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sábado, 9 de março de 2019

Hassan Nasrallah sobre a Síria: "Washington protegeu o Daech até o fim. Curdos e Turquia são os grandes perdedores"

26/1/2019, Entrevista do secretário-geral do Hezbollah, a Ghassan Ben Jeddou, fundador da cadeia pan-árabe e anti-imperialista Al-Mayadeen [Excerto transcrito e traduzido e vídeo legendado [fr.] por sayed7asan.blogspot.fr, transcrição aqui traduzida[1]].

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga



[...] Ghassan Ben JeddouCaros ouvintes, bem-vindos a essa segunda parte da nossa reunião global com Sayed Hassan Nasrallah, Secretário-Geral do Hezbollah. 


Eminente Sayed [descendente do Profeta], primeiro, durante o intervalo [publicidade], fomos informados que vários canais israelenses estão transmitindo essa entrevista ao vivo [dublada em hebraico], e que alguns canais já começaram a comentar [as suas falas]. Claramente é evento importante.



Passemos agora à questão síria, de um ponto de vista geral e estratégico. Podemos dizer, com precisão e clareza, que caminhamos caminhar para uma vitória final, decisiva, definitiva e completa na Síria? Ou será que o resultado é sempre complexo, para que não possamos dizer que a guerra se encaminha para o fim e que o Eixo da Resistência, ou a Síria em primeiro lugar, ainda não pode falar de uma vitória próxima?

quarta-feira, 6 de março de 2019

“Coletes Amarelos propõem questões tão fundamentais, que nenhum governo europeu conseguiu responder”

22/2/2019, Mohsen Abdelmoumen* entrevista Jean Bricmont **American Herald Tribune[1]


Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga



Mohsen Abdelmoumen:  Como você explica a submissão dos governos ocidentais e respectivas mídia-empresas a Israel?

Jean Bricmont: Pela pressão dos lobbies, a repetição incansável das solenidades que celebram o holocausto, etc. Cria-se assim uma situação na qual os intelectuais sionistas não podem ser criticados, sob pena de quem os critique ser declarado fascista ou nazista. Funciona muito eficazmente, e as pessoas calam-se por falta de coragem.

Mohsen Abdelmoumen: Por que, na sua opinião, todos que condenem a política criminosa de Israel são declarados antissemitas?

Jean Bricmont: Nem todos que criticam as políticas de Israel são tratados como antissemitas, não exageremos. Mas a crítica tem sempre de ser feita num quadro relativamente limitado. Podemos criticar em nome de direitos humanos, mas ninguém pode falar do direito de retorno para os palestinos, ou de temas que afetariam a legitimidade de Israel ou do que se conhece como “direito de existir”, de Israel. 

Mas “direito de existir” é conceito oco em termos de Estados. Por exemplo, não acho que alguém possa afirmar que a Bélgica tenha “direito de existir”. Porque pode desaparecer amanhã, caso o país divida-se. Qualquer país pode escolher fundir-se com outro ou separar-se; o regime pode mudar. Mas quando se trata de Israel, ninguém é autorizado a avançar demais na crítica, ou propor boicote, por exemplo. Você ouvirá que estaria ‘singularizando’ o caso de Israel na crítica que estiver fazendo, que você critica Israel mais do que critica outros Estados. ‘Então’, seria antissemitismo.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Presidente Bashar al-Assad da Síria: “A guerra foi entre os sírios e o terrorismo. Os sírios triunfamos juntos, não uns sírios contra outros.”

17/2/2019, Presidente da República Árabe Síria, Bashar al-Assad, em Damasco, em reunião com os líderes recém eleitos dos Conselhos Locais de todas as províncias (Agência SANA).

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga



Disse o Presidente al-Assad:

– “Estudos lançados durante a guerra contra a Síria por centros de pesquisa nos países que apoiam o terrorismo, e declarações de funcionários daqueles países, deixam ver que as políticas daqueles países contra a Síria apoiam-se sobre dois pilares: o apoio ao terrorismo, que é pilar temporário; e aplicar um tipo de descentralização diferente do que propõe a lei 107; a descentralização que enfraquece e marginaliza a autoridade do Estado, assim debilitando a soberania e a coesão nacional e o nacionalismo, o que pode levar à divisão social e, afinal, à divisão do território.

