sexta-feira, 13 de abril de 2018

Síria, abril, 2018 - As superpotências caminham à beira do abismo, por Elijah J Magnier

10/4/2018, Elijah J Magnier Blog, Damasco, Síria


Traduzido pelo Coletivo Viva Vudu




Pela primeira vez desde que assumiu o governo, o presidente dos EUA Donald Trump lançou ameaça clara em direção ao presidente russo Vladimir Putin. Disse que ele "pagará caro"A ameaça tem a ver com a 'notícia' de que o exército sírio teria lançado um ataque químico contra a cidade de Duma, a leste de Ghouta, última fortaleza dos 'agentes locais' da Arábia Saudita, próxima de Damasco.

Trump talvez esteja pensando em bombardear as posições do Exército Árabe Sírio distribuídas por toda a geografia da Síria ou, quem sabe até o palácio presidencial Al-Muhajereen em Damasco – claro, sem necessariamente dizer quando e onde atacará.

Por outro lado, a Rússia diz que não aceitará imóvel e responderá a qualquer ameaça contra seus próprios soldados. De fato, há oficiais russos em todas as unidades sírias em campo e nos quartéis de comando e controle no Levante, coordenando e participando de ataques contra terroristas desde setembro de 2015. Assim sendo, é quase certo que qualquer ataque ao Exército Sírio resultará em baixas de combatentes russos.

Ato de guerra desse tipo pode, sim, gerar resposta do presidente Putin, que com certeza não quererá parecer fraco diante dos políticos russos, militares russos e do próprio povo russo. A Rússia acaba de voltar à arena internacional, não só como potência nuclear, mas também como país que quer construir novo equilíbrio mundial e pôr fim à dominação unilateral que Washington exerce desde o fim da perestroika em 1991.

Mas como os EUA podem beneficiar-se de alguma ação militar na Síria?

A mídia dominante, os think-tanks generosamente financiados nutridos por Arábia Saudita, Qatar e Bahrein, a equipe de Trump e a comunidade de inteligência – todos a exigir que o presidente dos EUA vá à guerra na Síria para derrubar o presidente Bashar al-Assad e substituí-lo por "combatentes da liberdade" velhos conhecidos do próprio Donald Trump que os criticou diretamente.

Tudo isso construído sobre um vídeo produzido por ativistas próximos dos jihadistas, que dizem que civis teriam sido mortos em ataque de armas químicas contra a cidade de Duma, vídeo que viralizou nas mídias sociais.

O mundo escolhe crer na mídia dominante que noticia o conteúdo daquele vídeo como se o tivesse examinado e verificado a ponto de poder comprovar a veracidade dele, sem sequer consultar qualquer fonte ou fazer qualquer tipo de investigação, sem que nenhuma autoridade internacional especializada tivesse sido consultada. 

As mentiras do jornalismo-empresa durante a guerra na Síria são numerosas demais para listar, amplificadas por jornalistas profissionais não da informação, mas da agenda da guerra para mudar regimes, divulgadores de mentiras, não de eventos decentemente investigados.

Era perfeitamente possível para o mundo enviar uma equipe de especialistas internacionais para investigar o 'caso', porque era assunto que os jihadistas de "Jaish al-Islam" há muito tempo comentavam com os russos (os quais estão coordenando a saída desses militantes para o norte da Síria). Mesmo assim a opção foi como se nem existisse e não foi acionada até hoje. A sede dos EUA por fazer guerras e mais guerras e ver correr cada vez mais sangue pode não ser saciada, se a versão dos jihadistas fosse investigada e se comprovasse que a cena foi forjada.

O mais plausível para compreender os eventos é analisá-los sob o ponto de vista segundo o qual os EUA não estão à caça da cabeça de Assad, mas, sim, das mãos de Putin, para paralisá-lo e tirá-lo do posto onde já está praticamente instalado, de novo hegemon de todo o Levante.

Mas sobretudo o que os EUA mais gostariam de ver terminar é a Rússia oferecendo aos países do Oriente Médio a possibilidade de rejeitarem a supremacia norte-americana (e também a outros, para também rejeitá-la, nos mais distantes continentes).

