quarta-feira, 13 de março de 2019

Estratégia e táticas dos Coletes Amarelos


Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga




Movimento popular espontâneo

O Movimento militante dos Coletes Amarelos emergiu espontaneamente da base proletária – dos "de baixo" –, e rejeita a esquerda (centro) e a direita burguesa. O Movimento rejeita os fantoches de todos os lados que partilham o poder político já há um século, alternando a colaboração de classes sob ordens dos patrões do poder econômico, político e 'midiático', que são os reais patrões de todos; e rejeita também os "Indignados" – "Ocupa Wall Street" e outras manias de pequenos burgueses ofendidos pela nenhuma atenção que o grande capital e seus lacaios lhes dão.

Aí está a novidade dos Coletes Amarelos, e indica fortemente a extensão do avanço da consciência de classe proletária, que está já atropelando as 'vanguardas' de esquerda e de direita (sejam fascistas ou populistas). 

Esta consciência de classe imanente é o resultado da experiência acumulada dos trabalhadores de todo o mundo desde os primeiros dias do movimento operário, em torno da 1ª, 2ª, 3ª e 4ª Internacionais; nas duas grandes guerras; em maio-68 e durante as revoltas populares árabes mais recentes. A mesma experiência de luta que, à época, foi sempre "enquadrada" pelas organizações de esquerda e/ou direita tradicional fake-representativas da classe e, cada vez mais, tinham a função de arranjar rota de fuga – ou pelos jardins, ou pelo chão de fábrica – para os lacaios do sistema de negociação, que negociavam em nome dos patrões.

O subconsciente da classe proletária está tão imbuído dessas memórias amargas, que o consenso hoje firmado entre os proletários do Movimento Coletes Amarelos os faz recusar qualquer organização, qualquer representação, qualquer delegação de poder – consenso que o regime condena veementemente e que a pequena burguesia infiltrada no Movimento tenta minar. 

Esperemos que a classe proletária continue a defender o que as 'vanguardas' ainda não entenderam.

O chamado das pequenas cidades e dos políticos profissionais para transformar o Movimento em organização política, ou para demitir a Assembleia Nacional, ou para convocar uma Assembleia Constituinte, para iniciar o Referendo da Iniciativa Cidadã (fr. RIC), ou para participar da farsa eleitoral burguesa, travestida para servir ao gosto das pequenas cidades mais tradicionais, que anseiam sempre por mais e mais cretinismo parlamentar, não encontrou eco entre militantes proletários comprometidos... 

Essas propostas democrático-demagógicas só atraíram a esquerda de boteco-chique [fr. bobosbourgeois-bohème] e respectiva corte, que gostariam de recuperar o controle do Movimento para monetizar todas as reivindicações e 'concessões'. 

Que forma virá eventualmente a tomar a organização dos irados Coletes Amarelos, ainda não se sabe. Mas sabe-se que as bases têm absolutamente de garantir que seus porta-vozes mantenham as bases no poder, em todas as ações; e que esses porta-vozes jamais aceitem que se inventem porta-vozes de porta-vozes, porque porta-voz é porta-voz, não é representante.

O único objetivo estratégico do Movimento

O Movimento nasceu em torno de um objetivo estratégico, que era consenso, de se apresentar como expressão militante, mesmo que parecesse confuso no início, ou expresso sob diferentes formas, conforme cada militante – o que demonstra que o Movimento não era controlado pelas velhas organizações de esquerda ou direita sectária, porque esses só cuidam de silenciar toda discordância e de pôr todos sob a bota do guru do dia. É saudável que muitos ativistas formulem discordâncias e recriminações e assim participem do desenvolvimento da defesa comum. Hoje se vê que, apesar do aspecto cacofônico do início, o Movimento vai-se unificando na luta concreta. 

As múltiplas demandas "reformistas" têm sido gradualmente varridas para debaixo do tapete, e já deixam ver um objetivo estratégico claramente formulado.

O objetivo estratégico dos Coletes Amarelos é defender o poder de compra dos empregados estrangulados pelo anêmico sistema de lucro. Em outras palavras, seu objetivo estratégico é manter, se não aumentar, o valor e o preço de sua força de trabalho. 

Essa, desde o início, é reivindicação de classe, reivindicação proletária e de resistência – ainda que os proletários que animam o Movimento não saibam expressá-la nestes termos, o que pouco importa, exceto para os dogmáticos de esquerda. 