– Os que perseguem esses planos são limitados no modo de pensar, porque seus objetivos não podem ser alcançados sem efetiva divisão social na Síria, o que jamais aconteceu, ou a Síria já teria sido dividida logo nos primeiros anos, ou mesmo meses, da guerra.

“Mas nossos inimigos não aprendem com seus erros, e talvez seja até bom que não aprendam, porque assim continuam a repetir os mesmos erros” (...) “Há duas verdades que nunca mudam: a conspiração para tomar o controle não só da Síria, mas de todo o mundo, conduzida por Estados liderados pelos EUA; e o desejo de resistir do povo sírio, que permanece firme e cada vez mais firme e fundamente enraizado.”

domingo, 6 de janeiro de 2019

O neoliberalismo é a nova face do fascismo - A linguagem da educação neoliberal

25/12/2018, Henry Giroux – Mitja Sardoč, Counterpunch

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga

“Vou contar um segredo para vocês:
administrar o governo federal é como administrar a sua casa.”
Henrique Meirelles
(“Um Banqueiro em Campanha”, 
Isto É Dinheiro, 12/2/2016)[NTs].
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“O neoliberalismo autodefiniu-se como uma modalidade de ‘senso comum’ e funciona como modalidade de pedagogia ‘pública’ que produz um modelo pelo qual os neoliberais tentam estruturar não só os mercados, mas toda a vida social. Nesse sentido, funcionou e continua a funcionar, e não só pela educação pública e universitária, para produzir e distribuir valores ‘de mercado’, identidades ‘de mercado’ e modos de associação e agenciamento ‘de mercado’, mas, também mediante aparelhos e plataformas culturais mais amplas, para privatizar, desregular, economicizar e submeter todas as instituições e relações que regem a vida diária, aos interesses da privatização, da eficiência, da desregulação e da conversão de tudo e todos ao estado de mercadoria.” [...]

“Sob modos neoliberais de governança, em seja qual for a instituição, todas as relações sociais são reduzidas a um ato de comércio” [...] (Henry Giroux, adiante).
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Aqui, Henry Giroux é entrevistado por Mitja Sardoč, professor do Instituto de Pesquisas de Educação, na Faculdade de Ciências Sociais, na Universidade de Ljubljana, Eslovênia.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O internacionalismo tem de ser distrital

24/10/2018, Costas Lapavitsas, Red Pepper, Reino Unido
(entrevista a Michael Calderbank, editor de Red Pepper)

“Os senhores das neonormalidades fazem de tudo para que todos esqueçam que os mecanismos da nova normalidade são gerados durante a crise e carregam as impressões digitais da crise” (3/11/2018, Costas Lapavitsas Blog, sobre a ‘nova normalidade’ grega.
Aplica-se à suposta nova normalidade do golpe no Brasil-2018).
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Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga



Costas Lapavitsas*  O livro é obviamente uma crítica da União Europeia (UE), como está hoje. É uma avaliação de onde está a UE, em que se converteu e seu rumo provável. É uma tentativa de dizer que o que sobrou hoje nada tem a ver com defender aquele conjunto de instituições. É preciso assumir posição crítica, de rejeição. Para mim, esse é o único modo pelo qual se pode desenvolver política radical na Europa e um programa econômico radical, internacionalista e social.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

China: alguma ordem pós-neoliberal? Martin Jacques, entrevista a Yohann Koshy

9/7/2018, Martin Jacques,* entrevista a Yohann Koshy, New Internationalist



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

"China é uma superpotência que 'entende' o mundo em desenvolvimento melhor que EUA, FMI ou Banco Mundial. (...) A questão realmente interessante hoje é:como o ocidente lidará com o próprio declínio relativo?" (Martin Jacques)
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Yohann Koshy (YK): Como a China responde à crise financeira global?

