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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Cessar-fogo na Síria: Putin em posição de surpreendente superioridade

23/9/2018, Patrick CockburnUnz Review, republicado de The Independent


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu



Cessar-fogo frequentemente consegue boa mídia. Se dá certo e põe fim à violência, ou dilui uma crise, a mídia rapidamente se entedia e muda de assunto. Mas se a luta continua, os que trabalharam a favor de algum cessar-fogo são condenados como hipócritas sem coração, que ou nunca quiseram pôr fim à matança, ou têm culpa por a matança continuar.

Os especialistas mantêm-se previsivelmente céticos sobre o acordo  a que chegaram o presidente Vladimir Putin da Rússia, e o presidente Recep Tayyip Erdogan em Sochi, na 2ª-feira [17/9/2018], para evitar uma iminente ofensiva pelas forças do presidente Bashar al-Assad dirigida contra rebeldes na província em Idlib. É o último enclave da oposição armada na Síria ocidental, oposição que, ao longo dos dois últimos anos, perdeu suas bases em Aleppo, Damasco e Daraa.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Decisão de Trump sobre Jerusalém pode unir todo o mundo árabe contra os EUA

9/12/2017, Patrick Cockburn, The Independent, Londres


13/10/2016: "UNESCO declara Israel 'potência ocupante' em Jerusalém", Washington Times*


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


Resistente palestino reage com pedras às granadas de gás disparadas pela polícia de Israel

O presidente Trump e o governo de Israel com certeza previram, mas subestimaram, o "dia de fúria" palestina, com protestos de muçulmanos em todos os cantos do mundo, na sequência do 'reconhecimento' de Jerusalém, pelos EUA, como "capital de Israel" e planos de transferir para lá a embaixada dos EUA. Com certeza entendem que a fúria logo se dissipará, porque aliados dos EUA, como os governantes da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Egito se darão por satisfeitos com breves protestos formais, e os palestinos são fracos demais para qualquer coisa além de manifestações que nada mudam.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Primeiro-ministro Saad Hariri aceita exílio na França, por Robert Fisk

16/11/2017, Robert Fisk, The Independent, Londres


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




Quando o jato de Saad Hariri pousou em Riad na noite de 3 de novembro, a primeira coisa que ele viu foi um grupo de policiais sauditas cercando o avião. Entraram no avião e confiscaram o celular de Saad e dos seus guarda-costas. Foi o que bastou para silenciar o primeiro-ministro do Líbano.


Foi momento dramático, afinado com o drama de novelão que se viu na Arábia Saudita durante a semana passada: 11 príncipes postos em prisão domiciliar – inclusive o imensamente milionário Alwaleed bin Talal – e quatro ministros e zilhões de outros lacaios do governo anterior, para nem falar no confisco e congelamento de mais de 1.700 contas bancárias. A "Noite das Facas Longas" do príncipe coroado Mohamed bin Salman realmente começou à noite, quatro horas depois de Hariri chegar a Riad. Assim sendo, que diabos o príncipe coroado está querendo?

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Assad venceu, por Robert Fisk

7/9/2017, Robert Fisk, The Independent


O Ocidente talvez não acredite, mas parece que a guerra na Síria está acabando.














Com todos aguardando que Trump inicie a Guerra Mundial n. 3, nem percebemos que o mapa do Oriente Médio substancialmente, sangrentamente, já está mudado. Passarão anos, antes que Síria e Iraque (e Iêmen) se reconstruam – e os israelenses talvez precisem pedir a Putin que limpe a sujeira em que Israel está metida.

Recebi uma mensagem vinda da Síria, semana passada, no meu celular: "O general Khadour cumpriu o que prometeu". Entendi perfeitamente. 

Há cinco anos, encontrei Mohamed Khadour, que comandava uns poucos soldados sírios num pequeno subúrbio de Aleppo, sob fogo de combatentes islamistas no leste da cidade. Naquela ocasião, mostrou-me seu mapa. Recapturaria aquelas ruas em 11 dias, disse-me ele.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Hezbollah: vitória no front sírio, por Robert Fisk

28/7/2017, Robert Fisk, The Independent










Recém capturada por combatentes sírios e do Hezbollah, a fortaleza de montanha do ISIS, a quase 2 mil metros acima do nível do mar (foto Nelofer Pazira)

Tropas sírias estão agora instaladas em posições do lado libanês da fronteira entre os dois países, em sua batalha para destruir o Estado Islâmico [ing. ISIS] nas altas montanhas do Qalamoun. Corpos apodrecem nas encostas da montanha por aqui, enquanto o Hezbollah libanês – que combate agora dentro da Síria – prepara-se para um confronto final contra os terroristas, que hoje estão cercados num pico de pedra preta ao norte. Do alto da montanha Karra, 2.100 metros acima da fronteira sírio-libanesa, pude ver soldados sírios acampados nos picos das duas montanhas – dentro do Líbano.

O comandante sírio em Qalamoun, general Median Abad, diz a verdade sem hesitar. "Sim, temos soldados nossos em dois pontos dentro do Líbano – acima da estrada da fronteira pela qual o Daech [ISIS] costumava entrar na cidade libanesa de Ersal. Nossos homens estão nas montanhas libanesas de al-Sharqia e al-Valilal. Veem-se daqui as tendas deles". Verdade. Do outro lado de uma ravina (wadi) estreita que nos separa do Líbano, posso ver várias tendas cinzentas dos militares sírios espalhadas pelos picos das duas montanhas libanesas. O general confirma que está em comunicação com o exército libanês – cujo tanque atira contra o ISIS que ele ouve ao longe pelos vales – através do Hezbollah, cujas forças uniram-se a ele no ataque contra al-Karra.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Zizek: Segredo do sucesso de Corbyn está em rejeitar a cultura do 'politicamente correto' tanto quanto o populismo incendiário

12/6/2017, Slavoj Zizek, The Independent












O inesperado sucesso eleitoral do Partido Trabalhista cobriu de ridículo a 'sabedoria' cínica predominante dos entendidos, inclusive dos que fingiam simpatias por Corbyn e cuja desculpa preferida era "Sim, vou votar nele, nas sei que é inelegível, as pessoas são manipuladas demais e covardes demais, o momento não é adequado para jogada tão radical".

