quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Na estrada pela Karakoram, por Pepe Escobar

22/12/2018, Pepe Escobar, Asia Times


Ler também:
·         “O novo Grande Jogo no topo do mundo”,
20/12/2018, Pepe Escobar, 
Asia Times e (trad.) no Blog do Alok


Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga


O Passo Khunjerab, ponto de partida do Corredor Econômico China-Paquistão. Foto: Asia Times

O desfiladeiro Khunjerab nevado lá está magicamente silencioso aos 4.934 metros, numa manhã gelada de fim do outono.


Do lado paquistanês, uma casa de madeira serve como pequeno escritório de alfândega, sob uma placa em que se lê “a mais alta caixa de atendimento automático do mundo” – mas nada é garantido, se você só tiver cartão de crédito de outro país. O lado chinês exibe uma estrutura blindada à moda James Bond, sem humanos à vista.


Aqui é o marco zero do Corredor Econômico China-Paquistão (CECP), de onde parte a rodovia Karakoram restaurada – “oitava maravilha do mundo” –, para serpentear de Xinjiang na China até as Áreas do Norte do Paquistão, e ainda mais para o sul, até Islamabad e Gwadar, no Mar da Arábia.

Daqui, são 420 quilômetros até Kashgar, e duros 1.890 quilômetros até Urumqi, capital de Xinjiang. Mas é rumo sul, que a festa realmente começa.

O Caixa Automático mais alto do mundo. Foto: Asia Times

Khunjerab ida e volta é fantástica viagem por terra, ao longo do corredor CECP e subvias. E é carrossel alucinante.

Caminhões paquistaneses psicodélicos, contêineres chineses, guerreiros de estrada – alguns tentando domar o Khunjerab sem correntes nos pneus – minivans superlotadas seguindo a rota Hunza-Xinjiang, motéis da Rota da Seda, o cheiro de curry misturado ao melhor suco de damasco do mundo, açougueiros de beira de estrada, barracos que se autoapresentam como “Rota da Seda, Sociedade de Investimento e Crédito Ltda.”, vários Pak China Gateway Hotel, postos de controle que se resumem a uma mesa ao lado da estrada e uma pilha de papéis presos com pedras para não voarem, pilhas de yuan cruzadas com rúpias e dólares e um confuso “câmbio pessoa a pessoa” em vários níveis.

Um caminhão de contêineres chineses rompe sobre a neve sem correntes nos pneus. Foto: Asia Times

É das mais fantásticas viagens por terra do planeta. E em termos geopolíticos, talvez seja a principal.


Pense nos iaques 



A Karakoram Norte começa no Parque Nacional Khunjerab, super protegido do ponto de vista ambiental, onde iaques andam livremente pela estrada; e veem-se por ali, sem dificuldade, cabras de montanha (íbex) e marmotas. Nada de carneiros de Marco Polo [argali], menos ainda leopardos da neve. (Mas ismailitas[1] locais insistem que umas poucas dúzias desses animais vivem no parque.)


Iaques e ovelhas vagam pela estrada. Foto: Asia Times


A primeira parada séria na Karakoram é Sost, onde antigamente ficava a fronteira paquistanesa – como quando viajei pela estrada, há 20 anos, de Jeep, a partir de Kashgar. Agora, o animado entreposto comercial é quartel-general do Porto Seco Sost da Rota da Seda. Caminhões-contêineres chineses descarregam, e caminhões paquistaneses assumem a tarefa de transportar a mercadoria por todo o território do Paquistão. Parece moderno e bem organizado. Tudo roda sem tropeços.


Entrada para o porto seco em Sost. Foto: Asia Times


Serpenteando para o sul, passamos sob o Glaciar Passu, que vai impressionantemente desaparecendo. Numa vila próxima acontece um funeral, as pessoas andam pela estrada com iaques e búfalos, interrompendo o tráfego o quanto queiram.


A geleira Passu recuando pelo Karakoram. Foto: Asia Times


Viajar pela Karakoram, de Gilgit, capital das Áreas do Norte, até a Karakoram modernizada, é uma apoteose de Túneis da Amizade Paq-China – todos exibindo a placa comemorativa obrigatória que promove uma amizade geopolítica que se ergue “mais alta que a mais alta das montanhas”.