Martin Jacques: Foi crise essencialmente ocidental, mas a China teve de responder, porque os mercados norte-americano e europeu, dos quais os chineses eram bastante dependentes, desabaram gravemente inicialmente. E respondeu com enorme programa de estímulos. Os chineses bombearam quantidades muito grandes de dinheiro para a economia, e a consequência foi que o crescimento chinês caiu levemente, mas permaneceu alto. Estava crescendo 9-10% durante o período e, de fato, cresceu a 12 e 13%.

DOCUMENTO – Entrevista: Presidente da Síria, Bachar al-Assad (2ª parte, final) As verdadeiras razões da guerra na Síria


24/6/2018, Entrevista à rede NTV, Rússia 
Vídeo Transcrição(texto aqui retraduzido), tradução e legendas (fr.) de Sayed Hasan, blog, e vídeo orig., legendado em francês.




Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


Ver também:
Entrevista: Presidente da Síria, Bachar al-Assad (1ª parte)As verdadeiras razões da guerra na Síria – 
Traduzido no Blog do Alok






[continuação]

Jornalista: O que o senhor espera da Rússia, nesse caso? Porque o senhor disse a tanta gente que têm de sair da Síria... O senhor disse que mais dia menos dia a nação síria dirá que todos têm de sair desse território. Assim sendo, o que o senhor espera que a Rússia faça? Porque somos aliados, somos amigos.

Presidente Assad: A amizade entre Síria e Rússia é questão de longo prazo, décadas, sessenta anos. Mas assinamos o tratado militar já há mais de 40 anos. Assim sendo, temos duas questões: a primeira é que Síria e Rússia têm interesse em combater e derrotar o terrorismo na Síria, na Rússia, em todo o mundo. Em primeiro lugar, essa é nossa primeira expectativa, nosso primeiro objetivo com os russos.

Nosso segundo objetivo é de longo prazo. A Rússia é muito importante para o equilíbrio global que todos perdemos depois do colapso da União Soviética. Assim sendo, a presença da Rússia aqui, militarmente e politicamente, na Síria e no Oriente Médio e em todo o mundo é fator muito importante para o equilíbrio. Não é só importante para a própria Rússia e demais superpotências; esse equilíbrio é muito importante para os países menores, como a Síria. O que esperamos da Rússia é isso, e nos dois níveis [local e global]: combater o terrorismo e preservar o equilíbrio global.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

DOCUMENTO – Entrevista (íntegra): Ministro de Defesa da Rússia, Gen. Sergei Shoigu*

11/7/2018, Il Giornale (it.), TVZvesda (ru.), The Vineyard of the Saker,** (1ª. parte já publicada: Blog do Alok)


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu





[Continuação]

Alessandra Benignetti, entrevistadora (AB): Da guerra na Síria, à guerra comercial. Se o nível das relações com Washington chegou ao ponto mais baixo de todos os tempos, as relações com a China fortalecem-se cada dia mais... 

General Shoigu: É claro, a tensão nas relações internacionais contribuiu para fortalecer as relações entre Rússia e China, que são baseadas em respeito e confiança mútua. Rússia e China mantêm relações estratégicas e amistosas de longo prazo, e a cooperação está se desenvolvendo em muitas áreas, inclusive mediante agências militares, o que interessa aos dois estados

Exemplos de nossa cooperação incluem treinamento bilateral conjunto das forças armadas de nossos estados, inclusive o exercício naval anual "Cooperação no Mar", e uma série de exercícios das marinhas russa e chinesa, exercícios anuais, com mísseis de defesa antimísseis, chamados "Segurança do Aeroespaço" [ing. Aerospace Security].

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Entrevista (1ª parte): Ministro de Defesa da Rússia, General Sergei Shoigu*

11/7/2018, Il Giornale (it.)TVZvesda (ru.), The Vineyard of the Saker (ing.[1])


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu





Alessandra Benignetti, entrevistadora (AB): Sr. Ministro, tensões entre Rússia e EUA estão aumentando e gerando preocupações: estamos no limiar de uma nova Guerra Fria?