Este objetivo estratégico é essencialmente revolucionário, já que a crise econômica sistêmica do capitalismo torna impossível alcançá-lo pela via conservadora. Cada euro de aumento do salário terá de ser tomado, a fundo perdido, dos lucros do capital que estertora. Nesses tempos de grave crise econômica, quando o sistema capitalista está prestes a implodir, qualquer reivindicação salarial é potencialmente insurrecional, porque o capital está sem espaço para manobrar – o que Macron, banqueta para descansar os pés dos banqueiros, já confirmou pela televisão francesa, onde se expôs absolutamente sem ter o que oferecer além de promessas ocas e enganosas. 

Se o proletariado francês sente que o momento é propício, quantas mais falsas promessas os proletários ouçam, mais endurecerão suas posições, para manter suas legítimas reivindicações, porque já terão entendido que da luta de hoje depende a própria sobrevivência física e como classe social, dos que saíram às ruas. Os trabalhadores militantes dizem claramente: "Já não se consegue viver com esses salários de miséria. Mal sobrevivemos".

Agitação pequeno-burguesa na periferia do Movimento

Obviamente, muitas organizações, pequenos grupos, seitas e associações de pequenos burgueses zangados por se verem empobrecidos, proletarizados – e não há pior infâmia para as ambiciosas pequenas cidades, que já viveram no topo da sociedade francesa, que se verem proletarizadas) – movimentam-se na periferia do Movimento e tentam assumir a liderança para colocar todo o Movimento a serviço delas e deles, para fins reformistas. 

Acontece sempre: os mesmos canalhas que há um século controlaram as organizações operárias (sindicatos, partidos, mútuos, cooperativas, associações, ONGs, etc.) sempre causaram danos grave à classe trabalhadora. E voltam agora que os trabalhadores lutam para se reorganizar nas ruas, longe do mundo que não controlam, longe da hegemonia murcha dos burgueses de boteco chique, sempre correias de transmissão do grande capital. 

Mas não nos deixemos confundir e desnortear com esta agitação periférica e concentremos nossa atenção no essencial, nos interesses fundamentais da classe proletária e como defendê-los, até a insurreição popular que será o próximo objetivo estratégico do Movimento, ou até que o Movimento desmorone.

Pseudo "classe média" – a classe social que não existe

Vale esclarecer e enfatizar aqui que esses cães de guarda do capital não são a pseudo "classe média", invenção da escola norte-americana de sociologia – sempre arrastada a reboque pelos intelectuais ocidentais – e que só visa a mascarar – enfraquecer – a luta de classes entre trabalhadores (proletários), pequenos burgueses (burgueses) e capitalistas. 

A classe social não se define pela renda das pessoas, mas pela função que tenha no processo de produção. A atual crise existencial da pequena burguesia, que a mantém paralisada, como que atolada, advém de a pequena burguesia ter sido excluída do processo de produção (como os trabalhadores, sim) e, assim, viver incerta quanto ao seu futuro como classe. Também, vale dizer, como os trabalhadores (1). Este processo econômico atualmente em curso no mundo ocidental empurra trabalhadores e pequenos burgueses para as barricadas dos militantes. Para nós, proletários revolucionários, a questão é preservar a autonomia política de nossa classe em movimento, para que ela não volte a tombar, sem querer, nas trincheiras dos reformistas de direita ou de esquerda. Acreditamos que só aprofundando as análises e aperfeiçoando as táticas de luta, conseguiremos construir a hegemonia do proletariado sobre o Movimento.

Uma variedade de táticas de luta

Objetivo estratégico de tamanha importância prevê uma variedade de táticas de combate. Vejamos algumas das táticas de guerra de classes, que o Movimento Coletes Amarelos implementou instintivamente, pode-se dizer espontaneamente.