Um dos muitos túneis Pak-China. Foto: Asia Times


Eis o corredor CECP em plena operação. É impressionante, se comparado ao passado recente. Entre os rios Hunza e Gilgit, paralelo ao asfalto digno de autobahn, corre um cabo de fibra ótica diretamente até as Áreas do Norte.



A engenharia chinesa fez milagres. Cerca de 160 km ao sul do Khunjerab contorna-se o Lago Attabad, que surgiu quando um deslizamento de terra, em janeiro de 2010, fechou completamente a estrada. Durante cinco anos todo o comércio China-Paquistão por terra ficou completamente interrompido, com apenas uns poucos voos entre Kashgar-Gilgit. A solução, implantada pela Empresa Chinesa de Estradas e Pontes, foi escavar um túnel – obra completada em 2015.


Attabad Lake, agora alcançado via túnel. Foto: Asia Times

O comércio ao longo da Karakoram certamente será retomado – depois de anos com menos de 10% do comércio total China-Pak, que tende a fluir especialmente das províncias chinesas de Guangdong e Zhejiang, não de Xinjiang. Alguns trechos da estrada continuam sujeitos a deslizamentos de terra, de rochas ou a inundações, o que obriga a manter várias equipes de resgate e manutenção em permanente prontidão, 24 horas/dia, sete dias por semana. São paquistaneses, e os veículos especiais da polícia das Áreas do Norte foram fornecidos pela China.


O coração dos projetos de infraestrutura das Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) são rodovias e linhas ferroviárias. Não custam fortunas por serem rodovias e ferrovias; o custo vai à estratosfera por causa das pontes e túneis indispensáveis. A Rússia gastou mais de $4 bilhões em sua ponte sobre o Estreito de Kerch até a Crimeia. A Nova Rota da Seda custará exponencialmente mais. E túneis podem ser ainda muito mais caros que pontes.



Onde se erguem os Himalaias* 



Da rodovia Karakoram é possível às vezes ver partes da formidável Nanga Parbat – “Montanha Nua” em idioma da Caxemira – mais tarde apelidada “Montanha Assassina”. Jamais foi escalada no inverno, e é de fato uma série de cumes aos quais se liga a parte ocidental da cordilheira do Himalaia, culminando num pico nevado, 8.126 metros acima do nível do mar. É o nono pico mais alto do mundo e o segundo no Paquistão, depois da K2.


Indo para o poderoso Nanga Parbat (à direita). Foto: Asia Times

Quando se chega a Gilgit, as placas dizem – em inglês, mandarim e russo –468 km até Abbottabad (onde Osama bin Laden foi morto) e 583 km até Islamabad. Para o sul, em terreno menos montanhoso, sou informado de que deslizamentos de rochas provocam ocasionais inundações.


Ao sul de Gilgit, os chineses mais uma vez estão em ritmo frenético de construção, dessa vez a estrada que começa na rodovia Karakoram e vai até a estratégica Mecca Skardu. A estrada, segundo os ismailitas locais, deve estar concluída antes de 2020.


Onde o Karakoram, o Hindu Kush e o Himalaia se encontram. Foto: Asia Times

E então, numa curva da rodovia modernizada, a interseção de Karakoram, Hindu Kush e a cordilheira do Himalaia – beirando a confluência dos rios Gilgit e Indus, agora fluindo para o sul, rumo ao Mar da Arábia – surgem diante de nós. Quase 85% da massa de água do Indus é despejada aqui entre maio e setembro, neve e glaciares degelados que impulsionam as monções. Abdul, pintor da Karakoram, aplica os toques finais de tinta num marco da estrada, com mirante imaculadamente branco.

Abdul: Painter of the Karakoram Highway. Photo: Asia Times


O abraço China-Paq 



A construção da Karakoram original – tour de force de engenharia – exigiu nada menos que 27 anos e custou a vida de mais de mil trabalhadores chineses e paquistaneses.