General Shoigu: Frequentemente se ouve dos EUA que a crise nas relações bilaterais teria sido provocada por ações supostamente agressivas, da Rússia, na arena internacional. Mas estamos firmemente convencidos de que as tensões nas nossas relações foram artificialmente infladas dessa vez por aquelas elites norte-americanas  que creem que o mundo divide-se em uma parte 'norte-americana' e uma parte 'errada'.

Os EUA, em anos recentes, várias vezes quebraram acordos importantes, vigentes, que formavam a espinha dorsal da segurança global. Apesar do que foi prometido à liderança soviética, durante a reunificação da Alemanha, Washington iniciou a expansão da OTAN para o leste, diretamente rumo às nossas fronteiras.

Por mais de 25 anos os norte-americanos fizeram de tudo para nos enganar, insistindo em que nada prometeram, até que recentemente, arquivos da Agência de Segurança Nacional dos EUA, cujo período de sigilo obrigatório chegou ao fim, e onde se guardavam documentos daquele período, vieram a público. E o ocidente teve de reconhecer o que dizíamos, ali confirmado, literalmente, com as pessoas identificadas claramente.

Por causa da expansão da OTAN em direção ao Oriente, e com a inclusão na OTAN de países da Europa Oriental – Polônia, Hungria, a República Tcheca, Eslováquia e Romênia, o acordo assinado em 1990 entre a Organização do Tratado de Varsóvia e a OTAN, o chamado Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa, que limitava a presença de armamento em áreas de contato entre os dois blocos, perdeu de facto todo o significado, para a Rússia.

Em 2002, sob o pretexto de um "perigo" fictício de algum ataque de mísseis iranianos ou da Coreia do Norte, Washington retirou-se unilateralmente do Tratado dos Mísseis Antimísseis, e começou a instalar radares e armas antimísseis junto às nossas fronteiras.

Eu, como presidente da Sociedade Geográfica Russa, por muito tempo pensei em presentear os colegas norte-americanos com um globo terrestre, de modo que pudéssemos olhar ao mesmo tempo para o mesmo globo, enquanto eles nos explicassem por que os 'adversários dos EUA' designados por eles, estão localizados no Oriente Médio e Leste da Ásia, ao mesmo tempo em que todas as bases militares dos EUA estão distribuídas sobre as fronteiras com a Rússia. Por quê? Será que esperam que nós os defendamos?

Os EUA estão hoje se preparando para se retirar do Tratado para Forças Nucleares de Alcance Intermediário [ing. Intermediate-Range Nuclear Forces Treaty, INF]. A razão disso seriam supostas violações dos termos do tratado, que a Rússia teria cometido.



AB: Que tipo de violações?



General Shoigu: Só se ouvem boatos e acusações sem fundamento sempre contra nós. Mas não há fatos. Só conversas e 'declarações'.



Repetidas vezes temos dito, e publicamente, em todos os grandes fóruns internacionais, que quem viola diretamente o Tratado INF são os EUA. Os EUA, não nós, implantaram um escudo de mísseis na Europa, o sistema norte-americano MK-41 de lançamento vertical, que pode ser usado para disparar mísseis cruzadores Tomahawk. O raio de destruição desses mísseis cobre quase toda a parte europeia do território russo.

Em 2007, na Conferência de Segurança de Munique, o presidente Vladimir Putin da Rússia lembrou aos líderes dos EUA e de outros países ocidentais que é dever deles respeitar os interesses nacionais da Rússia e trabalhar para construir relações iguais e abertas. Infelizmente poucos no ocidente quiseram ouvi-lo.



AB: Na sua avaliação, o que está acontecendo?



General Shoigu: A Rússia de hoje, sua recuperação, é vista não como recuperação de um aliado, mas como uma ameaça à dominação norte-americana. Estamos sendo acusados por planos agressivos contra o ocidente, quando o ocidente só cuida de implantar cada vez mais forças militares junto às nossas fronteiras.