Primeira tática inédita: bloqueio de faixas de tráfego para bloquear a economia, ou seja, conter a circulação de capitais e, assim, atacar a rentabilidade dos capitais. Ao contrário dos eternos desfiles carnavalescos, quando os pobres imploram ao rico senhor do estado, que pelo menos olhe o próprio rebanho faminto, o bloqueio de faixas de tráfego é tática potencialmente insurrecional, pois ataca diretamente o capital nos lucros, na seiva que mantém vivo o capital. Nunca esqueçamos das procissões de servos russos que imploravam a caridade do Czar, o "Paizinho dos Povos", e que foram massacrados aos milhares. É o mito reformista-redentorista da vida dura que 'ensina e liberta', que ainda tem livre circulação na esquerda eleitoral dita marxista. À época, os bolcheviques conduziram a cerimônia do sacrifício, hoje são a CGT (Confederação Geral do Trabalho-Fr/CFDT (Confederação Francesa Democrática do Trabalho)/FO (Força Operária-Fr)/SUD (Solidaires Unitaires Démocratiques) que leva adiante a farsa atemporal das manifestações perenes dos covardes.

No verão passado, os trabalhadores ferroviários, em greve parcial, serviram-se da tática de bloquear o transporte de trabalhadores e mercadorias. Isso indica que a tática insurrecional de bloquear toda a economia começava a penetrar o subconsciente da classe proletária francesa, a mais militante do continente europeu.

As manifestações de resistência radical

Uma tática complementar foi rapidamente imposta para fortalecer e radicalizar as táticas de bloqueio da economia. 

As manifestações de resistência, muito militantes dos Coletes Amarelos, em Paris e na província, têm a utilidade de demonstrar a potência dos militantes, sua determinação e sobretudo de galvanizar as tropas proletárias nos bloqueios de estrada após cada "Ato" insurrecional espontâneo. Além disso e igualmente importante, estas rupturas podem refinar a experiência da guerrilha urbana proletária. 

Contudo, o bloqueio da economia – da circulação de mercadorias e, portanto, dos lucros – é a tática de luta decisiva na frente econômica da luta de classes e terá que ser reforçada. É aqui que a pequena burguesia infiltrada no Movimento comete seus piores erros

A pequeno-burguesa vacila diante da violência das manifestações e da violência potencial que sempre há em bloqueio completo de rotatórias em rodovias, em ferrovias e em portos. Se a esquerda eleitoral quer ter alguma serventia nesse conflito entre o capital, o Estado e o proletariado, deve ir reforçar as piquetes dos Coletes Amarelos. Bloquear o transporte de mercadorias e trabalhadores, assim como as refinarias de petróleo, sempre porá de joelhos o Estado terrorista burguês, e seus patrões do grande capital. A partir disso, a insurreição popular estará na agenda.

A greve geral, arma última do proletariado

Um de nossos leitores responde: "A greve geral é a arma última dos trabalhadores na frente econômica da luta de classes", o que é exatamente certo. A greve geral interrompe a circulação geral de capitais e estrangula a acumulação setorial de lucros. Mas hoje em dia, com a economia tão dependente do transporte de mercadorias e do movimento dos assalariados (capital variável), existem diferentes formas de iniciar uma greve geral. Bloqueando o transporte de bens (bens e serviços) e o movimento dos trabalhadores para os lugares de exploração da força de trabalho assalariado; fazendo o mesmo que greve de oficinas, fábricas e estaleiros. Se os trabalhadores ferroviários não estivessem paralisados por suas burocracias sindicais, poderiam reavivar seu movimento grevista – mas em continuidade e ilimitado desta vez. – Com os Coletes Amarelos, terminou a segurança das greves 'combinadas'.

Enquanto alguns Coletes Amarelos ecoam a ladainha de suas demandas reformistas, os ministros do governo Macron sabem que seu governo fantoche está catatônico. Quem não sabe como impor a ordem aos plebeus não merece governar o estado dos ricos – pensa o líder supremo do grande capital internacional.

A ministra Penicaud [do Trabalho], em discurso indescritível, só para jogar gasolina ao fogo: "Impulso no salário mínimo, não, não... Já se sabe que isso destrói empregos, Não é o método certo", diz ela contra, até o presidente Macron, em tese, chefe dela. Só falam os encarregados de manter um sistema que já está destruído. O sistema econômico capitalista é incompatível com a sobrevivência da classe proletária (trabalhadores, pequeno-burgueses, desempregados e abandonados pelos serviços públicos, todos misturados). 

Considerada essa 'lógica', a ministra até que raciocina: "Se você aumenta os salários e dá aos trabalhadores o suficiente para sobreviver, você destrói seus empregos e os empurra para a pobreza". Então, senhores da esquerda direita unida, eis a pergunta afinal posta com clareza: "O que queremos salvar? O sistema capitalista ou o proletariado morto de fome?"