A Rodovia Karakoram é muito mais que uma estrada: é emblema em movimento, físico, do abraço geopolítico China-Paquistão, superando todas as modalidades de barreiras econômicas, culturais, geológicas e de segurança ao longo de décadas, para alcançar um objetivo geopolítico. E o objetivo estratégico hoje é o corredor CECP, como nave-mãe do projeto Iniciativa Cinturão e Estrada.



Na recente cerimônia de abertura da Feira Internacional Chinesa Import-Export em Xangai, onde foi convidado de honra, o primeiro-ministro do Paquistão Imran Khan descreveu o corredor CECP, incluindo a rodovia Karakoram como “elo vital” para China e Paquistão, com o Oriente Médio e a Ásia Central. “O corredor CECP é mecanismo para conectar China, Oriente Médio e Ásia Central que também abre caminhos para novos investimentos e pavimenta a via para novos mercados” – disse ele.



Khan também garantiu aos anfitriões – e à opinião pública doméstica – que seu novo governo está engajado em reformas profundas e significativas para assegurar a transparência e os mecanismos indispensáveis para a cobrança e a prestação de contas [ing. transparency and accountability]; fantasmas virtuais, com os quais vivem às voltas os negócios paquistaneses.



“O Paquistão têm os mais variados recursos minerais e renováveis, e as paisagens mais variadas” – disse Khan, acrescentando que seu país é um dos principais exportadores de itens esportivos, instrumentos médicos e produtos de tecnologias da informação, e recursos humanos da ordem de 100 milhões com menos de 35 anos. Assim sendo, o potencial é imenso.



Islamabad está empenhada em completar o corredor CECP até 2030, com projeções de mais de 3% de crescimento anual no PIB, agora que o resultado industrial deve aumentar com maior oferta de eletricidade que resulta dos investimentos no corredor CECP e maior produção das Zonas Econômicas Especiais criadas a partir do modelo das ZEE chinesas.



O grande plano 



O Plano de Longo Prazo do corredor CECP (2017-2030), distribuído há um ano, define quatro prioridades no Paquistão: porto Gwadar; projetos de energia; infraestrutura de transportes (como a modernização da rodovia Karakoram); e cooperação industrial. O governo de Imran Khan, (ver Parte 1 dessa matéria) visa a que o Paquistão se posicione, via o corredor CECP, como o entroncamento chave que una o Cinturão Econômico da Rota da Seda e a Rota da Seda Marítima.



Isso implica uma aliança China-Paquistão trans-regional ainda mais forte geopoliticamente e economicamente, em contraposição à Índia e a Washington. A reação dos EUA à Iniciativa Cinturão e Estrada em 2018 foi disparar uma campanha de diz-que-disses para tentar desacreditá-la. Pequim, por sua vez, espera que Índia e Paquistão pelo menos discutam suas diferenças políticas dentro da Organização de Cooperação de Xangai.



De agora em diante, o extremo ocidente e sul da China – Xinjiang e Yunnan – têm de se tornar principais alavancas da economia chinesa. Modernizar a infraestrutura rodoviária, ferroviária e de energia e unir firmemente as duas províncias ao sul e ao sudeste da Ásia é essencial para que a China continue crescendo –, tudo isso empurrado pela conectividade crucial de energia via um gasoduto que parte do Turcomenistão; um oleoduto, do Mar Cáspio no Cazaquistão; mais embarques massivos de gás saídos da Sibéria; e, adiante, pela estrada, um possível gasoduto, do porto de Gwadar a Xinjiang, paralelo à rodovia Karakoram.



Funcionará? A Karakoram, o Hindu Kush e a cordilheira do Himalaia já viram vir e sumir tudo isso, ao longo de vários milênios. Assim sendo, por que não? A modernização da maior rota de viagem geológica e geopolítica do planeta é um começo.*******


Ponto de verificação da rodovia Karakoram. Foto: Asia Times.

[1] Seguidores de Ismail, daí necessariamente “ismailismo” (não confundir com “ismaelismo”, embora em português do Brasil apareçam “ismailismo” e “ismaelismo” como equivalentes. Não são [NTs. com informações da Pastoral da Cultura].
* Orig. Where the Himalayas rise: Expressão frequente em palavras cruzadas [NTs].

Um comentário:

Mike disse...

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