Dentre muitos exemplos desses movimentos inamistosos, está uma decisão, tomada pela OTAN em junho, de estabelecer novos comandos responsáveis pela proteção da comunicação por mar e pelo deslocamento operacional de soldados dos EUA para a Europa. Há também aumento no contingente da OTAN nos estados do Báltico, na Romênia, Bulgária e Polônia, de 2.000 para 15 mil soldados, com possibilidade de rápido aumento para 60 mil soldados com blindados. A começar em 2020, a OTAN tem planos para manter 30 batalhões, 30 esquadrões aéreos e 30 naves de combate em estado de prontidão permanente, para atuarem em 30 dias nas fronteiras da Rússia.



Tudo isso acontece diretamente sobre as fronteiras ocidentais da Rússia. Ao mesmo tempo, os norte-americanos violam repetidas vezes a lei internacional, usando força militar em várias regiões do mundo, sob o pretexto de que estariam protegendo os próprios interesses.



Aconteceu em abril desse ano na Síria, quando, em território de estado livre e soberano, os EUA, com apoio de Grã-Bretanha e França efetuaram ataque massivo com mísseis. Ali aconteceu grave violação da lei internacional por ação de três membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU sob pretexto forjado, fictício. E não foi apenas uma vez: é uma clara tendência.



AB: Uma tendência?



General Shoigu: Sim, estamos falando da velha estratégia neocolonial que os EUA já testaram no Iraque e na Líbia. Consiste de apoiar qualquer grupo e qualquer ideologia, até as mais bárbaras, cuja atividade possa ser usada para enfraquecer governos legítimos. Depois de montar essa rede de apoio, os EUA encenam ataques nos quais dizem que teriam sido usadas armas de destruição em massa; ou organizam desastres humanitários. Nos estágios finais dessa estratégia, usam força militar para criar "caos administrável" – graças ao qual se criam condições para que as empresas transnacionais surrupiem qualquer valor que haja no país atacado e canalizá-lo para a economia norte-americana.

A Rússia, que prega cooperação igual e para mútuo benefício dos parceiros, dentro do conceito de mundo multipolar, sempre será obstáculo para que esse tipo de "estratégia" seja posta em prática.



AB: Há linhas vermelhas que não podem de modo algum ser transgredidas?



General Shoigu: Nesse sentido, nossa doutrina militar é muito clara, e a essência dela é prevenir qualquer conflito. Nossas abordagens oficiais, quanto ao uso de força militar, são muito claras e absolutamente transparentes e expostas.

Ser general de exército não me impede de crer firmemente que todas as questões podem e devem ser resolvidas sem recorrer a força militar.

Repetidas vezes convidei o comando do Pentágono para discutirmos os problemas que há no campo da segurança regional e global, inclusive a luta contra o terrorismo. Mas os norte-americanos não estão preparados para esse tipo de diálogo, embora, não tenho dúvidas, seja do mais alto interesse não só do povo na Rússia e nos EUA, mas também do povo de todo o mundo.

Nesse momento, só há um canal de comunicação entre nossos estados-maiores, que é usado em negociações, inclusive no nível dos comandantes de estado-maior, e orientado em primeiro lugar para impedir que as atividades militares de Rússia e EUA convertam-se em conflito militar entre nossas duas potências nucleares.



AB: Mas seu país está sendo acusado de levar a efeito "guerras híbridas" contra o ocidente.



General Shoigu: Na Rússia se diz que o ladrão grita 'pega o ladrão!' mais alto que os outros. A expressão "ações híbridas" aplica-se a várias formas de pressão usadas por um estado contra outro, mas sem uso aberto de força militar. Essas "guerras" existem e são conhecidas desde a antiguidade e muito ajudaram a Grã-Bretanha a derrotar o Império Otomano no começo do século passado. Quem não conhece as aventuras de Lawrence da Arábia?

Hoje, "guerras híbridas" incluem controlar a mídia, aplicar sanções econômicas, servir-se de hackers no ciberespaço, financiar e até armar agitadores locais em vários pontos do mundo e, também, treinamento e infiltração de unidades especiais e de especialistas treinados para praticar atos de terrorismo, sabotagem e para produzir eventos que desviem a atenção de um ou outro ponto, para outro.