Quando tudo tiver sido dito e tudo tiver sido consumido, os Coletes Amarelos, só eles, sem ajuda de alguma vanguarda da esquerda ou da direita "fascista ou populista" entenderão para defender o próprio compra (o preço de venda de sua força de trabalho em troca de comida!) os leva diretamente ao confronto antagônico com o capital. Se quiserem sobreviver individual e coletivamente. 

No auge desta confrontação insurrecional, abrir-se-ão duas vias para o proletariado – a do reformismo pequeno-burguês – e haverá algumas vantagens efêmeras como nos dias do CNR, que o capital desfará logo que possa; ou, alternativamente, a revolução proletária destruirá definitivamente este modo de produção moribundo e criará as condições para a construção de um novo modo de produção sem salários, sem dinheiro, sem lucro e sem proletariado.

A repressão e as invasões de estudantes do ensino médio em Mantes-la-Jolie

Esta ignomínia em Mantes-la-Jolie tem um nome, chama-se "batida policial e política", a etapa repressiva, quando o poder dos ricos vacila e a polícia do estado de direito burguês prende militantes que resistem a favor da insurreição popular (2). Resta apenas denunciar esta infâmia sem nome contra os adolescentes da revolta popular. Estamos nos aproximando do ponto de viragem, em que o poder burguês, enredado em suas contradições insolúveis, passará à repressão selvagem contra a insurgência. 

A esquerda, em vez de fazer o jogo cúmplice do poder político burguês – e focada só em grupos fascistas insignificantes – faria melhor se tratasse de compreender que o Estado fascista será implantado e mantido precisamente pelas Polícias e milícias paramilitares do Estado fascista dos ricos. Todos os esforços dos proletários revolucionários devem ser dirigidos à denúncia radical do Estado terrorista, até erradicá-lo. Tudo isso levou um camarada a declarar que chegou a hora de exigir a libertação dos presos políticos que trajavam Coletes Amarelos, depois de tantos ataques reacionários, detenções arbitrárias e prisões políticas. "Não haverá reunião ou discussão com o governo, enquanto os nossos camaradas estiverem detidos! Libertem os nossos camaradas" (3).

Os slogans dos pequenos burgueses

Como de costume, um movimento tão heterogêneo vê os pequenos burgueses – frustrados por não ganharem notoriedade – avançarem com seus peões e reivindicações. Agora só se ouve "Renúncia Macron", "Convocar os Estados Gerais", "Cidadão Republicano Constituinte", "Reconstruir a República Nacionalista Capitalista", "Avançar para o RIC" e uma centena de outros disparates reacionários. 

O proletariado sabe que se amanhã Sarkozy, Juppé, Hollande, Mélenchon ou outro fantoche dos ricos fosse chamado para negociar, nada mudaria na "negociação". O grande capital sempre quis esse estafeta coroinha do Banco Rothschild que empina o queixo como um Júpiter almofadinha. O proletariado não negocia com prepostos. Convocamos o patrão. 

Os que 'quebram-tudo' são nossos!

Não se deixem enganar pela polícia e pela propaganda política sobre os chamados "bandidos" que a mídia inventa e divulga, em troca de migalhas que lhe dá o grande capital. Os 'quebra-tudo' que a mídia apresenta como "bandidos" são Coletes Amarelos, ainda confusos, sem objetivos claros, que se deixam prender nas batidas policiais). 

Todos os Coletes Amarelos são o mesmo Colete Amarelo: é um proletário irado, já farto, que afinal se movimenta para resistir ao ataque repressivo que lhe faz o Estado terrorista. Pequenas cidades conservadoras e tradicionais, que têm medo da violência, devem ficar onde estão, em casa. Ninguém precisa delas nos confrontos e nos bloqueios de estrada. E que a esquerda de boteco chique, sempre assustados, parem de tentar fazer crer que o proletariado francês rejeitaria os Coletes Amarelos que resistem à ordem da burguesia e 'quebram tudo'. É mentira. Os proletários que saem às ruas mascarados e sem colete amarelo apoiam os proletários que vêm de colete amarelo e que também combatem contra o estado policial. A violência dos patrões é sempre a mesma, todos os dias, nos escritórios e nos canteiros de obra.*******

NOTES