O outro item que os EUA têm dificuldade para digerir é a evidência de que a dupla Assad e Putin venceram a guerra, com o auxílio importante do Irã; combinada à evidência de que os EUA fracassaram na operação para mudar aquele regime e sequer conseguiram proteger seus aliados curdos em Afrin. Tampouco conseguiram impedir que sua parceira de OTAN, a Turquia, firmasse alianças com Rússia e Irã.

Também a carta jihadista (al-Qaeda e o ISIS, 'Estado Islâmico' que não é nem Estado, nem Islâmico) fracassou, sem conseguir o objetivo de substituir o governo secular de Assad por governo de alguma gangue sanguinária de islamistas radicais. Esses takfiris só pensavam em eliminar todas as minorias (cristãos, xiitas, alauítas e outras) e cobrir o Oriente Médio com bandeiras negras. 

Os EUA conseguiram na Líbia, mas não conseguiram repetir em todo o Oriente Médio – criar uma arena sectária na qual vários estados fracassados se destroçariam uns os outros. Não conseguiram reproduzir o mesmo modelo no Levante. E, isso, graças à estratégia que Rússia e Irã construíram e seguiram.

Evidentemente que, vencedor da guerra, Assad não tem motivo algum para usar armas químicas e jogar todo o planeta contra seu governo, no exato momento em que celebra sua vitória arrasadora em Ghouta. A cidade de Duma estava cercada, mas, mais significativo que isso, milhares de jihadistas já deixaram a cidade.

As negociações fracassaram semana passada, exclusivamente porque os jihadistas em Duma tinham interesse em ganhar tempo, porque receberam instruções para se autodefenderem até que o mundo acorresse para salvá-los. Inventaram incontáveis desculpas. Por exemplo, 'exigiram' que:


· 1.000 jihadistas permanecessem na cidade e assumissem as funções de polícia local; 


· os $900 milhões que acumularam em anos de cobrança de taxas e 'contribuições' fossem levados para fora de Ghouta, pelos que saíam para o norte da Síria; e que

· todos os serviços sírios de inteligência fossem proibidos de permanecer em Duma.

O governo sírio e os russos rejeitaram todas essas 'exigências', e afinal compreenderam que os jihadistas estavam à espera de alguma coisa, apenas desejada ou, mais provavelmente, em preparação: um ataque químico. Por isso Rússia e Damasco ordenaram que os militares voltassem a pressionar. Hoje, mais de 165 mil jihadistas e civis deixaram Ghouta leste; os restantes 20 ou 30 mil devem sair nos próximos dias.

Assim, Damasco estará completamente limpa, sem coturnos em solo – como disse o general de quatro estrelas Joseph Votel dos EUA – para mudar as coisas em solo na Síria ou derrotar/mudar o regime Assad. Nessas condições, já não há em território sírio quem possa ocupar os espaços e tirar vantagem de qualquer possível ataque dos EUA na Síria nos próximos dias.

Além do mais, uma possível guerra dos EUA no Oriente Médio custaria centenas de bilhões de dólares a Trump, logo quando está tendo de escavar o fundo dos bolsos de sauditas e dos Emirados, à caça de qualquer última moeda esquecida por lá, seja sob o pretexto que for.

Mas nem é questão de quanto custaria, nem é questão de "valores ocidentais" ou "princípios", porque a Arábia Saudita, com apoio de EUA, França e Reino Unido, só faz matar dezenas de milhares de iemenitas, já há três anos, sem nem piscar, e com o apoio indiferente do 'ocidente' inteiro.

Tampouco tem algo a ver com "ataque químico", porque a Rússia, semanas antes dos 'fatos', já alertara o mundo que os jihadistas estavam em Duma, preparando o cenário e a ação fake. No que tenha a ver com ceifar vidas, os EUA são responsáveis por centenas de milhares de mortes, resultado do embargo contra o Iraque (e, na verdade, de muitas outras "aventuras" dos EUA). Evidentemente não se deixariam comover agora com mais algumas dezenas de milhares de mortos que os EUA menosprezam, há eras, como "dano colateral".