Essa lista pode ser aumentada, mas um detalhe é o mais importante. Para a implementação bem-sucedida, hoje, de ações de guerra híbrida, é imprescindível que haja mídia global e onipresente; é preciso ter pleno controle sobre as tecnologias de informação e de telecomunicação, é preciso controlar os sistemas financeiros globais, e conhecer os métodos e meios para infiltrar agentes de forças especiais do país atacante, nos países atacados.



AB: Que outros países, além de EUA e Reino Unido têm esse tipo de capacidades?



General Shoigu: São métodos que foram testados com sucesso por Londres e Washington na invasão do Iraque em 1991, imediatamente depois do fim da "guerra fria".

É detalhe importante, porque essas tecnologias existiam quando havia a União Soviética e mundo bipolar, mas não havia, então, condições de oportunidade. E, vale lembrar, o presidente dos EUA no momento da Guerra do Golfo era ninguém menos que George H. W. Bush [pai], ex-diretor da CIA.

Desde os anos 1990s, esses métodos foram usados ativamente pelos EUA na Iugoslávia, que já não existe; na Líbia, na República da Chechênia [russa] e, mais recentemente, na Síria. Todos os sinais de "guerra híbrida" eram visíveis na Ucrânia antes da rebelião armada em fevereiro de 2014; os países europeus tiveram participação passiva naquelas "ações híbridas".

Hoje, todos fingem que esqueceram como, na véspera do golpe [em Kiev], três ministros de Relações Exteriores (de Alemanha, França e Polônia) garantiram pessoalmente ao legítimo presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych, que a crise seria resolvida por via pacífica, se ele não impusesse estado de emergência e retirasse de Kiev todas as unidades da segurança nacional. Mas imediatamente depois de cumprida essa parte do acordo, militantes nacionalistas, armados e treinados com dinheiro norte-americano e europeu, encenaram um golpe de estado. E a Europa imediatamente reconheceu os golpistas como poder legítimo.

Imediatamente depois de uma tentativa malsucedida para repetir o mesmo roteiro também na Crimeia, começaram a aparecer na mídia britânica e na mídia norte-americana acusações de que a Rússia teria sido autora de ações híbridas.



AB: É mesmo?



General Shoigu: Aconteceu apenas que nós não demos aos nossos colegas de além-mar qualquer oportunidade para repetir a receita na Crimeia. Ali, bem diferente de qualquer golpe, foi realizado um plebiscito, no qual residentes votaram livremente e – importante lembrar –, na presença de centenas de representantes da mesma mídia norte-americana, votaram a favor de a Crimeia separar-se da Ucrânia e ser reintegrada à Rússia. Muito diferente disso, depois do desmembramento da Iugoslávia por efeito da intervenção da OTAN, o Kosovo foi declarado independente sem consulta à população e imediatamente reconhecido como nação independente por Washington e pela Europa, depois de simples votação parlamentar. A independência do Kosovo foi feita sem qualquer atenção à opinião dos sérvios que viviam no Kosovo e à Constituição da Iugoslávia.




AB: A questão da Síria será central durante a reunião entre os presidentes Vladimir Putin e Donald Trump. Qual sua avaliação da estratégia dos EUA no conflito sírio?



General Shoigu: Dado que políticos e especialistas norte-americanos também pedem que o governo dos EUA esclareça sua estratégia para a Síria, vê-se que os russos não somos os únicos que não a compreendemos.

Em anos recentes, enquanto prossegue essa guerra – que é ilegal, do ponto de vista da lei internacional e também nos termos da Constituição dos EUA –, as explicações oficiais para a presença na Síria do contingente militar norte-americano mudaram várias vezes.

Gostaria de lembrar que, inicialmente, tratava-se de derrotar o ISIL; depois, de impedir que o ISIL reemergisse; agora falam da necessidade de preservar a presença militar dos EUA na Síria, para conter uma suposta influência do Irã.