Lembrem-se do que dizia Tony Blair, que sob a liderança de Corbyn o Partido Trabalhista ficava irremediavelmente marginalizado, perdia condições e deixava de ser potencial partido de governo? A hipocrisia desses comentários está em que mascaram a própria posição do 'comentador', de visão resignada ante o estado objetivo das coisas.

Claro que há problemas e dúvidas que persistem. Não basta confrontar só as limitações do programa de Corbyn – ainda que só se aproxime do velho estado de bem-estar, o governo Trabalhista sobreviverá ao massacre pelo capital global? Em nível mais radical, ninguém deve ter medo de levantar a questão chave: a vitória eleitoral será ainda o momento chave de mudança social radical? Estamos testemunhando a crescente irrelevância de nosso processo eleitoral?

A história real por trás da crise econômica no Qatar, por Robert Fisk

8/6/2017, Robert Fisk, The Independent













A crise no Qatar prova duas coisas: a infantilização continuada dos estados árabes e o total colapso da unidade dos muçulmanos sunitas, unidade que teria sido supostamente criada pela participação absurda de Donald Trump na conferência de cúpula dos sauditas, há duas semanas.

Depois de prometer lutar até a morte contra o "terror" xiita iraniano, a Arábia Saudita e parceiros mais íntimos agora se mobilizaram para combater um de seus vizinhos mais ricos, o Qatar, que seria a cabeça do "terror". Só em peças de Shakespeare se vê traição de tais proporções. Nas comédias de Shakespeare, claro.

Porque, na verdade, há algo de inacreditavelmente delirante nessa charada. Claro que cidadãos do Qatar com certeza contribuíram para o ISIS. Mas, isso, cidadãos da Arábia Saudita também fizeram.

Nenhum qatari disparou aviões dia 11/9 contra New York e Washington. Mas todos os 19 assassinos eram sauditas. Bin Laden não era qatari. Era saudita.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Robert Fisk: Se Trump se preocupa tanto com bebês sírios, por que não condenou rebeldes que chacinaram as crianças?

A mãe de todas as hipocrisias


18.04.2017, Robert Fisk - The Independent/Information Clearing House



tradução de btpsilveira







Falamos da mãe de todas as hipocrisias. Algumas crianças sírias mortas importam, penso. Outras não. Um assassinato em massa duas semanas atrás matou crianças e bebês e levou nossos líderes a mais justa indignação. Mas o massacre deste final de semana na Síria matou ainda mais crianças e bebês – e mesmo assim não gerou mais que silêncio daqueles que antes bradaram pela salvaguarda de nossos valores morais. Por que desta vez não?

Quando um ataque com gás na Síria matou mais de 70 civis em 04 de abril, incluindo bebês e crianças, Donald Trump ordenou um ataque com mísseis contra a Síria. O país aplaudiu. A imprensa também. Da mesma forma grande parte do mundo. Trump chamou Assad de “mau” e “um animal”. A união Europeia condenou o regime sírio. O governo britânico chamou o ataque de “bárbaro”. Quase todos os líderes ocidentais afirmaram que Assad deveria ser removido do poder.

Desta vez, quando um homem bomba atacou um comboio de refugiados civis nas proximidades de Alepo, matando 126 sírios, mais de 80 deles crianças, a Casa Branca manteve silêncio. Mesmo sabendo que o total de mortes foi maior, Trump não se lamentou nem mesmo no twitter. A marinha dos Estados Unidos sequer lançou um disparo simbólico na direção da Síria. A União Europeia se fingiu de tímida e não quis dizer nem uma palavra. Aquela conversa de “barbarismo” foi sufocada no ninho no governo britânico.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Robert Fisk: Samantha Power esqueceu os massacres cometidos em nome dos Estados Unidos

16.12.2016 - Robert Fisk, The Independent


Traduzido por btpsilveira




Quando Samantha Power falou sobre “barbárie contra civis” em Alepo, subitamente lembrei a morte dos civis palestinos massacrados nos campos de refugiados de Sabra e Chatila em Beirute, 1982, massacrados pelas milícias libanesas ligadas a Israel, enquanto o exército israelense – o mais poderoso aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio – assistia:



Lá estava Samantha Power fazendo suas ceninhas de “vergonha” na ONU. “Não há sequer um ato de barbarismo contra civis, nenhuma execução fria de criança que lhes faça pelo menos um pouco de medo?”, a embaixadora dos Estados Unidos para a ONU perguntou a russos, sírios e iranianos. Ela falava de Halabja, Ruanda, Srebrenica “e agora, Alepo”.

Estranho. Para aqueles a quem Samantha falou sobre “barbárie contra civis” em Alepo, lembrei de repente da morte dos civis palestinos massacrados nos campos de refugiados de Sabra e Chatila em Beirute, 1982, massacrados pelas milícias libanesas ligadas a Israel, enquanto o exército israelense – o mais poderoso aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio – assistia. Mas Samantha não mencionou esse massacre. Será que talvez tenha sido por que não houve palestinos mortos em número suficiente? Afinal, morreram apenas 1.700, incluindo mulheres e crianças. Em Halabja foram mais de 5.000 mortes. Mas com certeza Sabra e Chatila me assustaram, na época.