não querem uma guerra nuclear e que também não podem sustentar uma guerra convencional.

Os misseis que eu citei, em termos qualitativos, são mais que suficientes para causar devastação na marinha americana, o problema é a quantidade que os russos tem, no filme “ A Soma de Todos os Medos” tem uma cena onde os russos atacam e destroem um porta aviões americanos utilizando estes misseis, disparados a partir dos TU-22M, segundo eu li o filme reproduz com fidelidade como seria na vida real, pois o TU-22M foi projetado para este fim, observem que as defesas do porta aviões conseguem abater vários misseis, mais dois ou três que passam são suficientes para destruir o navio.

Esta é a questão, os porta aviões não são indefesos, o ataque tem de ser de saturação, vários misseis disparados contra o alvo, estes misseis que eu citei podem ser disparados de até 500 Km, que é o raio de ação da defesa dos porta aviões, então a tecnologia atual deixa os russos no limite, são vários porta aviões, os russos poderiam infringir sérios danos a frota dos EUA, mas não o suficiente.

Um cheque mate convencional, não nuclear, pória um fim a loucura do império, se existir realmente uma tecnologia disruptiva em posse dos russos capaz de virar o jogo, seria ótimo, ai seriam os EUA que se veriam num dilema.

Blogs de tecnologia militar citam vários desafios para esta tecnologia proposta pelos russos, o missil enfrenta um problema, o super aquecimento do ar em volta gera um plasma que pode até ser útil para enganar radares inimigos, mas também impede que o míssil se comunique com o exterior, que identifique seu alvo.

Gosto muito dos textos do Saker, mas acho que ele também tem este excesso de otimismo em relação ao que os russos podem fazer, ele disse que os russos estão sozinhos, podem contar parcialmente com o Irã, nada de China, que eu acho de pouquíssima confiança, apesar dos textos bacanas de outro otimista, o Pepe Escobar, mas espero sinceramente que o Petro Yuan comece o fim do Dolar.
A quanto tempo se fala em colapso econômico dos EUA, Paul Craig Roberts foi questionado sobre isso e disse que no entender dele o colapso já deveria ter acontecido, mas a manipulação é tão intensa que o colapso esta acontecendo em câmara lenta, tem um artigo muito bom no Nassif, escrito por Ruben Bauer Naveira:

https://jornalggn.com.br/noticia/as-novas-armas-da-russia-5-implicacoes-para-o-brasil

Cita exatamente que a Russia esta esperando pelo colapso econômico dos EUA, contendo suas respostas, mas esta demorando este colapso.

Para concluir, Paul Craig Roberts disse que a liderança dos EUA convenceu os russos de que eles vão sofrer um ataque nuclear por parte dos EUA, algo extremamente temerário.

Penso que os russos estão realmente temendo este ataque e blefaram um pouco na apresentação das novas armas, pois os EUA não parecem intimidados e, lembrando que as versões inicias, lá dos anos 70 dos misseis anti navio que eu citei, foram originalmente projetadas para levar ogivas nucleares, numa época em que a guiagem era muito mais rudimentar do que hoje, então, a configuração era de um míssil nuclear tatico, com poder apenas de destruir uma frota de navios, mas ainda assim uma arma nuclear, e se a Russia se vir tentada a usar este esquema?

Willian S. Bernardes disse...

Valeu por compartilhar Rodolfo.

André Marques disse...

Rodolfo, compartilho de sua opinião e também tenho os mesmos receios que os seus. Gosto dos escritos do Pepe Escobar, Saker, Dmitry Orlov, Andrei Martyanov, Thierry Meyssan e Elijah Magnier, todos eles com pontos de vistas não só favoráveis aos russos como defendem que a força militar russa é superior a dos americanos. Mas não são unanimidades. Há um artigo interessante publicado no ótimo site do UNZ, intitulado "The Road to World War III" (O Caminho para a III Guerra Mundial), de autoria do estudioso russo Anatoly Karlin, em que aborda as opções e as dificuldades que a Rússia seria exposta caso fosse deflagrada uma guerra contra os EUA e a OTAN. Os resultados não são tão animadores.

Penso que o tempo está a favor da Rússia, seja porque a cada ano o Império vai se enfraquecendo e a atual Ordem Mundial está sendo colocada em causa, seja porque os russos estão se fortalecendo em seus aspectos políticos, econômicos, militares, sociais e geoestratégicos, mas a Rússia ainda é o jogador mais fraco e a sua força para fazer emergir uma Nova Ordem Mundial pautada no direito e na soberania dos Estados ainda é questionável.

Rodolfo Machado disse...

Obrigado, Willian, e uma sugestão, acompanhe os blogs de tecnologia e defesa, mas com a ressalva de que por lá o clima nos comentários é péssimo, com muita hostilidade entre os comentaristas pró Russia vs comentaristas pró ocidente, por isso mesmo eu só leio e não comento, mas tem comentaristas que acrescentam muito aos textos.

André,compartilho da sua impressão, também acredito que o tempo esta a favor da Russia( e de todos nós que almejamos um mundo melhor).
Muito bom o texto do Anatoly Karlin, li inteiro, simulações tenebrosas, mas elucidativas.
Espero que o colapso econômico derrube os EUA e sua liderança insana antes disso.
Um abraço.