Assim sendo, é muito difícil resistir à impressão de que o principal objetivo dos EUA na Síria é impedir que a situação seja estabilizada, para assim prolongar o conflito e atacar a integridade territorial do país criando enclaves junto às fronteiras da Síria, não controlados pelo governo central.

Nas áreas controladas pelos EUA durante anos, os norte-americanos treinaram militantes que, hoje, estão em combate ativo contra o Exército Árabe Sírio e continuam a receber armas e munição.

Além disso, também é importante lembrar que durante a luta da coalizão internacional comandada pelos EUA contra o ISIL, o território controlado pelos terroristas só fez aumentar. Só continuaram a existir civilização e governo secular em uns poucos bolsões: em Damasco, na província de Latakia e em parte de Deir ez-Zor.

Ao mesmo tempo, por mais que em anos recentes só falem de objetivos 'nobres' e de 'boa' vontade, os EUA não aplicaram um centavo de ajuda que realmente desse assistência a civis sírios devastados por longos anos de guerra. O mesmo se aplica à ex-capital do ISIL, Raqqa, já livre de EUA e coalizão, e onde munição e morteiros deixados para trás pela "coalizão internacional", depois de bombardeios massivos, ainda matam residentes locais. Toda a semana dúzias de pessoas ainda são mortas, inclusive crianças.

Por outro lado, não há registro de nenhum incidente que envolva civis depois das operações das tropas sírias para libertar várias regiões e localidades. O serviço de remoção de minas foi completado, as pessoas receberam comida e materiais de construção necessários para retomar a vida de tempos de paz, o mais rapidamente possível.

Se há alguma base para as ações de nossos contrapartes norte-americanos na Síria, é contraditória demais para que se possa falar de "estratégia".


AB: Outro obstáculo à estabilização da Síria é a rivalidade entre Irã e Israel…



General Shoigu: O Irã, como a Turquia, é, historicamente, um dos principais atores na região, com papel chave na estabilização da situação na República Árabe Síria.

Como você sabe, o Irã, com Rússia e Turquia, é um dos avalistas do processo de Astana que visa a construir um acordo para pôr fim ao conflito na Síria.

Quanto às tensões entre Irã e Israel ou outros países, nossa posição é que estamos comprometidos a resolver possíveis diferenças e contradições mediante o diálogo, não mediante força militar e violações da lei internacional.

O uso de força militar, por qualquer dos campos ativos na Síria, levaria inevitavelmente a uma escalada das tensões em todo o Oriente Médio. Quanto a isso, estamos comprometidos com encontrar solução pacífica e diplomática para quaisquer diferenças que haja. E esperamos que os dois campos consigam mostrar moderação.


AB: Não lhe parece que a possibilidade de Damasco receber os sistemas S-300 representa um fator adicional de risco?



General Shoigu: Gostaria de deixar registrado que o sistema S-300 é um complexo de armas exclusivamente defensivas. Não vejo como poderia ameaça a segurança nacional de alguém.

Esse sistema de mísseis antiaéreos só pode ser ameaça para veículos aéreos que ataquem. Além do mais, a decisão de fornecer esse modelo de armas ao exército de qualquer estado estrangeiro é tomada a partir de uma manifestação de interesse, um pedido adequado, que até agora não recebemos.

É portanto prematuro falar sobre esse ponto, especificamente. A pedido de alguns de nossos parceiros ocidentais, e também de Israel, há alguns anos, ainda não entregamos esses complexos de armas à Síria. Hoje, depois de a Síria ter sido agredida por EUA, Grã-Bretanha e França – agressão que mostrou a necessidade, para os sírios, de contarem com defesa aérea moderna –, estamos prontos a reconsiderar toda a questão.




AB: Da guerra na Síria, à guerra comercial. Se o nível das relações com Washington chegou ao ponto mais baixo de todos os tempos, as relações com a China fortalecem-se cada dia mais... 