Que efeito podem causar centenas de Tomahawks contra um palácio presidencial vazio? Que diferença farão em solo? Bombardear aeroportos e bases militares do Exército Sírio por acaso derrotará Assad? Não. Só aumentará o número de cadáveres. 

Na Síria já morreram quase 400 mil homens, mulheres e crianças. Se o número subir para 401 mil, 405 mil ou 410 mil... Mas para conseguir o quê?! Aqui só há uma resposta: para esbofetear Putin, fazê-lo parecer fraco, presidente incapaz de defender amigos e aliados.

O objetivo pois é gerar algum equilíbrio em campo, causando embaraço à Rússia. EUA não têm amigos, só "interesses em comum". A 'Rússia 'emergente' faz alianças, mas sente-se impotente para reagir, quando os EUA tomam a decisão de atacar país aliado de Moscou.

Sim, todas essas possibilidades existem. Mas há também outras, e muito mais perigosas:


· E se a Síria decide reagir e afoga Israel numa chuva de mísseis? Damasco já tem motivo para retaliar contra Israel, que violou o espaço aéreo sírio essa semana e bombardeou a base militar em T4 na área rural de Homs, matando oito oficiais sírios e sete iranianos (o Irã, a pedido do governo sírio, apoia o Exército Sírio no combate aos jihadistas).


· E se os EUA destroem a força aérea síria? Nada muda, porque a Rússia controla os céus sírios e comanda o show contra os Jihadistas. Seria uma oportunidade para a Força Aérea Síria modernizar o próprio equipamento.


· E se a Rússia decide reagir e ataca todos os agentes que estejam mobilizados no ataque à Síria? E se a Rússia faz o que ameaça fazer e realmente se posiciona contra os EUA? O povo dos EUA está interessado em morrer por um país que raros norte-americanos conseguem encontrar no mapa mundi? Os norte-americanos estão preparados para receber os próprios filhos em sacos plásticos, só porque aumentou a influência de Moscou no Levante, o que muito incomoda Washington?




Trump está jogando jogo perigosíssimo, com a cabeça enfiada na areia, sem considerar todas as consequências possíveis. As duas superpotências caminham à beira do abismo. EUA e Rússia despencarão abismo adentro, ou Trump se porá ereto e se retirará do jogo, rabinho entre as pernas, aceitando que perdeu essa e que terá de encontrar outra arena menos perigosa que o Levante, onde enfrentar a Rússia? Ou Trump está tentando montar coalizão mais ampla, para garantir que a Rússia não possa reagir contra tantas nações, e assim se evitará guerra maior? Nos próximos dias, o mundo conhecerá a resposta.*****


5 comentários:

José Artur Grossi disse...

Tá pesado...

Anônimo disse...

que venha a guerra total.

Anônimo disse...

Pombas! Tudo pra tirar a aliadinha May do tiroteio de outra denúncia mentirosa! Inventam uma segunda mentira maior pra apagar as pistas de outra menor... E nós panelando essa merd...!

Tem que bater bumbo pra apurarem tudo! Ou logo mais estaremos debatendo bomba química em Manhatan, no Soho, na place pigalle. Os pilantras palacianos, vendo a nossa boba disposição pra migrar de boato em boato, virarão o mundo de perna pro ar com mentiras! Temos que lembrar sempre o nome de Dona MentiraMay, Dom Pato Trump e quem mais nos venha tentar ensaboar as ideias.

Raimundo Boaventura disse...

Putin deve dar um ultimatum: ou cessam os ataques ou iremos revidar com força! Os EUA e seus vassalos ao redor do mundo só conhecem o poder das armas. Se a Rússia demonstrar fraqueza será engolida pelos " senhores do universo "

Choldraboldra disse...

Donald Trump, Theresa May e Emmanuel Macron são criminosos de guerra. (http://choldraboldra.blogspot.com.br/2018/04/trump-nao-e-o-primeiro-presidente.html)