General Shoigu: Claro, a tensão nas relações internacionais contribuiu para fortalecer as relações sino-russas, que são baseadas em respeito e confiança mútuos. Rússia e China mantêm relações amistosas e estratégicas de longo prazo, e a cooperação está crescendo em muitas áreas, inclusive mediante agências militares, o que atende a interesses dos dois estados. [Continua]



* Sergey Kuzhugetovich Shoigu, 62 anos, é general de Exército e desde 2012 é ministro da Defesa da Rússia. É nascido na remota República da Tuva, na Sibéria, cuja população é praticante de um xamanismo animista e do budismo tibetano – o que várias vezes gerou comentários venenosos no 'ocidente'.


Interessante, sobre Shoigu e religiões, lê-se em "Hoje aconteceu algo extraordinário" (13/5/2015, The Saker, traduzido em Redecastorphoto), em artigo sobre o Desfile da Vitória, em Moscou:



"O dia de hoje passará à memória da Rússia como celebração realmente histórica da vitória sobre a Alemanha nazista. O desfile – o mais bonito que já vi (infelizmente, só por vídeo, não pessoalmente) – foi soberbo, e pela primeira vez incluiu o Exército Chinês de Libertação Popular. Não há dúvida de que vimos ali a história, enquanto se ia escrevendo. Mas aconteceu outra coisa hoje, também absolutamente extraordinária: o Ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu, fez o sinal da Cruz (foto), antes do início das celebrações. (...) Significa que Shoigu converteu-se à religião ortodoxa russa? Não necessariamente. O budismo é muito aberto a todas as outras religiões e não vejo contradição alguma no gesto do ministro."


O fato de o primeiro alto membro do governo russo a iniciar o desfile do Dia da Vitória fazendo o sinal da Cruz e pedindo a ajuda de Deus ser budista é, em si mesmo, evento extraordinário (e cobre de vergonha os seus predecessores declarados oficialmente "ortodoxos", que nunca fizeram coisa semelhante).


Só imagino o horror, o escândalo, o desespero que o gesto de Shoigu está provocando na "inteligência" liberal russa pró-EUA e nas capitais ocidentais. Ao pôr-se, pessoalmente e toda a Rússia, nas mãos de Deus, Shoigu declarou guerra espiritual, cultural e civilizacional contra o Império. Só por isso, já entrou para a história como um dos maiores homens da Rússia." (Em "Implicações dos novos sistemas de armas da Rússia", 5/3/2018, Andrei Martyanov, Unz Review).
[1] Tradução ru.-ing. de Scott Humor, aqui retraduzida [NTs ao português].

domingo, 8 de julho de 2018

Entrevista com o Presidente da Síria, Bachar al-Assad: As verdadeiras razões da guerra na Síria (1/3)


24/6/2018, Entrevista à rede NTV, Rússia 
Vídeo Transcrição(texto aqui retraduzido), tradução e legendas (fr.) de Sayed Hasan, blog, e vídeo orig., legendado em francês.



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu




Entrevistador:  Senhor presidente, podemos agora recapitular os eventos, porque o Daech está quase derrotado, a capital Damasco está já quase totalmente em segurança e sob controle das forças governamentais e, até esse momento o senhor ainda tem operações militares no sul e no leste. O senhor pode dizer agora, como presidente, o que aconteceu para que ninguém tenha sabido identificar os primeiros sintomas dessa guerra, dessa invasão de seu país, porque o senhor chama de invasão. O que houve?

Presidente Assad: É preciso distinguir os sintomas internos e os sintomas externos. Quanto aos sintomas internos, a Síria tem problemas, como todas as sociedades em nossa região, somos parte dessa região e discutimos sempre esses problemas. Talvez não tenhamos feito o necessário para resolver o problema que talvez pudéssemos ter resolvido antes da guerra, talvez não; é questão subjetiva, cada sírio tem seu ponto de vista. Mas o fator externo é muito importante na génese dessa guerra. Cada país nessa região vive a própria guerra, todas similares, por mais que tenhamos sociedades semelhantes e haja problemas mais graves noutros locais, como, por exemplo, nos países do Golfo, onde não há liberdade nem para as mulheres nem para o povo, para ninguém.